Almas-Vagantes

22 Capítulo XXII – Promessas Infidas –


Notas iniciais
“Nada é imutável para as funestas garras do destino. Até o mais sólido ferro pode ser derretido por elas, ficando em água”.

Visiatos! –murmurou Swift, aspalmas das mãos deitadas nos tijolos do muro.

O muro abruptamente se transpareceu gradualmente como se estivesse se transformando em vidro reluzentemente cristalino.

– Não se preocupe Peter! – Murmurou Swift com veemência ao ver a expressão de apreensão presente no rosto de Peter. – O muro está transparecido somente para nós. Parece-se um muro normal a eles!

Ao outro lado do muro transparente, no lado oposto da rua, se visualizava a praça central. O grupo de vultos encapuzados ainda reunidos à volta do monte de cadáveres, brevemente menos apreensivos.

Null se encontrava sentado ao gramado, abanava as grandes asas negras com lentidão, os demais membros mirando-o com olhares sutis pela ausência de sua máscara. Ao seu redor, também sentados em círculo no gramado, o monte de cadáveres detrás, se encontravam os demais membros da Dark Birds. Todos usando máscaras excêntricas e vestes negras. Kronus se levantou e recebeu a atenção de todos.

– Parece que nosso ardiloso amigo Lucas! Está demasiado atrasado nesta noite importante! – Disse Kronus com voz grave e intimidadora. Uma máscara totalmente branca cobrindo o rosto. – Devemos continuar?

– Sim supremo mestre! – Murmurou todos os vultos em uníssono.

Excelente!

Kronus se encaminhou em direção à pilha de cadáveres, todos os demais membros observando com olhos penetrantes, Kronus já estava abrindo a boca para conjurar o feitiço Shinigame, quando Lucas chegou, as vestes encharcadas, e berrou:
– Cheguei Supremo Mestre! Tive um pequeno probleminha com um de meus feitiços aquáticos!

– Está extremamente atrasado! Sr. Horse! – Vociferou Kronus com veemência. – Sente-se!

Lucas se sentou de maneira engraçada em meio às asas de Null e um homem com máscara de espantalho, e mirou a Kronus um olhar curioso. Kronus estava quase conjurando o feitiço quando novamente alguém o interrompeu.

Supremo Mestre! – Exclamou Null.

– O que tu queres?

– É verdade que são necessários três elementos para a transferência de dimensão? – Indagou Null calculoso.

– Certamente! – Afirmou Kronus.

– Já temos dois... Não é? – Indagou Null calmamente, um sorrateiro sorriso malicioso no rosto pálido.

– Temos... – Afirmou Kronus impaciente.

– Qual o último elemento? – Indagou Null com veemência.

Kronus paralisou, parecia estar pensando em uma resposta plausível. Uma onda de murmúrios preencheu o círculo de vultos encapuzados.

– Ótima interrogação!... Esqueci-me de citar! O último elemento se resume em seus cadáveres! – Murmurou Kronus calmamente, como se aquelas palavras fossem insignificantes.

Um mar de cólera invadiu o círculo. Null sorriu de pura satisfação.

Aparentemente ninguém sabia que Kronus estava ponderando desde o início em se teleportar sozinho para o tal novo mundo. Então todos vociferaram ao mesmo tempo, totalmente irritadiços.

– O QUE VOCÊ QUER DIZER COM ISTO? – Rosnou Sadest, uma figura com uma mascará negra que chorava lágrimas prateadas, que estava ao lado do espantalho. – VOCÊ PROMETEU QUE ME ENCONTRARIA COM MINHA FAMÍLIA NO OUTRO MUNDO!

– VOCÊ PROMETEU QUE MINHA QUE EU ME ENCONTRARIA COM MINHA ESPOSA! ­– Berrou o espantalho de imediato.

– VOCÊ PROMETEU QUE MINHA NAMORADA ESTARIA VIVA NESTE OUTRO MUNDO! – Gritou Thunderbird, uma mascará redonda com um dourado bico de pássaro na parte da boca cobrindo o rosto.

– VOCÊ PROMETEU QUE HAROLD ME AMARIA NESTE OUTRO MUNDO! – Exclamou Aline, uma mulher usando uma mórbida máscara de enfermeira com pingos de sangue escarlate.

– VOCÊ PROMETEU QUE EU SERIA FELIZ NESTE OUTRO MUNDO! – Gritou Sync, uma figura usando tapa-olho, a boca oculta por um tecido negro.

– VOCÊ PROMETEU QUE EU SERIA TELEPORTADO PARA UM MUNDO PREENCHIDO DE CAVALOS MARINHOS! – Estourou Lucas, uma máscara cheia de cavalos marinhos tampando o seu rosto.

– VOCÊ PROMETEU QUE EU ME ENCONTRARIA COM NANCY NO OUTRO MUNDO! – Vociferou Null dissimulando estar zangadiço.

– BASTA! – Vociferou Kronus com voz estrondeada. Todos se aquietaram de imediato, demasiado temerosos para continuar a vociferar. – Vocês deveriam estar honrados em me serem úteis! Sim... Minha intenção desde o principio era usa-los para me fazer ir para o novo mundo... Por isso que os demudei em Shinis— (conhecidos como anjos negros) – Por acaso acharam que eu os tinha transformado em Shinis por bondade? Não sejam tolos!

Mestre... – Sussurrou Sadest trêmulo, percebendo que Kronus havia se irritado.

– CALE-SE! – Vociferou Kronus, deveras irritadiço. – Paraliticus! – Conjurou Kronus com voz tenebrosa.

Todos se paralisaram como pedras, os olhos bulindo nas órbitas.

Flutuos! – Conjurou Kronus sem estralar os dedos.

Todos se levantaram como se fossem marionetes e se mantiveram flutuantes a meio metro do chão.

Multi-Destroçus! – Conjurou Kronus com veemência.

As cabeças dos membros da Dark Birds flutuantes se detonaram em mil pedaços. Sangue e partes de cerebrais voaram ao ar e jorraram no gramado. Kronus apontou a mão direita para o monte de cadáveres e os mortos flutuantes voejaram obedientes em direção ao monte e se deitaram desajeitados.

Peter tentou se precipitar em direção a praça ao outro lado do muro transparente, mas Swift o impediu. Lágrimas prateadas escorrendo pelo rosto de Swift. Seu único irmão estava despejado morto no meio de um monte de cadáveres. Socou a mão com força no muro de tijolos...

— Não podemos fazer nada... Meu irmão está morto... – Sussurrou Swift sombriamente em meio a uma nervosa choradeira. – Ir lá só mataria a nós!

– Null não gostaria que você ficasse chorando por ele! – Murmurou Peter afetivamente. – Você não está mais sozinho.

– Vocês são egocêntricos! Típica mania de humanos! – Disse Kronus com veemência aos cadáveres de seus antigos companheiros, agora mortos em uma pilha de corpos. – Mas vocês serviram aos seus propósitos com entusiasmo... Eu vós agradeço!

Shinigame! – Conjurou Kronus.

Eis que acima da cabeça de Kronus surgiu-se flutuando como um fantasma, uma criatura deveras medonha. Com peles cinzentas; Dedos finos com unhas enormes; Pernas finas com uma calça negra em trapos; Tronco magricela, que se podia até contar as costelas; Segurando morbidamente um saco preenchido de caveiras empoeiradas.

O shinigame Thanatos.

– O que ele está fazendo? – Indagou Peter a Swift. O muro transparente impedindo que Kronus os visualizasse. – Que criatura mórbida é aquela?

– Ele está usando um shinigame... Kronus é bem conhecido entre as criaturas mágicas... – Murmurou Swift secando as lágrimas com a barra da camisa. – O feitiço Shinigame nos permite fazer quase todo tipo de coisa... Como matar, controlar, criar, teleportar, etc... Por isso esse feitiço é considerado magia cinza pela SAM...

“O feitiço funciona por um sistema de troca equivalente. Existem vários tipos de execrações, listadas nas crônicas sombrias, e cada execração exige uma troca equivalente de quem conjurou... Se o mago não oferecer uma troca de igual valor à execração pedida, o shinigame fará a troca... Quanto mais poderosa a execração, maior o preço”.

– Kronus?! – Exclamou o shinigame surpreso.

– Olá! – Murmurou Kronus com estranha gentileza.

– Andou incumbindo grandes atrocidades recentemente... Kronus! – Murmurou o shinigame sombriamente, flutuando por cima do monte de cadáveres.

– De fato... – Assentiu Kronus secamente.

– Vamos direto ao ponto... – Murmurou o shinigame pressuroso. – Qual das execrações almeja no dia de hoje?

– “Transferência de dimensão”! – Sibilou Kronus com veemência. – “Mundo das aspirações”.

– Faz anos que ninguém me pede esta! – Sibilou o shinigame, os olhos cinza preenchidos de curiosidade. – E a troca equivalente será?

– Oito milhões de volts que estão armazenados no meu corpo, todos estes cadáveres humanos e sete cadáveres de anjos negros.

– Excelente! – Assentiu o shinigame sombriamente. – Mas... Troca insuficiente!

– Mas... M-Mas— Balbuciou Kronus nervoso. – Eu fiz a troca equivalente segundo as crônicas sombrias!

– Achou que acharia a resposta em um dos livros patéticos pertencentes às crônicas sombrias? Há! Há! Há! Há! Há!— Gargalhou o shinigame tenebrosamente. – Você é realmente pensou que a transferência de dimensão poderia ser feita por um mero mortal? Mortais de merda não podem mudar de dimensão! VOCÊ NÃO PASSA DE UM TOLO!

P-Por favor... Não... Cancelar a execração...— Balbuciou Kronus recuando amedrontado.

– Nossa! – Exclamou o shinigame com ar de satisfação. Uma voz medonha retumbando pelos lábios. – Nunca te vi com aparência tão frágil... Mas não posso cancelar... Seria contraproducente! Jamais nego carne fresca!

Por favor... Não... Mate-me...— Implorou Kronus, a voz trêmula.

– Kronus... Eu o declaro que terei que devorar seu corpo e a partir de hoje... Sua alma é pertencente a mim! – Murmurou o shinigame sombriamente.

– Não! Não! NÃOOOO! – Implorou Kronus.

Mas já era tarde. O shinigame se precipitou imponente em direção a Kronus e o devorou por completo, derramando sangue e entranhas por todo o gramado. Não deixando nem vestígios de Kronus para trás. Após sua refeição, o shinigame mirou ao longe Peter direto nos olhos – e com um sorrisinho maléfico – se desfez em cinzas, desaparecendo.

– O que aconteceu? – Indagou Peter, incrédulo.

Kronus colheuas colheitas de suas escolhas...— murmurou Swift sombriamente, mirando o cadáver do irmão, em meio ao monte, com olhos melancolicamente penetrantes.

– O que faremos agora? – Murmurou Peter.

– Você ainda tem uma chance... – Murmurou Swift misteriosamente.

– Como assim? – Disse Peter com veemência. – Não tem nada que eu possa fazer. Todos da cidade estão mortos... A cidade está em chamas... Meus pais estão mortos... Varleny está morta...

– Eu tinha feito uma boneca-fusus com ela... Ou seja, uma boneca fundida a uma alma-vagante... Mas tive que mata-la novamente. – Sibilou Swift. – Ela estava matando estudantes da sua escola na Floresta do Deus da Morte...

– E você só me diz agora! – Exclamou Peter. – Enfim... Não há nada que eu possa fazer!

– Você não... Mas eu sim! – Disse Swift.

– O que você pretende fazer? – Indagou Peter confuso.

É possível fazer você voltar no tempo em troca de uma existência dada de bom grado! – Disse Swift com veemência. – Darei a minha existência para que você retorne há um mês!

– Voltar no tempo?!

– Sim! – Confirmou Swift com ardência. – Usando o feitiço shinigame!

– Não posso permitir! Você é meu mestre! – Murmurou Peter. – Não quero que você se sacrifique por mim! Se alguém tem que morrer aqui! Esse alguém sou eu!

– Peter! Tudo isso é minha culpa! – Sibilou Swift com ardor. – Se minha existência nunca tivesse existido, Null jamais teria escapado do orfanato e Kronus teria desistido nos testes de evolução, pois todos os órfãos morreriam... Ele não teria motivação e acabaria por se suicidar. Eu o ouvi murmurar palavras de um homem depressivo quando estava sendo torturado por ele... Ouviu-o murmurar que se não obtivesse sucesso com os testes de evolução, ele se suicidaria... Fui eu que incitei Null a fugir desde o princípio... Se não fosse por mim, Null não teria fugido e sido controlado por Kronus... Se não fosse por mim... Kronus estaria morto há dez anos. Kronus criou Psycho e a Dark Birds... Kronus fez Psycho matar muita gente para convencer outras a entrar para Dark Birds com a promessa de revivê-las. Se minha existência for apagada... Psycho e a Dark Birds jamais existirão... Muita gente continuará viva. Você terá uma vida normal e pacífica com seus pais e Varleny vivos... Você será feliz, Peterson Riddle... E isso é o bastante para mim.

Peter irrompeu em lágrimas.

– Não! Por favor! – Insistiu Peter. – Podemos continuar vivendo juntos em outra cidade... Você pode continuar fingindo que tem minha tutela e poderíamos ter uma vida normal!

– Não posso fazer isso com você! – Murmurou Swift melancólico. – Você merece mais do que isso! Você não pode me fazer mudar de ideia... Já estava pensando em fazer isso há muito tempo. Finalmente me decidi. Eu não tenho nada a perder, nunca tive pais ou sequer uma paixão platônica! Minha existência foi vazia e monocromática!

“Mas você trouxe um pouco de luz a minha existência! Por isso decidi que você merece uma vida feliz mais do que a mim! Só me prometa uma coisa... Nunca me olvide!”

— Nunca! – Prometeu Peter, lágrimas verdadeiras manchando seu rosto. – Meus filhos com Varleny terão o teu nome!

— Fico feliz! – Murmurou Swift com olhar fraternal. – Imagino que se pergunta o porquê de eu ter apagado suas memórias psicóticas e ter posto um bloqueador de novas. O motivo é simples. Percebi ao ler a sua mente, que você merecia sequer por alguns dias, um pouco de felicidade. Então... Adeus, Peterson Riddle!

Shinigame! – Conjurou Swift.

Abruptamente, o shinigame Thanatos se materializou flutuando morbidamente acima das cabeças de Swift e Peter. O rosto fúnebre do shinigame se abriu em surpresa.

— Swift Kronus! – Exclamou ele contente. – Acabei de me deliciar com teu mestre! E devo dizer que ele tem gosto horrível!

— Era de se esperar! – Exclamou Swift sorridente.

Peter não sabia se ficava triste ou feliz com a ideia de voltar no tempo. Mas naquele momento, ele teve grande vontade de ficar no presente. Swift era o melhor mestre que ele já tivera em toda a vida, Peter o amava como um pai. E nenhum filho que se preze gostaria que seu pai morresse. Peter chorava...

Um pranto de exata angústia.

— Por fim... – Murmurou o shinigame se divertindo com a conversa agradável que levava com Swift. – Tem outro mago me invocando... Qual das execrações almeja no dia de hoje?

— “Viagem no tempo”... – Disse Swift com acuidade. – Mas não sou eu quem vai viajar no tempo... Mas meu discípulo Peterson Riddle. Para há um mês.

— Oh! – Exclamou o shinigame. – Que pedido interessante! E qual a troca equivalente?
– A minha existência! – Respondeu Swift com vivacidade.

— O. K. – Exclamou o shinigame intensamente interessado nos motivos. – Tempora!

— Peter... – Murmurou Swift satisfeito em dar a própria vida de bom grado. – As coisas mudarão...

Peter olhou brevemente para o rosto pálido de Swift – sabendo que séria a última vez que o veria – e tentou memorizar cada feição. Sentiu uma onda de intensa melancolia o consumir. Ele sabia. Aquela era a última vez que o veria. Swift sorria com a despedida, os olhos azuis cintilando felizmente a luz da lua se cobrindo por lisíssimos cabelos loiros faiscantes. Peter gritou. Mas ninguém pode escutá-lo.

O tempo parou.

Então abruptamente começou a andar para trás velozmente como um veloz flash de imagens no reverse. Peter estava retornando ao passado.

O céu se oscilava entre noite e dia ligeiramente; as chamas azuis se esvaeceram; as casas se regeneraram; os asfaltos se restauram, não estando mais repartidos; os cadáveres desapareceram de abrupto; as árvores tomaram de volta suas folhagens que se encontravam derramadas sobre o chão; todas as memórias de Peter passaram rapidamente pelos seus olhos de Peter.

A terra estava girando ao contrário.

Eis que tudo se desfez em um clarão difuso de vultos coloridos. Peter sentiu que seu corpo se desintegrava gradativamente. Até que seus olhos se escureceram e ele sentiu sua consciência se esvaziar. Algo o fez se sentir ao menos um pouco feliz.

Estava voltando para seu passado... que dessa vez...prometia ser feliz.