Almas-Vagantes

23 UM MÊS ATRÁS NO Passado...


Notas iniciais
Se você é adepto a finais felizes... Tome o capítulo anterior como o fim! E jamais prossiga!

O mundo voltou a girar em seu sentido habitual. Peter sentiu seu estômago revirar. Tudo se persistia nas sombras. Sentiu-se aflito. E se não houvesse passado? E se acabasse recebendo o mesmo fim de Kronus?...Será que sua existência a partir daquele momento se sintetizaria em pura escuridão?

Eis que um ponto de luz abrolhou. Peter estava acordando no passado. Abriu os olhos lentamente por pura covardia. Estava em seu antigo quarto. Ele agora se lembrava de cada detalhe daquele quarto preenchido de memórias.Admirou as paredes azuis e a própria cama com lençóis brancos e travesseiros verde alface com nostalgia psicótica, logo a frente da cama se tinha um armário negro largo e ao lado uma escrivaninha.

Correu os olhos negros pelo quarto e os parou na janela que dava visão a galhos magricelas de uma árvore que ficava logo em frente à janela. O céu estava trajado de um azul-claro sem nuvens. Eis que algo fez o coração de Peter palpitar ferozmente.

Está na hora de ir a sua nova escola! Acorde filho...!— Gritou Marta ao outro lado da porta, ainda deveras sonolenta. – Não pode se atrasar em seu primeiro dia...

Peter teve certeza. Ele estava no passado.

— Já irei mãe! – Murmurou Peter incrédulo no poder da magia. Como era possível? Jamais acreditaria se alguém o contasse uma história dessas!

Arrumou-se o mais rápido que conseguiu. Estava deveras ansioso para aquele dia se concretizar perfeitamente. Essa era sua chance derradeira.Swift não tinha se sacrificado por nada. Não pretendia tão pouco ir à escola naquele dia... Seus pais estavam vivos! Ele tinha que passar pelo menos um dia se divertindo com eles!

Correu pela escada sentindo-se pressuroso e ao mesmo tempo um tanto feliz. Seus olhos se encheram de lágrimas quando adentrou a cozinha.Seu pai, Nicolas, se alimentava de ovos com bacon, os cabelos loiros reluzentes a luz do sol da manhã, os óculos cobrindo os olhos negros cintilantes. Marta preparava ovos na frigideira, os cabelos loiros lisíssimos jogados para as costas com delicadeza. Sem perceber, Peter estava chorando.

— O que foi? Está deprimido? – Indagou Nicolas preocupado.

— Na verdade... Estou feliz! – Respondeu Peter com ardor, limpando as lágrimas com as costas das mãos.

Um clarão de felicidade iluminou os rostos de Nicolas e Marta, que se encontravam apreensivos quanto à reação de Peter a mudança de cidade.

Ainda bem! – Disse Marta um tanto aliviada. – Pensamos que você acabaria por ficar depressivo.

— Não tenho motivos para isso! – Afirmou Peter com veemência. – Eu tenho os melhores pais do mundo! Isso já é o suficiente.

Marta e Nicolas não entenderam o que poderia ter acontecido com Peter, mas perceberam que as palavras de Peter eram verdadeiras. Como ele mudara tanto em uma noite?

— O que aconteceu com você? – Indagou Nicolas incrédulo. – Recebeu a visita dos fantasmas de Scrooge?

De fato recebi... – Respondeu Peter calmamente.Marta e Nicolas riram timidamente.

Naquela manhã do passado... Peter não foi à escola, preferiu a companhia dos pais.

Nunca se tinha tido mais encanto na família Riddle. Naquela belíssima manhã, Peter e seus pais conversaram calorosamente durante o café da manhã, como nunca tinham conversado antes; assistiram a um programa de televisão de auditório juntos; brincaram infantilmente de esconde-esconde; dentre outras coisas.

Um grande laço de afeto foi criado entre Peter e seus pais, um laço que já devia ter sido criado há diversos anos. O mais curioso que pareça, é queantes de seus pais morrem... Peter não os considerava seus pais.

Mas a morte mudou-o.

— Já volto! – Exclamou Peter se dirigindo a soleira de abrupto ao cair da tarde.

— Aonde vai? – Indagou Nicolas, os olhos pregados na TV.

— Vou respirar um pouco de ar puro na praça central... – mentiu Peter.

— Você sabe onde fica a praça? – Indagou Marta cética.

— Eu estudei o mapa da cidade quando estávamos para se mudar! Eu o sei de cor! – Sibilou Peter pressuroso.

— Ok... – Murmurou Marta levemente preocupada. – Pode ir... Mas volte antes do escurecer!

— Claro! Eu prometo que volto! – Jurou Peter. – Até depois!

— Cuidado! – disse Nicolas. – Tchau filho!

— Tchau papai!

Abriu a porta e saiu para o jardim florido. O dia estava ensolarado e agradável. O céu se encontrava azul-lilás com poucas nuvens. Peter olhou para o lado e viu um garoto emode cabelos negros cobrindo os olhos e pele mortalmente pálida, aparentemente seu vizinho, sentado abaixo de uma árvore vívida no jardim abraçado com sua linda namorada gótica de cabelos negros lisíssimos em demasia.

Entrem!Ou o Jonas e o John vão comer tudo!— Chamou-os um homem com uma enorme cabeleira castanha encaracolada, pela janela. O garoto emoe a garota gótica correram para dentro gargalhando gostosamente felizes.

Esse casal combina... Isto faz lembrar da...— pensou Peter.

Peter seguiu caminhando pressuroso pelas calçadas das casas vizinhas, casas estranhamente parecidas uma com a outra. Pequenas poças de água da chuva da noite anterior se acumulavam no asfalto. Peter via seu reflexo nelas como que em um espelho.

Saído da rua de sua casa – Rua Gramados Cinzentos –, Peter virou à direita e seguiu por uma rua estreita. Era demasiado fácil para ele lembrar o caminho exato da praça. Finalmente avistou-a, a praça estava grandemente diferente da última vez que a tinha visto. Não se tinha um amontoado de cadáveres, não havia um grupo nebuloso de homens mascarados– posteriormente mortos –, e com toda a certeza não se tinha o cadáver de Null jogado no chão, sem a cabeça. A praça estava impecavelmente vívida e pulcra. Os gramados verdes reluziam a luz do sol. As águas do Rio de Hades corriam cristalinas por baixo da ponte.

Peter forçou a vista. E visualizou alguém sentado na beira da ponte. Era Varleny, como na primeira vez. Mas o que ele falaria para ela... Qual seria o melhor assunto? Não conseguia pensar em nenhum... Sua mente parecia estar vazia. Caminhou a passos curtos em meio ao gramado da praça em direção à ponte. Suas mãos tremulavam como se ele sofresse de mal de Parkinson.

Estava na ponte, próximo a Varleny, próximo a uma Varleny viva, próximo à única garota que realmente já amou na vida. Caminhou até ela receoso, o coração palpitando como louco. Então balbuciou nervosíssimo:

O-O q-que vo-cê faz a-aqui?

— Vendo as águas deste rio. Não são interessantes...? – Disse ela calmamente. A voz grandemente menos fantasmagórica do que Peter estava acostumado a ouvir –, os movimentos das águas?

— Talvez um pouco... – Respondeu Peter lembrando-se de Varleny se suicidando naquele rio.

— Por que sua família se mudou para esta cidade mórbida? – Perguntou Varleny com expressão gélida.

— Por mim... – Respondeu Peter secamente.

— Entendo... – Murmurou Varleny sombriamente.

— O que faz aqui? Além de observar os movimentos das águas deste rio? – Indagou Peter inquieto.

— Resolvendo certos anseios. – Respondeu Varleny misteriosamente. E Peter soube na hora... Ela estava pensando em se suicidar.

— Eu estava pensando... – murmurou Peter novamente ficando nervoso –, você aceitaria ir comigo a algum lugar? Sei lá...

— Não posso... – respondeu ela secamente.

— Por que não? – indagou Peter sentindo-se desprezível.

— Eu já tenho namorado. Se ele me visse com você... Ele... Bom... Te mataria! – Respondeu Varleny sombriamente.

Peter se sentiu psicoticamente melancólico. Uma raiva interior o fez se sentir vontade de expor as entranhas de Varleny ao chão. Ele tinha voltado no tempo por causa dela! Swift se suicidou por ele! Seus pais estavam vivos... Mas pouco importava! O que importava era Varleny!

Não conseguiu suportar. Lembrou na mesma hora do feitiço que Shini o havia apresentado, estralou os dedos e murmurou:

Lembrus!

Sua visão se embaçou e lentamente se escureceu. De repente ele estava dentro das memórias de Varleny. Nadando em um rio de águas azuis com memórias flutuantes em forma de esferas de luz. Nadou em direção a uma esfera e tocou-a. Instantaneamente se viu em um quarto escuro, da qual, uma garota de cabelos loiros encaracolados estava deitada ao chão chorando um mar de lágrimas enquanto dois adultos, uma mulher e um homem, gritavam um com o outro no quarto ao lado.

A memória se desfez em fumaça negra e Peter se viu novamente no rio de memorias. Ele queria ver o tal namorado de Varleny... Ele queria matá-lo. Finalmente tocou em uma esfera de luz que lhe foi útil. Ele se viu na mesma ponte do Rio de Hades, mas algo o fez desejar não estar ali, viu Varleny beijar um homem de estatura quase baixa de provavelmente vinte anos com rosto de cansaço preenchidos por olhos castanhos desprovidos de entusiasmo; os cabelos castanhos lisos bem curtos reluziam. Varleny beijava Thanatos.

Peter gritou o mais alto que conseguiu, um grito aguçado de profunda raiva, desfez o feitiço e voltou ao mundo normal. Varleny se encontrava com olhos semicerrados, aparentemente adormecida, ainda sentada a beira da ponte. Peter sentiu uma raiva invejosa de Thanatos, queria intensamente matá-lo. Aparentemente, Psycho havia sido a causa do suicídio de Varleny e agora que ele não existia, Varleny estava feliz. Peter desejou que Psycho existisse. Mesmo que isso significasse ter seus pais mortos.

— O nome do seu namorado... Seria Thanatos? – Indagou Peter tentando esconder sua raiva interna. Varleny acordou assustada.

— Como você sabe? Você mal me conhece! – Indagou Varleny se perguntando como tinha caído no sono subitamente. – Você é um stalker?

Não! – Vociferou Peter abruptamenteirritadiço. – SOU UM VIAJANTE DO TEMPO!

— Me deixe em paz!– Pediu Varleny desejando que aquele desconhecido excêntrico fosse embora. –O que você quer de mim?

Eis que algo se transformou na mente de Peter, alguma coisa funesta emergiu.

Eu quero você! – Sussurrousombriamente Peter. O rosto aberto em um sorriso demente.

— Quem é você? – Indagou Varleny tentando não parecer estar nervosa. –Por favor, vá embora!

Tudo havia dado errado. Catastroficamente errado. Peter não conseguia pensar em um motivo plausível para continuar vivo. Nem mesmo ter seus pais vivos pareceu o confortar.

Ok! – Murmurou Peter sombriamente.

Quando menos percebeu estava empurrando Varleny da ponte. O tempo pareceu paralisar e após caminhar lentamente. Peter viu o corpo de Varleny cair lentamente em direção às águas do rio, seu vestido branco se esvoaçando ao vento. E após se chocou violentamente na água e seu crânio se despedaçou contra o fundo. Varleny percorreu graciosamente rio abaixo, o crânio psicoticamente a se exibir, as águas cristalinas correndo rápidas deixando vestígios de sangue – provindos de Varleny –, para trás. Quando menos percebeu, estava sorrindo por ter a matado. Peter a observou com olhos satisfeitos. Alguma coisa havia renascido em sua mente. Peter se sentia venturoso, não sabia o porquêde estar triste há poucos minutos. Tudo que permanecia em sua mente era o desejo de trucidar.

— Eu sou um gênio! – Sussurrou Peter sombriamente. – Há! Há! Há! Há! Há! Há!Também te amo Varleny! Há! Há! Há! Há! Há! Há!— Murmurou Peter como se Varleny tivesse o dito que o amava, enquanto corria, morta, rio abaixo.

Peter viu as águas convidativas e saltou. Mergulhou de rosto no rio e seu rosto se destroçou no fundo de pedra. Fez-se flutuar e desceu rio abaixo, boiando na superfície. Os olhos intactos observando o céu ensolarado. O resto do rosto destroçado: sem pele, os ossos e carne a mostra; dava-se para contar os dentes em seu rosto; alguns fios de cabelos vermelhos em franja por cima do rosto destroçado; um sorriso assustador no rosto.

Aparentemente não estava sentindo dor. Avistou o corpo de Varleny na orla mais a frente e nadou, contra a correnteza, em direção a ela. Chegou à costa com um sentimento de felicidade dentro de si. Agarrou o corpo de Varleny pelos cabelos e o arrastou pelo gramado. Encostou as mãos na barriga encharcada de Varleny e murmurou:

Teleatos! – Teleportando o cadáver de Varleny para algum lugar.

Caminhou rua acima, cambaleando feliz, sem culpa alguma pelo assassinato que tinha acabado de cometer. Para Peter ter a matado não significava mais do que matar uma reles formiga. Peter não estava mais são. Seus sentimentos por ela não existiam mais, nenhum sentimento generoso restou. Peter havia – novamente— se transformado em um psicopata. A insanidade estava o abraçando calorosamente como uma velha amiga.

— Cala a boca Varleny! – Murmurou ele para alguém ao seu lado enquanto virava uma esquina.

— EU JÁ DISSE PARA CALAR A BOCA! O QUE MAIS VOCÊ QUER?! – Vociferou Peter como se Varleny estivesse conversando com ele realmente.

Aquele não era nem de longe o mesmo Peter. Ele sequer se lembrava de que amava alguém. Ele sequer lembrava-se de ter prometido a Swift que iria colocar o seu nome em seu filho com Varleny. Ele sequer lembrava que seu próprio nome era Peterson. Ele sequer lembrava que matar era errado.

O feitiço esqueciatosde Swift – um feitiço de apagamento contínuo da memória – aparentemente era mais poderoso que ele mesmo poderia ter previsto. O feitiço abruptamente havia voltado à mente de Peter e estava causando um pôs-efeito colateral por terem tentado o desativar, ao invés de apagar memórias psicóticas, o feitiço estava revivendo-as com intensa força e apagando as memórias boas e todos os bons pensamentos.

Peter estava demudado em um psicopata completo.

O mundo parecia mais feliz, mais gentil. Peter começou a acreditar que todas as suas memórias ruins – na verdade ­– eram boas. A mente de Peter estava completamente conturbada, nada fazia sentido. Memóriasmelancólicas – de seus pais o batendo, de ele sofrendo Bullying na antiga escola, de duas pessoas se beijando – se repetiam repetidamente.

Matar começou a ter o mesmo valor de um abraço.

Peter chegou à frente de sua casa. À noite obscurecendo o céu. Peter caminhou até a porta, pressuroso – o rosto ainda destroçado psicoticamente aberto em um sorriso fúnebre –, e tocou a campainha. Marta abriu a porta, seus olhos se esbugalharam, somente movimentava boca, mas nenhum som saia.

— OH! MEU DEUS! – Exclamou Nicolas ao ver o rosto de Peter. – O QUE ACONTECEU? VAMOS FILHO! VAMOS A UM HOSPITAL!

— Não há necessidade papai! – Murmurou Peter sombriamente, caminhando excentricamente em direção à cozinha.

Marta e Nicolas ficaram enrijecidos ­– no corredor que levava à cozinha­ –, receosos em rever o rosto psicótico do filho. Marta tremia e soluçava em prantos. Nicolas decidiu ir falar com Peter, não podia deixar o filho com um ferimento grave daquele no rosto. Caminhou lentamente, as pernas hesitando, adentrou a soleira da cozinha, os olhos arregalados correram pelo ambiente e então visualizou Peter com uma faca em punho àborda da pia.

— O q-que está fa-fazendo? – gaguejou Nicolas assombrado. – V-vamos ao hospital!

— Não papai! – Murmurou Peter sombriamente virando o rosto destroçado para olhar Nicolas, um sorriso demente no rosto. – Por que eu deveria?

— Bom... Seu rosto está ferido! – Exclamou Nicolas de abrupto, o rosto tremulando de sobressalto. – Por favor! Vamos!

— Desculpe papai! – Murmurou Peter sombriamente, levando a faca afiada em direção ao próprio rosto. – Mas estou mais bonito agora!

Do que você está falando? – Murmurou Nicolas demasiado atônito.

— Não estou? – Exclamou Peter em tom agourento. – NÃO ESTOU BONITO?

E-está! – Mentiu Nicolas totalmente amedrontado.

— Obrigado papai! – Agradeceu Peter fazendo uma referência fúnebre. – Não é justo somente eu ser bonitão! Não concorda? – (Nicolas não respondeu, sua boca parecia estar lacrada) – Vou fazer o meu papai ficar bonitão também!

Peter avançou em direção a Nicolas, ferozmente, a afiada faca fulgente em punho.Nicolas gritou descomedidamente alto, um grito de extrema dor. Escutava-se as tentativas de fuga de Nicolas, o barulho de sangue jorrando ao chão. Marta continuava paralisada, trêmula de terror,aguardando a própria morte no corredor.Não conseguia sair do lugar, suas pernas pareciam estar pregados no chão. “É um pesadelo! É um pesadelo! É um pesadelo!”Iludia-se Marta.

Eis que a casa se silenciou. Um silêncio agourento se dissipou pelas paredes. Marta tentava mover o corpo, mas não conseguia. Seu corpo parecia estar a atraiçoando. Eis que uma voz agourenta provinda da cozinha murmurou:

— Mamãe! Mamãe! Mamãe! MAMÃE!

Marta não respondeu. Ouviu passos lentos e uma figura fúnebre se materializou na porta da cozinha. Era Peter, um sorriso agourento em meio a um rosto destroçado completado por suas roupas cobertas de sangue. Marta não conseguia entender o que estava acontecendo, preferiu acreditar que o estava acontecendo era apenas um nebuloso pesadelo. Peter gargalhou como se soubesse o que Marta estava pensando. Dessa vez...

Foi Marta quem gritou.

Gargalhadas iradas de tom macabro ecoaram pela casa. Os vizinhos aturdidos não tiveram suficiente coragem para investigar a casa. O vizinho de número 12 decidiu ligar para a polícia. Ato que não foi imitado por nenhum dos vizinhos.

Peter arrastou os seus defuntos, pai e mãe, para seu quarto. As cabeças roçaram nos degraus com um baque surdo ao serem arrastados pela escada que levava ao segundo andar. Peter os arrastou pelo corredor do segundo andar até ao seu quarto. Deitou os cadáveres em sua cama e murmurou estralando os dedos:

Teleatos!

Flores perfumadas – provindas do jardim – se materializaram a todo o chão do quarto macabro. Peter se sentou sobre o chão flórido e observou seus pais deitados na sua cama, ambos com a pele do rosto fatiada por faca. Lágrimas provindas de seu subconsciente escorreram pelo seu rosto destroçado. Peter não entendeu por que chorava. Não estava triste, mas muito pelo contrário, nunca se sentira tão vivo quanto naquele momento. Gargalhou novamente com sua risada irada de tom macabro.

Levantou-sede um salto e,sem estralar os dedos, murmurou:

Teleatos!

O cadáver de Varleny se materializou no meio do quarto, caindo com um baque surdo, Peter a olhou com olhos negros penetrantes e murmurou sombriamente:

— Como está? – Gargalhou brevemente. – Se sente bem?

Por um segundo pareceu que Varleny estava o respondendo. Caminhou até ela e a arrastou até a sua cama e escorregou-a entre os corpos de seus pais.

Bons sonhos!

Estralou os dedos novamente e murmurou sombriamente:
Teleatos!

Peter desapareceu e só reapareceu uma hora depois, trazendo consigo mais dois cadáveres com o rosto completamente riscado a faca – aparentemente sua vizinha e seu namorado: a garota góticaeo garoto emo—, deitou os dois a canto do quarto e se teleportou novamente. Passada mais uma hora, o céu extremamente escuro e estrelado, trouxe mais um cadáver – um cientista louco de cabelos castanhos lisos bem curtos que estava conversando afetuosamente com seu pai ao receber a visita de seu carrasco Peter –, deslizou o cientista até a beira da cama e o deixou jogado ao chão.

Peter parecia satisfeito, o sorriso esquelético abrindo-se de orelha a orelha. Caminhou a até o cientista decidido a se divertir, a faca reluzente em punho, e o empunhou violentamente com a faca múltiplas vezes, sangue jorrando a toda no chão flórido.

— Não diga que não mereceu! – Murmurou Peter ofegante após esfaquear o cadáver do cientista. – Você...

Peter se interrompeu. Caminhou até a janela e observou a lua imponente brilhando melancólica atrás das nuvens carregadas. As estrelas cintilavam majestosas, completando o céu azul-escuríssimo. Peter sorriu para lua como se ela tivesse o elogiado. Correu da lua para o seu macabro quarto, mas seus olhos pareciam não estar percebendo que o quarto estava coberto de sangue e cadáveres.

Talvez aquilo estivesse acontecendo somente na sua mente, mas Peter se sentiu feliz de ter tantos amigos.

Pelos seus olhos seu quarto estava flórido, seus pais conversando amorosamente deitados a sua cama, Varleny sentada entre eles, falando que queria se casar com Peter futuramente e que o primeiro filho ou se chamaria Swift ou Nancy; mais ao canto se encontrava o cientista louco conversando com garoto emo e a garota gótica de seus planos futuros como se estivessem em uma festa animada. Peter tinha certeza de estar escutando jazz tocar ao fundo. O quarto estava iluminado confortavelmente por uma luz muito branca.

Conversou com todos como se fossem seus melhores amigos, abraçou seus pais calorosamente e levantou Varleny da cama para dançarem ritmados por uma música de Jazz calmíssima. Dançou com Varleny deslumbrado com a beleza que ela estava expondo, sua pele transluzia como se ela fosse realmente um anjo. Seus pais e o casal gótico se juntaram a dança, exceto o cientista que estava ditoso em somente observar sentado na cama do quarto, que parecia ser a única mobília presente no quarto naquele momento. Peter e Varleny dançaram por minutos que pareceram horas e então se beijaram apaixonados.

Tudo se enevoou abruptamente.A música de jazz cessou-se, o quarto estava lentamente se transformando em uma cena macabra. O casal gótico abruptamente caiu ao chão com o rosto riscado a faca; Seus pais flutuaram no ar e, também com o rosto riscado a faca, caíram de costas na cama, mortos novamente; o cientista deslizou da cama e despencou ao chão com o rosto riscado a faca e a barriga aberta.Peter escutou um estampido ensurdecedor e sentiu sangue jorrar de sua barriga, quando menos percebeu estava caído ao chão com o cadáver ensanguentado de Varleny caído por cima dele, aparentemente ele estava dançando psicoticamente com o cadáver dela. A polícia havia chegado. Um policial negro de cabelos curtos o apontava uma arma que soltava um fio de fumaça pela ponta.

— SEU MALDITO PSICOPATA! – Vociferou o policial. – VOCÊ É UM DOENTE SÓRDIDO! NÃO SE MEXA! ­– Ordenou o policial ao perceber que Peter estava pensando em fugir.

— NÃO O MATE SILVA! – Mandou um policial de cabelos negros bagunçados, vindo logo atrás pelo corredor. – Temos que interrogá-lo para saber quem ele matou!

— Kokoro! Ele matou todos essas pessoas! Temos que matá-lo! – Vociferou Silva, os olhos castanhos desejando justiça.

— Silva! Se acalme! A justiça já será feita! Só temos que interrogá-lo antes! – Murmurou uma garota de cabelos castanhos lisíssimos reluzindo.

— Obrigado! – Agradeceu Kokoro a ela com veemência. – Caroline, você terá muito que fazer hoje... Amor!

— De fato! Amor! – Disse Caroline corando levemente.

— JÁ DISSE PARA VOCÊS PARAREM COM ESSA PORRA DE “AMOR”! ­– Vociferou Silva ainda apontando sua arma para Peter. – Estamos a trabalho! Não é hora para namoricos! Temos um psicopata a nossa frente!

— Ah... Desculpe Silva! – Respondeu Kokoro de imediato. – Às vezes eu me esqueço... Então... O que faremos?

— FODA-SE! – vociferou Silva disparando sua arma certeiramente no peitode Peter. O peito de Peter jorrou sangue psicoticamente. Peter perdeu a consciência. Somente ouvia.

— O QUE VOCÊ FEZ PORRA!

Caroline caminhou até o corpo de Peter e deslizou o cadáver de Varleny de cima dele.

O QUE ESTAVA TENTANDO FAZER FAZ MUITO TEMPO...

Peter ouviu suas vozes se desvaindo lentamente.

Você devia ter esperado!

Ele matou todos essa pessoas! Não precisamos o fazer confessar!

As vozes começaram a ter um tom confuso e etéreo. Peter desejou estar morto e murmurou baixinho... “Destroçus”... Destroçando o próprio cérebro.

Agora... Já... Está... Feito... Não... Podemos... Fazer... Nada...

Ele... Está... Morto...

Peter se sentiu vazio. Sua visão se anulou. Não se dava para ver nem sequer resquícios de luz. Ele estava de pé em um solo sólido e escorregadio. Seus continuavam mergulhando na escuridão. Caminhou em frente, sem saber para onde estava, continuou caminhando, sem ter o que esperar. Uma luz reconfortante o abraçou.

Peter estava em um lugar sem céu e paredes, aparentemente vazioque se iluminava intensamente de branco. Peter correu os olhos pelo ambiente.Viuque todos que ele um dia amou estavam o esperando de braços abertos –Marta, Nicolas, Swift, Varleny, Thanatos e Null—todos trajando roupas brancas que acabavam por combinar com a cor do ambiente. Sorrisos estranhamente felizes nos rostos pálidos. Mas Peter não conseguia ver seus rostos perfeitamente. Peter correu em direção a Varleny e a abraçou calorosamente.

Ele estaria no – fortemente ambicionado – mundo feliz chamado por Kronus de “Paraíso”?

Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo!— Murmurava Peter, lágrimas melancólicas escorrendo pelo rosto que não estava mais destroçado. – Desculpe-me! Desculpe-me! Desculpe-me! Desculpe-me! Desculpe-me! Desculpe-me! Desculpe-me! Desculpe-me!

Varleny não respondeu, somente retribuiu o abraço. Peter virou os olhos negros molhados para o rosto de Varleny e teve uma psicótica surpresa, Varleny não continha olhos, no lugar de olhos expelia-se uma luz branca. Peter tentou parar de abraça-la, mas ela não permitia. Peter gritou. Todos os demais voejaram em direção a Peter como vultos de branco e começaram a devorá-lo. Sangue escarlate manchando o chão branco. Gargalhadas ecoando pelo ambiente vazio. Rosas vermelhas brotaram no chão ao redor. Seus olhos se escureceram lentamente, até Peter mergulhar em escuridão completa.

A morte é imutável! Onde houve morte... Sempre haverá.

Dias, semanas, meses, talvez anos se passaram...EPeter enfim acordou. Estava flutuando em meio às nuvens em um lugar desconhecido. O corpo transparente como fumaça. Não era mais humano e não era tampouco um fantasma. Era uma alma-monocromática!

FIM

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