Almas Acorrentadas
6 Eu realmente sei o que é melhor para ela? Ou estou fazendo o que é melhor para mim?
Notas iniciais
Ela estava vermelha e sempre olhava para frente, e parecia querer que eu fizesse algo, não sei se ela havia se assustado com o teatro da loja. Mas havia feito aquilo, apenas por causa das caras que ela havia feito, e do rosto triste que eu tive que ver, quando ela se olhava no espelho com o vestido. Na verdade tudo que havia ver com essa formatura deixavam-a triste, e isso me irritava de certa forma. Odiava vê-la daquele jeito...
Fiquei perto dela, nossas mãos quase se relando, ela passou o braço por dentro do meu, e eu peguei sua mão. Caminhamos em silencio, os dois muito vermelhos, mas ninguém queria soltar da mão um do outro. Havia sido difícil fazer algo como isso, tirei mais coragem de onde não tinha. Ela fazia isso comigo.
Continuamos caminhando em silencio, ate que ela mostrou uma lojinha de uma porta só, de vidro, simples, com escritas em tinta verde no vidro. Abrimos a porta e o sininho tocou, fazendo uma mulher muito parecida com Sonia, sair de escondida do balcão, com um sorriso no rosto.
“Ola, minha querida, como esta? Ummm, arrumou um namorado, que bonito”, disse a mulher, vindo beija-la na bochecha.
Nos dois coramos, e ela ficou sem graça.
“Viemos ver uns vestidos...Ai tia Simone, esta um caos, o meu vestido de formatura era horrível, e bem eu não queria ele...”
“Sonia havia comentado mesmo querida... Mas qual o problema?”.
“Pois então, eu meio que tive uma ajuda e me livrei do vestido, mas agora estou sem vestido, e minha mãe vai me matar, bom se for ver ela vai me matar de qualquer jeito...”, o olhar forte e atrevido dela, estava morto e triste, apertei a mão dela e ela olhou para mim e sorriu.
“Como não tem um vestido, estamos numa loja de roupas, e bom, essas parecem mais com você...” disse apontado para os vestidos mais próximos.
“Não sei o que ele é seu, mas escolheu bem”, disse a mulher rindo, ela apesar de lembrar muito Sonia, era mais magra e usava canicalon, um vestido justo ao corpo, verde, cheio de flores.
Elisabeth viu que eu estava olhando muito para a dona da loja, com um olhar desconfiado, e me disse:
“Ela é a Irmã da tia Sonia...”.
Eu sorri e respondi:
“Você lê meus pensamentos garota?”
Ela riu.
A dona da loja olhou nos dois e sorriu.
“Onde conhece Sonia, moçinho?”
“Longa estória, que tal olharmos os vestidos? A única coisa que digo, é que gosto muito dela, ela seria como uma mãe para mim, logo você seria algo como minha tia. Então prazer em conhecê-la”
“O seu nome você fica devendo?”, ela disse um pouco desconfiada, mas ainda com um sorriso no rosto.
“Talvez”, disse com um dos meus sorrisos irônicos, que não conseguia controlar, mesmo quando não se referia a uma ironia.
...
Elisabeth parecia ir ali sempre, a própria dona da loja, Simone, sabia os vestidos que ela iria gostar e os mostrava a ela. Parei para ver um catalago que estava em cima do balcão de mármore da loja. Era um daqueles livros pretos com varias modelos dentro, e percebi que alguns estavam riscados a lápis e modificados. Simone olhou o que eu estava fazendo e sorriu, chegando perto de mim comentou:
“Gostou das modificações?”
“São bem interresantes, elas me lembram de alguém...” disse ainda olhando o catalago.
Ela sorriu
“Talvez a patricinha de rosa tenha uns talentos escondidos que a mãe dela não aceite...”
“As pessoas nascem com dons para usa-los...Não conheço a mãe dela, mas se um dia eu conhecer, quero dizer tudo que esta entalado na minha garganta, me irrita o jeito que ela trata Lise, me irrita muito, me chateia. Eu não sei explicar, mas toda vez que ela chora, eu quero socar muito alguém, porque parece que eu estou apanhando...”
“Garoto, onde ela te achou?”, disse ela com um sorriso no rosto, mas um pouco desconfiada, com um ar desafiador, mas com felicidade ao mesmo tempo.
“No manicômio” disse rindo, e ela começou a rir também. “Desculpe-me, mas onde esta Lise?”
“Experimentando alguns vestidos, e você devia fazer o mesmo...”
“Obrigado, mas babados não combinam comigo”, disse com um sorriso irônico.
“Que tal um bleiser então? Um terno? Algo para o baile...”.
“Desculpa, mas acho que eu não vou...”.
“Como não vai?”.
“Ela vai com alguém, eu acho, eu só vim na rua com ela, eu não posso, e eu não fui convidado...”.
“Precisa de mais do que isso para ser convidado? Talvez eu deva lhe bater. Ela te olha de um jeito sem explicação, mas algo não deixa vocês irem juntos. Será a mãe dela? Se for, fique sossegado, eu falo com ela e...”.
“Não é isso, apenas não da!! Não tente arrumar minha vida, sei que você só esta tentando me ajudar, mas nada é tão fácil como você fala, o mundo é injusto. Eu não posso ficar com ela, eu não devo, eu só a machuco, eu não posso ir a um lugar desses, ela não pode ir a algo tão importante para ela com alguém como eu, esta fora de questão!Desculpe-me, eu não quis...”
“Tudo bem, algo o prende, mas será mesmo que ela acha melhor não ir com você a lugares assim?? O que acha que ela gostaria?? Apenas preste mais atenção nela, e você mesmo chegara à resposta...”.
“Prontinho gente, já escolhi!! Não vou mostrar para vocês, mas ficou muito lindo...Aconteceu algo, vocês estão tão quietos...”, disse Elisabeth saindo do provador, segurando muitos vestidos.
“Tenho que ir. Acerte ai... Foi bom sair com você, realmente importante para mim, obrigado por tudo...” virei de costas e sai andando, depois de ir ate ela e bagunçar mais seu cabelo. Quando vi meu reflexo na porta de vidro, e logo atrás de mim, um pouco distante, dela, eu disse: “Nosso trato ainda esta de pé. Melhor para você, melhor para mim. Boa formatura, você tem um longo futuro pela frente, e devia trabalhar com o que gosta, você tem talento”, ri de minha própria desgraça, “Ai, Ai...Adeus Lise”, virei-me para ela e sorri, mas meus olhos me traíram, derramando uma cascada de sentimentos.
“Espere Elliot, não tem que ser assim!! A gente provou isso hoje, a gente vai conseguir e...”
“Desista!! Por favor, viva sua vida, e deixe-me, vai ser melhor para você...”
“VOCE NÃO SABE O QUE É MELHOR PARA MIM!!!”
“Eu sei, melhor do que ninguém...”
“Não, você não sabe, se não, não faria isso comigo...”, ela começou a chorar, e caiu de joelhos no chão, e escondeu o rosto com as mãozinhas com as luvas de renda, ate a metade da mão, “Você não sabe...”.
Queria correr e abraça lá, mas algo estava me mandando ir embora, talvez se eu fosse, ela não iria mais atrás de mim, e eu não teria como ir ate ela, e tudo ficaria bem, ela sofreria, assim como eu sofreria, eu ia morrer preso a grades e ao meu amor. Enquanto ela podia achar alguém e se casar e ser feliz. Mas eu não sou o tipo de cara que divide as coisas que tem, eu não havia nada, mas ela era minha de alguma maneira, eu queria que ela fosse, e ela ia ser, e eu não dou, não empresto e não divido com ninguém. Fiz uma coisa que talvez eu me arrependa se depois, mas no momento foi ótimo.
“Foda- se tudo também”, disse virando e correndo ate onde ela estava, tirei as mãos do rosto dela, delicadamente. Ela soluçava e tentou cobrir de novo, “Espera Lise”, ela me olhou assustava, ainda descia água de seus olhos, então comecei a beija lá, um beijo apaixonante, que não queria que tivesse fim, intenso, sem grades, sem tristeza. O gosto de suas lagrimas salgadas descia pelos seus lábios, mas eu não me importei, soltei as mãos dela, que logo agarraram minha nuca e ombro. Ela me puxava, e eu não aguentava ficar longe dela.
Parei de beija lá, ela abriu os olhos atrevidamente, me pedindo mais, franzindo a testa. Olhei e disse: “Você é minha, e eu sou seu, faça o que quiser comigo. Você quer que eu vá embora?”.
“Nunca”
“Mas Lise...”
“Eu vou dar um jeito...”, ela disse, beijei sua bochecha enquanto ela falava, ela fechava os olhos, e apertava meu ombro, “Quero ficar com você para sempre...”, a interrompi, meus lábios encontraram os seus novamente. Parei de beija lá, coloquei o dedo em seus lábios, e os contornei, ela estava vermelha, e eu sabia que eu também estava.
“Tem menos ferro agora, gostou?”, ela riu, e eu fiquei mais sem graça, mesmo não sabendo por que disse aquilo, mas percebi que ela já não chorava mais, me senti melhor. “Você é dona da chave do meu coração, da minha alma, da minha vida. Você é a única que abre minhas correntes, você é a chave. A apertura de minhas correntes depende apenas de você”.
Ela sorriu. Eu a olhei uma ultima vez, sorri e sai correndo de lá, sem olhar para trás. Eu tinha que voltar, e se alguém descobrisse que eu havia saído, eu seria morto. Corri o mais rápido que pude. Cheguei ate a sela, e me puxei à grade, cai sentado no chão e comecei a rir, de reconforto e de felicidade. Mas quando olhei ao lado, alguém me esperava de pé ao meu lado...
Abraços Elliot.
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