Alma Perdida

3 Capítulo 2


Meus sonhos àquela noite foram todos feitos de lembranças passando em flashes. Era como se eu estivesse olhando um slideshow em uma grande tela, porém de um ponto distante, sem ter controle do tempo entre uma imagem e outra.

Vi os rostos das crianças no orfanato, elas passavam correndo por mim, com seus brinquedos velhos e mal conservados balançando nas mãos enquanto eu olhava a chuva cair através de uma janela com grades e, então, eu estava de pé no canto da sala dos meus pais adotivos, ambos sorrindo e me oferecendo um enorme bolo de chocolate as palavras “bem vinda” enfeitando a cobertura. Em seguida, eu andava pelo pátio da nova escola ao lado de Benjamim, que segurava minha mão gorducha com força, como se tivesse medo de me perder, ele carregava minha lancheira e contava piadas enquanto dizia que eu não precisava me preocupar. E de repente lá estava Tom, sentado na beirada da minha cama, apontando a foto de uma das minhas amigas colada em um mural na parede, pedindo que eu os apresentasse. Observei estações passarem e me vi crescer em um piscar de olhos. Ao meu lado na maioria das imagens via Benjamim, com seu olhar protetor.

A tela começou a se aproximar e parecer maior quando uma única imagem apareceu ocupando todo o espaço; éramos eu, meus pais e meus irmãos no meu aniversário de dezesseis anos, minha foto preferida. Em uma ponta, meu pai com seu sorriso mais espontâneo. Ao lado dele, minha mãe com os cabelos soltos e um vestido florido, exibindo um ar leve, a mão estendida em direção ao meu rosto, como se estivesse pronta para acariciá-lo. No meio, eu sorria com a boca escancarada e os olhos apertados pois Beni, do meu lado esquerdo, estava com as mãos na minha barriga, fazendo cócegas, enquanto Tom olhava a cena e ria, com a boca cheia de doces roubados da mesa antes da hora.

Senti o coração aquecer ao ver a foto, porém, um à um, começando por Tom, meus familiares começaram a desaparecer como em um efeito fade out, até sobrar apenas eu. As bordas da imagem pegaram fogo na enorme tela e ela foi se consumindo até o centro, até restar apenas escuridão.



Acordei suando e sentindo o rosto arder. A luz do sol já atravessava o fino tecido da cortina que cobria a janela do quarto e o relógio marcava oito horas. Me recostei na cabeceira e respirei fundo até que meus batimentos voltassem ao normal.

Depois de me acalmar me arrastei até o banheiro, sentindo o corpo cansado como se toda a energia que eu deveria ter recuperado tivesse sido gasta para sustentar o sonho. Empurrei a porta, mas ela não abriu, indicando que alguém havia chegado na minha frente. Com preguiça de voltar novamente ao quarto, me recostei na parede e deslizei o corpo até o chão.

—Já está de pé? — minha mãe acabava de subir as escadas com uma pilha de roupas nos braços.

—Bom dia — murmurei, coçando os olhos para espantar o sono — tive um sonho esquisito.

—Ah — ela não pareceu surpresa — bem, não é a primeira vez essa semana, não é?

Sacudi a cabeça de forma negativa. Já haviam se passado três semanas desde o incidente em que engasguei durante o jantar e, a partir daquele dia comecei a ter sonhos esquisitos. Não eram pesadelos propriamente ditos, apenas sonhos em geral complicados e cheios de detalhes que me faziam acordar esgotada.

—Talvez você devesse dormir mais cedo, ou passar menos tempo no celular e no computador.

—Talvez, mas não acho que seja esse o problema — um bocejo entrecortou minha fala, o que me deu tempo para pensar em mais uma coisa antes que minha mãe prosseguisse para o quarto — Aliás, onde estão nossas fotos antigas?

—Lá embaixo, no armário.

A porta do banheiro se abriu e Benjamim saiu lá de dentro, fazendo com que o cheiro de sabonete e os resquícios de vapor dominassem o corredor.

—Bom dia, panqueca. — disse ele, bagunçando meus cabelos — que bom que já acordou, assim pode me ajudar a colocar as coisas no carro.

—Falando nisso — emendou minha mãe — Tom levantou cedo e foi com seu pai ao banco.

Me levantei do chão e estiquei o corpo.

—Quem diria, Tom acordando cedo.

—Ele não perde a chance de mostrar que realmente pode dirigir.

—Só espero que ele não pretenda monopolizar o carro quando as aulas recomeçarem.

—E você realmente acha que ele vai voltar a ir para a faculdade de ônibus?

—Acho que ele deve respeitar a expressão ‘primeiro as damas’.

Benjamim riu e minha mãe balançou a cabeça de forma negativa, porém pude ver um sorriso se formando em seu rosto também. Acenei para que os dois seguissem suas tarefas e entrei no banheiro.



Coloquei o celular no bolso de trás da calça jeans escura e passei os fones de ouvido por trás do pescoço. Deitei no sofá com as pernas pendendo sobre o apoio de braço para que minha mãe não reclamasse que os tênis sujariam o estofado. As malas com as roupas e pertences íntimos de Beni estavam espalhadas pela sala. Segundo ele, a cama, a geladeira e o fogão que meus pais haviam dado como presente já haviam sido entregues durante a semana anterior. No início da semana o caminhão fretado levou a cômoda de seu quarto e a mesa de madeira que papai havia se empenhado em construir. Dois dias antes, ele, Tom e eu saímos em uma expedição de paz para escolher um microondas e algumas peças de louça com o dinheiro que havia sobrado do salário de férias de Beni e, agora, só restava levar as roupas e outras coisas pessoais.

Beni se sentou ao meu lado e conferiu o relógio.

—Eles já deveriam estar aqui.

—Calma, querido — minha mãe estava acabando de prender os cabelos no rabo de cavalo habitual — devem estar só dando uma volta. Além do mais, não precisa dessa pressa toda para deixar a casa da mamãe.

Levantei a cabeça e a acomodei sobre a perna de Beni.

—Você sabe que ele deve só estar dando uma volta. Seu apartamento não vai sair do lugar e aposto que vai sentir falta daqui assim que passar o primeiro dia sozinho.

—O pior é que realmente vou, mas você pode passar algumas noites por lá, vou mesmo precisar de alguém que arrume as coisas e lave as roupas.

—Muito engraçado — respondi, dando língua para ele — não sou sua empregada, idiota.

Beni riu e pegou o controle da televisão sobre a mesa de centro e começou a passar os canais, enquanto o observava fazer isso me lembrei das fotos.

Levantei e fui até o armário que ficava sob a televisão, sob os protestos de Beni, que reclamava de eu estar atrapalhando a visão. Tirei de lá duas caixas cheias de fotografias, voltei para meu canto no sofá e comecei a remexê-las.

—Seu pai acabou de ligar — disse mamãe, ainda com a escova nas mãos — parece que os dois se distraíram comprando alguma coisa e vão pegar o caminho mais longo de volta. Ele quer ver como seu irmão se sai em uma via mais movimentada. Disse pra você não ficar tão impaciente e que estarão de volta pouco depois do almoço.

Nem sequer precisei desviar o olhar na direção de Beni para adivinhar sua expressão de frustração. Ele murmurou um “tudo bem” que de bem não tinha nada e continuou mudando de canal.

Havia me esquecido de como minha família adorava fotos e cartões. Reencontrei imagens das quais nem sequer me lembrava. Fui passando de álbum em álbum, olhando as marcações de datas rabiscadas com caneta permanente nas etiquetas brancas redondas que mamãe adorava colar em tudo.

Após alguns minutos finalmente encontrei o que datava meu aniversário de dezesseis anos. Vários cliques de amigos da escola com quem eu nem falava mais, tios, primos, a decoração baseada em estrelas coloridas e, por fim, a foto de família exatamente da mesma forma que havia aparecido no sonho.

Removi a foto de seu plástico no álbum e a encarei, ninguém parecia estar desaparecendo, ela nem sequer estava desbotada pelo tempo. Olhei para cima, para ver se Beni estava olhando, mas ele estava ocupado demais se alternando entre olhar a televisão a o relógio. Puxei minha bolsa pela alça e guardei a foto lá dentro, pensando que, talvez Beni fosse precisar mais dela para os dias solitários em seu apartamento do que eu precisaria para ficar remoendo meus sonhos estranhos.

Por volta de uma da tarde mamãe esquentou as sobras de macarrão com queijo do dia anterior e comemos espalhados pela sala, o que era uma grande exceção para minha mãe que sempre foi obcecada por refeições em família serem feitas ao redor da mesa.

Meu irmão resmungava o tempo todo sobre a demora, mas quando tentou ligar para meu pai a ligação caiu na caixa postal.

Às três e meia já estávamos os três realmente preocupados. Procuramos em todos os canais de televisão e estações de rádio por notícias sobre o trânsito, mas era como se nenhum noticiário passasse no período da tarde.

Nenhuma ligação completava no celular de nenhum dos dois. Beni já estava entrando em contato com os amigos mais próximos de papai e de Tom para saber se não haviam se encontrado com alguém no caminho e perdido a hora. Minha mãe agarrava as barras do vestido com força, parada em frente a imagem de Nossa Senhora que tinha pendurada na parede da sala.

—Seu pai não ia nos deixar preocupados assim, deve ter acontecido alguma coisa.

—Pode ter sido só um pneu furado, mãe. — tentei tranquilizá-la.

—Mas ele teria ligado.

—Os celulares podem ter descarregado ou ficado sem sinal. Não vamos começar a pensar no pior, por favor.

Ela me olhou com a expressão aflita, mas balançou a cabeça concordando.

Peguei meu celular e disquei o número de Vinicius. No quarto toque ele atendeu.

—Oi amor! — a voz dele soou do outro lado da linha.

—Oi, Vini. Eu sei que e pouco provável, mas você não viu Tom e meu pai passarem por ai, vou?

—Não, pra ser sincero ainda nem sequer saí na rua hoje. Aconteceu alguma coisa?

—Ah… Não, tudo bem. É só que… você sabe que é o fim da mudança de Beni ee os dois saíram com o carro e não voltaram ainda.

Houve um momento de silêncio.

—Quando foi que se falaram pela última vez?

—Papai ligou por volta das onze, disse que iam voltar pela estrada e chegar pouco depois do almoço. As ligações só dão caixa postal depois disso. Estamos preocupados.

—Não deve ter sido nada grave. Vou me trocar e dar uma volta, ver se vejo os dois por aí. Depois encontro com você.

—Tudo bem. Muito obrigada, amor.

—Qualquer coisa meu telefone está ligado.

—Certo. Tchau.

Desliguei o telefone, sem saber mais o que poderíamos fazer.

—Já falei com todos em quem consegui pensar. — disse Beni — agora temos que esperar.

O sol já estava tinha desaparecido do céu. Vinícius havia chegado na minha casa cerca de duas horas atrás e tentava nos tranquilizar, porém ele mesmo não possuía mais convicção nas próprias palavras.

Beni também já tinha saído e dado algumas voltas nos quarteirões mais próximos. Não sabíamos mais o que fazer.

—Bem — começou mamãe, a voz meio embargada — acho que é melhor começarmos a ligar para os hospitais.

Uma espécie de suspiro coletivo preencheu o ar. Ninguém tinha nenhuma ideia melhor. Beni pegou o celular, pronto para pesquisar os telefones dos hospitais e unidades de saúde mais próximos.

Ele ainda estava anotando o primeiro número que encontrou quando o telefone fixo tocou, fazendo com que todos se sobressaltassem. Como estava mais perto do aparelho estiquei o braço e atendi.

—Alô?

A pessoa do outro lado da linha tinha uma voz tranquila e perguntou se era a casa de Jonas e Tomás dos Anjos. Um nó se formou na minha garganta. Desde pequena aprendi que pessoas com tom muito tranquilo costumavam ser as portadoras de más notícias.

Ouvi tudo o que ela tinha a dizer e só me lembro de conseguir responder com acenos de cabeça que ela não poderia ver e palavras como “claro” e “uhum”.

Quando coloquei o telefone de volta no gancho levei alguns segundos para conseguir trazer as palavras de volta a minha garganta. Senti os olhares ansiosos de minha mãe, Benjamim e Vinícius sobre mim.

—Quem era? — perguntou Beni, a tensão cobrindo sua voz.

Ergui o olhar, sentindo o peso da notícia que precisava transmitir.

—Precisamos ir ao hospital… — por um segundo quase engasguei, mas me forcei a dizer o resto — papai e Tom sofreram um acidente.