Alma Perdida
4 Capítulo 3
Nunca fui o tipo de pessoa que diz não gostar de hospitais. De alguma forma um pouco estranha, as paredes muito brancas, o movimento constante, porém silencioso e o cheiro de álcool me davam uma sensação de calma e cuidado. Entretanto, na sala de espera onde nos pediram para aguardar, eu sentia como se o teto pudesse me esmagar a qualquer instante.
Mamãe não parava de chorar desde que avisei do acidente. Beni andava de um lado para o outro sem parar, mais nervoso do que eu jamais o havia visto. Vinicius havia ido ao corredor buscar água, eu sabia bem o quanto ele detestava situações tensas como essa.
Eu me sentia sufocada pelo peso da situação, mas apenas permaneci sentada e imóvel agarrando os braços da fria cadeira de metal. Cada segundo parecia se arrastar enquanto não recebíamos notícias concretas.
Mal tive noção de quanto tempo se passou até um médico finalmente apareceu, com uma prancheta nas mãos.
—Os familiares de — ele olhou o papel preso a prancheta por um instante — Jonas Prado dos Anjos e Tomás Oliveira dos Anjos.
Praticamente pulamos na direção do médico, ávidos por notícias.
— São meu pai e meu irmão — adiantou-se Beni — Somos todos da família.
O médico deu um leve sorriso na intenção de nos tranquilizar, acho.
—O senhor Jonas teve apenas alguns ferimentos leves, além de um braço quebrado, mas passa bem. Ele foi levado para a enfermaria e deve ficar em observação pelas próximas vinte e quatro horas, por precaução. Logo vocês poderão ir vê-lo.
O suspiro aliviado de minha mãe foi audível, mas a sensação não durou muito tempo.
—Mas e Tom, e meu filho? — perguntou ela, recobrando o desespero.
Uma sombra pareceu cobrir o rosto do médico, embora ele tenha tentado manter a expressão controlada e a voz calma.
—Bem… — era possível perceber que estava tentando escolher as melhores palavras — O filho da senhora sofreu a maior parte do impacto do acidente. — ele fez uma pausa, e encarou todos nós antes de prosseguir — Possui fraturas no fêmur, em ambos os braços, além de uma perfuração nos pulmões e hemorragia interna. Ele foi levado imediatamente para a sala de cirurgia na tentativa de ser estabilizado para que então possamos analisar se há algum outro dano ainda não detectado.
Só levou dois segundos até os joelhos de minha mãe cederem. Segurei seu cotovelo do lado direito enquanto Beni correu para ampará-la do outro lado. Juntos ajudamos a senta-lá na cadeira de metal mais próxima. Seus olhos reviravam, mas sem realmente se fechar.
O médico ajoelhou na frente dela e segurou seu pulso. Tocamos seu rosto e chamamos seu nome enquanto ele fazia a medição.
De um súbito ela arregalou os olhos e as lágrimas irromperam deles.
—Meu filho — ela murmurava — meu filho, meu filho. Preciso ver meu filho.
—No momento ele não pode receber visitas — disse o médico, logo após limpar a garganta com um pigarro.
Uma voz vinda de um alto falante que não consegui localizar ecoou pela sala e pelos corredores. Era um chamado urgente para seja lá quem fosse o Doutor Gregório.
O médico que estava conosco endireitou o corpo.
—Preciso ir.
Ele gesticulou para o teto, provavelmente em direção aos alto falantes. Não me lembrava dele ter se apresentado anteriormente, mas estava tão focada em ter notícias que provavelmente não reparei. Ele era o Doutor Gregório.
—Assim que algo mudar vocês receberão notícias. Agora preciso ir, com licença.
Alguns minutos depois de o doutor Gregório se afastar, uma enfermeira de meia idade, cujo rosto transparecia o cansaço de horas seguidas de plantão, se aproximou com dois copos nas mãos. A mulher era gentil e orientou que minha mãe tomasse o comprimido que entregou a ela em um copinho plástico, junto a um outro copo, um pouco maior, com água.
Mamãe engoliu o comprimido com esforço enquanto os soluços ainda a atravessam. Fiz o possível para conter minhas próprias lágrimas e controlar a voz. Beni sempre agiu como um touro irritado sob situações complicadas e esbravejava consigo mesmo enquanto andava de um lado para o outro, vez ou outra estapeando cadeiras. Eu precisava ser a controlada, pelos dois.
Sai do lado de minha mãe e fui até Beni. Coloquei as mãos em seus ombros e o fiz parar.
—Beni — minha voz saiu como um sussurro, então pigarreei para limpar a voz — você precisa se acalmar.
Quando me encarou vi seus olhos vermelhos, mas não eram apenas as lágrimas, era raiva. Ele jogou as mãos para o alto, em um gesto irritado.
—Acalmar? — gritou, despertando olhares curiosos e reprovadores — Você espera que eu me acalme?
Uma enfermeira começou a ir apressada em nossa direção. A mensagem a ser transmitida estampada em seu rosto: Silêncio.
Fiz um gesto de desculpas para ela, já empurrando Beni em direção à porta com as mãos em seu peito, até que ele se virou e seguiu sozinho, com passos pesados, para fora.
No corredor fiz sinal para que falasse mais baixo.
—Gritar e bater em cadeiras não vai resolver o problema! — repreendi. — mamãe já está nervosa demais. Temos que ficar ao lado dela, temos que ter calma e confiar que os médicos farão seu trabalho.
—Você ouviu o médico! Tom está em estado gravíssimo. E o que causou esse acidente? Ele ainda não estava pronto pra dirigir por aí. Eu poderia ter dado umas aulas a ele, eu poderia…
—Papai estava com ele, Benjamim. Ainda nem temos certeza do que aconteceu. Além do mais você não podia ter feito nada, não estava lá! Nenhum de nós estava.
Ao me olhar novamente pude sentir a raiva esfriar um pouco e a dor tomar seu lugar, provavelmente seu peito estava explodindo mais que o meu. Seu corpo tremia um pouco e ele levou ambas as mãos ao rosto antes de um soluço projetar seu peito para frente.
Segurei seus pulsos e encarei seus olhos, cujas lágrimas agora escorriam livremente.
—Papai está bem, pelo menos isso é bom. — tentei tranquilizá-lo.
Meu irmão assentiu vagarosamente enquanto enxugava o rosto e respirava fundo.
—O que seria de nós sem você, hein? A mais controlada da família. — ele ergueu a mão e tocou meu cabelo, fazendo um rápido carinho. — Tem razão. Vou tentar me controlar. Mamãe precisa de nós. Tom precisa de nós.
Quando voltamos à sala de espera Beni se sentou ao lado de nossa mãe, enquanto eu me afastei um pouco e me acomodei na cadeira mais próxima à parede.
De repente, senti a mão de Vinicius em meu ombro. Para ser sincera quase havia me esquecido de sua presença silenciosa, embora constante. Ele tinha isso de bom, nunca iria querer me impor sua presença se percebesse que não era o momento. E ele sempre sabia o momento.
Ele puxou minha cabeça para sua camisa no momento exato em que não contive meus próprios soluços. Me agarrei a ele com toda a força para abafar os sons do choro. Suas mãos tão conhecidas envolveram minhas costas e sua bochecha encontrou o topo da minha cabeça.
Após certo tempo consegui encontrar forças para me desvencilhar e encarar seus olhos esverdeados.
—Obrigada — murmurei, fazendo o possível para limpar o nariz que aos poucos parava de escorrer.
Vinicius sorriu e a visão era reconfortante. Era o sorriso mais radiante que eu conhecia, mesmo que fosse apenas um gesto solidário.
—Vai dar tudo certo, meu amor, você vai ver — disse ele, com sua voz doce.
Eu queria acreditar nele com todas as minhas forças. Queria acreditar em meus próprios pensamentos que tentavam se manter otimistas, mas, no fundo, alguma parte de mim não acreditava. Eu podia sentir como se algo tivesse se rompido e não tinha certeza de como descrever isso.
Os sonhos vieram assim que a inconsciência do sono finalmente me dominou.
Havia uma luz ofuscante que me fazia precisar cobrir os olhos. Quando levantei as mãos para proteger as pálpebras percebi que segurava um pedaço de papel. Era aquela mesma foto do meu aniversário que eu havia guardado para levar para a nova casa de Beni. Forcei para visão para encará-la, parecia desgastada e o rosto de Tom estava riscado. Tive vontade de gritar. A imagem então começou a aquecer entre meus dedos até o ponto de não conseguir segurá-la. Soltei a fotografia e a observei cair no chão enquanto ardia num fogo vindo não sei de onde e se transformava em pó.
Acordei sentindo as lágrimas rolarem pelas bochechas. A mão de Vinicius afagava meu ombro e ele endireitou o corpo para me encarar.
—Ei, está tudo bem, calma. — disse, enquanto me abraçava e me esperava parar de soluçar.
—Que horas são? — perguntei, esfregando o rosto para afastar as lágrimas e os resquícios de sono.
—Três e meia. Você caiu no sono pouco depois das onze. Achei que precisava mesmo descansar um pouco.
—E Beni? Minha mãe? Mais alguma notícia?
—Beni levou sua mãe até a lanchonete há alguns minutos. E parece que a cirurgia de Tom terminou e o sangramento interno foi controlado, mas foi só o que disseram. Ah, e assim que amanhecer vocês podem ver seu pai, isso é ótimo, não é?
Balancei a cabeça em concordância.
Levantei então para esticar o corpo e me aproximei da janela, através da qual conseguia ver as luzes de algumas alas do hospital, além da movimentação, agora reduzida, porém ininterrupta de pessoas que chegavam e saiam a todo instante.
Observando o céu vi que não havia estrelas, nem lua, nada além da eletricidade para iluminar a escuridão carregada de nuvens.
Quando minha mãe e meu irmão retornaram a sala de espera, pedi a Vinícius que fosse buscar um café, para me ajudar a afastar de vez a sonolência da madrugada.
Depois de lavar o rosto e engolir o café em goles longos que desceu queimando minha garganta eu me sentia um pouco melhor, resolvi então dar uma volta pelos corredores. Vinicius se ofereceu para me acompanhar, mas eu precisava respirar e ficar um tempo sozinha e longe daquela sala.
Caminhei pelo corredor principal até a área dos elevadores. Desci até o primeiro andar, passei pela recepção e saí pela porta principal. Atravessei o pátio arredondado que dava acesso, de um lado, à entrada de pedestres e, na extremidade oposta à emergência e entrada de ambulâncias e me sentei no beiral que ficava sob as grades que circulavam o espaço, perto de um pequeno canteiro de flores um pouco murchas.
Meus pulmões se encheram com o ar perfumado, apesar dos resquícios de álcool e desinfetante. Recostei a cabeça na grade meio enferrujada e comecei a murmurar sozinha.
Também nunca fui muito religiosa. Minha mãe costumava frequentar a igreja católica algumas vezes no mês, mas nunca exigiu que nenhum de nós fosse com ela. Ela dizia que a fé e a vontade de seguir a Deus tem que vir do fundo de nossos corações e pode até ser apresentada, ensinada, mas nunca imposta. E, sinceramente, nunca me senti próxima o suficiente dele para agradecer ou pedir alguma coisa. Ainda assim, fechei os olhos e fiz o melhor que podia pedindo pela vida de meu irmão.
Quando terminei abri os olhos e olhei ao redor, tudo parecia estranhamente silencioso, até o ar parecia parado e pesado.
Um senhor, que eu não havia notado antes entrou de repente em meu campo de visão, fazendo meu coração dar um salto. Ele parou a cerca de um metro de distância e sorriu. Parte dos dentes faltava e a parte branca de seus olhos era leitosa de uma forma incômoda de olhar,
—Desculpe, mocinha — disse ele, com uma voz rouca e meio estridente — ouvi você, falando sozinha… quer dizer, parecia estar rezando. Estava rezando?
Pude sentir minha sobrancelha se erguer. Eu não queria conversar, especialmente com um estranho que apareceu do nada, mas, em nome da educação que recebi, respondi, meio exitante.
—Sim, eu estava.
—Agradecia algo em especial? — insistiu ele.
—Na verdade, não.
—O que então?
O sorriso sem dentes permanecia e algo me dizia que ela já sabia a resposta para suas perguntas, mas queria mesmo era me fazer falar.
—Estava pedindo pela vida do meu irmão — lancei um rápido olhar em direção ao prédio do hospital — pedindo para que ele fique bem.
O velho então gargalhou. Um som péssimo de se ouvir. Deu mais alguns passos em minhas direção, ficando próximo o suficiente para que eu sentisse seu cheiro forte e azedo que parecia a mistura de tabaco com ovos podres, se é que essa mistura existia.
Prendi a respiração e segurei a ânsia de vômito quando ele se inclinou.
—Ele — apontou para cima, em direção ao céu — só atende as preces de seus filhos. Você se considera um deles?
Na esperança de me livrar do homem me esforcei para responder depressa.
—Acho que todos somos.
Ele riu mais uma vez. Eu estava cansada demais para continuar lidando com aquele estranho.
—Continue pensando assim — Ele passou a língua pelos dentes — mas cuidado pra não se decepcionar.
Senti uma pontada na cabeça, talvez pelo cheiro forte e apertei os olhos por um instante, quando tornei a abri-los o homem não estava mais lá.
Entrei na sala de espera ainda sentindo a cabeça pesada. Vinicius dormia com a cabeça pendendo sobre o peito e por um instante quis acordá-lo para pedir um abraço, porém seria injusto. Apenas peguei sua jaqueta sobre o braço da cadeira e coloquei ao redor de seus braços. Depois, me sentei ao lado de Beni e alinhei a cabeça em seu ombro. Escutei-o murmurar algo, mas não entendi o que era. Talvez também estivesse rezando por Tom ou praguejando baixinho por não poder fazer nada a respeito.
A voz do homem ecoava no fundo da minha mente, junto com a lembrança repugnante de seu cheiro ruim. Ele não parecia acreditar que Deus podia me ouvir e eu queria acreditar que ele estava errado.
O problema era que, no fundo, em algum lugar que eu quase não tinha acesso, podia sentir que ele tinha razão.
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