All too well
3 Você é de Verdade?
Notas iniciais
"Oh, your sweet disposition and my wide-eyed gaze
We're singing in the car, getting lost upstate
Autumn leaves falling down like pieces into place
And I can picture it after all these days"
Capítulo 3: Você é de Verdade?
A manhã de sábado em Forks surgiu não com um sol radiante, mas com uma luminosidade suave e filtrada por uma névoa que parecia abraçar a mansão dos Cullen, conferindo à floresta ao redor um aspecto de conto de fadas esquecido pelo tempo. Bella acordou entre os lençóis de seda do quarto de hóspedes, sentindo o peso reconfortante do silêncio da casa, quebrado apenas pelo som distante de alguém tocando notas soltas ao piano no andar de baixo. Após um café da manhã repleto de risadas e o entusiasmo transbordante de Alice, o grupo decidiu que o dia pedia uma exploração pela trilha privativa que serpenteava a propriedade. Enquanto Alice e Jasper caminhavam alguns metros à frente, movendo-se com uma sintonia que parecia uma dança coordenada, Bella se viu caminhando ao lado de Edward, sentindo a umidade do ar contra seu rosto e o cheiro terroso de musgo e pinheiros que parecia ser a própria essência daquele lugar. Edward caminhava com as mãos nos bolsos da calça jeans, olhando para a copa das árvores com uma expressão de paz que Bella raramente via nele na escola, uma "sweet disposition" que a fazia esquecer todas as suas inseguranças de garota nova.
O caminho era forrado por um tapete denso de folhas secas em tons de âmbar, cobre e ouro velho, que estalavam sob as botas de Bella a cada passo que ela dava, fazendo-a olhar ao redor com um "wide-eyed gaze", um deslumbramento genuíno diante da magnitude da natureza que a cercava. Edward parava ocasionalmente para apontar algum detalhe!, modo como a luz atravessava uma teia de aranha orvalhada ou a textura de uma rocha coberta de líquen, e Bella sentia que ele não estava apenas mostrando a floresta, mas convidando-a para habitar sua própria mente. Eles se distanciaram um pouco de Alice e Jasper, e em uma clareira onde o chão era particularmente macio, Edward se sentou, encostando as costas em um tronco caído e convidando Bella com um gesto silencioso para que ela se juntasse a ele. Sem hesitar, ela se acomodou ao seu lado, e em um momento de coragem súbita, os dois acabaram deitando-se sobre o leito de folhas mortas, olhando para o teto de galhos entrelaçados enquanto o mundo exterior deixava de existir, restando apenas o som de suas respirações misturando-se à brisa gelada.
— Às vezes eu sinto que este lugar é a única coisa real em um mundo que parece feito de papel... você entende o que eu quero dizer? — perguntou Edward, virando o rosto para olhar Bella, que estava a apenas alguns centímetros de distância, com uma intensidade que parecia ler os pensamentos mais profundos dela antes mesmo que fossem formulados. Bella sentiu o coração acelerar, o toque das folhas secas contra seus cabelos castanhos emitindo um som rítmico enquanto ela retribuía o olhar, sentindo-se vulnerável e, ao mesmo tempo, incrivelmente segura sob a guarda dele. Ela observou a linha da mandíbula dele e a forma como a luz pálida realçava a cor de bronze de seus cabelos, sentindo uma urgência de tocar seu rosto, de confirmar que ele não era apenas uma construção de sua imaginação solitária em Forks.
— Eu entendo perfeitamente... — disse Bella sussurrando e olhando para Edward, sentindo o frio nas bochechas ser combatido pelo calor que emanava do corpo dele ao seu lado. — Em Phoenix, tudo é tão brilhante e rápido que você nunca tem tempo de realmente ver as coisas. Aqui, o tempo parece que se move mais devagar, como se nos desse permissão para sentir tudo de uma vez, sem pressa. — Edward sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto de uma maneira que fez Bella perder o fôlego por um segundo, e ele estendeu a mão para tirar uma folha pequena e alaranjada que havia pousado no ombro dela, deixando seus dedos roçarem a pele do pescoço de Bella por um segundo a mais do que o necessário, criando uma corrente elétrica que parecia incendiar o ar úmido da clareira.
Após algum tempo em silêncio, apenas ouvindo o farfalhar das árvores, eles se levantaram e continuaram a trilha até chegarem a um pequeno deck de madeira que se estendia sobre as águas escuras e imóveis de um lago escondido no coração da propriedade. Alice e Jasper já estavam longe, explorando uma encosta mais alta, deixando o deck inteiramente para eles, um refúgio isolado onde o som da água batendo suavemente nos pilares de madeira era a única música de fundo. Edward se sentou na beira do deck, balançando as pernas sobre a água, e tirou um par de fones de ouvido do bolso, oferecendo um dos lados para Bella com uma elegância silenciosa. Ela se acomodou ao seu lado, sentindo o ombro dele pressionado contra o dela, e quando a música começou a tocar, uma melodia de piano melancólica e profunda, Bella sentiu que as últimas barreiras de sua timidez estavam caindo, permitindo que ela se inclinasse levemente para apoiar a cabeça no ombro de Edward, fechando os olhos enquanto a harmonia dos sons e o frio do lago criavam uma bolha de intimidade absoluta.
A música parecia narrar a história que eles estavam começando a escrever, e Edward, sentindo a proximidade de Bella e a confiança que ela depositava nele, virou-se lentamente, seus olhos fixos nos lábios dela que tremiam levemente devido ao frio e à ansiedade. O mundo ao redor silenciou; a floresta, o lago e a própria música tornaram-se apenas molduras para o momento em que Edward aproximou o rosto do dela, permitindo que ela sentisse o calor de sua respiração antes do contato final. Ele hesitou por uma fração de segundo, como se pedisse permissão, e Bella respondeu fechando os olhos e inclinando-se em sua direção, reduzindo o espaço final até que seus lábios se encontrassem em um beijo que era, ao mesmo tempo, uma descoberta e uma promessa. Era um beijo suave, com gosto de inverno e de uma doçura que Bella nunca havia experimentado, uma sensação de que tudo o que ela vivera até aquele momento a levara exatamente para aquele deck, naquela tarde cinzenta em Forks.
Quando se afastaram, apenas o suficiente para que suas testas permanecessem encostadas uma na outra, Bella abriu os olhos e encontrou Edward olhando para ela com uma expressão de deslumbrado, como se ele fosse quem estivesse vendo o mundo pela primeira vez. Ele levou a mão à nuca de Bella, os dedos perdendo-se nos fios de seu cabelo úmido pela névoa, e soltou um suspiro longo que pareceu carregar todo o peso das expectativas e medos que ele guardava para o futuro. Ali, no silêncio do lago, a ideia de que ele partiria em alguns meses parecia uma mentira distante, uma realidade que eles se recusavam a aceitar enquanto o "momento certo" finalmente parecia ter chegado para eles, mesmo que o mundo lá fora continuasse girando em uma direção oposta.
— Eu não sabia que poderia me sentir assim... — disse Edward em um murmúrio contra os lábios de Bella, sua voz carregada de uma vulnerabilidade que a fez querer abraçá-lo e nunca mais soltar. Bella sentiu uma lágrima solitária de emoção escorrer por seu rosto, mas ela não a limpou; ela apenas sorriu, segurando a mão de Edward com força enquanto a música continuava a tocar no fone de ouvido, selando aquele momento como a primeira grande obra-prima de suas vidas, uma lembrança que eles guardariam, acontecesse o que acontecesse, "muito bem" para o resto de seus dias.
Edward permaneceu com a mão emaranhada nos cabelos de Bella, sentindo a textura fina dos fios entre seus dedos, enquanto o silêncio do lago parecia amplificar a conexão que acabara de se solidificar entre eles. Ele a observava com uma curiosidade quase científica, mas tingida de uma ternura que o assustava; ele, que sempre se sentira um observador cínico da vida alheia, agora se via como protagonista de uma narrativa que não conseguia controlar. Bella, por sua vez, sentia que o peso constante em seu peito, aquela sensação de ser uma peça de quebra-cabeça em uma caixa errada, havia simplesmente evaporado, substituída por uma leveza que a fazia querer rir e chorar ao mesmo tempo. A água escura do lago refletia o céu carregado, mas para Bella, a única luz que importava vinha do brilho âmbar nos olhos de Edward, que pareciam ter encontrado nela o porto seguro que ele nem sabia que estava procurando em meio à sua rotina de "garoto de ouro" da cidade.
— Sabe, Bella... eu passo a maior parte do meu tempo tentando ser o que todo mundo espera que eu seja. O filho perfeito para meus pais, o irmão protetor para a Alice, o capitão que nunca vacila, o aluno nota dez...— começou Edward, sua voz caindo para um tom confidencial, quase um segredo compartilhado apenas com o vento que soprava sobre o deck. — Mas quando estou com você, sinto que posso simplesmente ser eu mesmo. Sem as expectativas, sem o roteiro. É como se você tivesse me dado permissão para tirar a máscara. — Ele desviou o olhar para o horizonte por um segundo, uma sombra de dúvida cruzando seu rosto anguloso, antes de voltar a encarar Bella com uma honestidade que a desarmou. — Isso me assusta um pouco. A facilidade com que você entrou em um lugar que eu mantinha trancado de todo mundo.
— Eu também tenho medo, Edward... — respondeu Bella, sua voz saindo pequena, mas firme, enquanto ela entrelaçava seus dedos nos dele, sentindo a firmeza da mão que agora parecia ser sua única âncora. — Em Phoenix, eu era invisível, e eu gostava disso, era seguro. Mas aqui, com você, eu me sinto vista e ser vista significa que eu posso ser ferida. Mas quando você olha para mim... eu sinto que valeria a pena. Cada segundo de medo valeria a pena só para ter essa tarde, esse silêncio e esse jeito que você tem de me fazer sentir que eu sou a única pessoa no mundo que realmente importa.
Edward apertou a mão dela, levando-a aos lábios e depositando um beijo suave em seus nós dos dedos, um gesto carregado de uma reverência silenciosa que fez o coração de Bella bater contra as costelas como um pássaro engaiolado.
Eles passaram o restante da tarde conversando sobre coisas que nunca haviam dito a mais ninguém: Bella confessou sua saudade melancólica do sol do deserto e como se sentia culpada por deixar a mãe, enquanto Edward falou sobre a pressão invisível de ter que escolher uma universidade que o levasse para longe de Forks, uma cidade que ele amava e odiava na mesma medida. As palavras fluíam entre eles com a naturalidade da chuva que começava a cair novamente, uma garoa fina que os obrigou a se levantarem e caminharem lentamente de volta para a casa. No caminho, Edward passou o braço pelos ombros dela, protegendo-a do frio, e Bella se aninhou em seu lado, sentindo que aquele era o início de algo que não poderia ser desfeito; uma colisão de almas que, para o bem ou para o mal, mudaria a trajetória de suas vidas de forma irreversível e absoluta.
Três Meses Depois
O outono em Forks havia atingido seu ápice de cores ardentes antes de começar a ceder lugar ao cinza gélido do início do inverno, e com a mudança das estações, o relacionamento de Bella e Edward havia se tornado a força gravitacional de suas existências. O que começara com um beijo tímido em um deck de madeira transformara-se em um namoro sério, profundo e quase exclusivo, uma bolha de intimidade que nem mesmo a agitação da escola ou os olhares curiosos dos outros alunos conseguia romper. Eles haviam se tornado uma unidade; onde um estava, o outro era uma presença garantida, seja nas tardes de estudo na biblioteca onde trocavam bilhetes escondidos entre as páginas de livros de poesia, ou nas noites de sexta-feira na casa de Charlie, onde Edward conquistara o xerife com sua educação impecável e seu respeito silencioso pela filha dele. Bella não era mais a "garota nova" invisível; ela era a metade de Edward Cullen, e ele, por sua vez, parecia ter abandonado sua pose de tédio para viver em um estado de vigília constante, sempre atento a cada sorriso ou suspiro de Bella.
Certa noite, enquanto a neve começava a cair levemente do lado de fora da casa dos Cullen, eles estavam jogados no tapete da sala de estar, cercados por discos de vinil e livros de literatura clássica que Edward insistia em ler em voz alta para ela. A lareira estalava, lançando sombras quentes sobre o rosto de Bella, que estava deitada com a cabeça no colo de Edward enquanto ele passava os dedos distraidamente por seus cabelos, um hábito que se tornara o calmante favorito de ambos. O ar na sala estava carregado com o cheiro de cedro e o perfume de morangos de Bella, uma combinação que para Edward agora significava "lar" mais do que qualquer estrutura física jamais poderia. Eles haviam ultrapassado a fase das descobertas superficiais e agora habitavam as fendas um do outro, conhecendo os medos noturnos e os sonhos mais absurdos que guardavam.
— Você já parou para pensar que, daqui a alguns meses, tudo isso vai mudar? — perguntou Bella, sua voz quebrando o silêncio confortável da sala com uma nota de ansiedade que ela vinha tentando esconder há semanas. Ela olhou para cima, encontrando os olhos de Edward que, naquele momento, pareceram escurecer de preocupação, refletindo o mesmo medo que assombrava os pensamentos dela sempre que o assunto da formatura surgia. — As cartas das universidades estão chegando, Edward. Você vai partir. E eu... eu ainda vou estar aqui, no primeiro ano, vivendo em um mundo que você me ensinou a amar, mas que sem você vai parecer apenas vazio.
Edward parou o movimento de seus dedos e inclinou-se para frente, colando sua testa na dela, sentindo a respiração de Bella falhar por um segundo diante da intensidade de sua proximidade. Ele fechou os olhos, como se tentasse bloquear a realidade do calendário que avançava implacavelmente, querendo congelar aquele momento no tapete da sala para sempre.
— Eu não quero pensar no depois, Bella. No agora, você é a única coisa que me mantém são neste lugar. — disse Edward em um sussurro carregado de uma dor latente, suas mãos emoldurando o rosto dela com uma delicadeza desesperada. — Eu sei que o tempo está contra nós, eu sei que o mundo espera que eu siga um caminho e você outro. Mas eu prometo a você, aqui e agora, que não importa para onde eu vá, ou quão longe eu esteja... eu vou levar você comigo. No meu cachecol, na minha música, em cada pensamento meu...Você me ensinou sobre o seu passado, Bella, pensando que eu seria o seu futuro e eu quero ser...Eu realmente quero ser...
O beijo que se seguiu foi amargo de saudade antecipada e doce de um amor que se recusava a aceitar as limitações da realidade, selando-os em um compromisso que, embora sagrado, começava a carregar o peso inevitável do que eles já previamente: o perigo de lembrar de tudo muito bem, quando o resto do mundo insiste em seguir em frente.
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