All too well

9 O Peso da Memória


"And I was never good at telling jokes, but the punch line goes

"I'll get older, but your lovers stay my age"

"From when your Brooklyn broke my skin and bones"

Dois Anos Depois

​O inverno de Boston era mais agressivo do que Bella recordava, mas agora ela o enfrentava de dentro de uma redoma de vidro e sucesso. Aos vinte anos, cursando jornalismo, ela não era mais a garota que esperava na escada; ela era a voz de uma geração. Sua saga de romances, intitulada All Too Well, havia se tornado um fenômeno cultural, uma autópsia poética de um primeiro amor que foi uma "obra-prima destruída". No livro, Bella havia concedido a si mesma a misericórdia que a vida real lhe negara: naquelas páginas, os protagonistas superavam o abismo da distância e as luzes frias da cidade para ficarem juntos no fim.

​Naquela noite, a vitrine de uma luxuosa livraria na Back Bay exibia seu rosto em cartazes imensos. Lá dentro, Bella, com um suéter de gola alta e os cabelos castanhos caindo em ondas maduras, autografava livros para uma fila interminável de jovens que viam nela a prova de que era possível sobreviver a um coração partido.

​Do lado de fora, parado na calçada sob a neve que começava a acumular, Edward a observava através do vidro frio. Ele parecia mais velho, o rosto marcado pela exaustão de quem galgara todos os degraus do sucesso jurídico em Boston, mas perdera a fundação de sua própria felicidade. Em volta do pescoço, ele usava o cachecol listrado. O tecido estava gasto, as cores levemente desbotadas, mas para Edward, ele ainda retinha o fantasma do cheiro de morango e inverno, a única coisa que o mantinha ancorado à versão de si mesmo que ele ainda respeitava. Ele via Bella rir para uma fã, via a segurança em seus gestos e a luz em seus olhos, e sentia o peso insuportável de saber que era o vilão da história favorita de todo o país. Ele era apenas um espectador da própria vida, separado dela por um vidro que era, ao mesmo tempo, transparente e intransponível.

Alguns Meses Depois...

​O sol de primavera em Forks era pálido, mas trazia uma promessa de renovação que parecia ironizar o estado de espírito de Edward. O casamento de Alice e Jasper na mansão dos Cullen era o evento social da década na cidade, um cenário de flores brancas e seda que Alice planejara com a precisão de um sonho. Edward permanecia em um canto do jardim, segurando uma taça de champanhe que parecia ter gosto de cinzas, tentando evitar os olhares de piedade de Esme.

​Foi quando ela chegou.

​Bella caminhava pelo gramado com uma elegância que fez o ar escapar dos pulmões de Edward. Ela não estava sozinha. Ao seu lado, um homem alto, de ombros largos e um sorriso que parecia carregar todo o sol que Forks raramente via, mantinha a mão possessivamente em sua cintura. Era Jacob Black. Edward sentiu uma pontada de reconhecimento amargo; Jacob era o oposto dele, era quente, era terra, era a estabilidade que Edward trocara pela ambição.

​— Eles parecem felizes, não parecem? — A voz de Emmett surgiu ao lado de Edward, desprovida da habitual brincadeira. Ao lado dele, Jasper observava a cena com uma seriedade empática.

​— Ela está radiante — murmurou Edward, incapaz de desviar o olhar do modo como Bella se inclinava para rir de algo que Jacob dissera.

​— O noivado foi há três meses — soltou Jasper, a voz baixa, como se aplicasse um curativo em uma ferida aberta. — Jacob deu a ela um anel que pertenceu à avó dele. Eles estão planejando o casamento para o próximo verão, na reserva.

​Edward sentiu o mundo girar. Noiva. A palavra ecoava em sua mente como um martelo. Ele observou quando Bella parou para falar com Alice, as duas se abraçando como as almas irmãs que sempre foram. Em um breve momento, os olhos de Bella cruzaram o gramado e encontraram os dele. Não houve ódio, não houve fúria, nem mesmo a mágoa daquela manhã na varanda. Houve apenas uma gentileza distante, a cortesia que se reserva a um estranho que um dia conhecemos muito bem.

​Ele a viu tocar o rosto de Jacob, um gesto de doçura absoluta que Edward reconheceu como o "sagrado" que ele mesmo profanara. Ele percebeu, com uma dor que o fez querer se dobrar, que Jacob agora habitava a cozinha sob a luz da geladeira; Jacob era quem ouvia as ideias dela; Jacob era quem estava presente no aniversário que Edward esquecera.

​Edward permaneceu ali, sofrendo em um silêncio ensurdecedor, enquanto a música do casamento celebrava um amor que não era o seu. Ele tinha sua carreira, sua inteligência e sua vida brilhante, mas ao observar Bella e Jacob se afastarem em direção à pista de dança, ele soube que a oração sagrada do amor deles fora respondida por outro homem. Ele era o homem que ficara com o cachecol, mas Jacob era o homem que ficara com o coração. E a lembrança de tudo aquilo, de cada detalhe da obra-prima que ele rasgara, seria a sua única e eterna sentença.

O ar no jardim dos Cullen parecia ter se tornado subitamente rarefeito. Edward observava a interação de Bella com Jacob, sentindo-se um intruso em um território que ele mesmo havia abandonado. O peso do cachecol em seu pescoço parecia sufocá-lo, uma relíquia de um tempo que a mulher à sua frente parecia ter superado com uma maestria invejável. Quando Alice se afastou para cumprimentar outros convidados, Bella e Jacob começaram a caminhar em direção à mesa de bebidas, o caminho deles cruzando inevitavelmente com o ponto onde Edward permanecia estático.

​O encontro foi inevitável, como uma colisão em câmera lenta que Edward não tinha forças para evitar. Bella parou a poucos metros dele. O olhar dela, agora mais maduro e profundo, encontrou o dele, e por um microssegundo, a máscara de autoconfiança de Edward rachou.

​— Edward — disse ela, a voz estável, mas carregada de uma ressonância que ele não ouvia há anos. Não havia o tremor da mágoa, apenas uma polidez cristalina.

​— Bella — respondeu ele, a garganta seca. Ele forçou um aceno para o homem ao lado dela.

​— Edward, este é Jacob Black, meu noivo — Bella o apresentou, a mão repousando com naturalidade sobre o braço de Jacob. Então, virando-se para Jacob com um sorriso que não chegava a atingir a melancolia em seus olhos, ela continuou: — Jake, este é o Edward, o irmão da Alice.

​A apresentação foi como uma adaga de gelo no peito de Edward. Irmão da Alice. Ele fora reduzido a um parentesco lateral, uma nota de rodapé na história dela, despojado de qualquer título de ex-namorado ou grande amor. Jacob estendeu uma mão grande e calejada, apertando a de Edward com uma força que demonstrava tanto vitalidade quanto uma proteção instintiva.

​— Prazer, Edward. A Alice fala muito de você, embora diga que você quase nunca sai de Boston — disse Jacob, seu tom era amigável, mas possuía a autoridade de quem sabia que era o porto seguro de Bella agora.

​— O Direito exige muito tempo — murmurou Edward, as palavras saindo automáticas. Ele olhou para Bella, ignorando o protocolo social por um momento. — Eu li o seu livro, Bella. All Too Well. Eu... eu reconheci cada detalhe. Cada conversa na cozinha, cada estrada por onde passamos. Você escreveu uma obra-prima. Especialmente o final.

​Bella desviou o olhar por um breve instante, observando as flores brancas do altar de Alice. Um silêncio denso se instalou entre eles, preenchido apenas pelo som distante da música do casamento.

​— O final do livro é o que eu gostaria que tivesse acontecido, Edward — disse ela, sua voz caindo para um sussurro que Jacob, distraído por um garçom que passava, não ouviu de imediato. — Mas a ficção é o único lugar onde o tempo volta para consertar o que foi rasgado.

​Jacob voltou sua atenção para o casal, envolvendo Bella pelos ombros e puxando-a para mais perto de si. O calor que emanava de Jacob era quase visível, um contraste gritante com a aura gélida que Edward carregava de Boston.

​— Ela é modesta, Edward. Esse livro mudou a vida dela, mas o que vem por aí é muito melhor — disse Jacob, com um brilho de orgulho e uma euforia que ele não conseguia mais conter. — Estamos em uma fase de muitas celebrações. Além do noivado, a Bella está sendo uma guerreira com os enjoos, mas não vemos a hora de o nosso pequeno Black chegar.

​O mundo ao redor de Edward parou. O tilintar dos cristais, as risadas dos convidados e até o sopro do vento nas árvores desapareceram, deixando apenas o eco daquela frase. O nosso pequeno Black chegar.

​Edward sentiu o sangue fugir de seu rosto, as mãos pendendo sem vida ao lado do corpo. Ele olhou para o ventre de Bella, ainda imperceptível sob o tecido fluido do vestido, mas a revelação foi como um impacto físico que o deixou sem respiração. Bella estava grávida. Ela estava carregando a vida, o futuro e a linhagem de outro homem. O futuro que ele um dia ousara imaginar para si mesmos, enquanto a segurava sob a luz da geladeira, agora pertencia irremediavelmente a Jacob.

​— Você... você está grávida? — a voz de Edward foi apenas um sopro, os olhos fixos nos dela em um misto de choque e agonia pura.

​Bella sustentou o olhar dele. Por um instante, a fachada de escritora de sucesso e noiva feliz oscilou. Edward viu nela uma sombra de dúvida, uma centelha de algo incompleto que Jacob, com todo o seu calor e proteção, ainda não conseguira preencher. Havia um vazio entre eles que nem mesmo o sucesso ou a nova vida podiam mascarar, uma peça do quebra-cabeça que ficara perdida na tradução em Boston.

​— Sim, Edward — respondeu Bella, e houve uma nota de tristeza oculta em sua confirmação. — A vida segue em frente, mesmo quando sentimos que parte de nós ficou paralisada no passado.

​Jacob, percebendo a mudança drástica no clima, mas sem entender a profundidade do que acabara de acontecer, beijou a têmpora de Bella.

​— Vamos, querida? Alice está nos chamando para as fotos de família. Foi um prazer, Edward.

​Edward observou-os se afastar. Ele viu Jacob guiar Bella com um cuidado quase reverencial, a mão espalmada sobre as costas dela. Ele sentiu o peso do cachecol em seu pescoço, o objeto que ele roubara para sentir o cheiro dela, e percebeu que agora ele era apenas um colecionador de cinzas. Bella estava construindo uma vida, uma família, um legado. No entanto, o modo como ela o olhara antes de partir, aquele brilho de incompletude , deixou uma semente de dúvida plantada no solo infértil de seu arrependimento.

​Ela tinha tudo. Mas, por algum motivo que nem ela mesma conseguia explicar sob a luz forte do presente, ela ainda não se sentia inteira. E Edward, paralisado no jardim de sua própria ruína, perguntava-se se no último capítulo da história deles, a tinta ainda teria força para escrever um novo final, ou se eles estavam, de fato, mortos, enterrados e reduzidos a uma lembrança que ele conhecia... muito bem.

Notas finais
Este capítulo foi um golpe de misericórdia para o Edward, não foi? 🧣🏹 ​Eu queria que a revelação da gravidez fosse o ápice do sofrimento dele. Nada dói mais do que ver o futuro que você planejou sendo vivido por outra pessoa. A introdução do Jacob como o "porto seguro" da Bella serve para mostrar que ela tentou se curar, que ela buscou o sol, mas a sombra do que viveu com o Edward em Boston ainda é uma mancha que ela não consegue apagar totalmente. ​A Bella está grávida e noiva, mas como vocês viram, existe uma "incompletude" nela. Isso é muito fiel à música da Taylor Swift; às vezes, você segue em frente, você reconstrói sua vida, mas aquela "ferida da chama gêmea" ainda te pinta de azul. Deixamos a porta entreaberta para o capítulo final: será que o amor deles é forte o suficiente para superar uma traição, um noivado e um filho de outro homem? Ou o destino deles é realmente ser apenas uma lembrança dolorosa? ​ ​Qual a aposta de vocês para o final? Redenção ou cada um seguindo seu caminho? Comentem abaixo ♡