All too well

10 Onde o Inverno se Torna Lar


"And I know it's long gone and there was nothing else I could do

And I forget about you long enough to forget why I needed to"


Forks, Dez Anos Depois do Fim do namoro

O asfalto úmido de Forks refletia o cinza prateado do céu, uma imagem que Edward Cullen carregava gravada na retina, mesmo após uma década vivendo sob as luzes artificiais e o ritmo frenético da Costa Leste. Aos 32 anos, Edward não era mais o jovem impetuoso que acreditava que o sucesso em Boston preencheria o vazio em seu peito. Ele voltara para casa. Não como uma derrota, mas como um homem que finalmente entendera que a paz vale mais do que o prestígio.

Ao estacionar diante da residência de Alice e Jasper, ele sentiu o ar denso da floresta limpar seus pulmões. Alice o recebeu com um abraço que cheirava a lavanda e bebê. Em seus braços, ela carregava seu segundo filho, um pequeno feixe de vida que parecia alheio às tempestades passadas.

— Você demorou a voltar, Ed — Alice comentou, enquanto se acomodavam na sala inundada pela luz fraca da tarde. — Mas Forks tem um jeito de esperar pelas pessoas.

— Eu precisei de dez anos para aprender o que você já sabia, Alice — ele admitiu, os olhos dourados observando o movimento das árvores lá fora. — Como ela está? Eu soube... do casamento. Do Jacob.

Alice suspirou, ajeitando a manta do bebê.

— Eles se separaram há quase dois anos, Edward. Jacob é um homem maravilhoso, um pai exemplar, mas a Bella... ela nunca pareceu estar inteiramente lá. Sabe quando você olha para uma obra de arte e percebe que falta uma cor essencial? Ela era assim com o Jake. Eles tentaram, pela pequena Taylor, mas chegaram à conclusão de que mereciam mais do que um amor de conveniência.

O coração de Edward, que ele julgava estar anestesiado pela rotina jurídica, deu um solavanco. Antes que pudesse processar a informação, o som de um carro parando na brita da entrada ecoou. Minutos depois, a porta se abriu e uma garotinha de cerca de seis anos entrou correndo, com cachos negros saltitando e um sorriso que era a imagem de Jacob Black, mas com o olhar profundo de Bella.

— Tia Alice! O bebê acordou? — Taylor perguntou, parando abruptamente ao notar a presença do estranho no sofá.

Logo atrás dela, Bella Swan entrou. Aos 28 anos, ela era uma visão de serenidade e força. O jornalismo e a literatura a haviam transformado; ela era uma mulher que encontrara sua voz nas páginas de seus livros, mas o reencontro físico com Edward fez o tempo sofrer uma distorção violenta. Por um instante, não eram adultos de trinta e poucos anos; eram novamente os jovens do deck, da cozinha, do adeus doloroso.

— Edward — ela sussurrou, e o nome dele pareceu encontrar seu lugar de direito no ar de Forks.

— Bella.

O reencontro foi o prelúdio de uma noite que mudaria tudo. Horas depois, após Alice levar Taylor para brincar, Edward e Bella se viram sozinhos na varanda. O convite para jantar veio naturalmente, um "recomeço" que ambos sabiam ser a última peça do quebra-cabeça.

Quatro Anos Depois do Recomeço

A casa dos Cullen-Swan em Forks era uma estrutura de vidro e madeira que parecia brotar organicamente da floresta. Era uma casa cheia de vida, de pilhas de livros e de brinquedos espalhados pelo tapete da sala. Na cozinha, sob a mesma luz que um dia testemunhou uma dança solitária, Edward terminava de preparar o café da manhã.

— Pai! O Tony pegou meu tablet de novo! — O grito de Taylor, agora com dez anos, desceu as escadas.

Edward sorriu, limpando as mãos no avental.

— Tony, devolva para sua irmã! Você tem os seus blocos de montar, rapazinho.

Um menino de três anos, com o cabelo cor de bronze desalinhado e os olhos castanhos de Bella, apareceu correndo, rindo de forma travessa. Tony era a imagem viva da reconciliação deles, um milagre que Edward nunca achou que mereceria. Ele pegou o filho no colo, enchendo-o de beijos até que o pequeno soltasse uma gargalhada ruidosa.

— Bom dia, meus amores — a voz de Bella surgiu da porta. Ela caminhava com uma mão nas costas e a outra acariciando o ventre proeminente. Aos 32 anos, Bella estava grávida pela terceira vez, irradiando uma plenitude que fazia Edward se sentir o homem mais rico do mundo.

— Bom dia, escritora — Edward aproximou-se, beijando-a com uma ternura que os anos só fizeram aumentar. — Como está o nosso terceiro passageiro hoje?

— Chutando como se estivesse jogando uma final de campeonato — ela riu, sentando-se à mesa.

A porta da frente se abriu sem cerimônias, e Jacob Black entrou, trazendo uma caixa de ferramentas e um sorriso amigável. A relação entre eles era um testemunho da maturidade. Jacob e Edward haviam passado por cima do passado em prol da família que, de formas diferentes, ambos compartilhavam.

— E aí, família? Vim consertar aquela prateleira que a Bella disse que ia cair — Jacob anunciou, bagunçando o cabelo de Taylor enquanto ela descia as escadas.

— Oi, papai! — Taylor abraçou Jacob com força, antes de se virar para Edward. — Pai, você me ajuda com o trabalho de história depois do café?

Ouvir Taylor chamar ambos de "pai" era algo que ainda trazia lágrimas aos olhos de Edward. Ele era o pai de coração, aquele que lia histórias à noite e que estivera presente em cada feira de ciências desde o recomeço. Jacob era o pai biológico, o porto seguro de sangue, e juntos, eles formavam uma rede de proteção inquebrável para a menina.

— Claro que ajudo, querida — Edward respondeu, trocando um olhar de cumplicidade com Jacob. — O Jake fica para o café? Fiz aqueles muffins que você gosta.

— Nunca recuso comida de advogado — Jacob brincou, sentando-se à mesa e pegando Tony no colo, que o adorava.

Mais tarde, o jardim da casa tornou-se o palco de uma cena que Bella desejou eternizar em palavras. Charlie Swan estava sentado em um banco de madeira, com o pequeno Tony escalando seus joelhos enquanto Taylor tentava ensiná-lo a pescar em um pequeno lago artificial. Charlie, agora com os cabelos mais brancos, mas com o mesmo brilho protetor no olhar, ria das travessuras dos netos.

Edward aproximou-se de Bella, que observava a cena da varanda, envolvendo-a em um abraço por trás.

— Você alguma vez imaginou que terminaríamos assim? — ele sussurrou em seu ouvido. — Depois de Boston, depois de tudo o que eu quebrei?

Bella encostou a cabeça em seu ombro, observando Jacob e Charlie brincando com as crianças.

— No meu livro, eu escrevi que o final era o que eu desejava que tivesse acontecido. Mas a realidade... a realidade é muito melhor do que a ficção, Edward. Porque na ficção, as cicatrizes somem. Na realidade, nós as carregamos, e elas nos lembram que fomos fortes o suficiente para sobreviver ao inverno e construir a nossa própria primavera.

— Eu ainda tenho o cachecol, sabe? — Edward confessou. — Ele está na gaveta do Tony. Às vezes, quando ele não consegue dormir, eu o coloco perto dele. Ele diz que o cheiro o acalma.

Bella virou-se nos braços dele, os olhos brilhando.

— O cheiro de morango e de recomeços.

— Eu te amo, Bella.

— Eu te amo, Edward. E desta vez, o tempo não está nos paralisando. Ele está apenas nos dando espaço para crescer.

O sol de Forks, raro e precioso, rompeu as nuvens, iluminando a casa grande cheia de vozes, risadas e uma paz que fora conquistada a duras penas. Eles haviam passado pela tradução errada, pela dor da traição e pelo vazio da ausência, mas ali, cercados por seus filhos e pelo amor que se recusou a morrer, eles finalmente encontraram a oração sagrada que a música sempre prometeu. A obra-prima não estava mais rasgada; ela fora restaurada com o ouro da verdade, tornando-se eterna.

A tarde avançou com aquela lentidão preguiçosa que só os domingos em Forks parecem possuir. Enquanto Jacob e Charlie levavam as crianças para o quintal, o som das risadas de Tony misturado aos gritos de empolgação de Taylor criando a trilha sonora perfeita , Edward e Bella permaneceram na cozinha, dividindo o silêncio confortável de quem já não precisava de palavras para preencher os espaços vazios.

Edward começou a lavar a louça do café, seus movimentos precisos e calmos. Bella o observava, encostada no balcão, sentindo o peso reconfortante da nova vida que carregava em seu ventre.

— Você está muito quieta, Sra. Cullen — Edward comentou, sem desviar os olhos da espuma de sabão, um sorriso de canto surgindo em seu rosto. — Isso geralmente significa que um novo capítulo está sendo escrito na sua cabeça.

— Não é um capítulo — ela respondeu, aproximando-se e passando os braços pela cintura dele, descansando o rosto em suas costas. — É só um pensamento. Estava lembrando de como eu costumava odiar o silêncio desta cidade quando você não estava aqui. Ele parecia... opressor. Como se o tempo estivesse zombando de mim.

Edward desligou a torneira e secou as mãos, virando-se dentro do abraço dela. Ele a envolveu com cuidado, sentindo a barreira protetora que o corpo de Bella formava ao redor do filho deles.

— E agora? — ele perguntou, baixando a voz.

— Agora o silêncio parece uma recompensa. Como se finalmente tivéssemos parado de correr um contra o outro — Bella olhou para cima, encontrando os olhos dourados que agora refletiam apenas paz. — Eu estava conversando com a Alice ontem. Ela disse que você nunca jogou fora aquele envelope pardo. O das passagens para Boston.

Edward hesitou por um segundo, a sombra de uma lembrança antiga cruzando seu rosto.

— Eu guardei. Está na mesma caixa que o cachecol. Eu o mantenho lá para nunca esquecer que houve um tempo em que eu achei que o meu sucesso era mais importante do que a sua presença. É o meu lembrete de que a "brilhança" não vale nada se eu não tiver para quem voltar.

— Nós fomos tão imprudentes, não fomos? — ela riu baixinho, um som carregado de uma maturidade que os 28 anos lhe trouxeram. — Mas acho que se não tivéssemos nos perdido na tradução naquela época, não saberíamos falar a mesma língua tão bem agora.

Nesse momento, a porta dos fundos se abriu com um estrondo. Taylor entrou correndo, com as bochechas coradas pelo frio e as mãos sujas de terra, seguida por um Tony que tentava, sem sucesso, imitar os passos largos da irmã mais velha.

— Pai! — Taylor gritou, correndo para Edward. — O vovô Charlie disse que você prometeu nos levar para ver as luzes na cidade hoje à noite. Ele disse que você é um "advogado importante", mas que não pode fugir de uma promessa para uma criança de dez anos.

Edward gargalhou, pegando Taylor no colo e, com o outro braço, içando Tony, que se agarrou à sua perna.

— O vovô Charlie tem uma língua muito comprida — brincou Edward, olhando para Bella com um brilho cúmplice. — Mas ele está certo. Promessas em Forks são sagradas. Especialmente as de aniversário.

— Eu vou terminar de arrumar as coisas — Bella disse, sentindo uma onda de gratidão transbordar. — Jake, você vem com a gente?

Jacob, que apareceu na porta logo atrás de Charlie, limpando o suor da testa, sorriu para o grupo.

— Adoraria, mas combinei de encontrar a Leah na reserva. Mas eu passo aqui amanhã para pegar a Taylor para a escola, tudo bem?

— Combinado — Edward respondeu, estendendo a mão para Jacob em um cumprimento firme e sincero. — Obrigado pela prateleira, cara.

— Disponha, Cullen. Só não deixe a Bella empilhar todos os livros dela de uma vez só — Jacob piscou para Bella, deu um beijo na testa de Taylor e saiu, caminhando em direção à sua caminhonete com a leveza de quem finalmente encontrara seu lugar no mundo, mesmo que não fosse o lugar que ele imaginara anos atrás.

À noite, a casa grande em Forks estava mergulhada em uma luz suave. Charlie já havia partido, e as crianças finalmente haviam cedido ao cansaço, dormindo no quarto que dividiam, Taylor na cama de cima e Tony em seu berço, com o velho cachecol listrado de Edward servindo de proteção ao pé de seus sonhos.

Edward e Bella estavam no deck, observando a neblina subir da floresta. Ele a cobriu com uma manta pesada, sentando-se ao seu lado.

— Você está feliz, Bella? — ele perguntou, uma pergunta que ele fazia com frequência, como se ainda estivesse se certificando de que não era um sonho.

— Mais do que no livro, Edward — ela respondeu, segurando a mão dele e entrelaçando seus dedos. — Porque no livro, os personagens ficam juntos, mas eles não têm a bagunça que nós temos. Eles não têm o Jake, eles não têm a Taylor, eles não têm essa história de dez anos de espera. A nossa realidade é muito mais rica do que qualquer parágrafo que eu possa escrever.

Ele a puxou para mais perto, beijando o topo de sua cabeça enquanto o frio de Forks tentava, em vão, penetrar o calor que eles haviam construído.

— Eu lembro de tudo, Bella — sussurrou ele, a frase que antes era uma marca de dor agora tornando-se um selo de compromisso.

— Eu também — ela sorriu, fechando os olhos. — E, pela primeira vez, lembrar de tudo é o que me faz querer acordar amanhã.

O inverno estava lá fora, mas dentro deles, a chama gêmea não causava mais hematomas. Ela apenas iluminava o caminho para casa.

Fim...

Notas finais
E assim, fechamos o ciclo com o "Momento Certo" que tanto esperávamos. 🧣✨ Este capítulo final foi sobre a redenção total. O Edward de 32 anos é o oposto do jovem de 20; ele aprendeu que ser um "pai de coração" para a Taylor e construir uma amizade com o Jacob era a única forma de curar o que ele quebrou. A chegada do Tony e a nova gravidez da Bella simbolizam que a vida deles não é mais um "corpo sem vida", mas uma obra-prima que cresce a cada dia. Escrevemos sobre a dor, a traição e o tempo paralisado, mas terminamos com o sol rompendo as nuvens de Forks. A Bella escritora e o Edward advogado encontraram o equilíbrio entre seus mundos brilhantes e a simplicidade da cozinha sob a luz da geladeira. Obrigada por permitirem que eu contasse essa história com vocês! Que a lembrança dessa fanfic fique com vocês... all too well. Com todo o meu carinho, Giozpattz🧣🍎📖✨
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!