All too well
6 O Frio de Boston e a Rachadura no Cristal
Notas iniciais
"And you were tossing me the car keys, 'Fuck the patriarchy' keychain on the ground
We were always skipping town"
Capítulo 6: O Frio de Boston e a Rachadura no Cristal
A manhã de sábado em Boston surgiu com uma geada que cobria os carros estacionados e transformava a respiração em pequenas nuvens de vapor branco. Após a euforia do reencontro, Edward parecia determinado a integrar Bella ao seu novo mundo, como se pudesse forçar a realidade de Boston a se moldar à doçura que eles viveram em Forks. Eles passaram a manhã explorando as ruas estreitas de Beacon Hill, com Alice saltitando na frente para tirar fotos da arquitetura, enquanto Edward mantinha Bella colada ao seu lado. O ar estava cortante, e Edward, em um gesto de possessividade carinhosa, retirou o cachecol listrado de sua mala e o envolveu no pescoço de Bella com voltas extras.
— Use-o hoje o tempo todo — pediu Edward, ajustando a lã com os dedos longos, os olhos fixos nos dela com uma intensidade que parecia querer devorá-la. — Eu preciso que ele absorva seu cheiro de novo, Bella. O cheiro de morango está sumindo e eu não suporto a ideia de ficar sem ele nas noites em que a biblioteca parece grande demais. Prometa que não vai tirar.
— Eu prometo, Edward... embora eu ache que você está ficando um pouco obcecado por um pedaço de lã — respondeu Bella, rindo baixinho, sentindo o calor do hálito dele contra seu rosto. Ela se sentia nas nuvens; eles caminharam pelo Boston Common, tomaram café em copos de papel que queimavam as mãos e Edward até a carregou nas costas por uma ladeira íngreme, fazendo-a sentir que nada no mundo poderia abalar aquela bolha. No entanto, a primeira rachadura surgiu à noite, quando Edward anunciou que haviam sido convidados para um jantar na casa de uma colega de classe, Tanya Denali.
O apartamento de Tanya era o oposto da realidade de Forks: amplo, decorado com um minimalismo caro e preenchido pelo som de jazz suave e conversas sobre jurisprudência e economia global. Tanya era deslumbrante, com cabelos loiros que pareciam raios de sol e uma autoconfiança que parecia exalar de seus poros; ao seu lado estavam Kate e Carmen, mulheres igualmente elegantes que pareciam dominar cada centímetro do espaço que ocupavam. Assim que entraram, Tanya envolveu Edward em um abraço caloroso, rindo de algo que parecia ser uma piada interna do curso de Direito, enquanto Bella permanecia parada na soleira, sentindo que seu vestido favorito, que parecia perfeito em Forks, era agora apenas uma roupa de criança em um jantar de adultos.
Durante o jantar, a sensação de deslocamento de Bella só aumentou. Ela estava sentada ao lado de Edward, mas ele parecia ter sido sugado por um debate acalorado com Kate e Carmen sobre um novo precedente jurídico. Tanya, sentada à frente de Edward, lançava olhares de cumplicidade a ele o tempo todo, tocando levemente o braço dele para enfatizar um ponto. Em certo momento, Edward soltou a mão de Bella, que estava discretamente entrelaçada na dele sob a mesa, para gesticular com empolgação enquanto respondia a um questionamento técnico de Tanya. Bella sentiu o frio do mármore da mesa contra sua pele, o silêncio de sua própria voz sendo a única coisa que ela conseguia ouvir em meio ao brilho das risadas e dos termos jurídicos que ela não compreendia.
— Edward, você sempre foi o melhor da nossa turma em argumentação lógica, mas essa sua visão é quase romântica demais para um advogado — disse Tanya, inclinando-se para frente, os olhos fixos nele com uma admiração que Bella sentiu como um soco no estômago. — Mas acho que viver em Forks por tanto tempo acabou amolecendo sua mente competitiva.
— Talvez — respondeu Edward com um sorriso que Bella nunca vira antes, um sorriso de aceitação social que a deixava de fora. — Mas Forks tem seus encantos, Tanya. Coisas que você não encontraria aqui.
Bella permaneceu calada o restante da noite, sentindo-se como um segredo que Edward não sabia como apresentar adequadamente àquelas mulheres poderosas. Quando finalmente saíram e caminharam em direção ao alojamento sob a luz fria dos postes de rua, o silêncio entre eles não era mais confortável; era carregado de uma eletricidade estática que ameaçava explodir a qualquer segundo. O asfalto úmido refletia as luzes de Boston, mas para Bella, a cidade agora parecia um monstro de concreto que estava tentando roubar o Edward que ela conhecia.
— Você mal abriu a boca o jantar inteiro, Bella. O que aconteceu? Achei que você fosse gostar da Tanya e das meninas, elas são as mentes mais brilhantes do meu ano — disse Edward, sua voz soando cansada e levemente irritada enquanto eles entravam no quarto do alojamento. Ele jogou as chaves sobre a mesa com um estalo metálico que fez Bella estremecer.
— Eu gostaria delas se eu tivesse tido a chance de ser incluída na conversa, Edward — rebateu Bella, sua voz subindo um tom, a mágoa finalmente transbordando. — Você soltou a minha mão. Você agiu como se eu fosse uma acompanhante invisível que você trouxe apenas por obrigação. Você e a Tanya pareciam estar em um mundo próprio onde eu não sou convidada.
— Bella, por favor, não comece com esse ciúme sem sentido. Tanya é apenas uma colega de classe brilhante. Nós estávamos discutindo o caso Miller, algo que é importante para o meu futuro — Edward passou a mão pelo cabelo, visivelmente impaciente. — Você precisa parar de agir como uma adolescente dramática e entender que a minha vida aqui exige esse tipo de interação social.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Bella sentiu o peso do cachecol em seu pescoço, o objeto que ele queria que ela usasse para manter o cheiro dela, enquanto a tratava como algo descartável diante de seus novos amigos. Ela deu um passo à frente, os olhos brilhando com uma fúria triste que o fez recuar um milímetro.
— É esse o problema, Edward! Eu sou uma adolescente! Eu tenho dezessete anos! — gritou Bella, as lágrimas finalmente caindo e manchando a lã do cachecol. — Você fala como se eu devesse ter a maturidade da Tanya ou da Kate, mas você esquece que eu ainda estou no ensino médio em Forks enquanto você vive essa vida sofisticada em Boston. Você me trata como sua alma gêmea quando estamos sozinhos, mas me ignora quando está perto de pessoas "brilhantes". Eu não sou uma ideia, Edward. Eu sou uma pessoa, e eu não caibo nesse papel de segredo que você me deu hoje à noite...
Edward ficou imóvel, a luz fraca do abajur criando sombras profundas em seu rosto, revelando o choque de quem acaba de ser confrontado com uma verdade que tentava ignorar. Ele olhou para Bella, pequena, ferida e ainda usando o cachecol que ele a obrigara a vestir e sentiu o peso esmagador da diferença de tempo entre eles. Ele tentou se aproximar, mas Bella recuou, limpando o rosto com as costas das mãos.
— Eu sinto muito... — sussurrou Edward, sua voz agora quebrada, a "sweet disposition" retornando tarde demais. — Eu não quis... eu só queria que você fizesse parte disso. Eu não percebi que estava te deixando para trás.
— Você não percebeu porque você já está em Boston, Edward. E eu ainda estou lá, naquele deck em Forks, esperando por um futuro que talvez nem exista para nós dois juntos — disse Bella, retirando o cachecol do pescoço e entregando-o a ele com as mãos trêmulas. — Aqui está o seu cheiro de morango. Espero que seja o suficiente para você, porque eu não sei se eu consigo ser.
Aquela noite terminou não com um beijo, mas com um abismo. Eles dormiram na mesma cama, mas pareciam estar em continentes diferentes, com o som da cidade de Boston rugindo lá fora como um lembrete de que o outono de sua inocência havia acabado, dando lugar a um inverno que nenhuma passagem de avião ou cachecol de lã seria capaz de aquecer.
O silêncio que se seguiu à briga era pesado, preenchido apenas pelo zumbido distante do tráfego de Boston e pelo som da chuva gélida que começava a fustigar o vidro da janela do alojamento. Deitados na mesma cama, as costas voltadas um para o outro criavam um muro invisível, mas intransponível. Bella fitava a escuridão, sentindo o peito arder com a eco das palavras que haviam trocado, enquanto Edward, a poucos centímetros dela, lutava contra o peso da própria arrogância. Ele ouvia a respiração entrecortada dela e percebia, com uma clareza devastadora, que em sua busca por ser o "homem de Boston", ele havia se tornado um estranho para a única pessoa que realmente conhecia a sua alma.
Por volta das três da manhã, quando a penumbra do quarto parecia mais densa, Edward se moveu. O som do colchão rangendo sob seu peso fez Bella tencionar os ombros, mas ela não se virou. Ele se aproximou lentamente, vencendo o abismo que haviam cavado, e apoiou o rosto próximo ao ombro dela, deixando que seu hálito quente tocasse a pele fria de seu pescoço.
— Bella... eu não consigo dormir sabendo que você está chorando em silêncio bem do meu lado — sussurrou Edward, sua voz sendo um barítono quebrado, despido de qualquer pretensão jurídica ou intelectual. Ele estendeu a mão com hesitação e tocou o braço dela, sentindo-a estremecer ao seu toque. — Eu fui um idiota. Um idiota completo e absoluto. Eu me deixei levar por essa necessidade ridícula de provar que eu pertenço a este lugar, que eu sou "brilhante" como elas, e acabei sendo um covarde com a pessoa que mais amo.
Bella virou-se devagar, os olhos inchados e o olhar ainda carregado de uma mágoa profunda que o fez sentir um aperto físico no peito. Na penumbra, o rosto dele estava vincado pela dor e pelo arrependimento genuíno.
— Você soltou a minha mão, Edward. Em uma sala cheia de estranhos, você me deixou sozinha. — disse ela, a voz saindo como um fio de seda quebrado. — E depois tentou me fazer sentir como se o problema fosse a minha idade, quando a única coisa que eu queria era o meu namorado de volta.
— Eu nunca mais vou soltar — prometeu Edward, puxando-a para mais perto e escondendo o rosto na curva do pescoço dela, inspirando o cheiro de morango que ele tanto temia perder. — Você tem razão, você é uma adolescente de dezessete anos, e é por essa garota que eu sou perdidamente apaixonado. Eu não quero a maturidade da Tanya ou a frieza da Kate. Eu quero você, com seu olhar deslumbrado e sua verdade que me desarma. Por favor, me perdoa por ter esquecido, por um segundo, que você é o meu mundo inteiro. Eu sou um projeto de advogado idiota, mas eu sou o seu idiota.
O perdão veio não em palavras, mas no modo como Bella se entregou ao abraço dele, permitindo que a tensão deixasse seu corpo enquanto ele a cobria de beijos suaves e desesperados. A reconciliação trouxe consigo uma urgência nova, uma necessidade de apagar as marcas da briga com o calor da pele. Naquela madrugada, o quarto do alojamento deixou de ser um espaço impessoal em Boston para se tornar o santuário deles novamente. O amor que se seguiu foi intenso, quase feroz em sua tentativa de reafirmar o que a distância tentava desgastar; era uma fusão de corpos que desafiava a lógica, onde cada toque de Edward era um pedido de desculpas silencioso e cada resposta de Bella era uma promessa de que ela ainda estava ali, apesar de tudo.
Eles se amaram com a consciência de que o tempo era um artigo de luxo, explorando um ao outro com uma devoção que beirava o sagrado, enquanto a chuva de Boston continuava a cair lá fora, agora sem o poder de resfriar o calor que emanava deles. Quando a exaustão finalmente os venceu, Edward a manteve firmemente em seus braços, o cachecol listrado jogado em algum lugar no chão, agora desnecessário diante da solidez do reencontro. Naquele momento, em meio aos lençóis bagunçados e ao silêncio cúmplice, eles sabiam que a rachadura no cristal havia sido colada, mas que o inverno de Boston os havia ensinado uma lição valiosa: o amor não é apenas sobre os momentos sob a luz da geladeira, mas sobre ter a coragem de segurar a mão um do outro quando o mundo inteiro parece querer nos separar.
Fale com o autor