All too well
7 Paralisada pelo Tempo
Notas iniciais
"Time won't fly, it's like I'm paralyzed by it
I'd like to be my old self again, but I'm still trying to find it"
Capítulo 7: Paralisada pelo Tempo
O voo de volta para Washington foi um exercício de melancolia silenciosa. Enquanto Alice dormia com a cabeça encostada na janela do avião, Bella observava a primeira neve do ano começar a cair sobre a pista do aeroporto em Boston, pequenos flocos brancos que pareciam cinzas de algo que acabara de queimar. A sensação de ter sido arrancada de um sonho era física; ao aterrissar em Port Angeles e sentir o ar úmido e pesado de Forks novamente, Bella percebeu que o tempo ali não passava da mesma forma. Em Boston, as horas eram elétricas, cheias de vida e conflito; em Forks, o tempo era uma substância densa e paralisante. Ela voltou para o seu quarto na casa de Charlie, para os seus livros de escola e para a rotina do segundo ano, mas sentia-se como uma intrusa em sua própria vida, uma versão "paralisada" de si mesma que observava o calendário com uma mistura de esperança e pavor, sentindo que a magia que viveram estava se tornando uma obra-prima perigosamente frágil.
As semanas que se seguiram foram marcadas por uma decadência lenta e silenciosa nas comunicações. O que antes eram videochamadas de horas, repletas de risadas e planos, transformaram-se em mensagens curtas enviadas entre as aulas de Direito e os treinos de Bella. Edward parecia estar sendo engolido por Boston; ele falava sobre estágios, sobre prazos de entrega e sobre a pressão insuportável de manter o desempenho que Carlisle esperava dele. Bella, por outro lado, sentia que estava gritando de dentro de um poço profundo, tentando fazer com que as novidades triviais de Forks parecessem interessantes o suficiente para mantê-lo conectado a ela. O contraste de realidades tornou-se um abismo; enquanto ela vivia para o momento em que o celular vibraria, Edward parecia estar aprendendo a viver em um mundo onde ela era apenas uma fotografia na mesa de cabeceira e uma voz distorcida pelo sinal de internet.
Em uma noite particularmente gélida de dezembro, Bella estava sentada no chão da cozinha, enrolada em um cobertor, esperando por uma ligação que já estava duas horas atrasada. Quando o celular finalmente tocou, o som de fundo não era o silêncio do quarto de Edward, mas o barulho estridente de copos tilintando e risadas altas.
— Edward? — perguntou Bella, sua voz saindo pequena, competindo com a música que ela reconheceu ser do apartamento de Tanya. — Você ainda está na festa de encerramento? Achei que ligaria quando chegasse em casa.
— Oi, Bella... desculpe, a Tanya e o pessoal insistiram para que eu ficasse mais um pouco para comemorar o fim das provas — a voz de Edward soava levemente alterada pelo cansaço e, talvez, por um copo de vinho, mas o tom de distanciamento era o que mais doía. — Está uma loucura aqui, todos estão falando sobre os estágios de inverno. Bella, eu preciso te contar uma coisa... e eu sei que não é a hora ideal, mas as decisões precisavam ser tomadas hoje.
— O que foi, Edward? Você está me assustando — Bella sentiu um frio na espinha que nada tinha a ver com o inverno de Forks. Ela se levantou, caminhando até a janela e vendo os primeiros flocos de neve caírem sobre a viatura de Charlie, sentindo que o solo sob seus pés estava prestes a ceder.
— Eu consegui o estágio, Bella. No escritório de advocacia em Nova York que eu tanto queria — disse Edward, e houve um silêncio pesado do outro lado da linha antes que ele continuasse. — Mas o estágio começa na semana do Natal. Eu... eu não vou poder ir para Forks, Bella. Eles exigem dedicação total desde o primeiro dia. É a oportunidade da minha vida, o tipo de coisa que define uma carreira antes mesmo de ela começar. Carlisle está radiante, ele diz que é o passo certo para o meu futuro.
— E o nosso futuro, Edward? — a pergunta escapou dos lábios de Bella antes que ela pudesse contê-la, carregada de uma mágoa que vinha sendo alimentada há semanas. — Nós planejamos esse Natal por meses. Eu contei os dias, as horas... Eu sobrevivi ao 2⁰ ano apenas pela promessa de te ver chegar naquele Volvo. E agora você está me dizendo que uma mesa de escritório em Nova York é mais importante do que a promessa que você me fez?
— Não distorça as coisas, Bella! Eu estou tentando construir algo para nós, mas você precisa entender que o mundo não para porque você sente minha falta — Edward rebateu, sua voz subindo um tom, a impaciência de Boston colidindo com a carência de Forks. — Eu tenho vinte anos, eu tenho uma carreira para iniciar. Você ainda tem o ultimo ano do ensino médio, você tem tempo. Eu não posso jogar fora uma chance dessas por causa de um feriado sentimental. Você está sendo infantil de novo, agindo como se o meu sucesso fosse uma ofensa pessoal contra você.
— Eu não estou sendo infantil, eu estou sendo deixada de lado! — gritou Bella, as lágrimas finalmente transbordando enquanto ela olhava para o reflexo de seu rosto desolado no vidro da janela. — Você diz que está fazendo isso por nós, mas não há um "nós" em Nova York, Edward. Só há você, a sua ambição, a Tanya, e essa vida brilhante onde eu sou apenas um peso morto que você carrega por nostalgia. Se você quer ir, vá. Mas não ouse dizer que está fazendo isso por mim, porque a única coisa que você está fazendo é me destruir... muito bem.
Bella desligou o telefone antes que ele pudesse responder, sentindo o silêncio da casa de Charlie desabar sobre ela como uma avalanche. Ela caminhou até o armário e puxou o cachecol que Edward devolvera em Boston, ele insistira que ela ficasse com ele para "sentir o calor dele" até o Natal. Ela o apertou contra o rosto, mas o cheiro de Edward estava quase sumindo, substituído pelo cheiro de guardado e de poeira. Naquela noite, enquanto a neve cobria Forks com um manto de esquecimento, Bella percebeu que a obra-prima que eles criaram estava, de fato, sendo destruída; não por um ato súbito de violência, mas pela negligência fria de quem já havia partido mentalmente muito antes de o carro cruzar a fronteira. O inverno finalmente chegara, e ele era muito mais solitário do que as músicas de Taylor Swift poderiam descrever.
"But then he watched me watch the front door all night, willing you to come
And he said, 'It's supposed to be fun turning twenty-one'"
Setembro em Forks chegou com uma chuva persistente que parecia lavar as últimas cores do verão, trazendo consigo um ar gélido que antecipava um inverno precoce. Para Bella, os meses desde a briga do Natal haviam sido uma sucessão de silêncios prolongados e conversas que pareciam roteiros decorados; Edward estava agora no auge de seu segundo ano de Direito, vivendo entre tribunais e escritórios de prestígio, enquanto ela e Alice navegavam pelo peso do último ano do ensino médio. O namoro, que antes fora uma fogueira ardente, tornara-se uma brasa fria mantida apenas por mensagens de "bom dia" protocolares. No entanto, a promessa do seu aniversário de 18 anos pairava como uma última chance. Edward jurara que, desta vez, nada o impediria. Ele cruzaria o país, ele estaria ali para soprar as velas com ela.
A casa dos Swan estava transformada. Alice, com sua energia inesgotável e uma tentativa desesperada de ver a amiga feliz novamente, havia decorado a sala com luzes de fada e flores outonais, enquanto Esme trouxera um bolo que cheirava a baunilha e promessas. Charlie, embora desconfiado, havia preparado a churrasqueira e observava Bella com um olhar carregado de preocupação paternal. Bella usava um vestido de seda bordô, o cabelo perfeitamente alinhado, e o cachecol listrado , agora quase sem cheiro algum, repousava sobre o encosto da poltrona, como um convidado silencioso. A festa estava cheia; Jasper, Emmett e até alguns colegas de escola circulavam com copos de ponche, mas para Bella, a única presença que importava era o som de um motor de carro que ainda não havia dobrado a esquina.
À medida que as horas passavam, o entusiasmo da festa começou a murchar como as flores nos vasos. Bella permanecia sentada no último degrau da escada, com a visão fixada na porta da frente, cada par de faróis que iluminava o vidro da janela fazendo seu coração disparar antes de murchar novamente quando o carro passava direto. Alice tentava distraí-la com conversas sobre o futuro e a faculdade, mas a distração era impossível; Bella estava paralisada por uma contagem regressiva silenciosa.
— Ele disse que o voo chegaria às seis, Alice... já são nove — sussurrou Bella, sua voz sendo um fio de dor que cortava a música festiva que Emmett colocara para tocar. — Ele prometeu. Ele disse que desta vez seria diferente.
— O trânsito de Seattle para cá pode ser terrível na chuva, Bella. Ele deve estar chegando, eu tenho certeza — respondeu Alice, mas seus olhos dourados brilhavam com uma tristeza que desmentia suas palavras. Ela sabia, tanto quanto Bella, que o silêncio do celular de Edward era o veredito final.
Por volta das onze da noite, a maioria dos convidados já havia partido com sorrisos constrangidos e desculpas apressadas. Restavam apenas os Cullen e Charlie. O bolo permanecia intacto sobre a mesa, as velas nunca acesas parecendo monumentos ao que foi perdido. Bella não se movera da porta. Ela observava a maçaneta como se pudesse forçá-la a girar com o poder de sua vontade. Charlie, que passara a noite inteira observando a filha do canto da cozinha, finalmente se aproximou. Ele colocou uma mão pesada e reconfortante no ombro dela, sentindo a rigidez do corpo de Bella.
— Bells... acho que já deu por hoje — disse Charlie, sua voz grossa e suave, carregada de uma indignação contida que ele tentava não descarregar na filha. — Você não pode passar a noite inteira esperando por alguém que não teve a decência de avisar que não viria.
— Ele vai vir, pai. Ele me deu a palavra dele — respondeu Bella, embora as lágrimas já estivessem nublando sua visão, fazendo com que as luzes da sala se transformassem em manchas borradas. — Ele sabe o quanto isso significava para mim...Ele sabe...
— Bella, olhe para mim — Charlie a virou gentilmente para que ela o encarasse. Ele viu a maquiagem levemente borrada e o olhar de "garota deslumbrada" que agora estava vazio e ferido. — Sabe, deveria ser divertido fazer dezoito anos. Deveria ser o dia em que você se sente a pessoa mais importante do mundo e me dói ver que você está deixando esse garoto tirar isso de você... Ele não merece essa sua espera, não hoje.
Bella soltou um soluço que parecia ter sido guardado por meses, um som quebrado que fez Alice desviar o olhar e Esme cobrir a boca com a mão. Ela olhou para o bolo, para as decorações de Alice e para a porta vazia. Naquele momento, a ficha finalmente caiu com o peso de uma tonelada de chumbo: Edward não estava a caminho. Ele não estava preso no trânsito, ele não havia perdido o voo por acidente. Ele simplesmente não priorizara o retorno para o mundo que ela ainda habitava.
— Eu sou apenas um segredo para ele agora, não sou, pai? — perguntou Bella, as lágrimas caindo sobre o vestido de seda. — Um segredo que ele guarda em Forks e que ele visita quando é conveniente. Eu não sou parte da vida brilhante dele em Boston. Eu sou apenas a garota que espera.
— Você é muito mais do que isso, Bells... E se ele não consegue ver, o problema é dele, não seu — respondeu Charlie com firmeza, puxando-a para um abraço desajeitado, mas protetor.
Naquela madrugada, enquanto Forks dormia sob a chuva torrencial, Bella subiu para o quarto e retirou o vestido de festa. Ela pegou o cachecol e, pela primeira vez, não o cheirou. Ela o dobrou e o colocou no fundo de uma caixa de papelão, junto com as cartas de Boston e as fotos do deck. O aniversário de 18 anos não fora marcado por um beijo ou por uma promessa de futuro, mas pela percepção devastadora de que a obra-prima que eles criaram havia sido deixada na chuva para apodrecer. O rompimento não precisava de palavras; ele já havia acontecido no silêncio daquela porta que nunca se abriu.
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