All too well

2 O Cachecol e as Relíquias


Notas iniciais
Oi, gente! Que alegria ter vocês aqui para a continuação de All Too Well. ​Antes de mais nada, quero agradecer imensamente pelo carinho e pelos comentários no primeiro capítulo. Ver que vocês se conectaram com essa versão mais "humana" da Bella e com a energia contagiante da Alice me deu ainda mais inspiração para escrever o que vem por aí. ​Neste capítulo, as coisas começam a ficar mais intensas. Se no primeiro nós tivemos a chegada e o estranhamento, aqui nós mergulhamos de cabeça na dinâmica da família Cullen. Preparem o coração, porque vamos ter momentos de muita doçura com a Esme (quem não queria uma sogra dessas, não é?), noites de jogos caóticas e, claro, o início daquela tensão elétrica e silenciosa entre a Bella e o Edward. ​Fiquem atentos aos detalhes: o título deste capítulo é "O Cachecol e as Relíquias", e quem conhece bem a música da Taylor sabe o quanto um simples pedaço de lã pode carregar de significado. Ah, e não deixem de conferir o trecho de All Too Well que coloquei no início , ele dita exatamente o ritmo da cena do álbum de fotos que eu tanto amei escrever. ​Espero que vocês aproveitem cada parágrafo longo e cada detalhe desse final de semana na mansão Cullen. Peguem seu café (ou chá!), coloquem o fone de ouvido e boa leitura! ​Com amor, Giozpattz 🧣☕

"Photo album on the counter, your cheeks were turnin' red

You used to be a little kid with glasses in a twin-sized bed

And your mother's tellin' stories 'bout you on the tee-ball team

You taught me 'bout your past thinkin' your future was me"

Capítulo 2: O Cachecol e as Relíquias


Duas semanas haviam se passado desde que Bella Swan trocara o calor seco do Arizona pela umidade persistente de Forks, e nesse curto intervalo de tempo, o que antes parecia um exílio solitário transformara-se em uma rotina vibrante sob a curadoria implacável de Alice Cullen. A amizade entre as duas florescera com uma rapidez que desafiava a lógica, como se a natureza reservada de Bella fosse o papel em branco perfeito para a personalidade artística e expansiva de Alice preencher com cores e planos. Naquela tarde de sexta-feira, o céu de Forks estava em seu tom mais profundo de cinza-ardósia, e a névoa subia do chão como fantasmas entre os troncos das árvores enquanto Alice dirigia seu Porsche em direção à mansão da família, com Bella no banco do passageiro sentindo-se uma mistura de nervosismo e entusiasmo. A casa dos Cullen, uma estrutura de vidro e madeira que parecia flutuar no coração da floresta, era o oposto da casa rústica e apertada de Charlie; era um santuário de luz e design moderno que intimidaria qualquer um, não fosse a recepção calorosa que Esme Cullen ofereceu assim que cruzaram a soleira, envolvendo Bella em um abraço que cheirava a baunilha e flores frescas.

Ao entrar na sala de estar espaçosa, onde o som da chuva no teto de vidro criava uma melodia suave, Bella sentiu o calor do sistema de aquecimento central e, em um gesto de conforto automático, retirou seu cachecol listrado de lã — uma peça em tons de branco, azul e vermelho que ela usava como um escudo contra o clima implacável. Alice a puxou em direção ao sofá de couro creme, tagarelando sobre o "dia das garotas" que haviam planejado, e Bella, distraída pela beleza da decoração e pela presença acolhedora de Esme, acabou deixando o cachecol cair, esquecendo-o dobrado de forma desleixada no chão, próximo à base do sofá. O objeto, simples e gasto pelo uso, parecia deslocado naquela sala de revista, mas carregava consigo a essência de Bella, o rastro de sua jornada de Phoenix até ali, esperando silenciosamente para ser descoberto enquanto as três mulheres se dirigiam à cozinha para começar os preparativos de um jantar que prometia ser muito mais do que apenas uma refeição, mas um rito de passagem para a nova integrante daquele círculo íntimo.

Edward chegou em casa pouco tempo depois, ainda carregando o cansaço físico do treino de futebol americano, o suor esfriando sob a camiseta do time enquanto ele jogava a mochila esportiva perto da entrada e suspirava, tentando sacudir a melancolia que parecia persegui-lo durante todo o dia. O silêncio da sala foi interrompido apenas pelo estalar da lareira, e seus olhos, sempre atentos, foram atraídos para a mancha colorida de lã no chão de madeira polida. Ele se abaixou com movimentos lentos e graciosos, pegando o cachecol de Bella entre os dedos longos, sentindo a textura macia da lã que ainda retinha o calor do pescoço dela; sem pensar, ele levou o tecido ao rosto, fechando os olhos enquanto o aroma doce e inconfundível de morango fresco e brisa fria invadia seus sentidos, um cheiro que parecia sintetizar tudo o que ela era. Um sorriso imperceptível surgiu em seus lábios, uma faísca de algo que ele não sentia há anos, e em vez de deixá-lo no lugar ou entregá-lo a Alice, Edward dobrou o cachecol cuidadosamente e o guardou no bolso de sua jaqueta, como se estivesse escondendo um segredo precioso que só ele tinha o direito de possuir naquele momento.

A apresentação oficial aconteceu na sala de jantar, sob a luz âmbar de um lustre de cristal, onde a mesa estava posta com uma elegância que fazia Bella se sentir como se tivesse entrado em um cenário de filme clássico. Alice, radiante em seu papel de mestre de cerimônias, puxou Bella pela mão e a posicionou diante de Edward, que agora vestia roupas limpas, mas ainda mantinha aquele ar de intensidade silenciosa que a desarmava completamente.

— Bella, este é o meu irmão Edward, oficialmente agora, já que da última vez você quase fugiu dele no pátio — disse Alice com uma risadinha travessa, enquanto Edward estendia a mão para Bella, um gesto formal que parecia carregar um peso elétrico quando suas peles se tocaram pela primeira vez.

— É um prazer finalmente conhecê-la, Bella Swan, embora eu sinta que já conheço metade da sua vida através das histórias da Alice — disse Edward, sua voz sendo um barítono aveludado que fez o coração de Bella falhar uma batida, enquanto ela o olhava nos olhos e sentia que, pela primeira vez, alguém realmente a via, não apenas como a filha do xerife, mas como Isabella Swan.

— O prazer é meu... eu acho que a Alice não sabe o significado da palavra "descrição" — respondeu Bella em um sussurro tímido, olhando para Edward com um misto de fascínio e cautela que o fez sorrir de uma forma que ela nunca vira antes, um sorriso que não era para o público, mas apenas para ela.

O jantar foi uma sucessão de momentos em que Bella encantou cada membro da família Cullen sem sequer tentar; Carlisle admirava sua inteligência ponderada, Emmett divertia-se com sua honestidade desajeitada, e Rosalie, embora mais reservada, parecia respeitar a forma como Bella não tentava impressionar ninguém. Após a refeição, a noite transformou-se em uma maratona de jogos no tapete da sala de estar, onde risadas ecoavam enquanto eles se dividiam entre rodadas competitivas de Uno, a contorção caótica do Twister e as deduções dramáticas de Detetive. Edward e Bella acabaram formando uma dupla silenciosa, comunicando-se por olhares e pequenos gestos que ninguém mais parecia notar, criando uma linguagem própria no meio do barulho. No Twister, a proximidade física era inevitável, e Bella sentia o calor do corpo de Edward sempre que suas mãos ou pernas se cruzavam no tabuleiro colorido, uma tensão que a deixava sem fôlego e com as bochechas coradas, enquanto ele a ajudava a manter o equilíbrio com uma mão firme em sua cintura, um toque que parecia queimar através do tecido de sua blusa.

A noite atingiu seu ponto mais emocional quando Esme trouxe um antigo álbum de fotos para o balcão da cozinha, chamando Bella para perto enquanto o restante da família ainda discutia as regras de uma partida de cartas. Edward aproximou-se por trás dela, observando por cima de seu ombro enquanto Esme apontava para uma fotografia amarelada de um Edward muito mais jovem, usando óculos de aro grosso que pareciam grandes demais para seu rosto pequeno, sentado em uma cama de solteiro cercada por livros. Bella soltou um risinho baixo, as bochechas assumindo um tom escarlate enquanto olhava para o Edward ao seu lado e depois de volta para a criança na foto, sentindo uma ternura imensa que apertava sua garganta ao ouvir Esme contar histórias sobre as ligas infantis de baseball e como Edward costumava ser o garoto mais sério e dedicado do time.

— Você não mudou nada, Edward... ainda parece estar tentando resolver os mistérios do universo enquanto todos os outros estão apenas jogando bola — disse Bella, virando-se para ele com um brilho divertido nos olhos castanhos, sentindo que cada foto e cada história era um pedaço do quebra-cabeça que era o passado dele, peças que ela estava guardando com o mesmo cuidado com que ele guardara seu cachecol.

— Eu estava apenas focado na vitória, Bella, embora eu admita que os óculos não ajudavam muito na minha imagem de atleta — respondeu Edward, sussurrando perto do ouvido dela, o que a fez estremecer levemente, sentindo que aquele compartilhamento de memórias era uma ponte que ele estava construindo para deixá-la entrar em seu mundo.

Enquanto a noite avançava e o cansaço começava a pesar nos olhos de Bella, Esme tomou a iniciativa de ligar para a casa de Charlie, sua voz sendo o epítome da doçura e da persuasão ao telefone. Bella observava de longe, sentindo o coração acelerado enquanto ouvia Esme explicar ao xerife o quanto Bella era uma companhia maravilhosa e como seria bom se ela ficasse para passar o fim de semana, prometendo que cuidariam dela como se fosse da própria família. Charlie, que raramente cedia a pedidos sociais, não foi páreo para a diplomacia maternal de Esme, e quando ela desligou o telefone com um sorriso vitorioso, Bella sentiu uma onda de alívio e excitação correr por seu corpo. Esme aproximou-se de Bella e a envolveu em um abraço caloroso, beijando-lhe a testa com um carinho que Bella raramente recebia desde que sua mãe partira, fazendo-a sentir que, naquela casa cheia de luz e segredos, ela havia finalmente encontrado o porto seguro que Phoenix nunca pôde ser.

— Está decidido, você vai ficar conosco até domingo, querida, e não aceito reclamações — declarou Esme, olhando para Edward com um brilho de cumplicidade que sugeria que ela sabia exatamente o que estava fazendo ao unir aqueles dois corações sob o mesmo teto por mais quarenta e oito horas. Edward olhou para Bella, que ainda estava processando a notícia com um sorriso tímido, e sentiu que o "momento errado" de estarem em fases diferentes da escola parecia um detalhe insignificante diante da perspectiva de ter mais tempo ao lado dela. Ele levou a mão ao bolso da jaqueta, sentindo a lã do cachecol de Bella contra a palma de sua mão, e soube que aquela noite era apenas o começo de uma jornada que, embora inspirada em uma música sobre perdas, estava começando a parecer a coisa mais real que ele já tivera a chance de viver.

A mansão dos Cullen, que antes parecia uma galeria de arte silenciosa e imponente, agora pulsava com uma energia doméstica que Bella nunca imaginou ser possível encontrar em um lugar tão sofisticado. Enquanto Alice subia as escadas aos saltos para providenciar o que ela chamava de "kit de sobrevivência noturna" — que consistia em pijamas de seda e produtos de skin care que custavam mais do que o carro de Charlie —, Bella permaneceu na cozinha com Esme e Edward, sentindo-se envolvida por uma atmosfera de aceitação que a desarmava por completo. Esme continuava a folhear o álbum de fotos, compartilhando pequenas anedotas sobre a infância dos filhos, e a cada nova imagem, Bella sentia que as camadas de mistério que envolviam Edward estavam sendo gentilmente removidas, revelando um jovem que, apesar de toda a sua aura de perfeição e popularidade na escola, guardava uma essência de timidez e dedicação que ressoava profundamente com a sua própria. Edward permanecia ao lado de Bella, sua presença sendo um calor constante e reconfortante em meio ao frio que insistia em soprar lá fora, e ele a observava com uma atenção tão plena que ela sentia como se fosse a única pessoa no mundo digna de sua curiosidade.

— Eu não sabia que você tocava piano... — comentou Bella quase em um sussurro, apontando para uma foto polaroid onde um Edward adolescente, com as bochechas menos angulares e os cabelos ainda mais rebeldes, aparecia concentrado diante de um piano de cauda negro. Esme soltou uma risadinha suave, fechando o álbum com um estalo carinhoso e olhando para o filho com um orgulho que brilhava em seus olhos claros, enquanto Edward desviava o olhar por um segundo, sentindo uma pontada de embaraço que o tornava ainda mais humano e acessível aos olhos de Bella.

— Ele é um músico talentoso, Bella, embora seja modesto demais para admitir. Às vezes, ele passa horas compondo quando pensa que ninguém está ouvindo — revelou Esme, dando um tapinha afetuoso no braço de Edward antes de começar a guardar os copos de cristal da noite de jogos. Bella virou-se para Edward, seus olhos castanhos encontrando os dele com uma admiração silenciosa que o fez inclinar levemente a cabeça, um meio sorriso surgindo em seu rosto como se ele estivesse considerando seriamente a ideia de tocar para ela em algum momento.

— Talvez um dia eu possa mostrar a você, se você prometer não ser uma crítica muito severa — disse Edward, sua voz sendo um murmúrio aveludado que parecia vibrar diretamente contra a pele de Bella, criando uma intimidade súbita que os isolava do restante da casa. Bella sentiu o coração acelerar, uma batida rítmica que parecia ecoar o som da chuva constante no telhado de vidro, e ela apenas assentiu, incapaz de encontrar palavras que não traíssem o quanto aquela promessa significava para ela.

A transição para o restante da noite foi suave e orgânica; Esme conduziu Bella até o quarto de hóspedes, que ficava convenientemente próximo ao quarto de Alice e Edward, um espaço banhado em tons de pérola e azul-claro que exalava um conforto luxuoso. Alice já estava lá, espalhando máscaras faciais e revistas sobre a cama king-size, pronta para uma madrugada de confidências que Bella, em Phoenix, raramente tinha a oportunidade de vivenciar. No entanto, antes de se perder no mundo efervescente de Alice, Bella sentiu a necessidade de recuperar seu cachecol, lembrando-se subitamente de tê-lo deixado na sala de estar; ela se desculpou com a amiga e desceu as escadas silenciosamente, seus pés descalços mal fazendo barulho sobre a madeira polida. A sala estava na penumbra, iluminada apenas pelas brasas remanescentes na lareira que projetavam sombras longas e dançantes pelas paredes, criando um cenário de quietude absoluta que contrastava com a alegria barulhenta de minutos atrás.

Ela se aproximou do sofá onde estivera sentada, procurando com os olhos pela peça listrada de azul, branco e vermelho, mas o chão estava impecavelmente limpo, sem sinal da lã desajeitada que ela deixara cair. Bella franziu a testa, sentindo uma confusão leve, até que percebeu uma silhueta alta parada perto da janela que dava para a floresta escura. Era Edward; ele ainda usava a jaqueta do time, mas suas costas estavam voltadas para ela, e ele parecia imerso em uma contemplação profunda da escuridão lá fora. Bella hesitou, sentindo que estava interrompendo um momento privado, mas antes que pudesse se retirar, Edward se virou com uma agilidade que sempre a surpreendia, seus olhos encontrando os dela na luz fraca da sala e um rastro de surpresa cruzando seu rosto esculpido.

— Eu estava procurando meu cachecol... acho que deixei cair por aqui — disse Bella, abraçando o próprio corpo para se proteger do frio súbito que parecia emanar das janelas envidraçadas, enquanto seu olhar buscava qualquer indício da peça de roupa. Edward permaneceu imóvel por um segundo, sua mão movendo-se instintivamente para o bolso da jaqueta onde o objeto estava escondido, sentindo a textura da lã contra seus dedos e o aroma de morango que agora parecia ter se impregnado em sua própria pele. Ele sentiu uma pontada de culpa por ter guardado o cachecol, mas o desejo de manter aquela pequena parte de Bella com ele era mais forte do que o protocolo de devolvê-lo imediatamente.

— Ah, eu vi Alice recolhendo algumas coisas mais cedo, talvez ela o tenha levado para cima sem você perceber — mentiu Edward com uma suavidade convincente, aproximando-se de Bella até que apenas alguns centímetros os separassem, permitindo que ela sentisse o cheiro de grama úmida e do amaciante de roupas caro que o acompanhava. Bella olhou para ele, tentando ler algo em seus olhos que confirmasse sua suspeita de que ele sabia mais do que estava dizendo, mas a intensidade do olhar de Edward era tão avassaladora que ela se sentiu incapaz de questionar qualquer coisa; ele estendeu a mão e, com uma delicadeza extrema, afastou uma mecha de cabelo castanho que caíra sobre o rosto dela, seu polegar roçando levemente a maçã de sua bochecha.

— Você parece exausta, Bella. Deveria descansar, amanhã o dia será longo e Alice tem planos que envolvem pelo menos três lojas diferentes em Port Angeles — disse ele, rindo baixinho, um som que aqueceu o peito de Bella mais do que qualquer lareira poderia. Ela sentiu o toque dele como uma marca, uma promessa silenciosa de proteção que a fazia se sentir segura naquele mundo de estranhos, e ela apenas sorriu, sentindo que a perda do cachecol era um preço pequeno a pagar pela conexão que estava se formando entre eles.

— Boa noite, Edward... — murmurou ela, começando a se afastar em direção às escadas, mas parando por um segundo para olhá-lo uma última vez.

— Boa noite, Bella. Sonhe com algo melhor do que a chuva de Forks — respondeu ele, observando-a subir os degraus até que ela desaparecesse de vista, para só então retirar o cachecol do bolso e levá-lo aos lábios, fechando os olhos enquanto mergulhava na inocência e no mistério que Bella Swan trouxera para sua vida, sem saber que aquele pedaço de lã se tornaria, nos anos vindouros, a lembrança mais dolorosa e preciosa de tudo o que eles estavam prestes a viver.