All too well
1 O Ar Estava Frio
Notas iniciais
"I walked through the door with you, the air was cold
But something 'bout it felt like home somehow
And I, left my scarf there at your sister's house
And you've still got it in your drawer even now"
Capítulo 1: O Ar Estava Frio
A linha do horizonte de Forks era um borrão indistinguível de verde-musgo e cinza-chumbo, uma paleta de cores que contrastava violentamente com o ocre vibrante e o azul ofuscante de Phoenix que Bella Swan deixara para trás. Sentada no banco do passageiro da viatura de Charlie, ela observava as gotas de chuva correrem pelo vidro como lágrimas apressadas, sentindo o peso do silêncio que se instalava entre eles, um silêncio que não era desconfortável, mas carregado de uma melancolia familiar. O xerife Charlie Swan mantinha as mãos firmes no volante, os olhos focados na estrada sinuosa e úmida, enquanto o rádio emitia apenas um chiado baixo de estática, intercalado por alguma notícia local irrelevante. Bella sentia o frio úmido começar a penetrar em seus ossos, uma sensação que parecia desmentir os dezessete anos de sol escaldante que haviam moldado sua pele pálida, quase translúcida sob a luz filtrada pelas nuvens espessas de Washington. A paisagem de árvores colossais, cobertas de líquens e musgos que pareciam devorar a madeira antiga, passava por ela como um cenário de um sonho gótico, fazendo-a questionar se aquela mudança não era apenas geográfica, mas uma transição para uma existência mais sombria e introspectiva.
Ao estacionarem diante da casa de madeira de dois andares, Bella sentiu um aperto no peito, uma mistura de nostalgia e ansiedade que a deixava levemente enjoada. A casa de Charlie parecia exatamente a mesma de suas visitas de verão na infância: a pintura branca um pouco desgastada pela umidade persistente, a varanda estreita e o jardim que mais parecia uma extensão da floresta indomada ao redor. Subir os degraus de madeira que rangiam sob seus pés foi como caminhar de volta para o passado, enquanto o cheiro de café velho e madeira úmida a recebia assim que cruzou a soleira da porta. Charlie carregava suas malas com uma eficiência silenciosa, evitando contato visual prolongado para não demonstrar o quanto estava emocionado por tê-la ali, de forma definitiva. O quarto de Bella, no andar superior, ainda exibia os vestígios da menina que ela fora, com móveis de madeira clara e uma colcha que exalava o cheiro de armário fechado há muito tempo, um espaço que agora parecia pequeno demais para abrigar a complexidade de seus pensamentos e o vazio deixado pela vida vibrante que abandonara no Arizona para que sua mãe pudesse seguir os próprios sonhos.
A manhã seguinte trouxe consigo uma névoa tão densa que os contornos da cidade pareciam ter sido apagados por um pintor descuidado. Bella se vestiu com camadas de roupas pesadas, sentindo-se desajeitada e excessivamente protegida contra um clima que parecia determinado a ignorar sua existência. Ao chegar à Forks High School, o burburinho dos alunos no estacionamento úmido soava como um ruído de fundo distante; ela se sentia como um espectador assistindo a uma peça de teatro em um idioma que não compreendia totalmente. O prédio da escola era composto por blocos de tijolos escuros, cercados por uma natureza que tentava reivindicar o espaço a cada fresta, criando uma atmosfera de isolamento que combinava perfeitamente com sua timidez intrínseca. Enquanto caminhava pelos corredores apertados, seus dedos apertavam as alças da mochila com tanta força que as juntas dos dedos ficaram brancas, e ela mantinha a cabeça baixa, tentando ler os números das salas enquanto evitava os olhares curiosos dos nativos, que pareciam detectar seu cheiro de forasteira a quilômetros de distância.
Foi no meio dessa massa cinzenta de rostos desconhecidos que uma explosão de energia e cor rompeu a bolha de isolamento de Bella. Alice Cullen surgiu como se tivesse sido materializada pelo próprio vento, movendo-se com uma agilidade graciosa e quase saltitante que desafiava a gravidade e o tédio do ambiente escolar. Alice tinha cabelos escuros e curtos, espetados em todas as direções, e olhos que brilhavam com uma vivacidade inteligente e acolhedora, adornada por um estilo que era simultaneamente excêntrico e sofisticado. Ao seu lado, Jasper Hale caminhava com uma postura ereta e uma expressão de calma absoluta, seus cabelos loiros emoldurando um rosto de traços nobres que parecia carregar um segredo antigo. Jasper mantinha uma mão leve sobre o ombro de Alice, uma âncora silenciosa para a energia efervescente da namorada, enquanto seus olhos observavam Bella com uma curiosidade gentil que a fez, pela primeira vez naquele dia, soltar o ar que parecia preso em seus pulmões desde que cruzara os portões da escola.
— Oieeee! Você deve ser a Bella Swan, a filha do xerife, certo? Eu sou a Alice Cullen, e este é o Jasper, meu namorado...— disse Alice com uma voz que soava como sinos de cristal, aproximando-se com uma intimidade que pegou Bella de surpresa, mas que não parecia invasiva. Alice inclinou levemente a cabeça para o lado, analisando Bella da cabeça aos pés com um sorriso travesso que iluminava seu rosto pequeno e anguloso, enquanto Jasper apenas assentia educadamente, emitindo uma aura de proteção que deixava Bella estranhamente confortável. Alice estendeu a mão para tocar levemente o braço de Bella, um gesto de conexão espontânea que fez a pele da recém-chegada formigar sob o tecido do casaco. O contraste entre a vibração de Alice e a introspecção de Bella era quase cômico, mas havia algo na rapidez do olhar de Alice que sugeria que ela via muito além da superfície tímida da filha de Charlie, identificando uma alma que, assim como a dela, não se encaixava perfeitamente nos moldes convencionais daquela pequena cidade esquecida pela luz do sol.
Alice estreitou os olhos de brincadeira, fixando-os na palidez quase etérea de Bella, que parecia ainda mais evidente sob a luz fluorescente e fria do corredor da escola. Jasper soltou uma risada baixa, um som aveludado que parecia vibrar no ar, observando a interação com um divertimento silencioso enquanto os outros alunos passavam por eles como vultos borrados. A energia de Alice era contagiante, uma força da natureza que não aceitava o silêncio como resposta e que parecia decidida a integrar Bella ao seu círculo social antes mesmo do primeiro sinal tocar para o início das aulas. Bella sentiu o rosto esquentar, uma mancha rosada subindo por suas bochechas enquanto tentava formular uma resposta que não parecesse excessivamente desajeitada diante daquela garota que parecia ter saído diretamente das páginas de uma revista de moda alternativa, exalando uma autoconfiança que Bella passaria a vida inteira tentando conquistar para si mesma.
— Espera aí... as pessoas do Arizona não deveriam ser, sei lá, bronzeadas? — perguntou Alice, cruzando os braços e exibindo um sorriso provocativo que era suavizado pela doçura em seu olhar. Bella sentiu o canto dos lábios se elevar em um meio sorriso genuíno, o primeiro que dava desde que deixara Phoenix, sentindo que a tensão em seus ombros começava a se dissipar sob a hospitalidade inesperada de Alice. Ela olhou para as próprias mãos pálidas e depois de volta para a nova amiga, sentindo que ali, naquele corredor úmido e barulhento, talvez houvesse espaço para alguém como ela. O sarcasmo leve e a aceitação imediata de Alice eram como um cobertor quente em meio ao inverno rigoroso de Forks, e Jasper observava a cena com uma aprovação silenciosa, como se soubesse que aquele era o início de algo que mudaria a trajetória de todos eles de forma definitiva e irremediável.
— É... acho que foi por isso que fui expulsa de lá — respondeu Bella com a voz um pouco rouca, mas carregada de uma ironia suave que fez Alice soltar uma gargalhada genuína e Jasper sorrir com o canto da boca. Alice imediatamente enganchou seu braço no de Bella, ignorando qualquer protocolo de espaço pessoal, e começou a guiá-la pelo corredor como se fossem amigas de longa data que tivessem apenas passado um tempo separadas. A sensação do braço de Alice unido ao seu deu a Bella uma âncora física naquele mar de incertezas, e ela se permitiu ser levada pela correnteza de palavras e planos que Alice já estava traçando para o restante da semana. O mundo parecia um pouco menos cinza agora que Alice Cullen havia decidido que Bella Swan não passaria seu primeiro dia em Forks sozinha, transformando o estranhamento inicial em uma curiosidade crescente sobre quem mais fazia parte do mundo daquela garota extraordinária.
No entanto, toda a conversa de Alice tornou-se um ruído de fundo quando elas chegaram ao pátio interno, onde os alunos do último ano costumavam se reunir antes do início das atividades. Foi ali, encostado em um Volvo prateado que brilhava sob a chuva fina, que Bella o viu pela primeira vez. Edward Cullen estava cercado por um grupo de jovens populares, mas ele parecia existir em uma frequência própria, uma melancolia sofisticada que o separava de tudo ao seu redor. Ele usava uma jaqueta escura e tinha os cabelos cor de bronze desgrenhados pelo vento, um rosto de beleza clássica e angulosa que parecia ter sido esculpido em mármore frio. Edward não ria com os outros; ele olhava para o nada com uma expressão de tédio existencial, como se estivesse apenas esperando o tempo passar para que pudesse finalmente ir embora. No momento em que Alice e Bella se aproximaram, Edward virou a cabeça e seus olhos encontraram os de Bella com uma intensidade que a fez tropeçar levemente em seus próprios pés, sentindo um choque elétrico percorrer sua espinha enquanto o mundo ao redor parecia perder o foco e o som.
— Aquele ali é o meu irmão, Edward. Não liga para a pose de "sofredor", ele só acha que o mundo é um filme indie de baixo orçamento onde ele é o protagonista incompreendido — comentou Alice, revirando os olhos com um carinho fraterno evidente na voz, mas Bella mal conseguiu processar a piada. O olhar de Edward sobre ela era pesado, carregado de uma curiosidade sombria que a desarmava completamente, fazendo-a se sentir nua sob sua observação silenciosa. Ele não desviou o olhar, e Bella sentiu que o tempo, aquele conceito que ela tanto temia desde que chegara a Forks, havia simplesmente parado. Ali estava o "momento errado": ele, um rei no último ano prestes a voar para longe daquela cidade pequena; ela, a garota nova e invisível do primeiro ano. O ar entre eles parecia carregar o peso de todas as palavras da música que Bella tanto amava, uma promessa silenciosa de que o outono que estava começando seria, ao mesmo tempo, a coisa mais bonita e mais dolorosa que ela já teria o privilégio de lembrar, tudo muito bem, tudo muito real.
Alice continuou a guiar Bella pelos corredores labirínticos da escola, movendo-se com uma vivacidade que parecia ignorar completamente o peso do céu carregado lá fora. Ela falava sobre os professores, sobre quais armários tinham as portas emperradas e sobre a qualidade duvidosa do purê de batatas da cafeteria, tudo com uma cadência musical que impedia Bella de se fechar em seu casulo habitual de timidez. A cada passo, Bella sentia que a presença de Alice agia como um escudo invisível; os olhares curiosos dos outros alunos, que antes pareciam julgamentos silenciosos, agora eram filtrados pela aura de autoridade social e carisma que a pequena Cullen emanava. Alice parou subitamente diante da sala de Biologia de Bella, girando nos calcanhares com uma graça de bailarina para encará-la, seus olhos brilhando com uma intensidade que sugeria que ela já estava planejando os próximos dez anos da vida de ambas, enquanto Jasper permanecia a poucos passos de distância, observando a interação com um sorriso de quem já estava acostumado com os furacões de entusiasmo de sua namorada.
— Eu sinto que nós vamos nos divertir muito este ano, Bella, eu realmente sinto isso aqui dentro — disse Alice, pressionando as mãos pequenas contra o próprio peito e exibindo um sorriso que parecia capaz de iluminar toda a cidade de Forks em um dia de tempestade. Bella sentiu um calor reconfortante se espalhar por seu peito, uma sensação de pertencimento que nunca imaginou encontrar tão rapidamente em um lugar tão estranho, e embora sua voz ainda estivesse carregada de uma reserva cautelosa, ela não pôde evitar o brilho de gratidão que surgiu em seu olhar. Alice inclinou-se para frente e deu um abraço rápido e apertado em Bella, um gesto que cheirava a flores de lótus e a algo caro e sofisticado, antes de se afastar saltitante em direção à sua própria sala de aula, deixando Bella parada na porta, sentindo-se um pouco tonta, mas estranhamente feliz por ter sido "adotada" por uma força da natureza tão magnética e genuína quanto Alice Cullen.
Enquanto isso, do outro lado do campus, Edward Cullen tentava se concentrar nas notas complexas de sua aula de Cálculo, mas sua mente insistia em retornar à imagem da garota pálida e de cabelos castanhos que vira no pátio. Havia algo na vulnerabilidade dela, na forma como ela parecia tentar se esconder dentro de si mesma, que o intrigava de uma maneira que ele não conseguia explicar; não era apenas a beleza discreta e clássica, mas a sensação de que ela carregava uma melancolia que ressoava com a sua própria. Durante todo o trajeto de volta para casa, dirigindo seu Volvo com uma precisão automática, Edward sentiu a curiosidade queimar em sua garganta, uma necessidade quase física de dar um nome ao rosto que havia interrompido seu fluxo habitual de indiferença. Ao cruzar a soleira da mansão dos Cullen, uma construção moderna e envidraçada que se escondia nas profundezas da floresta, ele mal esperou para fechar a porta antes de procurar a irmã, cujos passos leves ele já ouvia ecoando na cozinha espaçosa e banhada pela luz suave da tarde.
— Alice, quem era a garota que estava com você e o Jasper hoje de manhã? Aquela que parecia estar prestes a ser engolida pelo próprio casaco? — perguntou Edward, tentando manter a voz casual e desinteressada enquanto se encostava na bancada de mármore da cozinha, observando Alice que, naquele momento, ajudava Esme a organizar algumas flores em um vaso de cristal. Esme, a matriarca da família, possuía um rosto de doçura maternal e uma elegância atemporal que parecia trazer paz a qualquer ambiente, e ela levantou o olhar com um interesse gentil ao ouvir a pergunta do filho, percebendo imediatamente a tensão sutil em seus ombros e o brilho incomum em seus olhos bronzeados. Alice deu um gritinho de empolgação, soltando os ramos de lavanda que segurava para bater as mãos com alegria, seus olhos se iluminando como se ela tivesse acabado de ganhar o maior prêmio do mundo, enquanto Jasper entrava na sala e se sentava em silêncio, observando a cena com seu habitual ar de serenidade observadora.
— Ah, Edward! O nome dela é Isabella Swan, mas ela prefere Bella, e ela é absolutamente maravilhosa! — exclamou Alice, sua voz subindo uma oitava enquanto ela começava a andar de um lado para o outro na cozinha, gesticulando freneticamente para dar ênfase às suas palavras. Alice descreveu o encontro, o diálogo sobre o Arizona e a forma como Bella parecia se encaixar no espaço ao lado dela com uma perfeição que a intuição de Alice já havia validado como algo predestinado. Esme sorria para o entusiasmo da filha, mas havia uma nota de cautela em seu olhar ao ver a intensidade com que Alice falava sobre a nova amiga, sabendo que o entusiasmo dos Cullen poderia ser, às vezes, um pouco avassalador para os mortais comuns, especialmente para alguém tão reservado quanto a filha do xerife Charlie Swan parecia ser de acordo com a descrição que Alice fornecia entre suspiros de empolgação.
— Eu estou falando sério, Edward, minha intuição nunca falha e ela está gritando que nós somos irmãs de alma, as melhores amigas que o destino poderia unir sob este céu cinzento de Washington! — continuou Alice, parando diante do irmão e apontando um dedo acusador, mas brincalhão, para o peito dele, enquanto seus olhos brilhavam com uma certeza quase profética que sempre deixava a família em alerta. Alice começou a listar todas as qualidades que já havia discernido em Bella em apenas algumas horas de convivência: a inteligência silenciosa, a timidez que escondia um senso de humor afiado e a beleza que não precisava de artifícios para se destacar. Edward ouvia tudo em silêncio, sentindo uma mistura estranha de alívio e ansiedade ao saber o nome dela, enquanto as palavras de Alice pintavam um retrato de Bella que apenas confirmava a atração magnética que ele sentira no pátio da escola, uma atração que parecia perigosa dada a iminência de sua partida para a universidade no final daquele ano letivo.
Esme, percebendo que Alice já estava planejando convites para jantares, idas ao cinema e talvez uma mudança completa no guarda-roupa da menina, aproximou-se da filha e colocou uma mão carinhosa em seu ombro, interrompendo o fluxo incessante de palavras com um sorriso suave e apaziguador. Jasper, do seu lugar à mesa, soltou um suspiro de alívio, sentindo a energia frenética de Alice ser suavizada pela calma inata de Esme, que sempre sabia como equilibrar as paixões da família com uma dose necessária de realidade e bom senso. Edward continuava perdido em seus pensamentos, a imagem de Bella e a descrição de Alice fundindo-se em uma obsessão crescente que ele sabia que não seria capaz de ignorar, mesmo que a razão lhe dissesse que o tempo deles era curto e que o destino parecia estar jogando um jogo cruel ao apresentá-los naquele momento específico de suas vidas.
— Alice, querida, vá com calma... tente não assustar a pobre menina logo na primeira semana — disse Esme, rindo baixinho enquanto acariciava o rosto da filha com ternura, seus olhos brilhando com uma sabedoria que compreendia perfeitamente a empolgação da juventude, mas também os riscos de um coração que se entrega rápido demais. Alice fez um biquinho de protesto, mas logo relaxou sob o toque da mãe, prometendo que tentaria ser "razoável", embora todos ali soubessem que a palavra razoável raramente fazia parte do vocabulário de Alice quando ela decidia que havia encontrado alguém especial. Edward, sentindo-se estranhamente exposto pela conversa, virou-se e subiu as escadas para o seu quarto em silêncio, levando consigo o nome de Bella gravado em sua mente como uma melodia que se recusa a ser esquecida, enquanto a chuva de Forks continuava a cair lá fora, selando o início de uma história que nenhum deles poderia prever onde terminaria.
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