All too well
8 A Profanação do Sagrado
"And did the twin flame bruise paint you blue?
Just between us, did the love affair maim you, too?"
Capítulo 8: A Profanação do Sagrado
A luz cinzenta da manhã de Boston atravessava as cortinas de linho do apartamento de Tanya, revelando um cenário de decadência que contrastava violentamente com a sofisticação que Edward tanto buscara. Ele acordou com o som rítmico da própria pulsação martelando em suas têmporas, um subproduto das garrafas de vinho caro abertas para comemorar o sucesso de seu último caso. Ao tentar se sentar, sentiu o peso de um braço sobre seu peito; Tanya dormia ao seu lado, o rosto sereno de quem não carregava o peso de uma promessa quebrada. Edward sentiu um refluxo de náusea que nada tinha a ver com a ressaca. As memórias da noite anterior voltaram em flashes cruéis: o riso fácil de Tanya, o calor do álcool, a sensação de querer pertencer a Boston de corpo e alma, e o momento em que ele permitiu que a linha entre a amizade e a traição fosse apagada pelo desejo de esquecer a saudade de Forks.
Ele olhou para o relógio na mesa de cabeceira e o choque foi como um balde de água gelada: eram dez da manhã. O voo que o levaria para o aniversário de dezoito anos de Bella havia partido há quatro horas.
— Não, não, não... — murmurou Edward, levantando-se com movimentos frenéticos, ignorando o resmungo de Tanya enquanto ele buscava suas roupas espalhadas pelo chão. Ele vestiu a camisa amassada e as calças com as mãos trêmulas, sentindo-se a criatura mais desprezível da face da terra. Ele correu para o Aeroporto Logan, implorou por qualquer assento em um voo de conexão, mas o tempo, que ele tanto subestimara, agora cobrava seu preço. Entre atrasos de escala e a chuva torrencial que fechou os portos de Seattle, Edward só conseguiu pisar em Forks quando os ponteiros do relógio já marcavam quatro horas da manhã do dia seguinte.
A mansão dos Cullen estava imersa em um silêncio sepulcral quando ele abriu a porta da frente. Apenas uma lâmpada de leitura estava acesa na sala de estar, lançando sombras longas sobre os móveis caros. No centro do sofá, Alice estava sentada com as pernas recolhidas, os olhos dourados fixos na escuridão da floresta através da janela. Ela não se moveu quando ele entrou; ela não correu para abraçá-lo ou para xingá-lo. Sua imobilidade era mais aterrorizante do que qualquer grito.
— Você tem noção do que fez, Edward? — a voz de Alice saiu baixa, carregada de uma frieza que parecia vir de séculos de gelo acumulado. Ela finalmente virou o rosto para ele, e Edward recuou diante da dor e da decepção que viu ali. — Eu passei a noite inteira segurando a mão da Bella. Eu vi aquela garota murchar na frente de todo mundo. Eu vi o Charlie olhar para ela como se o coração dele estivesse sendo arrancado. Ela esperou por você até não ter mais lágrimas, Edward.
— Eu tentei chegar, Alice... o voo, a chuva... — Edward tentou começar, sua voz falhando enquanto ele se aproximava, mas Alice se levantou em um salto, sua estatura pequena parecendo ocupar toda a sala.
— Não minta para mim! Eu sinto o cheiro em você! — gritou Alice, as lágrimas finalmente transbordando de seus olhos. — Você não cheira a aeroporto ou a chuva. Você cheira a perfume francês e a um vinho que não servimos aqui. Onde você estava, Edward? Onde você estava enquanto a sua "alma gêmea" soprava velas para o vazio?
Edward caiu de joelhos no tapete persa, a exaustão física e moral finalmente o derrubando. Ele escondeu o rosto nas mãos, os soluços escapando de sua garganta como se fossem veneno.
— Eu estava com a Tanya, Alice... — confessou ele em um sussurro que pareceu profanar o ar da sala. — Eu bebi demais, eu queria me sentir parte daquele mundo de novo e... eu a traí. Eu traí a Bella. Eu destruí a única coisa pura que eu já tive na vida.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, interrompido apenas pelo som do coração de Alice quebrando. Ela deu um passo atrás, como se ele fosse uma doença contagiosa, o olhar de admiração que ela sempre tivera pelo irmão sendo substituído por um nojo profundo e irremediável.
— Você é um monstro, Edward — disse Alice, sua voz agora sem emoção, o que era mil vezes pior. — Você não apenas perdeu o voo; você perdeu o direito de sequer pronunciar o nome dela. Eu lutei por vocês dois, eu fiz de tudo para manter essa "obra-prima" de pé enquanto você estava ocupado sendo "brilhante" em Boston. Eu estou exausta. Eu sou a soldada que está voltando com metade do peso porque eu acreditei em uma mentira que você criou.
— Alice, por favor... — Edward tentou tocar a bainha do vestido dela, mas ela se esquivou com um gesto de repulsa.
— Não me peça nada. Você vai sair desta casa e você vai até a Bella, e você vai dizer a ela a verdade. Você não vai dar desculpas sobre voos atrasados. Você vai olhar nos olhos daquela menina, que te amou com cada fibra do ser e vai dizer que você a trocou por uma noite de egoísmo em Boston — ordenou Alice, caminhando em direção às escadas sem olhar para trás. — E depois disso, Edward... eu não sei se ainda tenho um irmão. Porque o Edward que eu conhecia nunca soltaria a mão da Bella para segurar a de outra pessoa sob a luz de Boston.
Edward permaneceu sozinho no chão da sala, cercado pelo luxo que agora parecia uma prisão, enquanto o sol começava a nascer timidamente sobre Forks. O aniversário de Bella havia acabado, e com ele, a vida que ele conhecia. O caminho para a casa dos Swan agora parecia a trilha para o seu próprio julgamento final, e o cachecol que ele tanto amara agora era apenas um pedaço de lã manchado por uma traição que ele nunca seria capaz de apagar.
O sol nasceu sobre Forks não com esperança, mas com uma claridade fria e impiedosa, revelando as olheiras profundas no rosto de Bella enquanto ela permanecia sentada na varanda, enrolada em um cobertor que não conseguia aquecer o gelo que havia se instalado em seu peito. Quando o Volvo prateado finalmente dobrou a esquina, o som do motor, que outrora era a música favorita de seu coração, agora soava como um lamento fúnebre. Edward desceu do carro com os ombros curvados, a aparência desalinhada e um desespero palpável nos olhos, mas Bella não correu ao seu encontro. Ela permaneceu estática, observando-o caminhar em sua direção como se estivesse assistindo a um fantasma tentando retornar ao mundo dos vivos.
— Bella... meu Deus, Bella, me perdoa — começou Edward, a voz embargada, aproximando-se com as mãos estendidas como se pudesse consertar o irreparável com um toque. — O voo, a tempestade em Seattle... eu tentei de tudo para chegar a tempo, eu juro que tentei. Eu me sinto um lixo por ter te deixado esperando, eu sei que era o seu dia, eu sei que nada justifica...
Ele tentou envolvê-la em um abraço, um gesto de puro instinto para recuperar o território que sabia estar perdendo. Foi nesse momento que o mundo de Bella desabou e se reconstruiu com uma clareza cortante. Ao se aproximar, o ar ao redor de Edward não trazia o frescor da chuva de Forks ou o cheiro familiar de pinheiros; em vez disso, um rastro doce, floral e invasivo de um perfume francês caro atingiu os sentidos de Bella, misturado ao odor residual de álcool e ao entorpecimento de uma noite que não lhe pertencia. Ela recuou como se tivesse sido queimada, os olhos arregalados enquanto as peças do quebra-cabeça se encaixavam com uma precisão cruel.
— Não encosta em mim, Edward — disse ela, a voz saindo baixa, mas carregada de uma autoridade que o fez congelar. — Não ouse jurar que tentou chegar. Esse cheiro... esse perfume não é meu. E não é de ninguém que vive em Forks.
O silêncio que se seguiu foi excruciante. Edward abriu a boca para formular uma mentira, uma desculpa jurídica, qualquer coisa que sua mente "brilhante" pudesse conceber, mas ao olhar para o rosto de Bella, ele viu que a "garota deslumbrada" havia morrido na noite anterior. O que restava era uma mulher que acabara de desenterrar a própria decepção.
— Você estava com ela, não estava? Com a Tanya. Enquanto eu olhava para aquela porta até as luzes se apagarem, você estava se perdendo naquele seu mundo perfeito de Boston — Bella continuou, as lágrimas finalmente escorrendo, mas seu tom permanecia firme, desprovido da hesitação adolescente. — Você veio até aqui checando o meu pulso, jurando que ainda somos os mesmos, tentando ressuscitar algo que você mesmo deixou sangrar até morrer. Mas você não pode voltar depois de três meses na cova e esperar que eu ainda esteja respirando. Você está segurando um corpo sem vida, Edward.
— Bella, foi um erro, uma noite de fraqueza porque eu estava sob pressão, eu estava confuso... — Edward começou a soluçar, caindo de joelhos no cascalho da entrada, a imagem da ruína total. — Eu amo você. Ela não significa nada, foi apenas o ambiente, o álcool... Por favor, não jogue fora tudo o que construímos por causa de um deslize.
— Um deslize? — Bella soltou uma risada amarga, que soou como vidro se quebrando. — Nós nos perdemos na tradução, Edward. Talvez eu tenha pedido demais. Talvez eu tenha pedido a fidelidade e o respeito que você guardou apenas para os seus livros e para as suas amizades brilhantes. Mas a verdade é que o que eu pedia era muito pouco para quem amava de verdade. Eu pedia apenas que você estivesse presente. Eu cansei de me contentar com as migalhas do seu tempo, com os restos da sua atenção quando o seu mundo sofisticado ficava monótono demais.
Ela deu um passo à frente, olhando-o de cima, sentindo uma força que nascia das cinzas de sua própria inocência.
— Aquela magia que tínhamos no deck, na cozinha sob a luz da geladeira... ela não está mais aqui. Você a rasgou por completo. Talvez isso fosse uma obra-prima, a coisa mais linda que eu já vi, até você decidir que precisava destruí-la para ver se conseguia algo mais brilhante em Boston. E agora você se pergunta para onde tudo foi? Foi embora com cada minuto que eu passei sentada naquela escada ontem à noite. Eu sinto vergonha, Edward. Vergonha por ter alcançado você por tanto tempo enquanto você só se afastava.
— Eu posso mudar, eu largo tudo, eu volto para Forks! — gritou ele, desesperado, tentando segurar a barra do casaco dela.
— Não, você não vai. Porque você não é mais o Edward que cabia no meu mundo, e eu não sou, e nunca serei, brilhante o suficiente para o seu. Nós somos estranhos falando línguas diferentes agora — Bella sentenciou, limpando o rosto com determinação. — Eu posso estar ok daqui a algum tempo, mas agora eu não estou nada bem. Eu vou ter que esquecer você por tempo suficiente para esquecer a razão de precisar te esquecer. Mas hoje, a única coisa que sinto é o alívio de não ter que esperar mais por alguém que já partiu há meses.
Bella se virou, caminhando em direção à porta de casa sem olhar para trás, deixando-o ajoelhado na lama e no cascalho. Cada passo dela era uma nota final em uma sinfonia que ele havia arruinado. Edward ficou para trás, cercado pelo silêncio opressor de Forks, percebendo que havia trocado o sol de sua vida por luzes artificiais de uma cidade fria. Ele tinha Boston, tinha o Direito, tinha a aprovação de Carlisle, mas ao olhar para a varanda vazia, ele soube que havia perdido a única coisa que o tornava verdadeiramente real. Ele lembraria de tudo, muito bem, mas o peso dessa memória seria o seu único companheiro pelo resto dos seus dias vazios.
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