All of me
6 Capítulo 06
Notas iniciais
A minha relação com a Rose mudou completamente. Antes ela se atinha a me dirigir a palavra apenas quando estava entre mim e o Albus e, quando eu a procurava, sempre acabava com uma negativa estampada na testa. Agora, no entanto, eu encontrava o olhar dela me procurando por cima dos estudantes que nos separavam durante as refeições no Salão Principal. Ela sempre desviava os olhos com rapidez, mas eu notava. Várias vezes ela veio se sentar comigo e o Albus durante as aulas que tínhamos juntos, por mais que ela fizesse questão de colocar ao lado dele e não do meu, mas eu me contentava com a aproximação que estava aumentando.
Duas semanas depois do baile, eu estava morrendo de saudade dela, claro que havíamos conversado — o que agora fazíamos com certa frequência já que ela era minha “amiga” — mas eu queria outra dose de beijos, comecei a achar que tudo tinha sido apenas um incidente único. Decidido a provar, não só para mim mesmo como para ela, que esse não era o caso, me levantei da mesa no final da última aula do dia e fui até onde ela guardava os livros rodeada pelas amigas.
—Oi, Rose — chamei a atenção dela.
—O que foi, Scorpius? — perto dos outros ela ainda insistia em fingir mais animosidade do que realmente existia entre nós, mas eu não ligava nem um pouco.
—Preciso falar com você rapidinho, é importante.
—Agora? — eu assenti, mantendo a cara séria — tá bom, tchau meninas, vejo vocês depois.
Ela me acompanhou para fora da sala, eu virei alguns corredores, tentando chegar em algum lugar mais vazio.
—O que você queria, Scorpy? — o apelido irritante sempre estava na boca dela quando éramos só nós dois, mas eu já até achava fofo.
Não respondi a pergunta, pois naquele momento eu achei o local ideal. Uma estátua imensa de uma bruxo que ninguém mais sabia o que era, enfeitava um dos lados da passagem em que nos encontrávamos, eu a peguei pela mão e puxei para trás da escultura, de modo que ficássemos fora do campo de visão de quem quer que estivesse passando.
—O que você queria falar? — ela repetiu me olhando confusa.
—Não quero falar nada — me inclinei para frente colando meus lábios nos dela que, para o meu alívio, não me mandou para longe, ao invés disso passou os braços pelo meu pescoço.
—Tudo isso foi só pra chamar minha atenção? — ela zombou com os lábios ainda perto dos meus.
—Eu senti a sua falta — confessei apertando a sua cintura e prensando o meu corpo no dela, que tinha as costas apoiadas na estátua.
—Falei com você hoje de manhã.
—Não é da Rose que eu tenho saudade, é da Rosie — expliquei prendendo os lábios dela entre os meus dentes, antes de iniciar outro beijo que ela recebeu sorrindo.
—Que eu saiba, são a mesma pessoa — ela continuou os argumentos, enquanto eu beijava o seu pescoço, sentindo-a estremecer com uma mordida mais forte.
—Não são, a Rose existe para todo mundo, a Rosie é só minha — ela pegou meu rosto entre as mãos, levantando-o na altura dos olhos dela.
—Você está se achando demais, Scorpy — ela tentou soar indiferente, mas só de usar aquele apelido, a declaração perdia a força e mais ainda quando ela trouxe meu rosto de volta ao dela, explorando a minha boca minuciosamente com a língua.
Nos despedimos algum tempo depois. Meu humor muito melhor ao saber que nada tinha mudado em relação às reações que os beijos dela me causavam e melhor ainda, às que a minha boca causava nela. Dois dias depois, foi a vez dela de me procurar na hora do almoço. Como sempre, eu estava sentado com o Albus, discutindo animadamente pela milésima vez, qual dos nossos times de quadribol era o melhor. Ela chegou de mansinho ao meu lado, eu só notei quando o meu amigo levantou os olhos e cumprimentou a prima.
—Oi, meninos — nada parecia diferente das outras milhares de vezes que ela veio se juntar a nós — Scorpius, posso falar com você rapidinho?
—Claro — o Albus me olhou com uma expressão divertida, mas eu ignorei completamente, assim como a Rose.
Eu a segui com o coração já acelerado de ansiedade, minhas expectativas se concretizando quando ela abriu a porta de uma sala vazia no corredor de cima e me pediu para entrar. A boca dela já estava na minha, antes mesmo que eu escutasse o barulho da porta batendo. Era muito gostoso esse clima de clandestinidade, eu não me importava em dizer para o mundo todo que estávamos juntos, mas ela insistia em pensar que aquilo não era nada, e se recusava a deixar qualquer um saber. Eu não ia reclamar das condições, desde que pudesse permanecer perto dela, enlouquecendo com o gosto daquela boca e o toque das mãos ágeis.
—Preciso ir, tenho uma aula em dez minutos — ela falou afastando a boca da minha.
—Já? — resmunguei, puxando-a de volta.
—Você tem a última aula hoje?
—Não, por quê? — perguntei intrigado.
—Tenho treino de quadribol, por que você não vem assistir? — eu fiquei radiante com o convite, geralmente uma boa quantidade de alunos assistia aos treinos, mas ela ter me chamado foi muito significativo para mim. só tinha um problema.
—Vai ser bem pouco suspeito um aluno da Sonserina assistindo ao treino da Grifinória — observei.
—Ah, é mesmo! — ela franziu a testa como se o fato não a tivesse ocorrido — pode vir me encontrar depois do treino então, você sabe onde é o vestiário? — o sorriso dela era sugestivo, e nem que eu não soubesse onde era, eu teria descoberto.
—Sei — confirmei.
—Espera todo mundo sair — ela advertiu — até mais tarde, Scorpy — ela me deu um beijo na bochecha e foi embora para a aula.
Eu não sabia a razão pela qual eu ainda tentei prestar atenção na aula que fui assistir logo em seguida. Meus pensamentos estavam concentrados apenas num emaranhado de cabelos vermelhos e na sensação das mãos dela em mim. Claro que o Albus percebeu que eu estava mais distraído do que o normal, mas depois da minha terceira negativa quando ele perguntou se tinha alguma coisa acontecendo, apenas revirou os olhos e deixou escapar um sorrisinho debochado. Meu amigo era muitas coisas, mas idiota não era uma delas. Eu não precisava confirmar para ter certeza de que ele sabia o motivo exato da minha falta de atenção.
Pior do que esperar a aula terminar, foi ter que controlar a ansiedade para não sair correndo em direção ao campo de quadribol enquanto ele estivesse lotado de alunos de uma casa que não era a minha. Entretanto, eu sabia que aparecer por lá antes que todos tivessem partido serviria apenas para deixar a Rose furiosa e as coisas andavam tão bem entre os nós que eu não arriscaria nenhuma mudança. Enrolei sentado bem perto do relógio que adornava a lareira da sala comunal, o tempo todo querendo que alguém tivesse inventado algum tipo de feitiço para acelerar minutos. Eu não sabia exatamente o que esperar desse nosso encontro marcado de forma tão pouco habitual. mas eu estaria mentindo se dissesse que não me surgiram umas ideias…. ou várias.
Não esperei um segundo a mais assim que os ponteiros me indicaram o horário em que eu sabia geralmente terminar os treinos de quadribol. Fui poupado de ter que inventar alguma desculpa esfarrapada para a minha saída repentina já que o meu amigo estava na biblioteca provavelmente terminando algum trabalho que eu tinha finalizado há muito tempo. Andei o mais rápido que as minhas pernas permitiram através dos terrenos da escola. O frio já castigava bastante, porém nem percebi o quanto o vento cortava o meu rosto, ou a temperatura ridiculamente baixa em que meus dedos se encontravam, já que eu havia esquecido as minhas luvas.
Assim que eu cheguei ao campo, já não tinha mais ninguém na arquibancada, calculei que, no máximo, o time ainda estaria no vestiário terminando de receber as últimas considerações do treino num lugar mais quente do que a céu aberto. Como a Rose tinha me falado para esperar todos saírem primeiro, eu me escondi perto da porta, torcendo para que as pessoas, as quais as vozes que eu escutava pertenciam, retornassem logo ao castelo. Fiquei alí todo encolhido, vendo a fumaça branca que saia da minha boca e tentando trazer algum calor aos meus dedos ao esfregá-los e enrolá-los com as mangas do meu casaco.
Felizmente, poucos minutos depois, a porta do vestiário se abriu e uma fileira de pessoas saiu. Alguns carregavam suas vassouras consigo, todos conversando animadamente. Do meu esconderijo eu consegui contar os alunos até ter certeza de que faltava apenas uma, a única em que eu estava interessado. Provavelmente ela deve ter inventado alguma desculpa para ficar para trás, com certeza a mente dela era brilhante e afiada o suficiente para ser convincente. Assim que o grupo de grifinórios já estava suficientemente longe, eu avancei até a porta e bati de leve,
—Rose? — foi num meio sussurro que eu a chamei, não custava nada ter certeza de que ela estava sozinha.
—Pode entrar — a voz dela surgiu abafada.
Escancarei a porta dando boas vindas para o ar morno que me recebeu. A Rose ainda se encontrava em seu uniforme escarlate, sentada no banco que ficava encostado no fundo do vestiário, ela tinha a atenção voltada para a vassoura em suas mãos.
—Pensei que você não viesse mais — ela não levantou os olhos do local que limpava.
—Claro que eu vim, só estava esperando todo mundo sair — expliquei cruzando o espaço até ela que finalmente levou o olhar até mim.
—Scorpy! — os olhos dela dobraram de tamanho para combinar com o tom surpreso me deixando confuso.
—O que foi? — olhei de um lado pro outro como se fosse achar algo estranho me seguindo.
—Você está… — ela deixou a vassoura de lado e se levantou ficando a centímetros de mim, o que já era suficiente para acelerar o meu pulso, porém nada comparado com o momento em que ela levou o dedo indicador aos meus lábios — vocês está morrendo de frio, não está? Seus lábios estão roxos!
Ela me olhava esperando uma resposta, mas tudo o que eu conseguia pensar era que queria que ela não parasse a carícia que estava fazendo.
—Só um pouco…
—Um pouco? — a Rose não seria ela mesma se não tivesse sempre razão e, para provar sua opinião, os dedos dela deixaram o meu rosto para se enlaçar nos meus — suas mãos estão congelando! Onde estão as suas luvas? E o seu cachecol?
Ela me encarava com repreensão no olhar, porém eu consegui enxergar a preocupação por baixo de tudo, o que fez o meu coração dar um pulinho de felicidade. Ela podia estar me dando uma mini bronca, mas eu já sabia que isso fazia parte do jeito Rose de mostrar que se importava.
—Acabei esquecendo…
—Num tempo desses, você é louco? — as mãos dela continuavam presas as minhas, como se ela estivesse tentando passar um pouco do calor delas para mim.
—Eu não queria me atrasar pra te ver — a resposta pareceu quebrar o ímpeto com o qual ela me repreendia e eu poderia jurar que vi o olhar dela se suavizar.
—Tudo bem, mas da próxima vez não seja tão esquecido, de que ia adiantar se você tivesse congelado lá fora?
Ela levantou nossas mãos ainda unidas até a altura do meu peito e se aproximou de modo a se encostar em mim. O frio era a última coisa na minha mente, mas eu não ia desperdiçar a chance.
—Na verdade eu ainda estou com frio… alguma ideia pra me ajudar? — eu não consegui manter o semblante inocente que pretendia a princípio, e pelo sorriso sugestivo que a Rose me lançou, as ideias que surgiram na mente dela eram bem parecidas com as minhas.
Naquele dia, voltamos mais uma vez depois do devido para os nossos dormitórios, muito em virtude do fato de que o uniforme de quadribol era muito mais difícil de tirar do que um vestido de baile. O Albus, que já sabia muito bem o que andava acontecendo entre mim e a Rosie, já nem perguntava mais onde eu estava quando notava a minha ausência. Se contentava a me lançar um olhar irônico, balançando a cabeça. Continuamos com os nossos pequenos encontros. Desculpas esfarrapadas para roubar beijos pelos corredores e algumas poucas chances de nos aproveitarmos por mais tempo. Eu estava num estado permanente de felicidade, pois cada vez mais, eu percebia o quanto ela se sentia à vontade ao meu lado, e buscava a minha presença.
Nossas conversas se tornaram mais frequentes e iam de tudo a nada. Não existia assunto bobo demais que eu não quisesse saber e ela parecia contente em compartilhar: cor favorita, prato favorito e por aí em diante. Não sei bem como começou, mas surgiu o hábito de lançarmos uma pergunta do nada, para o qual esperávamos uma resposta rápida e sincera. Ela era tão curiosa quanto eu, e me fazia rir com vários dos tópicos que ela escolhia, o último tendo sido uma pergunta muito sutil. Ela estava se despedindo de mim antes de sairmos da biblioteca, depois de uma tarde inteira de estudos durante o sábado quando lançou o desafio.
—Melhor Ministro da Magia de todos os tempos? — a cara dela já me dizia que ela sabia que a pergunta não era justa.
—Sua mãe, claro! — eu respondi rapidamente e a sinceridade não era fingida, a mãe dela realmente era das melhores pessoas que o ministério já teve oportunidade de empregar.
—Resposta certa! — ela riu e se afastou para ir embora, se virando antes de sumir da minha vista e lançando um beijo em minha direção.
Ela tinha acabado de me jogar um beijo! Eu fiquei estático por alguns segundos, completamente conformado que eu apresentava uma cara de bobo apaixonado, nada de novo. Eram coisas assim que mantinham as minhas esperanças e toda a minha determinação acesas. Eu ainda não tinha uma confirmação explícita, mas sentia em tudo que ela fazia que eu não era apenas qualquer um.
Duas semanas antes das férias do natal, a maioria dos alunos já estava em clima de festas. O castelo se encontrava todo decorado e o espírito se fim de ano podia ser quase sentido no ar. As corujas tinham acabado de chegar com as cartas do dia, recebi uma da minha mãe e me apressei a lê-la enquanto o Albus se ocupava em comer o café da manhã. A notícia na carta não era das melhores, mas fui interrompido de contar ao meu amigo pela chegada da Rose.
—Oi, Rose — cumprimentei com um sorriso que ela devolveu.
—Al — ela chamou a atenção do primo — minha mãe mandou um pacote com penas novas, pelo jeito essas são as melhores agora, aqui estão as suas — entregou um pacote para ele.
Eu já estava acostumado a ver essas remessas, no mínimo curiosas, por parte da mãe dela. Eram blocos de pergaminho, penas, tintas que não borravam, tudo que ela achava que pudesse melhorar a vida acadêmica dos filhos e de todos os sobrinhos. O Albus sempre dava risada, mas eu sabia que ele gostava da atenção e no fundo eu sentia uma certa vontade de que eu tivesse alguém preocupado com a mesma coisa para mim. Era feio ter tais pensamentos quando eu sabia que meus pais me amavam tanto, mas eu sentia falta de ter uma família como a deles, os Malfoy não eram do tipo carinhoso, éramos apenas eu e meus pais, nada de primos, tios e tias.
—Ela não podia ter esperado duas semanas para nos entregar em casa? — ele perguntou para a prima.
—Você sabe como é a minha mãe — ela deu de ombros, antes de olhar para mim e estreitar os olhos — que cara é essa, Scorpy...Scorpius? — ela engasgou consertando de última hora o meu apelido, quase me fazendo rir mesmo com a notícia que tinha me deixado chateado.
—Era uma carta da minha mãe, vou ter que passar o natal aqui esse ano — expliquei.
—Aconteceu alguma coisa? Você sempre vai pra casa… — o meu amigo se apressou a indagar.
—Não, eles fazem 20 anos de casado semana que vem, e meu pai quis presenteá-la com uma viagem e pra passar o natal com o meu avô, eu fico bem aqui, obrigado.
—É, realmente… mas vai ficar praticamente só você, todo mundo da nossa casa sai no feriado.
—Eu sei, mas o que eu posso fazer? — levantei os ombros já conformado em passar as festas no castelo.
—Mas você é um péssimo amigo mesmo, hein Al? — a Rose interrompeu meus pensamentos — Como ainda não convidou o Scorpius para ficar com a gente?
—Hã? — eu e o Albus entoamos em uníssono, nenhum dos dois acreditando, por motivos diferentes, que ela havia sugerido aquilo.
Mordi a boca para não deixar escapar um sorriso maior do que a minha cara.
—Você não vai deixar o seu melhor amigo aqui sozinho no natal, vai? — era impressionante como ela sempre conseguia fazer a opinião dela parecer a única opção viável, mas no fundo eu desejava que as palavras dela fossem mais sobre o que ela queria do que qualquer dever de amigo do Albus.
—Claro que não! Você vem com a gente, né Scorpius? — ele se virou para mim esperando uma resposta.
—Eu… — claro que o que eu queria mais era pular de encontro a essa oportunidade, duas semanas junto com o meu amigo e a Rose e não ter que passar o natal sozinho, porém era a família deles que me dava certo receio. Eu conhecia bem as histórias e sabia que o nome Malfoy não era o preferido de nenhum deles — Não sei, Albus os nossos pais…
—Deixa de besteira, Scorpius, eles brigavam, mas você é meu amigo. Vou mandar uma carta para minha mãe avisando, ela não vai se importar — meu amigo me assegurou e assim foi decidido que eu passaria as festas com as famílias Weasley e Potter.
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