Notas iniciais
Espero que gostem

Eu não tinha coragem de encará-la, não tinha coragem nem para olhar pra onde ela estava em momento algum. Havia momentos em que eu sabia que seus olhos estavam cravados em mim, mas eu nunca olhava de volta. O caso, era que apesar de eu estar mal, sabia que ela estava pior e eu não conseguia me aproximar.

Hugo havia me falado o motivo de ela ter rompido com tudo e mesmo eu reconhecendo e entendendo o motivo, eu sabia que se voltasse apenas atrapalharia a vida dela. Eu não poderia ser o peso inútil na vida dela. Melissa era uma puro sangue, super inteligente, justa e corajosa, ela tinha um futuro tão bonito que eu simplesmente não queria estragá-lo.

E mesmo eu a ignorando, muitas noites o caderno estava com a sua letra e eu sempre me sentia tentado em respondê-la, mas nunca o fazia. Eu precisava de um tempo para poder me acostumar com a sua ausência e para poder me curar um pouco dela, porque mesmo sem querer, ela me puxava de volta.

E era isso que mais me irritava na nossa relação e na nossa situação, que apesar de as chances de darem errado serem maiores, a gente sempre se puxava um pelo outro, como se houvesse uma linha que estivesse nos conectando e estivesse nos lembrando de que não iríamos muito longe um sem o outro.

Nosso término já havia se estendido por quase três meses e apesar de todo esse tempo não havia coragem o suficiente em mim para poder respondê-la.

Nesse momento, eu e os meninos havíamos acabado de entrar na Sala Precisa. Estava rolando uma festa e já era sábado à noite, ou seja, “liberdade ainda que tardia”. Scorpius tratou de sumir para procurar Rose e Zabini foi procurar Dominique, agora que reataram eles ficam mais grudados do que nunca. Hugo ficou me fazendo companhia, mas eu sabia que ele logo me largaria para procurar Melissa, durante esses meses ele foi o que ficou mais próximo da ravina.

–E ai, Al. — Bianca Houck me cumprimentou e apenas sorri de canto. A loira colocou um copo na minha mão e eu passei o braço pelos ombros dela e a puxei pra perto.

–O que tem de bom nessa festa, loira? –indaguei.

–Estão competindo Oclumência e Legilimência ali no meio. Vai querer tentar? –Sorri e empolgado e concordei na mesma hora. É claro que eu faria.

(...)

–Vocês estão perdendo muito feio pra mim!- gritei quando consegui extrair mais uma memória de um garoto da grifinória. Eu já estava naquele jogo fazia várias rodadas e todos ficaram surpresos com a minha capacidade de extrair e bloquear. –Quem vai ser o próximo, hã?

–Eu quero tentar. –eu não precisava me virar para poder saber quem era. Aquela voz eu conhecia bem demais para tentar ignorar, apenas assenti com a cabeça e esperei que ela se sentasse na minha frente. –Eu começo?

–Claro, primeiro as damas. –eu respirei fundo, procurei pela minha coragem até então perdida e então a encarei. Seus olhos me afogaram assim que os encarei e por um instante esqueci-me de como se respirava. Meu mar estava bem ali na frente e eu já não sabia mais navegar por ele.

Um silêncio mórbido recaiu onde nós estávamos, apenas a música era a que soava distante, mas nem ela era capaz de atrapalhar nosso contato visual. Eu comecei a franzi o cenho porque sabia que ela estava tentando entrar e tentava repeli-la ao máximo, mas Melissa era forte e a cada tentativa, suas investidas se tornavam mais violentas a ponto que comecei a sentir dor de cabeça.

Havia uma contagem de três minutos e eu sabia que logo estaria no fim, mas ela estava me incomodando pela forma passiva que me encarava e como parecia calma enquanto tentava invadir minha mente. Senti o suor escorrendo pela minha testa e engoli em seco, mais vinte segundos e tudo vai estar acabado.

–Bateu o tempo. –quando a pressão diminuiu, meu corpo caiu pra frente, mas fui segurado. Bianca encostou meu corpo de volta cadeira e passou a mão pela minha testa, a secando. Eu estava com os olhos fechados com força e puxava o ar com a mesma força, Melissa era inacreditável.

Sentia minha cabeça girar e um enjoo subir, mas então mãos frias tocaram o meu rosto suado.

–Vamos, Albus. Abre os olhos. –eu não consegui recusar seu pedido e abri os olhos aos poucos assim como ela havia pedido. Seu rosto estava preocupado e eu senti uma vontade imensa de tocá-la, mas não o fiz. Ela passou a mão pela minha testa e pelo meu pescoço secando suor, e depois sorriu sem mostrar os dentes. –Isso, muito bom. Foca os olhos em mim, logo vai parar a tontura. –murmurei qualquer coisa para dizer que estava entendendo e mesmo que ela não tivesse pedido, minha atenção já era completamente dela.

A tontura sumiu assim como ela havia prometido e logo a minha respiração se tranquilizou. A ravina se afastou de mim e voltou a se sentar na cadeira que estava na minha frente, ela tinha um sorriso zombeteiro e eu sabia que era a minha vez de atacar.

Eu tinha três minutos e faria com que valessem a pena. Se eu conseguisse invadir, eu tinha cerca de mais dez minutos para visualizar alguma lembrança, qualquer coisa. Quando me permitiram eu fiz a primeira força contra ela e pelo seu rosto sabia que ela não estava esperando por aquilo, e a cada vez que eu tentava fazia o dobro da força da anterior, até que na quinta tentativa eu adentrei.

(...)

Estávamos em alguma clareira que eu não reconhecia, havia um lago gigante, que era até maior que o Lago Negro. Um pouco perto da margem havia uma mini ilha que não parecia haver sentido estar ali.

Estávamos eu, Melissa, Carlos e Hugo conversando e sentados perto da margem, zoávamos alguma coisa e só depois eu percebi que havia dois jacarés na outra extremidade onde nós nos encontrávamos, mas não nos importamos com ele.

E algo deu errado. Eu acabei caindo da água, e os outros três ficaram desesperados porque eu havia chamado à atenção dos jacarés que estava brigando entre si. Melissa, sem pensar duas vezes, se jogou na água e foi nadando comigo até a ilha. Ela me puxou com força até que estivéssemos no centro da ilhazinha e os jacarés ficaram nos rodeando como se não tivessem a permissão de subir.

A morena me encarou desesperada, alguns fios dos seus cabelos molhados estavam grudados no rosto e nós dois respirávamos com dificuldade pelo esforço que havíamos feito. Melissa começou a me xingar chamando de idiota, babaca e qualquer outro adjetivo que viessem na cabeça dela, e então ela me abraçou com força e a partir daí eu sabia que ela estava chorando.

Eu a abracei de volta e esperei que ela se acalmasse, quando seu choro cessou ela tentou se afastar, porém eu não permitir. Aquele meu eu não sabia o que estava fazendo, mas só queria ficar mais um pouco daquele jeito com ela.

(...)

Melissa me expulsou com violência da sua mente e eu senti aquilo como se tivesse tomado um soco no estômago pela tamanha força que ela havia utilizado. De acordo com as regras do jogo, se ela consegue me expulsar no tempo que eu tenho para explorar, ela ganha. E eu só havia conseguido completar seis minutos.

A menina na minha frente estava pálida e ofegante, seu rosto parecia estar úmido e eu sabia que era pelo suor e pelas lágrimas. Eu estava na mesma situação do que ela, estava cansado e estranhamente o local estava muito quieto. E então, senti algo escorrendo pelo meu rosto e eu percebi que era uma lágrima.

Eu arregalei os olhos quando senti que meu coração começou a bater rapidamente e estranhamente, não era por causa dela, era por causa do esforço. Eu abaixei o tronco e tentei puxar o ar com força, sem sucesso.

Ouvi um alvoroço, as pessoas que não sabiam o que faziam e depois um estouro.

–QUIETOS! –ouvi a Alphen gritando e depois ela se aproximou de mim. Melissa levantou meu rosto e me obrigou a encará-la. –Se apoia em mim, vou te tirar daqui. –Ela passou um dos meus braços em volta dos seus ombros e depois passou o braço dela pela minha cintura. Eu não queria usá-la como apoio, mas eu não tinha forças para andar e acabei cedendo.

Demorou um pouco para que conseguíssemos sair da Sala Precisa, mas quando obtivemos êxito, a ravina me sentou em um banco escondido para que ninguém nos atrapalhasse.

–Vamos, Albus. Respire devagar. Inspira primeiro, depois solta. –eu comecei a obedecê-la. –Isso. Continua, devagar. Foca-se em alguma coisa para se tornar mais fácil. –eu levantei meus olhos e os foquei nos seus azuis. Os olhos dela estavam límpidos, como o mar em calmaria.

Minha respiração se normalizou e meus batimentos também, ninguém nos seguiu e se tentou, Melissa deve ter dado um jeito de tê-los os bloqueado.

–Obrigado, você não precisava ter feito isso. –comentei depois de um tempo de silêncio.

–Claro que precisava, eu me preocupo contigo. –Melissa estava encolhida no seu canto e não me encarava.

–Aquilo que eu vi, era um sonho? –perguntei de repente.

–Era, eu o tive recentemente. Estranho, não? –ela passou a mão pelos cabelos e depois respirou fundo antes de em encarar. –Eu não consigo estar longe de você, é quase como se você fosse uma prisão. Quero conversar com você e sei que não posso, mas ainda sim eu quero. Por favor, Albus, apenas me responda no caderno. Podemos tentar voltar à normalidade do começo do ano.

Enquanto eu a encarava, vi seus olhos azuis e percebi que eu também não conseguia ficar longe dela, que todo o esforço que eu fiz para evitá-la e nunca encará-la só havia me cansado porque logo se tornaria uma tarefa impossível de se exercer. Eu sabia que não poderia haver um futuro que compartilhássemos, que o destino, nem Merlin ou nossos amigos queriam que ficássemos juntos, também sabia que era uma chance em dez milhões para darmos certos. E eu sabia que a nossa vida tinha que seguir, mas também sabia que não conseguiríamos fazer isso longe um do outro.

E se não fôssemos para ficar juntos, então que pelo menos, sejamos amigos.

–Como quiser, Alphen. Amigos. –e só com essa frase eu sabia que não havia selado meu destino, mas que eu havia dado uma continuidade para aquela coisa impossível que nós éramos.

Notas finais
A história não está terminada ainda xD