Fui atrás de Giselle que estava encostada na parede do lado de fora do quarto extremamente descontrolada. Suas mãos tremiam, ela não parava de soluçar e o rosto até então esbranquiçado havia ganhado tons de vermelho. Eu não sabia o que fazer ou por qual razão ela estava daquela forma, tudo que meu coração pedia era para abraçá-la e foi o que fiz. Puxei-a com carinho trazendo seu corpo junto ao meu e em retribuição ela apoiou a cabeça em meu ombro chorando cada vez mais. Deslizei minha mão direita pelos seus cabelos acariciando enquanto mantinha o outro braço ao seu redor protegendo-a e ela apenas permanecia sem dizer nenhuma palavra. Aos poucos fui sentindo a manga da minha camisa molhar e, por Deus, como eu estava conseguindo ver a mulher que amo chorar daquele jeito absurdo sem poder sequer saber a razão? Apesar do desespero que me acometia, tentei respeitar seu momento e permiti que silêncio entre nós fosse terapêutico até que ela se sentisse pronta para começar.

– Eu sinto muito, eu... eu...

– Shhh... — Pedi colocando o indicador em seus lábios e contornando-os com cuidado — Está tudo bem, eu estou aqui. — Disse dando-lhe um pequeno beijo que molhou minha boca devido as lágrimas que ainda insistiam em cair

– Não, não está tudo bem!

– Amor, calma, vem aqui. — Eu disse a puxando para dentro do quarto e fechando a porta em seguida. O que quer que tivessemos que conversar tinha que ser feito entre quatro paredes e não correndo o risco de Nicolas ouvir. Giselle veio comigo e sentou-se sobre nossa cama ainda com os olhos arregalados e fixos na mala. — Olha, se for por causa dessa brincadeira de mau gosto, podemos processar o hotel.

Ela continuava em silêncio.

– Amor? — Chamei — Gi, olha para mim.

Seus olhos se ergueram com cautela em direção aos meus e expressavam um pedido de desculpas por uma razão até então desconhecida.

– Quer que eu chame o Roberto? Ele deve ter feito alguma reclamação na gerência do hotel quando viu do que se tratava. Quer saber, vou chamá-lo!

– Não precisa. — Ela murmurou

– Como não? Espere aqui! — Insisti e disquei o ramal no quarto para a dependência de empregados. Não demorou sequer alguns minutos para que nosso fiel motorista batesse na porta e até esse momento Giselle ainda parecia em choque

– Senhor! — Ele se anunciou e ao seu lado estava Petterson, nosso chefe de segurança.

– Olá, Roberto e... Petterson? Entrem, por favor. — Pedi e eles deram um passo a frente adentrando no cômodo. — Algum de vocês pode me explicar o que houve aqui?

– Eu estava esperando que seus convidados fossem embora para conversar com o senhor, não queria estragar o almoço familiar. — Roberto começou — Quando cheguei ao hotel para buscar suas bagagens, a recepcionista informou que alguém da equipe dos Walker já tinha ido buscar. Achei estranho porque o senhor mesmo tinha me pedido para fazê-lo e assim que subi me deparei com a mala nesse estado. Então liguei para o Petterson, porque provavelmente se tratava de algo com o qual eu não poderia lidar.

– Ótima escolha. O que houve desde então, Anthony*?

– Pedi que fosse notificado a gerência, senhor Walker, mas eles afirmam que se alguém tocou em tudo foi um suposto empregado da casa e não alguém das dependências do hotel. Eu disse que havia uma falha na segurança, que o erro era deles, mas ainda assim insisti em não abrir a mala para que não dissessem que eu tinha alterado as condições fisicas do objeto.

– Foi bom ter feito isso. De fato alguém invadiu o quarto antes, então?

– Não se trata de uma invasão, foi concedida a permissão e isso pode render um processo grandioso. — Ele complementou — Aliás, pedi para ter acesso às fitas de segurança e eles me garantiram que até o final do dia entregarão tudo, assim poderemos saber quem de fato fez isso com os seus pertences. Pode ser desde um fã enfurecido à alguém da midia, mas o que importa é que encontraremos e podemos indiciá-lo pelos danos.

– Isso já foi notificado à policia? — Perguntei andando pelo quarto devidamente incomodado não apenas com a situação, mas também com Giselle que permanecia estática como se fizesse parte dos móveis.

– Não senhor, estamos esperando pelas gravações dos corredores e hall.

– Não façam isso. — Giselle se pronunciou

– O que? Como não? — Perguntei em um tom levemente grosseiro do qual me arrependi e ela se encolheu mais ainda na cama

– Porque vai ser pior, talvez tenha sido apenas uma brincadeira.

– Senhora, houve uma invasão. — Petterson argumentou

– Foi apenas um maldito boné! — Giselle disse se levantando e mudando bruscamente como agia, ela caminhou até a mala e chutou-a fingindo indiferença — Não é nada importante!

– Não é nada importante? E esse bilhete? Que jogo é esse?

– PAREM, PORRA! — Ela gritou fazendo com que meus olhos se arregalassem devido à mais uma mudança de temperamento — Parem de procurar saber, vai ser pior.

– Pior por que? Hun? O que pode acontecer, Giselle?

Logo ela começou a chorar novamente da mesma maneira que há alguns minutos atras e abaixou-se em direção à bagagem revirando-a como se procurasse por algo. Nervoso, segurei-a pelos braços por trás afastando-a da mala o que fez com que caíssemos no chão. Ela virou-se para mim cheia de ódio, mas ao contrário disso me abraçou tremendo ainda mais e apertando-me como se fosse me perder. Nossos empregados nos olhavam encabulados, acredito eu que doidos de vontade de fugirem daquela cena tão pessoal. Percebendo isso, decidi tomar uma atitude.

– Roberto, Anthony, por favor nos deixem a sós.

– Não, espera. — Minha esposa disse enquanto levantava a cabeça para encará-los e enxugava o rosto com as costas das mãos — Fiquem, por favor.

– Mas amor... — Insisti

– Deixe o Petterson ficar, ele precisa nos proteger.

– Do que você está falando? — Meu coração acelerou com a hipótese da minha familia estar em perigo

– Eu sei quem fez isso, sei quem está jogando com as nossas vidas.

Notas finais
* Anthony Petterson