Entrei no banheiro e encostei a porta antes de acender a luz, certificando-me de que estava trancada. Debruçando sobre a pia, encarei meu reflexo no espelho ainda assustada pelos acontecidos. Céus, como isso tudo fora acontecer? Talvez se eu não tivesse sido tão precipitada e ido buscar desesperadamente por consolo nos braços de alguém aparentemente confiável, não estaria nessa situação agora. Abri a torneira molhando minhas mãos e pulsos deixando que a água morna fosse no mínimo terapêutica sobre minha pele que queimava em desespero. Logo peguei um pouco com as palmas em forma de concha e molhei minha nuca juntamente a um longo suspiro que deixei escapar. Mais uma vez fui pega pelo meu reflexo que parecia reprovar minhas atitudes e ao mesmo tempo demonstrar empatia e pena diante da situação na qual me encontrava. Atravessei a mão pelo meu cabelo e senti alguns fios se desprenderem e enroscarem nos meus dedos. Merda! Como eu poderia contar a James a respeito da ligação? Ele provavelmente me culparia alegando que minha impulsividade trouxe esse caos para as nossas vidas, talvez ficasse mais irritado, fosse atras de Alejandro e decidisse ter uma luta corporal da qual, honestamente, não sei se ele sairia bem. Para ser franca, considerando como meu ex namorado – se é que tem como chamá-lo assim – está raivoso no momento, consigo até temer pela vida do homem que há nove anos está junto de mim. Despi-me devagar aproveitando os minutos sozinha para tentar controlar-me e liguei o chuveiro deixando-o aberto. Primeiramente molhei meus pés, girando-os com lentidão em um delicioso alongar, e depois fui entrando sob a forte ducha sentindo a pressão da água cair em meu corpo. Não precisou de muito tempo para que meus cabelos estivessem molhados assim como o resto do meu corpo e os puxei para o lado deixando as pequenas e fortes gotas baterem em minhas costas massageando. Que tipo de mulher eu era? Desde que houve o deslize de James e decidi optar pela mudança de personalidade me tornando uma mulher mais forte e decidida, jamais considerei que isso incluisse perder meus valores por aí. Legal, trocar o jeito de vestir, a cor do cabelo e todo o resto era uma maneira de externalizar esse cambio de personalidade, mas ainda assim isso não me dava o direito de agir como uma verdadeira vagabunda. Eu não era assim, melhor dizendo, eu não sou assim. Eu estava cega demais pelo meu próprio ego e narcisismo! Quem sou eu para brincar com o sentimento dos outros por puro egoísmo, para substituir pessoas ou ousar magoar alguém pelo simples prazer de dar um troco? Talvez eu realmente merecesse todas as ofensas que escutei, talvez eu fosse mesmo a puta que Alejandro mencionou. Agora, no entanto, não havia muito a ser feito. O máximo que poderia no momento era tentar fingir que aquela ligação não aconteceu ou esperar pela próxima, mas ainda assim eu não parava de questionar a mim mesma como eu poderia fugir desse acontecimento.Não tem como simplesmente apertar um botão e me desligar do que houve! Eu não estava pronta sequer para esquecer esse primeiro contato, muito menos para um próximo e mais ameaçador. Joguei a cabeça para trás numa tentativa de que o movimento bruto jogasse para fora os pensamentos obcessivos que me assombravam e tratei de respirar fundo. Logo Nicolas estaria chegando da escola, iriamos almoçar todos juntos e eu não deveria preocupa-los, até porque quem criou esse problema fui eu. Terminei o banho em poucos minutos e assim que me vesti fiz questão de descer as escadas e procurar pelo meu marido. Por sorte, meu coração se tranquilizou ao vê-lo sentado no sofá comendo besteiras e rindo de algum seriado bobo.

— Hey, já disse para não comer doces antes do almoço!

— E agora minha esposa virou mamãe é? – James disse chegando para o lado e dando espaço para que eu me sentasse

— Mãe eu já sou, meu amor, mas de um menininho de sete anos e não de um velhote como você.

— Ah, velhote é?

— Uhum, meu velhote.

James puxou-me pela cintura fazendo com que eu caísse sobre seu corpo no sofá e começou a fazer pequenas cócegas em minha barriga enquanto eu tentava inutilmente escapar. Em meio a risos ouvi mais uma gargalhada doce e infantil perto de nós e pude perceber Nicolas com sua mochilinha colorida pulando querendo se juntar a nós dois. Aproveitando-me desse momento de distração, me libertei dos braços do meu marido e puxei meu filhote colocando-o sentado entre nós dois.

— Fala, campeão, já chegou da escola tão rápido assim? – Jay mexeu em seus cabelos despenteando-o e Nick fez bico

— Eu sempre chego esse horário, é que você tá sempre na rua papai.

Eu o vi cruzar os bracinhos e meu marido prontamente respirou fundo como se a frase tão singela tivesse lhe causado um peso maior. Com carinho, ele puxou nosso filho para seu colo abraçando-o apertado.

— Mas hoje eu não estou na rua e não estarei por um bom tempo. E, quer saber, os tios Ethan, Andrew e Ryan vem almoçar aqui depois da gravação. O que acha, heim? Familia reunida!

— SÉRIOOOO?

— Sério. E você vai poder perturbá-los a vontade!

— Tio Ethan vai jogar video game comigo?

— Eu acredito que sim, mas só se você tiver se comportado na escola hoje. Se comportou?

Vi os olhos de Nicolas me encararem como se pedissem ajuda à mãe e balancei minha cabeça de um lado para o outro negativamente, dando chance para que James continuasse o papo “de homem para homem” com o filho.

— Eu, eu... – Nick começou

— Você o que, heim pitoco?

— Eu empurrei o Daniel no parquinho.

— E sua professora viu?

— Não.

— Ele fez queixa?

— Não, papai, ele não fez.

— Então tá perdoado!

— JAMES! – Repreendi

— O que amor? Deixa o menino se meter em encrencas uma vez na vida. – Ele disse em meio a um riso

— Não, não mesmo. Nick, você sabe como a mamãe é contra violência. Seu pai que é um ogro quando se trata desse tipo de coisas.

— Eu nem era tão brigão assim, vai amor! – Disse puxando-me para junto dos dois – Só não levava muito desaforo.

— Meu primo Artie sabe bem disso, né.

— Ele olhou para a sua bunda na maior cara de pau, eu não podia permitir isso.

— Homens! – Rolei os olhos – Mas é sério Nicolas, não quero que faça isso novamente.

— Fazer o que? – Ouvi a voz de Ethan ecoando pela sala e assim que levantei o olhar o vi ao lado de Trisha. Mais atrás de ambos Andrew e Ryan vinham em nossa direção fazendo com que eu abrisse um sorriso de orelha a orelha.

— Não acredito, vocês vieram seus filhos da mãe! – Levantei do sofá indo abraçar cada um e dando dois beijinhos no rosto da esposa de Ethan. – Que saudade!

— Olhem como a minha ursona tá, gente! – Ryan veio abraçando-me forte e girando-me enquanto reparava no visual repaginado que até então não tinha visto – Tá uma gatona, é melhor o James se cuidar heim.

— Haha, engraçadinho. Pode tirando as patas da minha mulher! – Jay disse rindo e abraçando-o assim que Ryan me soltou – Como está, cara? – A pergunta era mais do tipo “está tudo bem com a nossa amizade?” do que qualquer outra coisa e pelo sorriso do meu urso em resposta, vi que tudo estava resolvido.

— Tudo ótimo, mano. Caramba, como foi mais cedo?

— O que teve mais cedo, hun? – Ethan chegou mais perto maliciando a frase

— Nada demais, só um dia muito romântico com a minha amada. – James disse já abraçando-me por trás e envolvendo seus braços em minha cintura, dando em seguida um beijo em meu rosto

— Sei bem o tipo de romance que vocês dois fazem, o Nick é a prova viva disso.

— Sou a prova do que, tio?

— De naaaaada! – Andrew veio já puxando meu filho pelas mãos. — Vem, me mostra seus games novos, ta bem?

Dei uma gargalhada alta.

— Não, Andrew, volta aqui. Tenho certeza que o Ethan não vai falar mais merdas, né?

— Não mesmo, só quero encher a barriga. To com uma fome de mil mendigos, lá em casa não rola esses rangos gostosos.

— ETHAN, eu cozinho muito bem, viu! – Trisha reclamou

— Claro amor, quem disse que não? – Ele fez careta negando a frase anterior — Aliás, a Julieta não está disponivel para dar uma de cozinheira lá não?

— Não mesmo, ela é minha, só minha! – Brinquei – Falando nisso, vamos pra mesa? Ela deve ter preparado lá fora, assim ficamos ao ar livre e bem a vontade.

Eles me seguiram e fomos todos em meio a tagarelices até a mesa posta. Eu estava me sentindo segura com meus amigos em minha casa, me confortando, simplesmente suprindo – sem saber – o medo que havia se instalado em mim. Era como se naquele instante Alejandro não pudesse me fazer mal algum e, por dentro, eu estava rezando para que não fizesse.