Acordei no dia seguinte com a sensação de que havia tido o melhor dos sonhos e de brinde um sorriso bobo estampava meu rosto marcado pela alegria das lembranças da noite anterior. Respirei devagar ainda despertando e o cheiro de perfume importado invadiu meu olfato mostrando sua presença por todo meu travesseiro e lençol. Aos poucos, abri meus olhos sendo surpreendida pelo toque da mão de James deslizando pela minha coxa conforme ele se mexia adormecido e me dei conta de que não era apenas um aroma que estava presente, como também meu marido. Jay estava aqui e, ao contrário do que julguei, tudo que vivi não foi apenas uma ficção da minha cabeça, havia sido real. Ele me abraçava com ternura puxando-me sempre o mais firme possível contra seu corpo ainda nu ao meu lado. Sua pele estava quente junto a minha, seu rosto estava enterrado em meus cabelos e eu podia ouvi-lo murmurar algo impossível de entender enquanto dormia. Puxei seu braço com cuidado soltando-me e meu eterno garoto resmungou, logo virando-se para o outro lado e abraçando o travesseiro.
– Meu chato! – Sussurrei ao mesmo tempo em que levantava da cama.
Procurei por alguma peça de roupa minha espalhada por ali – eu não pegaria uma limpinha só para descer – e imediatamente recordei do vestido. “Ele deve ter sofrido para tirá-lo”, ri sozinha do meu próprio pensamento enquanto observava meu corpo despido. Encontrei minha vestimenta jogada próxima a cama e não pensei duas vezes quando vi a camisa de James ao lado, era isso que eu vestiria. Peguei uma calcinha em minha gaveta e coloquei a camisa branca que ele usava por baixo do suéter. Meus cabelos estavam bagunçados provavelmente pelo misto de suor e puxões recebidos, mas e daí? Eu estava irradiando felicidade e essa era a maior beleza que poderia ter no momento. Desci as escadas cantarolando, Nicolas estava dormindo e não me veria daquele jeito mesmo. A cada degrau meus pés saltitavam e quando atingi o solo continuei com pequenos saltinhos até a cozinha.

Assim que cheguei até a mesma, fui surpreendida por Julieta que estava distraída fazendo algum tipo de suco amarelado – provavelmente laranja pelo cheiro. Seus olhos se arregalaram e a pobre coitada mudou o tom de pele indo ao vermelho mais escuro. Minha governanta tentava disfarçar olhando para todos os lados, ainda assim era evidente que minha bunda quase de fora e meus seios marcados pela camisa apertada e clara de James a estavam desconcertando.
– É... A senhora precisa de alguma coisa? – Ela encarava o chão e não pude evitar uma gargalhada. Eu estava boba, boba até demais, e estava a-do-ran-do isso! Coloquei as mãos na boca.
– Desculpe, desculpe Julieta. Pode deixar que hoje eu faço o café da manhã, está bem?
Os olhos daquela senhora se encheram da alegria, como se de repente tivesse compartilhado dos sentimentos que habitavam meu coração. Seu olhar tornou-se o mesmo que de uma mãe para a filha ao vê-la realizada e me dei conta de que ela sempre cuidou-me com o mesmo afeto, independente da relação patroa-empregada que pudesse existir.
– O senhor James voltou, não é mesmo? – Julieta perguntou sem se preocupar em parecer intrometida
– VOLTOOOOOOU, JULIETA, VOLTOU! – Falei um pouco alto rodopiando nas pontas dos pés até a geladeira – Isso não é ótimo? – Questionei enquanto pegava alguns ovos na porta da mesma
– Sim senhora, maravilhoso. Vou deixar que prepare o café da manhã para o seu marido.
– Obrigada! – Agradeci ao carinho mandando-lhe um beijo no ar enquanto já me distraía procurando por frigideiras no armário
– Ah, senhora Walker... – Ela chamou-me antes de sair
– Sim?
– Estou feliz pela senhora.
Julieta retirou-se logo após proferir a frase sem dar a oportunidade que eu corresse até ela e a abraçasse com força. Esse sem dúvidas seria um dia maravilhoso! Certo, o que Jay gostava de comer de manhã? Ovos, bolo de chocolate, pão de queijo... Ele comia tanta coisa que as vezes me perguntava para onde ia tudo aquilo. Coloquei a frigideira sobre o fogão e comecei a fritar os ovos enquanto deixava as torradas dourarem na torradeira. Adicionei um pouco de sal e me entreti por completo caprichando para que a gema ficasse bem molinha, isso não era muito fácil de fazer para quem não tem prática na cozinha. Terminei de fritá-los e coloquei sobre um refratário, arrumei as torradas ao lado, cortei alguns pedaços de bolo e deixei em um prato a parte. Bebidas? Ah sim, aproveitaria o suco recém feito e deixaria um pouco de iogurte de morango caso ele quisesse. Nossa, eu realmente sabia organizar um café da manhã bonito! Deixei a mesa toda pronta, mas ainda sabia que estava esquecendo alguma coisa. Claro, granola. O pacote estava em uma parte alta do armário e me estiquei ficando o mais alta que podia enquanto minha mão se sacudia próxima a prateleira feita para gigantes. Bufei, odeio ser baixa nessas horas. Comecei a dar pequenos pulinhos tentando alcançar e então senti a mão de James junto à minha pegando a caixinha de granolas para mim.
– Já disse que você é a baixinha mais atrapalhada do mundo?
Ele sorria enquanto me entregava o item tão complicado de pegar.
– Hmmmm, depende. Já disse que você é o gigante mais convencido? – Falei enquanto envolvia meus braços em seu pescoço puxando-o para um selinho lento — Bom dia, meu amor.
– Bom dia, pequena. Por que acordou tão cedo? Senti falta de uma loirinha do meu lado.
– Não acordei tão cedo, você que sempre acorda depois, fica hibernando.
– Tenho muito sono, você sabe. – Ele balançou os ombros em desdém e isso fez com que eu reparasse que estava sem camisa
– Que isso? Virou praia de nudismo a minha casa, é?
– NOSSA casa e caso não se lembre... – Ele fez uma pausa para continuar falando baixinho no meu ouvido — ... Tem uma pessoa roubando as camisas do marido para fazer de pijama!
– Gostou do look? – Eu ria enquanto dava uma voltinha
– Está linda Gi, como sempre – James deu uma piscadinha e aproveitou quando me virei para dar um tapa de leve na minha bunda
– Ai! – Resmunguei recendo uma careta em resposta

Nos sentamos à mesa e comemos como um casal em lua de mel. Rindo, falando besteiras, roubando comida um do outro e trocando beijinhos. Não demorou muito para que Nicolas acordasse e viesse se jogando no colo do pai. Os dois comeram o suficiente para alimentar todo o continente africano de uma única vez e eu estava encantada observando meus meninos juntos mais uma vez. Nick fazia todo o tipo de perguntas desde “você dormiu aqui essa noite?” às mais indelicadas como “papai, você vai voltar?” e com paciência Jay respondia que iria conversar comigo e chegar à uma conclusão. Conversar? Eu não precisava conversar. A felicidade estava diante dos meus olhos e eu estava satisfeita com o rumo que tudo estava tomando. Resmungando, o pequeno se convenceu de que não teria como escapar da escola e cerca de meia hora depois já estava dando tchau e partindo com Roberto que o levaria. Não que eu goste de perder esse momento especial, mas o próprio Nicolas fez questão de que eu e o pai não nos distanciassemos por nenhum instante. Para ser franca, nem eu queria essa distância.
– Vamos subir? – Jay perguntou
– Para...?
– Banho, porquinha, é segunda feira e temos trabalho.
– NÃÃÃÃO, NÃO, NÃO! Me coloque de volta no final de semana e volte o relógio para exatas nove horas atrás.
– Posso saber por que?
– Para eu estar fazendo amor contigo ao invés de ter que ir trabalhar.
– Ah é? – Ele ergueu uma sobrancelha
– É. – Falei decidida
– E se eu te sequestrar?
– Para onde?
– Não digo o cativeiro.
– Depende, sr. Walker, depende.
– Do que?
– Se vai conseguir me pegar.

Levantei da cadeira apressada e tentei correr o mais rápido que pude. Alto e com as pernas largas, não demorou muito para que James me alcançasse e me pegasse no colo. Balançando as pernas e dando gritinhos, fui carregada até nosso quarto onde finalmente meu “sequestrador” me colocou no chão. Ele se divertia rindo das minhas tentativas de fuga e eu queria mais era perder horas inocentes dando risadas ao lado daquele homem que não era apenas o amor da minha vida, mas também meu melhor amigo. O James pelo qual me apaixonei parecia ter voltado, entretanto, em meu íntimo a pergunta evidente era: “Onde estava o antigo?”