Notas iniciais
Quem quiser ver o telefone: http://img1.mlstatic.com/telefone-pata-de-elefante-anos-50-preto_MLB-O-193056346_7270.jpg
E a roupa da Giselle: http://www2.pictures.stylebistro.com/bg/Kim+Kardashian+Dresses+Skirts+Beaded+Dress+4eow-gtiJfHl.jpg

Os dias que se passaram foram completamente afastados de James. Eu precisava disso! Mantive o foco na organização do leilão de caridade que aconteceria no final de semana para o qual doei algumas das peças exclusivas da minha coleção e tenho que admitir que isso me ocupou, fazendo com que os três dias seguintes voassem. Tinha que me preocupar com a decoração, em dar as ordens exatas para que Julieta deixasse a casa perfeita para recepcioná-los, além disso, teria que contratar o Buffet italiano e escolher qual músico alegraria a cerimônia. Droga, nisso meu ex marido teria ajudado bastante. Ele sempre sabia como indicar o cantor perfeito para cada festa. Ainda assim dei meu melhor para conseguir fazer um bom evento e era apenas para isso que vivia, ou pelo menos parecia ser assim. A sensação que tinha era que eu estava robotizada, mecanizada. Meu dia-a-dia se baseava em “acordar-trabalhar-voltar-dormir”, é claro que dentre isso encontrava tempo para dar um carinho a Nicolas e para, às vezes, tomar uma vitamina que por sorte me alimentava.
Até que por fim o leilão chegou e minha rotina seria quebrada. Acordei cedo passando os dedos pelo rosto e pude sentir os ossos do meu maxilar saltarem mais do que devia, pelo visto a falta de alimentação saudável não estava me favorecendo. Levantei com dificuldade caminhando até o espelho enorme dentro do closet e mal pude encarar a mulher a minha frente. Eu estava acabada, destruída, mais magra do que poderia aparentar e as olheiras fundas deixavam o ar cadavérico o bastante. Toquei a parte abaixo de meus olhos pensando imediatamente que algum corretivo daria jeito naquele desastre e mentalmente agradeci aos inventores de boas maquiagens como MAC, eu não sei o que seria de mim hoje sem isso. Meus cabelos estavam rebeldes e minha pele oleosa, eu odiava essa oleosidade. Caminhei até o banheiro e tomei um banho demorado enquanto escutava uma boa MPB brasileira, que saudade eu tinha de tudo que se referia ao país dos meus pais. Relaxei pela primeira vez na semana, o que também me remeteu às lembranças de quando James chegava quietinho e entrava no chuveiro atras de mim, me surpreendendo. Sorri melancólica e terminei de me arrumar colocando um jeans e uma camisa larguinha, desci as escadas com pressa e a equipe de profissionais que me cuidava já estava a minha espera.
— Querida, que saudade de você! – Norma, minha cabeleireira há tantos anos veio me dando um abraço reconfortante, mas logo fomos interrompidas pelo maquiador
— Que pele é essa dona, Giselle, eu tinha te indicado o tônico para hidratar, limpar, tudo. E essas olheiras? Acha que o papai aqui tem a MAC inteira só de corretivos? – Maurício era assim: afetado demais e lindo demais também. Qualquer mulher cairia a seus pés e depois se lamentaria ao ver que ele faria o mesmo para chupar o pênis de um homem. Ri ao imaginar a cena e ele pareceu satisfeito com meu sorriso – Isso mesmo, vamos te deixar uma diva! Ex marido é assim querida, vai um e vem outro melhor. Você não pode é se desleixar assim, ele tem que ver como você está linda para que se arrependa de ter largado uma deusa.
— Ui, desse jeito vou me sentir importantíssima! – Eu ri e logo os outros profissionais como depiladora, manicure e massoterapeuta se aproximaram. Hm, massoterapeuta... Eu precisava mesmo de uma boa massagem e a Bela tinha uma pegada latina ótima, não sei de onde uma baixinha paraguaia e gordinha tirava tanta força para esmagar minhas células de gorduras com massagem modeladora e tirar as tensões das minhas costas com massagem relaxante, mas era certo que ela fazia isso muito bem. Aproveitei e fechei um pacote completo com drenagem linfática, eu merecia dar o melhor para mim.

Passei o dia sendo cuidada, fiz refeições saudáveis de três em três horas e conversei pelo telefone com minha melhor amiga que está passando férias em Londres, ela insistia em voltar para me consolar nessa fase, mas eu jamais estragaria sua viagem por algo que já estava remediado, ou que estaria em breve. Certo horário dei um tempo dos profissionais para arrumar meu filho, ele estava um verdadeiro mini gentleman e sorri pensando sobre como meu pequeno estava crescido. Era tão gostoso ver que aquele bebê que um dia amamentei estava se tornando um cavalheirinho. Fui interrompida dos meus devaneios pela governanta que me chamava.
- Senhora, chegou um cartão agora mesmo. – Era incrível como mesmo depois de tantos anos ela fazia questão de manter a postura formal.

Peguei o envelope pequeno com meu nome escrito na frente, a caligrafia era conhecida, claro. Abri-o com cuidado e li: “Parabéns pela organização do leilão, vi o quanto se dedicou para ele e finalmente chegou o dia. Espero que corra tudo bem, James.” Senti pesar ao ler, mas não tristeza. Por um momento me questiono no mais fundo do meu íntimo como ele está, se sente saudade. Só que, infelizmente, depois da nossa última conversa tudo que dizia respeito ao meu ex marido era doloroso, evitável e tinha que ser ignorado pelo meu coração.
Coloquei o envelope sobre uma mesa de apoio que ficava junto a um telefone da década de 50, uma das muitas peças de antiquários que enfeitava nossa sala de estar, e decidi terminar de me arrumar. Pelo que vi no grande espelho que me refletia, meu cabelo estava preso em um coque bagunçado e meus olhos estavam esfumaçados em uma sombra preta que harmonizava com os cílios postiços e o blush bronzeado que tonalizava minhas bochechas. Meu batom era nude, nunca gostei de chamar atenção para a boca. Sorri, até que a maquiagem escondeu bastante! Olhei pela janela e já podia ver o movimento dos outros organizadores pelo jardim distribuindo aplicações de madeira sobre a grama para tornar o evento Black Tie em um lindo jantar campestre que combinaria com mesas ao redor da fonte (de água, chafariz). Desviei o olhar para o relógio e me dei conta de que a hora voou mais depressa do que percebi, subi as escadas agilmente e tratei de colocar o vestido rápido, afinal, uma anfitriã não se atrasa.

Dentro de uma hora eu já estava a postos junto às recepcionistas distribuindo calorosos sorrisos acompanhados de um “seja bem vindo” que disfarçava a dor que sentia. Minha cabeça estava no envelope guardado e na caligrafia cursiva e bem feita de James, até que fui despertada por uma voz masculina me chamando.
— Fizemos um bom trabalho, verdade?
Virei-me para o dono daquela voz e sorri ao ver que era Alejandro, um dos meus sócios e organizadores.
- O que acha? Ficou lindo, não é? – estendi a mão mostrando o lugar e fui pega de surpresa quando ele a segurou. Droga, isso era desconfortável. Ele olhou seriamente para mim e eu sabia o que estava por vir.
- Como você está?
Minha vontade era puxar minha mão, mas não consegui.
- Estou bem, por que não estaria? – Meu sorriso saiu mais forçado do que deveria e ele apenas franziu a testa ficando mais sério – Ok... Você venceu! Eu vou ficar bem, isso posso afirmar.
- Concordo, pode mesmo. – Alejandro foi verdadeiro, eu sabia. – Eu estava pensando e deveríamos nos distrair de tudo isso. Você teve uma semana difícil, um dia cansativo, o que acha de jantarmos amanhã, heim? Sei que você adora restaurantes indianos, podemos tomar uma boa bebida... – A frase dele foi interrompida e percebi que seu olhar estava fixo atrás de mim. Algo em meu interior dizia “não se vire” e decidi respeitar.
- Não é indiano, ela gosta de restaurantes marroquinos. – Aquela voz tão conhecida e intima disse em um tom seco bem atrás de mim. James estava aqui.