All Over Again
6 Capítulo 6
- Não é indiano, ela gosta de restaurantes marroquinos. – Aquela voz tão conhecida e intima disse em um tom seco bem atrás de mim. James estava aqui e isso fez com que eu puxasse minha mão rapidamente retirando-a das mãos de Alejandro como se tivesse sido flagrada em um ato ilegal. Senti o braço de James envolver meus ombros e olhei para ele sem saber o que expressar. Ele não podia me abraçar daquela forma, sentir ciúmes ou o que fosse. Estávamos separados! Separados há alguns dias, mas ainda assim separados.
- Desculpe, eu não tive a intenção de... – Ajejandro tentava se explicar
- De mal deixar o corpo do defunto esfriar para tentar comer a viúva? – Meu ex marido continuou a frase
- James! – Eu o repreendi
- É verdade. Estamos separados a pouco tempo e ele está se aproveitando disso.
- Estou convidando a minha sócia para um jantar informal, isso te incomoda tanto?
- Jantar informal que você pretende terminar em um motel, não é mesmo?
- Hm, você por acaso já percebeu que a palavra EX agora está antes de “marido” e que o que quer que seja que ela decida fazer não tem mais que lhe dar satisfações?
- Enquanto você tentar usar a mãe do meu filho como um simples desfrute, será do meu interesse qualquer atitude relacionada a ela.
Eu já podia sentir James se alterando e decidi interromper aquela discussão da melhor maneira possível antes que meu leilão fosse marcado por uma cena de ciume.
- Parem, por favor. – Falei baixo e discretamente – Se vocês dois se importam ao menos um pouco comigo seja como amigo – olhei para Alejandro ao me referir ao tipo de relação que temos – ou como ex marido – dessa vez olhei para James – vocês não tornarão esse evento um vexame para mim. Ale, por favor, vá ajudar o Chef com o que faltar e deixa eu me resolver com ele.
Por sorte meu sócio entendeu minha situação e saiu. Batendo os pés, mas saiu. Agora era a hora de matar, torturar e crucificar aquele enxerido. Quando olhei para James, ele mantinha no rosto um sorriso de orelha a orelha, vitorioso pelo seu feito.
— NÃO. TEVE. GRAÇA. – Falei fria e grossamente de maneira pausada
— Não era para ter, apenas não queria aquele venezuelano em cima da minha..., desculpe, de você.
Bufei, irritada.
— Você não tem que querer!
— Gi, não vamos discutir, está bem?
Respirei fundo com os olhos fechados me controlando para não responder grosseiramente.
— Você está linda demais essa noite, sabia? – Ele elogiou tirando-me da minha tentativa frustrada de meditação e foi então que percebi que seu braço ainda estava em mim – Mais magra, porém linda.
— Dieta especial de fim de relacionamento – Brinquei tentando esquecer o que acabara de acontecer e ele riu debochando. Odiava como ele ficava lindo com aquele sorriso de canto de boca.
- Ficou boa a decoração... – James puxava assunto
- Concordo... Ah, não se preocupe, a grama foi protegida
- Ainda bem, odiaria todos aqueles saltos furando nossa grama, já não bastam as pessoas perambulando pela nossa casa – Ele bufou enquanto colocava as mãos nos bolsos e por um instante nem tinha percebido o pronome “nossa” em tudo que um dia nos pertenceu. Então ainda era nosso? Decidi não me prender a esse detalhe e ao invés disso, parei para analisá-lo. James estava lindo com um fraque acinzentado e uma gravata preta, sorri por dentro ao perceber que ele nunca conseguiria dar um nó descente sem minha ajuda.
- O que foi? – Ele percebeu
- Espera, isso está um desastre. – Eu ri e cheguei perto com cuidado levando os dedos ao nó de sua gravata acertando-a. James permaneceu me olhando e isso fez com que eu corasse. Soltei o tecido imediatamente e procurei com pressa algum bolso para esconder minhas mãos. OPS, VESTIDOS NÃO TEM BOLSOS! Obrigada, Versace, Dolce and Gabanna, Roberto Cavalli ... Obrigada por fazerem vestidos sem bolsos que impedem que pessoas com vergonha disfarcem.
- Obrigado, eu tentei por horas e não ficou bom o bastante. Aliás, ficou melhor do que o nó que Ryan tentou dar.
- Ah, ele está aqui? – Sorri, Ryan era um dos meus melhores amigos. - Todos estão.
- Bom, me alegro.
- Sim.
Fiquei alguns minutos fitando o vai e vem de pessoas e aquele silêncio cruel se instalou sobre nós. Desviei o olhar pro chão e em um ato de coragem coloquei para fora a frase que ecoava dentro de mim:
— Achei que não viria. – Murmurei baixinho
- Também achei. Não sabia se seria merecedor de estar aqui de novo depois da última vez, se iria querer minha presença. – Encolhi os ombros com a realidade: eu também não sabia. – Então me dei conta do quanto isso era importante pra você e de como queria muito que esse evento chegasse, o quanto comemorou quando conseguiu cedia-lo. Lembra que você chegou correndo pela casa e pulou em cima de mim?
Ele ria com um pouco de nostalgia e isso me surpreendeu. James lembrava, lembrava detalhes de nós!
- Me lembro sim, você me abraçou, me colocou no chão, deu-me um beijo no rosto e disse que estava atrasado, mas que eu deveria contar tudo quando chegasse. — James abaixou a cabeça. Droga, eu ainda o alfinetava mesmo sem querer – Mas é passado! – coloquei a mão em seu ombro quase como consolando.
- Sim, passado. – Ele não parecia muito feliz com essa afirmação.
- Fiquei sabendo que vai fazer show logo.
- Sim, na verdade viajaremos na quarta à noite, passaremos a quinta passeando por Barcelona e sexta faremos o show. Sábado estaremos em Madrid, domingo à tarde em Catalunha. Voltaremos à noite do mesmo dia.
- Que bom. Você sempre gostou muito da Espanha.
James sorriu para mim e aquilo me transmitia tranquilidade, até mesmo felicidade.
- Ainda acho que poderíamos ter voltado lá.
- Não, você quis assistir o jogo do Barça da última vez. – retruquei relembrando um bom momento da nossa viagem no qual eu queria passar o dia agarrada e ele me trocou por futebol só para fazer charme
- Eu não perderia o Messi jogando. – ele ria
- Claro e não perdeu também o autógrafo da camisa quando entrou no vestiário – revirei os olhos, ele era louco por futebol
- Tenho culpa de não ter nascido no país do futebol mesmo que minha esposa seja de origem brasileira?!
Assim que a frase foi proferida percebi que ele com franziu a testa, obviamente desconfortado pelo que disse.
- Desculpe. Eu... eu não queria.
- Tudo bem, ainda não nos separamos legalmente, não é? – dei um pequeno sorriso que meu interior consideraria como falso, mas que externamente nem pareceria tanto. – Acho melhor eu ir, você sabe né? Tenho... que organizar as peças, apresentar ainda aos futuros compradores...
- Claro, claro. — James estava tão desconfortável quanto eu – Te vejo mais tarde?
- Talvez
Sorri delicadamente e pedi licença ao meu ex marido, me retirando em seguida. Aquela conversa sem fundamento talvez não fosse chegar a lugar algum e antes que algum de nós dissesse algo indevido, foi melhor mesmo que a interrupção ocorresse. Eu não queria tocar nesse assunto de ex/atual no momento e muito menos falar de divórcio. Aliás, se havia algo que eu me questionava era se ele já havia ligado para advogada, afinal em nosso último contato fiz questão de reforçar que o fizesse. Meu instinto e meu equilíbrio entraram em conflito guerreando em minha mente, um torcia com fervor para que ele não o tivesse feito, o outro aconselhava que talvez a separação legal fosse o melhor. Decidi optar por ouvir a mim mesma e no momento isso significava escapar.
James POV:
Eu a assisti sair dali com agilidade. Amava a maneira como sua postura era perfeita deixando-a alongada, elegante e tão feminina. Foi então que vi Giselle olhar para trás quase de maneira imperceptível e dirigir-me um sorriso cúmplice. Acenei de longe e segui novamente para o lado de fora, indo direto para a mesa onde os outros rapazes estavam. Sentei e peguei a taça de vinho virando-a em seguida de uma única vez, eu precisava mesmo de um pouco de álcool. Em meio ao vai e vem de pessoas e de garçons servindo pratos ornamentados, percebi que Alejandro mantinha os olhos fixos para a mulher que eu costumava chamar de esposa. Se Giselle ia para a direita, lá estavam aqueles olhos castanhos seguindo-a, o mesmo se ela fosse para a esquerda, pra dentro da casa, para onde fosse. Isso fazia com que eu tomasse cada vez mais taças e até onde eu sei já tinha perdido as contas. Eu já estava ficando irritado em vê-lo cobiçando-a com tanto desejo e, de alguma forma, parecia que ela estava além de tudo aquilo, que não percebia ou então não se importava. Era como se nós dois estivéssemos em uma batalha masculina por aquela mulher de curvas lindas e sorriso encantador. O que eu me perguntava era porque eu ainda estava naquela disputa se fui eu que a coloquei como objeto dessa competição quando a deixei livre. Parecia contraditório que a tenha abandonado quando poderia tê-la em meus braços para sempre e agora eu fique temendo que ela procure consolo em outro alguém, mas simplesmente não podia permitir que isso acontecesse. Uma garçonete ruiva uniformizada veio servir uma dose de Shivas 12, um whisky que muito me agrada. Ela colocou uma dose e com simpatia pedi que aumentasse a quantidade. Ethan me olhou assustado, os rapazes sabiam que eu não tinha tolerância alguma para bebida, mas a raiva que eu sentia era tão palpável que se pudesse materializá-la seria o diabo em pessoa. Ryan tirou o copo da minha mão assim que dei o primeiro gole e me olhou com advertência. Eu até o pegaria de volta, mas sei que misturar vinho com whisky não era uma boa pedida e que no dia seguinte meu fígado estaria sendo sepultado.
- Chega de bebida, cara. — Ryan estava incomodado
Passei as mãos pelo rosto, odiava como minha visão ficava turva quando bebia.
- Não sei é qual o motivo dessa palhaçada! — Ethan disse enquanto pegava o copo da mão de Ryan e bebia, é impressão minha ou meu whisky está mais rodado que puta de esquina?
- PALHAÇADA? – explodi – Aquele latino-americano está tentando dormir com a minha mulher. Veja a maneira como ele está olhando para o corpo dela! Além disso, eu o ouvi a convidando para jantar. QUAL O PROBLEMA DESSA MERDA? O rato não pode sair que os gatos fazem a festa?
Percebi que uma mulher da mesa ao lado me olhava enquanto eu esbravejava. Algum problema? Minha casa. Minha raiva. MINHA MULHER... Quer dizer, era. Peguei um copo com algum drink colorido com vodka que Trisha estava levando à boca e tomei antes que ela pudesse protestar. Não preciso mencionar os olhares furiosos em minha direção.
- Honestamente, beber não vai resolver nada. — Andrew argumentou
Eu adoraria levantar e fugir da proposta de reabilitação momentânea que meus melhores amigos me traziam, mas era muito provável que meus passos tortos denunciassem meu estado. Então simplesmente abandonei o copo vazio sobre a mesa e me calei enquanto pousava as mãos em meus próprios bolsos. Pendi a cabeça para baixo concentrando-me em algo que não girasse. Caralho!
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