All Over Again
22 Capítulo 22
Se James estava pensando que me magoaria deliberadamente e as coisas ficariam da maneira possível, ele estava muito enganado. Por mais que eu tivesse tentando acelerar o processo de divórcio o máximo que pude, minha advogada alertou-me que não seria possível fazê-lo com a mesma pressa que eu queria. Era necessário uma audiência com o juiz, que ele estivesse presente, assinasse os papéis e mais uma quantidade absurda de burocracias. Pelo menos a separação de corpos já tinha sido feito e esse era um passo dado. Irritada pela frustração de não poder me desvencilhar o mais depressa possível daquele ser que no momento repugno, decidi que daria um ponto final à essa história de uma vez por todas. Eu não seria uma tola para sempre, uma palhaça, não permitira ser pisada e deixar que meu agressor saísse ileso. É como dizem: “Pise, mas quando eu levantar, saia correndo”. Acho que Walker ia aprender a correr e correr bem depressa. Liguei para que Roberto, meu motorista, e pedi que me buscasse. Eu não tinha estrutura física ou mental para dirigir e, por sorte, em poucos minutos lá estava ele me esperando. Sim, eu estava magoada. Sim, meu coração estava despedaçado e espalhado pelo chão daquele banheiro, mas o que eu faria? Já havia chorado o bastante até não ter mais forças, já tinha cogitado a hipótese de ir até a Espanha e matar os dois — mas meu filho não merecia uma mãe na cadeia – e até pensei em dar a louca e passar a noite bêbada em uma boate fazendo strip sobre a mesa, só que desisti quando vi que isso arruinaria minha carreira, então a única opção que me restava era bloquear qualquer memória que eu tinha daquele infiel. A Giselle que ele humilhou era tonta, burra, apaixonada, ingênua e inocente o bastante, mas ela morreu no mesmo tempo em que a língua dele invadiu a boca daquela prostituta barata. Quando James voltar – e eu sei que ele voltará correndo para mentir para mim -, ele encontrará uma nova mulher que não permite chorar ou sentir dor por um babaca como ele. À força, fui obrigada a apagar de mim a pessoa que eu era e para apagá-la para sempre isso teria que ser feito em grande estilo. Ordenei que Roberto dirigisse o mais depressa possível para o shopping mais próximo, me certifiquei que meus cartões de crédito estavam todos na carteira e sorri ao vê-los ali prontos para me consolar. Fui às compras como quem vai à uma guerra determinado a matar seu oponente. Entrei em todas as lojas mais caras, dentre elas Fendi, Gucci, Dolce and Gabanna, Channel, Versace e Prada. Se antes a socialite recatada usava e abusava de roupas fechadas, hoje a nova Giselle forte, sensual e poderosa não tinha lugar para isso. Abusei de decotes, saias curtas, transparências, roupas justinhas e vestidos que deixassem meu corpo bem a mostra. Se era para mudar meu guarda roupas, então que a quantidade de pano também fosse diminuída. Tudo que tivesse mais pele de fora era muito bem vindo! Outro item indispensável eram os saltos agulha altíssimos, coloridos, em tons quentes e que alongassem minhas pernas. Por fim fui até a loja de lingeries e me aproveitei de todos os itens, desde os rendados, transparentes, com um único fio atrás e, veja só, até algumas com fecho na direção do meu clitóris. Para quem as usaria? Isso já era parte do plano. Comprei pelo menos um par de cada modelo – desde que fossem sensuais o suficiente – e me senti como se fosse protagonizar um pornô ou trabalhar numa boate de striptease, mas e daí? “Sua nova eu não é recatada, não é santa, não é manipulada ou passível de sofrimento”, lembrei a mim mesma quando vi minha consciência me punindo pelas roupas e lingeries de puta que tinha acabado de gastar uma fortuna comprando. Deixei todas as embalagens no carro e deixei que Roberto me levasse para o salão da minha cabeleireira. Ela assustou-se quando me viu, é claro.
— Giselle, o que está fazendo aqui? Tinhamos algo marcado na sua casa hoje que me esqueci?
— Calma, Norma, é uma emergência.
— Emergência? O que houve?
— Quero que me mude, agora.
— Como assim te mudar? Do que está falando?
— Corte, troque a cor, tinja de algo ardente, mude o design das minhas sobrancelhas, quero que essa Giselle não exista mais.
Ela puxou-me pela mão fazendo com que me sentasse na cadeira e baixinho disse tentando me acalmar:
— Gi, por favor, você está transtornada.
— E creio que sabe o porque.
— Sim, eu sei.
— Então, por favor Norminha, apague essa mulher que está aqui. – Eu já suplicava tentando conter o choro que deixava meus olhos marejados
— Você está agindo por impulso.
— E se eu me arrepender depois, vou dar um jeito nisso. Olhe minhas roupas, meu rosto, meu cabelo... Eu pareço pelo menos ter treze anos a mais do que realmente tenho. — Ela abaixou a cabeça. — Não quero ser apenas a mãe, a ex esposa e a estilista bem sucedida. Quero ser a mulher que atrai olhares nas ruas, que os homens matariam para ter...
— Que o James mataria para ter. – Ela interrompeu
— Que ele se mataria por perder – Corrigi
— Ai, Giselle...
— Por favor.
— Certo, mas se depois não gostar do resultado, não me processe.
— Eu não farei, te garanto.
Em alguns minutos uma gama de profissionais estavam ao meu redor e antes que percebesse já estava com aquela capa utilizada para cortar o cabelo. Fechei os olhos impedindo a mim mesma de ver o resultado antes da hora e fui apenas ouvindo o “tic” da tesoura se repetindo inúmeras vezes. “Por favor, que não esteja curto. Por favor, que não esteja curto.” , repeti incessantemente. Norma virou minha cadeira de costas para o espelho e pude então relaxar e abrir os olhos, fui sentindo a mistura de tinta espalhar-se pelos meus fios e enquanto esperávamos o tempo da tintura, minha sobrancelha foi ganhando um novo formato nas mãos habilidosas da design. Em algumas horas o resultado estava feito e tive que, finalmente, encarar o espelho à minha frente. Assim que vi minha imagem não pude acreditar que se tratava de mim mesma. Era uma mulher sem dúvidas bem mais nova, jovial, elegante e, SIM, sexy! Meus cabelos haviam sido cortados em camadas, minhas sobrancelhas estavam ligeiramente mais arqueadas e eu agora estava LOIRA. Sim, eu estava loira. Os tempos de cabelo castanho escuro estavam para trás e agora o tom dourado reluzia com a luz do salão, com o pouco de sol que invadia através da porta de vidro e, bem, combinava com tudo em mim. Por que mesmo eu nunca havia tentado usar essa cor mesmo? Isso provavelmente assustaria James e eu ia fazer questão de garantir que ele me visse dessa maneira como estou agora: fabulosa. Se há um fato consumado é que estou me sentindo incrivelmente mais confortável nessa nova roupagem, nessa “capa” que criei e ele vai se arrepender de ter desistido de mim, de ter me trocado por aquela ruiva magricela.
Quando estava saindo do salão fui incomodada pelo toque do meu celular. Seria meu ex marido? Puxei-o com pressa de dentro da bolsa e me surpreendi ao olhar no visor.
— Alejandro?
— Oi Gi, fiquei sabendo do que aconteceu nos últimos dias. Só queria dizer que sinto muito pelo comportamento do James.
— Não se preocupe, eu não quero sequer pensar a respeito.
— Hm, você está bem? – Ele parecia surpreso
— Não, mas vou ficar. Aliás, você vai se surpreender quando me ver!
— Como assim? O que você fez?
— Digamos que a Giselle que foi humilhada não existe mais.
— Me deixou curioso.
— Matarei sua curiosidade. Jantar as 21h?
— O QUE? ESTÁ ME CHAMANDO PARA JANTAR?
— Estou, Ale. Me pega lá em casa, então?
— Certamente.
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