Assim que chegamos ao estacionamento, o Lexus preto de James estava estacionado na vaga ao lado da minha. Andei decidida até o carro e fiquei ao lado da porta do carona esperando que ele destravasse com o alarme da chave mas, ao contrário do que pensei, meu ex marido foi com desenvoltura até onde eu estava e abriu-a para mim. Quase como instantaneamente ergui uma das sobrancelhas questionando aquele comportamento e ele mais uma vez dirigiu-me aquele sorriso que tirava-me o ar. É. Aquele sorriso sabe? No cantinho dos lábios, meio safado, meio brincalhão, meio tudo. Respirei fundo e entrei no automóvel aguardando enquanto ele dava a volta até a outra porta. James entrou com um sorriso enorme como se o fato de eu ter aceitado seu convite fosse o prêmio de uma competição acirrada da qual participava. Ele parecia vitorioso, radiante e parte de mim se questionava se aquele conjunto de atitudes repentinas eram o início de uma mudança ou seria apenas temporário.
– Então, para qual restaurante vamos? – Questionei
– Estive pensando e tem um de vidro com a vista para o mar que parece ótimo. Um que você queria ir mês passado, se lembra?
Concordei com a cabeça, acenando, e mantive o olhar fixo na janela observando o asfalto correr sob o veículo.
– Gi?
– Oi? – Voltei minha atenção para ele
– Não vai dizer nada?
– Desculpe, me distrai.
– Hm, te chateei chegando assim de repente?
– Não, não, jamais. Só... estou surpresa.
O vi sorrir mais uma vez, acaso estava se vangloriando?
– Não acha que deveriamos ter trazido o Nicolas?
– Giselle, eu amo nosso filho, mas posso ter um único minuto perto de você sem interrupções dos nossos amigos, sua assistente, nossa empregada, nosso filho ou o SEU Alejandro? Obrigado.
– Meu Alejandro? Vai voltar a essa história? – Bufei revirando minha bolsa atrás da minha escova de cabelos
– Não, não irei, já resolvemos isso.

Puxei o espaço onde fica o espelho e rapidamente ajeitei meus fios com a pequena escova para emergência, peguei um gloss em tom rosado e deslizei sobre meus lábios dando um pouco de cor nos mesmos. Em seguida amassei as pontas do cabelo dando um ar bagunçado e estava pronta. Fui percebendo que aos poucos o cheiro da maresia invadia meu olfato e logo meus olhos puderam contemplar as ondas que umidificavam a areia clara da praia. Como que por impulso apertei o botão ao meu lado descendo o vidro da janela que me impedia de sentir a brisa. Ultrajante, o vento veio até nós e apoderou-se dos meus cabelos, meu rosto, minhas roupas. Aquela valsa coreografada que o ar fazia em meu corpo me transmitia leveza, serenidade e eu pouco me importava com os minutos que perdi me arrumando (que por sinal foram perdidos) ou com qualquer dúvida que poderia existir a respeito do meu ex. Olhei para James tão focado no trânsito – que por incrível que pareça estava livre — e me permiti apreciar sua beleza. Os cabelos estavam um pouco maiores, a barba estava já começando a crescer entretanto só era perceptível para quem conhecia cada milimetro do seu rosto como eu conhecia, a camisa apertava suavemente em seus braços pelos músculos que chamavam minha atenção, os olhos claros se estreitavam conforme ficava mais atento à estrada e a boca harmonizava com todos seus traços esculpidos ao nascer. Mais uma vez um impulso me dominou e minha mão esquerda tocou a dele sobre o volante. James, surpreso, arregalou seus olhos e percebi suas costas se tensionarem com meu toque sendo relaxada em seguida conforme passei alguns minutos sem mover minha mão da sua. Comecei a acariciá-la devagar deixando as pontas dos meus dedos percorrê-la e gradativamente um sorriso se estampou em sua expressão.
– Gosto disso. – Ele sussurrou
– O que exatamente?
– Você perto de mim, o toque, sua espontaneidade em oferecer afeto.
Corei, eu realmente procurei lhe dar carinho sem em momento algum ter tido abertura para fazê-lo. Ou tive? Apertei-a um pouco mais e sorri envergonhada. Tratei de defender-me assim que pude.
– Não pense que estou te dando uma oportunidade. – Era inútil, o sorriso bobo estampado em meu rosto dizia o contrário
– Não pensei, não pensei. Apenas almoço, certo? – Ele virou-se rapidamente para mim dando uma piscadinha como se estivessemos em um complô escondido
– Certo. – Respondi em um tom animado

Em poucos minutos chegamos ao restaurante que me recordo bem de ter importunado meu ex marido para que me levasse antes, é claro, de que a fatídica separação acontecesse. Com elegância ele dirigiu-se à recepcionista ruiva e alta de cintura surpreendentemente fina, ela desviou seu olhar por todo o corpo do homem que me acompanhava e por dentro tive vontade marcar seu rosto maquiado com minhas unhas. Ao contrário, apenas contei até dez mentalmente e me repreendi: “Ele não é mais seu”. James educadamente pediu-a pela mesa que havia reservado e novamente me vi surpreendia, afinal, ele já havia planejado tudo sem que eu suspeitasse. Foi então que ele virou-se para mim e por um segundo tive a impressão que o garoto de nove anos atrás estava em minha frente. Ah estava! Jay puxou-me pela mão com delicadeza guiando-me até a mesa de madeira coberta com um tecido branco macio, nos sentamos e fiz questão de puxar minha cadeira o máximo para frente que pude como se cada centímetro distante dele fosse completamente intolerável. Assim que coloquei o guardanapo em meu colo, deixei que minhas mãos pousassem sobre a borda da mesa. Imitando meu gesto de minutos atrás, sua mão veio até a minha segurando com posse, força, ansiedade. Quando Alejandro segurou minha mão no leilão, meu primeiro reflexo foi puxar, no entanto agora ao lado de James, tendo sua pele na minha e a quentura de seus dedos brincando com os meus, eu apenas me sentia segura, confortável, em casa.