All I Need
9 Andro Metamorphose
Notas iniciais
A música de hoje é uma das músicas mais lindas pra mim, linda de letra e de melodia, combina muito com esta fic. (tbm tá no meu top das 10 melhores musicas kkk)
Música: Andro Metamorphose - Plastic Tree/ Link: http://www.youtube.com/watch?v=eahP-kMkNVs
Boa leitura ^^
*/Uruha’s pov\\*
A sensação de dor em meu peito não é uma qualquer. Eu me sinto um lixo, o pior tipo de gente. Eu me sinto rejeitado, eu me sinto anormal, e acima de tudo me sinto vazio.
Então é isso que acontece quando você depende muito de alguém, e ela te desilude, não é?
Eu só queria saber o porquê de algumas pessoas se apegarem tanto a alguém.
Eu não sou propriamente uma pessoa sociável, muito pelo contrário… Eu sou alguém fechado, tão fechado que só deixo algumas pessoas se aproximarem mais.
Essa vida me fez tão mal… Eu não era assim.
No fundo, essa vida fez mal para todos nós.
“De uma vida para a outra, algumas coisas mudam. Você pode passar de simpático a arrogante, mas tudo isso depende das diferentes experiências e ambientes em que vive. Há vários tipos de pessoas ao seu redor, aquelas mais insignificantes, que podem ser tiradas de perto, sendo adicionadas outras. Às vezes, essas pessoas “insignificantes” podem destruir sua vida, podem te mudar. Uma simples atitude delas, pode te amargurar, ou te tornar alguém feliz.”
Aquele anjo me disse isso. Confesso que, quando ele começou a falar dessas coisas, pensei que aquilo fosse brincadeira. Mas então eu descobri que não era, da pior forma possível.
Meus pais começaram a namorar novos demais, a família deles não queria aceitar a relação deles, por meu pai ser filho de uma cigana, por pura descriminação.
Então eles fugiram… Minha mãe tinha pouco mais de quinze anos de idade, e meu pai dezoito.
Quando fugiram para aquela cidade, minha mãe já estava grávida de três meses. Eles sabiam, sabiam perfeitamente, que se a família de minha mãe descobrisse, a fariam abortar. Então por mim, por amor, eles fugiram.
Por incontáveis noites vi meu pai saindo de madrugada. Ele sempre vestia roupas pretas durante a noite. Lembro-me particularmente, de que ele usava um grosso casaco preto com um capuz. Eu não entendia o porquê de ele sair tão tarde, eu só via ele se levantar da cama em que nós três dormíamos, e vestir aquilo. Ele fazia aquilo pelo menos quatro ou cinco vezes por mês. Deixava minha mãe chorando alto, dizendo para ele não ir, que era perigoso. E eu não entendia do que se tratava…
“Nee Kouyou, seu papai é um ladrão?”
Eu com quatro anos ouvindo aquilo… Eu poderia ter esquecido, já que era muito novo, mas não. Aquela pergunta está esculpida em minha mente até hoje.
“NÃO É TAKA! NÃO É!
Dentro daquela caixinha de areia, naquele parque que eu amava, eu gritei. Fechei meus punhos, tomando uma grande quantidade de areia em minhas mãos, assustando o pequeno ao meu lado, sussurrando coisas desconexas, tentando fazer com que minha mente tão infantil, fantasiasse outra coisa. Mas fantasia alguma veio…
“Mas… eu vi seu papai ontem de noite… Eu tava sem sono aí fui na janela… e ele entrou no mercado que foi assaltado… Eu sei que era seu pai, porque tinha aquela tatuagem com dois punhais em sua nuca…”
Eu quis erguer as pequenas mãos, e lançar a areia que tinha em minhas palmas, nos olhos do “mentiroso”. Porém, eu não consegui… Eu sentia o peso das palavras pesar em minha consciência, em minha mente privada e mergulhada em fantasias. Tudo desmoronava, tudo se desfazia…
“Nee papai, o que é isso na sua nuca?”
O homem de olhos tão claros como os meus, e de sorriso infantil, se virou para mim.
“Kou-chan, nós ciganos vemos o punhal como um símbolo de vitória e coragem. Eu só quero vencer na vida e dar tudo de melhor pra você e pra mamãe.”
Meu pai fazia tudo por nós, eu cheguei a essa conclusão com o passar dos anos. Com o choro de minha mãe… Eu não tinha vergonha de meu pai. Eu tinha orgulho. Mas nada nunca mudava…
Meu pai era considerado imundo, como se tivesse alguma doença contagiosa. Ninguém lhe dava trabalho, ninguém o respeitava, viam minha mãe como uma mãe solteira, e se viam no direito de oferecerem céus e terra para ela. Minha mãe era, e é linda. De uma beleza perigosa demais para si mesma…
“Kou-chan, papai agora vai trabalhar todos os dias, e mamãe agora vai trabalhar também. Já que o Kou-chan é grandinho e tem oito aninhos, pode ficar sozinho de noite, certo?”
Eu assenti, mas eu não podia, eu sentia medo do escuro, via monstros em cada sombra que existia nos cantos do quarto, me assustava com minha própria respiração… E mesmo assim… Eu insistia em fingir que estava tudo bem. Eu sorria para papai, e mentia para mamãe. No entanto, meu medo era torturado pela humidade daquela casa, embalado pelo barulho que a árvore sinistra fazia ao bater na janela. Meu medo era uma consequência de minhas mentiras.
E aquele vazio permaneceu durante muito tempo, eu já não tinha o Takanori, eu não tinha com quem rir, brincar, chorar. Não tinha quem beijasse meus machucados. Meus pais pediam desculpas e passavam o dia quase todo dormindo. Eu não tinha ninguém. Eu só tinha o medo e a solidão como companheiros inseparáveis. Não havia mais que sorrisos falsos. Não havia mais brincadeira alguma, que não fosse o que eu escrevia em papéis. Não havia mais choro, minhas lágrimas tinham secado.
Eu só me fechava mais, ganhava uma resistência fria. Me tornava o mais próximo de um mentiroso doentio. Mentia para meus pais sobre meus amigos, dizia que os tinha, falava nomes inventados. Tudo para ver aqueles sorrisos belos nos rostos cansados.
Isso durou até meus quase dezesseis anos, quando eu vi aquele garoto loiro, com um moicano rebelde, fazer algo próximo de homicídio.
“Você vai matá-lo!”
Aquela frase o fez olhar para mim, surpreso demais. Eu temi que ele viesse até mim, que me batesse, que me deixasse inconsciente como ele havia deixado aquele conhecido. Mas não. Ele veio até mim, segurou meu queixo com força e ditou uma ordem.
“Você vai ser meu amigo.”
E a partir daquele dia, eu me tornei amigo e calmante dele. Eu era aquele que o repreendia, que o fazia baixar a cabeça e murmurar “desculpe” todas as vezes que machucava algum conhecido, ou amigo distante, por vezes, até mesmo alguns estranhos...
Ele me ensinou a sorrir, me ensinou a aproveitar a vida. Ele tirou minha inocência, eu tirei sua inocência. E mesmo assim, eu não me arrependia de nada. Mesmo que mais tarde começássemos a ver que éramos irmãos, e nada mais. Eu me tornei demasiado dependente dele, e ele demasiado dependente de mim.
“Akira, cuida desse menino. Eu e o pai dele vamos tentar viver com calma. Sabemos que Kouyou está em boas mãos.”
Por mais que aquela decisão pudesse parecer egoísta, aos olhos de qualquer outra pessoa, eu fiquei feliz. Eu tinha visto todo o esforço que meus pais faziam por mim, e sabia, que tudo aquilo só era necessário por conta de escola e, principalmente de remédios que eu tomava, já que, eu tinha alguns problemas de coração.
Então meus pais mudaram de cidade, para o interior do Japão, foram viver em Mie. E eu vim para Tokyo com Akira. Aqui acabamos por fazer faculdade, e construir uma boa vida, juntos. Sem erros, sem olhares acusadores.
Eu visito meus pais, eles me visitam. Trocamos cartas e conversamos por telefone frequentemente. Eles não são nem um pouco culpados de minha falta de expressão, e do grande síndrome que começou a surgir em mim, após eu começar a ter lembranças estranhas em minha mente. Não… o culpado sou eu.
No ínicio, eu tentei fugir de todas as maneiras, dessas memórias, mas com o tempo, eu vi que não era brincadeira. Aquela “merda”, como eu mesmo chamava no começo, era minha vida passada, eram meus amigos, o amor da minha vida.
Na frustração de não saber o que fazer, eu me fixei no trabalho. Não sei bem quando, mas construí uma grande barreira entre meu bem-estar e meu trabalho. Eu fiquei com a mania da perfeição, acabei criando uma síndrome, e ela acabou tomou conta de minha mente.
Tudo porque, só naqueles ataques histéricos, eu conseguia esquecer um pouco de tudo o resto, por isso, eu passava dias e horas a fio, se possível, naquele escritório improvisado.
E de uma forma que eu não previa, as coisas acabaram se tornando sérias e perigosas demais, ao ponto de que Reita, muitas vezes, tinha de me drogar, e outras, praticamente me enfiar na cama á força.
Eu fui o levando junto comigo naquela loucura inacreditável. Eu não gosta de admitir, mas sim, eu estava louco. Eu estou louco.
Talvez eu mereça todo esse desprezo e incredibilidade…
Nesse pensamento eu acabei dormindo num sono leve, largado naquela confortável cama, com aqueles rastros húmidos de lágrimas em minha face.
Mas não foi preciso muito tempo. Logo eu ouvi meu nome ser chamado, e senti aquelas gentis e macias mãos, serem dirigidas a meu rosto, limpando as poucas lágrimas ali acumuladas.
– Gomen.
Abri os olhos, completamente desperto daquele sono leve.
– Claro… — Sorri abertamente.
Ficamos ali, mais de horas, deitados naquela cama, olhando um para o outro, trocando carícias e olhares arrependidos, até ouvirmos o som enjoativo do telefone começar a tocar.
– Deve ser pra você. – Murmurou.
– Atende Aki… — Resmunguei preguiçoso, fazendo-o rir levemente.
– Preguiçoso! – Ri, me enrolando no lençol e fazendo olhinhos pedintes. – Tá tou indo! – Revirou os olhos, erguendo as mãos para o ar.
Ele se levantou da cama, e eu olhei no relógio, constatando que tinha ficado muito tempo pensando no passado, e depois atirado na cama com Akira. Passava do meio-dia.
Dei apenas de ombros, sorrindo e me enrolando novamente naquele lençol. Eu só queria descansar um pouco. Bem, era isso que eu pensava, não é?
Notas finais
Obrigada mesmo ^^
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