Segunda – 19:00

O grupo estava em frente à mansão naquela noite, vestidos como se fossem para guerra. Sumia atirou na porta da mansão, fazendo a madeira espatifar no terceiro tiro. Mesmo assim, ninguém apareceu na porta e todos esperaram e passaram tensão à toa. Então, Luke, sem nenhum aviso prévio do que faria, caminhou até as paredes e colocou suas mãos na madeira velha, incendiando a casa. Ele foi puxado para trás por Ilys quando a mesma começou a estremecer e suas vigas começaram a trincar com o fogo.

— Isso vai dar problema para nós...

— Eu resolvo depois. – Ilys disse, confiante. – Afastem-se todos! A casa vai cair. Kouta, um campo ao redor dela agora por favor, ou poderá atingir casas vizinhas.

— Sim senhora.

Ele se colocou na frente de todos ali e estendeu as mãos, falando algumas palavras em arcano e projetando um campo de força em volta da mansão que caiu em poucos minutos. Ainda com a madeira estalando e com fumaça sobrevoando a região, Sumia caminhou até as escadas e fuçou nas madeiras, como se quisesse entrar ali para verificar algo, mas foi puxada por Kouta quando algo remexeu abaixo das madeiras. A mulher de cabelos dourados caminhou até a escadaria, limpando a fuligem do rosto e colocando as mãos na cintura.

— Ah... Parece que cresceram um pouco. Ou eu que desci de um trono para ver o que os ratos que estão aprontando?

— Você desceu, está sozinha agora. – Ilys silvou.

— Ah, que chatas...

Golden fez o simples esforço de virar a cabeça para Chica, enquanto ela se apoiava em sua serra elétrica e bocejava. Por fim, a mesma se espreguiçou e colocou a serra no ombro, puxando a corda e fazendo com que ela rosnasse feroz como sempre. Todos olharam assustados para ela, pois havia um plano, e ela estava saindo dele. A menina simplesmente sumiu e retornou logo abaixo do nariz da loira, golpeando o ar em um movimento horizontal e fazendo com que a moça desse um passo para trás. Golden ficou surpresa ao ver que sua aura conversou com a da menina.

— Interessante. – Um portal saiu de sua mão quando a mesma foi estendida em direção à Chica, e desse, uma corrente com uma ponta afiada surgiu, perseguindo a pequena rata robótica como uma cobra. – Interessante...! Vocês transformaram um poder em Siyah, eu pensava que um anularia o outro. E ela é rápida!

Golden teve de interromper para desviar da nova investida de Chica que havia enrolado a serpente de ferro no pulso e cortou-a com a serra. Chica começou a desferir inúmeros golpes horizontais que a mulher só conseguia se defender por conta do ruído da maquina, pois a velocidade era intensa. Ambas estavam escalando os escombros da mansão e ficando cada vez mais longe do grupo, e foi assim que Octavia abriu seu livro e conjurou uma magia. Brotaram do livro discos púrpuros e brilhantes que fugiram do campo de visão de todos. Ela olhou para Kouta, que tomou a frente de todos e falou palavras arcanas, mas permaneceu de olhos fechados e sem nenhum movimento.

Golden lá em cima havia parado de brincar com Chica e revidou seu ataque invocando uma corrente que prendeu os punhos dela acima de sua cabeça, aproveitando de seu movimento alto. Nisso, apertou os pulsos como uma cobra assassinando sua vitima, e Chica sentiu a pele rasgar. Os sensores de dor nunca foram postos a essa prova e a robozinha começou a gargalhar em resposta ao sentir aquilo.

— Isso dói!

— Está achando engraçado...? – Golden delineou um sorriso nos lábios negros. – Pare de rir!

— Mas... Ah...! – Pequenas adagas perfuraram o peito de Chica, vindo de outros portais, e ela não sabia mais se o que a pobre robô fazia era risada ou choro. – Isso... É... Horrível! Estou tão feliz...!

— E agora, é divertido...?

A serpente de metal ergueu Chica até uma altura de 5 metros e ela acabou largando a serra. Ela viu inúmeras facas e espadas se direcionarem ao seu grupo e quando foram lançadas, sua expressão mudou rapidamente. Não poder resolver um problema deixou a garota em um estado de fúria e arrebentou todas as correntes no momento em que se acalmou com o campo de força vindo de Kouta, que repeliu o ataque de Golden.

No chão, ela preferiu se juntar aos seus amigos, e Octavia viu isso como chance perfeita de completar seu ataque, uma vez que Golden focou em perseguir Chica. Os discos atravessaram pulsos e tornozelos de Golden, e sua doce pele dourada quase branca foi arrancada como se os mesmos discos fossem serras giratórias de cortar madeira em serralheria. Chica se usou como escudo na frente de Marina, mas tudo o que escutaram foi um grito monstruoso vindo de Golden Black. A mulher caiu no chão, sem pulsos ou pés, e seu corpo ficou negro, seu cabelo ficou da mesma cor, com a parte interna dourada. Sua roupa também inverteu de cores, e novos punhos e pés foram criados, em dourado.

— Agora!

Ilys deu a ordem e Yuki estendeu a mão para frente, fazendo com que sua Blizzard Egg avançasse contra Golden, que correu de volta e ambas se chocaram no ar. Como um escorpião, Blizzard estocava suas garras contra a pele de Golden que nada fazia em troca. Não demorou muito para que todo o corpo de gelo ficasse dourado e então se espatifasse no chão como cacos de ouro. Golden Black caminhou no ar, abaixando-se lentamente, sentindo suas feridas se fecharem com sua seiva dourada. Então Ilys mesmo decidiu conversar com Golden.

Criou suas asas, chifres e rabo, enquanto a outra invocava mais armas para atacar o grupo. Quando o fez, em meio a transformação de Ilys, Marina rebateu as facas curtas com um cutelo, e depois o lançou certeiramente contra Golden, que perdeu um pouco sua concentração para verificar. E foi assim que Kamille conseguiu correr até ela e chutá-la para trás, fazendo Golden cair no chão, mas a Siyah prendeu a perna da mulata para que essa não fugisse, e a corrente a lançou contra uma parede, bem forte, fazendo a mesma cuspir sangue e perder a consciência. Octavia lançava facas feitas pelo seu livro para rebater o ataque incessante de Golden, que servia tanto para ferir quanto para prender o grupo dentro do campo que Kouta havia feito. Ela não demorou para se levantar.

Um portal foi criado abaixo dos pés de Marina e a menina caiu dentro do mesmo. Chica avançou contra Golden ao ver isso, mas então a loirinha surgiu logo após e foi chutada para a parede, que deslizou por ela e acabou sentada em sua base. Os eventos futuros foram rápidos demais para serem percebidos em uma hora correta. David havia lançado um pilar da casa destruída contra a Siyah, enquanto Chica havia corrido até Marina, mas foi como se ela sequer tivesse sofrido algum dano. A Siyah apareceu atrás de David e tocou em seu ombro, cujo tal tomou uma cor amarelada. Ela sumiu por alguns segundos logo após. David rapidamente se livrou do casaco e da camisa, mostrando um corpo levemente definido e já molhado de suor pelo nervosismo. Os portais sumiram e Kouta caiu de joelhos no chão, cancelando o campo e sendo amparado pela irmã.

Então Chica cuspiu sangue e óleo ao ficar bem próxima de Marina, e tocou seu rosto pálido com a ponta dos dedos para fazer a loirinha olhar para ela. Mari estava zonza e quase desmaiava, mas tinha os olhos bem abertos.

— Oi...

— Chi...ca... – Sua visão triplicou e voltou ao normal muitas vezes. – Tem algo... Te atravessando...

— Tem... – Chica olhou para seu abdômen, sorrindo, enquanto uma ponta de ferro da corrente atravessava-a ali. – Hey... Mari... Promete para mim que vai ler o diário...?

— Não temos tempo para...

— Eu te amo... – Chica foi atravessada no mesmo momento por uma lança. – Muito... – E mais outra. E outra. – Se eu tivesse uma filha... Ela seria igual você...

David conseguiu acertar Golden de baixo para cima como se a rebatesse. Luke comemorou logo atrás, como se fosse o treinador do garoto para ensinar baseball. Golden foi lançada para cima e puxou consigo as correntes que arrancaram o mecanismo de Chica de seu corpo, fazendo com que ela ficasse oca. Tudo o que Marina se lembrou daquele momento era de ver uma lágrima escorrendo do rosto da amiga robótica. Golden bateu numa árvore, caiu e rolou, abrindo um portal e atravessando-o para que ficasse próxima de Ilys, atacando-a furtivamente pelas costas, segurando sua cauda. A mesma começou a virar ouro, mas foi cerrada por Octavia com o mesmo disco mágico de outrora, dando espaço para Luke segurar os dois pulsos de Golden e a erguer.

— Você vai me dar a própria vida, garoto? – Ela disse, com um sorriso, enquanto as luvas do rapaz ficavam douradas.

— Não. – Não demorou muito para que o ouro da luva, assim como as mãos de Golden derretessem gradativamente. – Não mesmo... Você desgraçou minha família. E eu vou te desgraçar!

Golden ameaçou fazer um campo de força no chão, mas antes dele se abrir, uma espada atravessou a lateral do abdômen do loiro, fazendo-o grunhir. Para chutar sua cabeça de forma que ele caísse no chão, foi fácil.

A mulher olhou para frente, tempo o suficiente para ver uma híbrida albina se lançar contra ela. Com as suas garras fortes, abriu seu abdômen e arrancou o que achava ser suas vísceras, todas douradas, mas apesar de Golden gritar, aquilo não parecia matá-la. Uma fumaça com péssimo cheiro subiu de seu corpo e a ferida começava a se fechar na velocidade que Ilys a rasgava. Então, Viktoria invocou Hikmet, que pegou a lança de Ilys do chão e flutuou tranquilamente sobre os olhos de Golden, que estava presa contra o chão.

— Oi.

— Holy Stigma!

— Quanto tempo... – A lança, com a chave derretida em sua ponta, foi forçada contra a fechadura dourada de Golden, até que a mesma cedesse e a ponta finalmente perfurasse o peito da mesma. – Acabou.

— Você está viva... Por que não me ajudou?

— Por que sou uma Perpétua.

— Você é uma Siyah!! – Golden rosnou. – Traidora!

A lança foi retirada e Viktoria estendeu a mão para Ilys, puxando-a para longe. Então, começou a acariciar os cabelos brancos da mais velha, que foi se acalmando a ponto de “ronronar”. Após isso, começou a recolher as asas, rabo e chifre, assim como as garras. Hikmet impediu que Golden se levantasse, e Octavia prendeu os braços e pernas de Golden contra o chão com correntes mágicas. As feridas no abdômen da Siyah não se fechavam mais e ela começava a ofegar.

— Eu não me importo com o que acha de mim. – Hikmet disse com a lança nas costas. – Independente do que pensa, você está tão errada quanto o resto do mundo.

Viktoria se aproximou de Golden, com Ilys ainda sendo acariciada nas costas da mão esquerda, enquanto a menina focava na conversa.

— Eu não estou!

— Então explique o que é isso tudo... – Viktoria disse, com uma voz bem mais madura do que o normal.

— Você também é um de nós! – Golden gritou, e Hikmet apenas chutou-a forte. – Argh... Eu... Só tentei fazer o que meu marido quis fazer. Unir minha raça... Unir todos nós.

— Unir? – Ilys disse.

— Quando fomos abandonadas pelos Illahis, fomos lançados em Karanlik e escravizados por Theia, a tia dessa albina. Entre muitas aspas...

— Foca. – Ilys sussurrou, estreitando os olhos.

— Zero tentou nos libertar das garras de Theia, a enfrentou. Disse que preferia morrer a se rebaixar ao cargo de servo dela, e ela realmente executou seu corpo de Siyah. Ele sofreu tanto, sua primeira amada foi morta pelos filhos dela, que geraram Byakushi, Lunatus e Saeris... Três Perpétuas. Eu não podia deixar que elas sobrevivessem sem pagar por isso, mesmo que não fosse exatamente culpa delas.

— Então você achou interessante dominar o mundo onde nem mesmo Theia existe... – Hikmet disse, com um sorriso sarcástico. – Vingança bem planejada...

— Eu queria refazer minha raça para poder retomar o que é nosso por direito! O trono é de Absolute Zero, ele é o primogênito e amado de Hayalleri! Os humanos são ainda muito frágeis, mas eu vi com meus próprios olhos que seus corpos são compatíveis com os nossos genes!

— Esse mundo não é uma caixa de brinquedos onde você pode resgatar um corpo e brincar de ser deus com ele! – Ilys gritou.

— Eu sei, mas era a única forma. Somente a deusa pode criar Siyahs do zero.

— Você queria reiniciar esse mundo apenas com os humanos que sobreviveram às transformações, por isso pediu tanta ajuda para os ricos com seu projeto Midnight?

— Sim. Zero morreu quatro vezes. Todas em vão!

Octavia estreitou os olhos, se sentindo particularmente incomodada com aquilo.

— Ele é meu pai. – Ela disse para Golden, friamente. – E ele não se sentia mal em ser um humano comum.

— Ele finge bem... – Ela olhou para Octavia com desdém.

— Eu como Perpétua, Ilys como Perpétua, Viktoria como Pepétua, cuidamos para que o mal não saia do controle. Então independente de quão nobre seja seus planos, eu não posso permitir que os cumpra. Pois você está sacrificando uma raça para salvar a sua.

— A nossa, Holy Stigma! Você é uma Siyah!

— Eu sou a terceira Perpétua do Destino. Nada mais. – Hikmet caminhou até Ilys, lhe entregou a lança e se despediu com um beijo na testa, se desfazendo logo após.

— Por favor, Ilys...

— Não. – A albina colocou a lança ao lado de seu corpo e pediu para que Viktoria atirasse na lâmina. A menina o fez, e assim que a mesma se espatifou com o tiro a queima roupa, o corpo de Golden Black se desfez em um pó dourado.

A jovem se virou para seu grupo e viu Kouta sendo sustentando pela irmã, Luke carregando Kamille e David carregando Marina. Então pediu para Octavia carregar Yuki que estava sentado no chão, meio traumatizado com tudo aquilo, sem o apoio de sua amiga Siyah. Todos voltariam para o trabalho de Ilys, mas quando ela olhou para Viktoria que estava de costas para ela, sem se mover, resolveu chamar.

— Hey, vamos...

— Não vai dar, Ilys... – Viktoria novamente falou como se nunca tivesse seus momentos de autismo. – Eu tenho umas coisas para tratar...

— Coisas?

— Coisas... – E saiu correndo às pressas para a direção oposta, deixando um grupo atônito e sem forças para ir atrás dela.