Quarta – 10:00

Marina finalmente ficou curiosa em relação ao caderno de sua amiga falecida. Novamente, se encontrava sozinha com seu pai em sua casa abandonada por Deus. Ela estava observando a parede velha até aquele momento, com os cartazes rasgados descolando, seu quadro queimado e quebrado, bem no rosto de sua mãe. Seus olhos se encheram de lágrimas pela primeira vez dentro de muito tempo, mas logo limpou as lágrimas e suspirou, pegando o caderno de Chica e colocando em seu colo, com cuidado para não ferir seu abdômen enfaixado, assim como o braço ferido.

A letra de Chica era de forma e perfeitamente quadrada. Parecia feito em uma máquina de escrever. No topo da folha, tinha um cabeçalho com local, data e hora. Então começava uma breve descrição de fatos ocorridos com ela nesse um mês passado:

“Tokyo, 15/05 10:12 — Moramos numa casa. Uma mansão enorme onde o teto era alto e assustadoramente escuro, você se sente pequeno aqui. Tem muitos corredores e precisei dar duas voltas para mapear o ambiente. Eu fiz uma amiga, ela se chama Melody e em muito se parece com você. Eu nunca vi antes olhos tão azuis e claros, só não vencendo dos olhos cinzentos do papai. Eu consigo ver a luz da janela, e aqui é muito confortável, mas é muito assustador, nunca sei quando vão me tirar do quarto definitivamente. Eu fui recebida por umas meninas muito jovens e uma adulta que tinha uma irmãzinha. Elas sofreram experiências com a tal cientista Ruko e foram modificadas biologicamente. É estranho dizer que são mutantes com habilidades distintas. Hoje fiquei junto de Melody e de Irie, o filho da cientista, e ele explicou como a mãe tenta injetar os genes de Siyahs mortas nessas crianças. Descobri mais tarde que Melody também havia sofrido com isso. Ah, Mel tem um ataque que você iria adorar ver! Ela usa um ioiô com um cabo cortante, e esse cabo consegue fatiar as coisas. Eu a vi em treinamento esses dias, e você tem que ver! Quando ela ataca, se torna uma pessoa completamente diferente da Melody que você conversa.

“Tokyo, 22/05 19:20 – Essa semana foi um inferno para mim e só pude escrever hoje. Eu passei pela primeira sessão com Ruko e estou com as juntas debilitadas. Ela encapou meu corpo com uma camada de epiderme, derme e hipoderme. Eu sinto tanto... Estou cheia de suturas agora, e ela não conseguiu enxertar um olho pela falta de estrutura metálica, que eu cedi para você. Por sentir tanto, as costuras ardem quando me mexo e as vezes alguns pontos cedem, pois a carne está morta. Não quis sair do quarto desde que voltei da mesa de cirurgia e Melody está comigo desde então. Ela é uma garota maravilhosa e cuida muito bem de mim. Meus pontos serão tirados por ela quando eu me recuperar. Deverá perguntar como que essa pele vai sobreviver sem se decompor em mim. A resposta é simples: Há canos acoplados ao redor do meu corpo que recolhem sangue e o sangue passam pelas veias e artérias sintéticas postas entre as camadas de pele. Tem uma bomba em meu peito que faz tudo isso circular, mas em determinado momento preciso de sangue novo e Mel cede o dela em transfusão. Não tenho muito o que dizer. Eu não tenho lembranças da cirurgia. Só queria mesmo te dizer que sinto tua falta, Rose.”

“Tokyo, 23/05 15:24 – Oi, Rose. Sou eu de novo. Hoje eu conheci as sensações novas que ganhei. Ainda não possuo sensores de paladar, mas já desisti de descobrir sabores novos. Irie se mostrou um fetichista observador e se deliciou ao me ver beijando Mel. Apesar de não sentir seu sabor, eu senti o toque e o calor que ela emanava. Ela estava corada e tímida enquanto eu a explorava lentamente. Eu descobri que dor pode ser gostosa também, Mari. Melody não tem unhas grandes, mas são fortes. Elas arrancaram um pouco de sangue de minhas costas. Mais tarde descobri que o sangue que estava recebendo durava pouco por que Mel é anêmica e não pode doar muito, então logo vou ter que encontrar um novo doador. Hoje à noite vou retirar meus pontos. Serei uma garota livre!”

“Tokyo, 24/05 20:13 – Se eu pudesse, diria estar bêbada. É uma loucura aqui! Fui retirada de meu quarto, e descobri que o grupo das crianças que passaram por experiência é grande, muito grande, mas eles mantém um sorriso nos lábios e esperanças! Me aproximei muito delas, e descobri que o passado daquela adulta é bem triste e complicado. Seu nome é Priya e ela é uma indiana religiosa. Uma hindu, eu diria, com fortes costumes de lá. Apesar disso, ela é extremamente carente de atenção. Uma narcisista, uma... Não sei explicar, mas acha que o mundo é dela. Toca um instrumento chamado HandPan, enquanto sua pequena irmã toca uma Harmônica de Vidro, e ambas em conjunto formam uma boa dupla e também utilizam um ataque de encantamento assim. Se eu não aceitasse de bom grado vir, eu possivelmente teria sido encantada. Estranho, não é? Bom, Priya tem um passado trágico. Após ser forçada a casar e perder o bebê, ela decidiu que mataria todas as mulheres que pensavam em abortar. É meio difícil de entender, uma vez que ela também estava matando os filhos, mas tudo bem. Atualmente, ela tem em suas veias o sangue de uma Siyah do nível Bruxa. Pergunte a Ilys se quiser, não sei muito sobre elas... Seu nome é Red Saw. Preciso ir agora, escrevo quando eu puder. Hm, milady, eu te amo...”

“Tokyo, 30/05 14:34 – Descobriram o plano de Priya. Rose, pode ser que eu nunca volte, então vou escrever tudo o que posso. Estamos escondidos no armazém e não vai demorar muito para descobrirem nossa localização. Não temos um traidor entre nós, a própria Ruko quebrou e resolveu eliminar todos nós. Estou escrevendo por que temos muita paz por aqui ainda. Temos um amigo de vigia. Sete foram mortos e a indiana não está aqui...”

“Tokyo, 30/05 19:01 – O grupo perdeu mais de sua metade. Estou com Melody e ela está se vestindo para a batalha. A colocaram como isca e armadilha. Capaz dela reduzir o grupo inimigo pela metade, nisso terei espaço para atacar Ruko. O resto do grupo está procurando Priya... Mel acabou de sair. Ela está com medo mas sei que vai conseguir. Estou esperando algum sinal para prosseguir. Irie deve entrar por aquela porta a qualquer...”

“Tokyo, 30/05 23:11 – Mel está gravemente ferida. Eu sinto uma coisa nova em mim, uma espécie de impulso. Quero destruir Ruko, deve ser por que estou triste. Não sei o motivo, mas Melody está sentada na cama mexendo numa caixa médica e espetando coisas em seu pulso. Tentei pará-la, mas acho que na verdade ela está se medicando de alguma forma. Irie não apareceu para nos ajudar, mas ligou dando a localização de Priya. Eu mesma vou buscá-la, só tenho que esperar... Hm... Ela está dizendo que tenho que ir. Sequer consigo olhar para seu rosto, vi que está todo cortado e faltando pedacinhos, acho que ela foi ferida com o próprio fio. Seu pai a enfaixou e agora está tentando achar Ruko no meio dessa mansão através de um sistema que ele programou para a própria... Mel recém me deu sangue para eu manter minha pele viva. Acho que ela morreu. Sinto uma dor tão forte que estou vendo as letras embaralharem. Não sei o que é isso, acho que é tristeza. Liguei faz alguns minutos para o pai dela e saí do quarto. É meia noite agora. E é hora de caçar.”

“Tokyo, 31/05 03:15 – Os guardas parecem brotar do chão. Pensei que a área estava limpa, mas ainda tive que eliminar sete. Estou no corredor principal e escrevendo aqui por não saber como vai ser o itinerário do dia. Acho que a sala de Ruko é no fim do corredor, e não consigo falar com nenhum membro. Acho que ela deve ter atirado em todo mundo. Estou com saudades, e isso está me movendo. Eu digo, estou aqui para matar, não para morrer. Vou avançar agora.”

“Tokyo, 31/05 07:05 – Aconteceu a tragédia final do nosso grupo e acho que ele quebrou agora. Eu achei Priya quando me investi para o fundo do corredor e ela estava saindo de uma sala. Estamos nela agora. É uma cela de contenção. Estamos todos mortos, Rose. Não sobrou nenhum. Não vejo o corpo de Irie e de Brahms apesar de tudo, espero que tenham se safado. O lugar aqui está vermelho e sinto meu bule revirar. Priyah está caminhando para lá e para cá. Eu digo que ela quebrou, Rose. Não tive tempo de testemunhar sua habilidade, mas escutei um grito assustador antes de achá-la. Hm, sua irmã foi dilacerada na frente dela, pelo que me contou, e está num estado que ela sequer consegue juntar os pedaços para dar um fim digno... Acho que ela acabou de encontrar as roupas dela. Está abraçada nelas. Seus olhos estão vidrados aqui. Oh. Vamos matar Ruko agora! See ya!”

“Tokyo, 31/05 18:07 – Estamos do lado de fora. Vou voltar hoje para casa, Rose. Quando eu chegar, te conto o final dessa história. Não vejo a hora de te abraçar apertado. Priya vai voltar para a casa dela, se ela a tem, para recomeçar a vida. Estamos esperando os bombeiros apagarem o fogo da casa enquanto ela toca seu HandPan. É um som muito triste quando ele está sozinho.”

— Chica, sua idiota. Você se esqueceu de contar o final...

O dia estava bem claro e o sol passava pelas cortinas do quarto. Ela cobria os olhos às vezes quando as nuvens destapavam o sol. Escutou batidas na porta e a mesma foi aberta sem precisar de sua resposta. A loira simplesmente olhou para quem entrava, séria como sempre.

— Bom dia.

— Oi, David.

— Por que está chorando...?

Marina passa os dedos pela lágrima que já beirava seu queixo e desvia o olhar, sem mudar a expressão. O menino se senta ao lado dela, com seu sorriso costumeiro, e acaricia os cabelos loiros da garota. O silêncio permaneceu por um bom tempo, até ela quebrar.

— Eu estou sozinha de novo, não estou?

— Eu estou aqui, Rose.

— Não me chama assim.

— Por que...?

A menina levanta o caderno de Chica e o lança contra o chão, apontando para o mesmo enquanto rosnava.

— Ela me chamava assim!

David suspirou e pegou o caderno do chão, colocando-o numa mesa próxima. Quando se virou para a cama, viu uma loira ajoelhada contra o colchão, que colocou as mãos contra a beirada da cama e depois levou-as até as coxas do rapaz, como se o prendesse ali na cadeira. Ele encarou-a sério, e depois assustado ao ver a expressão da menina se converter de neutra para raivosa.

— Vocês falaram que sempre ficariam comigo, mas era tudo mentira! Vocês mentem para mim! Vocês são todos iguais, só querem me usar!

— Marina, calma. Rose, segura essas mãos. – E suspirando, ele prende as duas mãos dela para que não alcançassem o pescoço do garoto. – Você está machucada, vamos lá, pare com isso...

— Você vai me abandonar também! Você me quer morta! Eu não vou aceitar que faça isso comigo! – E quando terminou de falar, se sentou sobre o colo dele, soltando uma das mãos e segurando-o pela garganta.

— Você está apertando com toda a sua força? – Ele disse em ar zombeteiro, sorrindo, enquanto a desafiava com o olhar. – Faça melhor, Rose...

A menina então solta a mão machucada, vendo partes avermelhadas surgirem nas ataduras devido ao atrito de seu braço contra a mão forte do garoto, reabrindo seus cortes e fazendo o sangue minar. Ela leva a mão até um criado-mudo e retira de sua primeira gaveta uma faca, levando-a para a frente dos olhos roxos do moreno. Ele se surpreende com a agilidade da moça, tinha se esquecido que a falta de força dela era substituída pelo excesso de velocidade.

— Eu vou arrancar seu olho esquerdo...

— Você vai...?

— Você vai sofrer antes de me ver morrer!

E então ela avança com a faca, mas David coloca a mão na frente e é atingindo pela lâmina bem na palma. Ele a encara com um meio sorriso, segurando tanto o punho quanto a faca, e força a mão dela para trás.

— Você me faz sofrer sempre que age assim...

E então a abraçou. Isso a calou e no mesmo instante ela se aninhou em seu peito, como se todo o ódio tivesse simplesmente sumido. Abraham foi até o quarto da garota, secando os cabelos castanhos e ondulados, estranhando a cena e se assustando ao ver o sangue escorrendo da mão de David. O homem se aproximou e acariciou os cabelos da filha, que não demonstrou reação.

— Eu acho que tenho que levar Marina de volta ao médico, David...

— Não. – Ele suspira, olhando para cima, encarando os olhos cinzentos de Abraham. – Marina vai se curar com carinho e afeto. Não com medicamentos...

— Anti-depressivo...?

— Ok, esse pode ser...

Sábado – 09:00

Malas prontas e casa já vazia de seus pertences, Louise espera um táxi num banco próximo da casa de “sua mãe”. Disca alguns números no celular e espera ser atendida, mas isso não acontece e acaba por ter que tentar várias vezes. Quando o carro chegou, ela desistiu de ligar e entra no mesmo, pedindo para o taxista colocar suas malas no porta-malas enquanto se ajeita no banco da frente e coloca o cinto.

— A senhorita vai para onde...?

— Aeroporto.

— Você fica olhando para seu celular, vai se encontrar com alguém...?

— Não... – Louise desliga a tela de seu celular e o guarda. – Na verdade eu estava fazendo uma besteira...

O taxista preferiu não perguntar sobre e simplesmente seguiu com a corrida. Louise ainda teve tempo de ver sua mãe sair da casa e acenar para ela pelo retrovisor, e então ela acenou de volta, sorridente, colocando a cabeça e a mão para fora do carro para isso.

Domingo – 12:10

— Minha irmã é DJ, sabia...?

— Eu não gosto muito de baladas, na verdade...

— Vamos lá, tente se divertir um pouco. Pense que são férias longas e que logo vai voltar...

David olhou para Tushi e deu um meio sorriso. O trem já havia chegado e ela estava vendo as malas serem postas no compartimento delas, enquanto David esperava ao seu lado com as mãos no bolso da jaqueta branca e capuz da mesma cor encobrindo os cabelos branquíssimos, demonstrando sua tristeza em relação a tudo o que estava acontecendo.

— Vamos ter nossa casa própria agora, sem aluguel, sem cobranças...

— Ela vai ficar bem?

— Marina? Ela ainda tem o pai, vai ficar bem, sim. Vamos, entre. Já é hora, e pegue sua passagem.

David olhou para trás, suspirando, e simplesmente entrou no trem e alcançou sua poltrona. Tushi fez isso logo após, mais animada que ele. O trem partiu 5 minutos após.

— O que quer fazer quando chegarmos no Japão? Comer algo?

— Eu vou dormir.

Tushi olhou para ele, que retirou os tênis e colocou os pés no banco, abraçando as pernas enquanto a espiava com os olhos. Ela estava com uma expressão surpresa ao ver que um menino hiperativo planejava dormir.

— Você vai encontrar novos amigos... – Ela disse com um sorriso animado no rosto. – É uma promessa.

— Obrigado, mãe... – Ele sorriu e escondeu o rosto.

Domingo – 15:00

Mari corre até o parque do condomínio vestindo uma jaqueta preta e vermelha com orelhas de gato no capuz, saia xadrez com preto e branco e sapatilhas brancas. Ela puxou o capuz para cima da cabeça quando saiu no sol e subiu no escorregador do lugar, pegando uma altura maior para dar uma olhada pelo parque em busca de David. Deslizou pelo escorregador e foi até o balanço, ficando sentada ali, quieta, por longos minutos, esperando. Pegou um celular do bolso e ficou vendo a hora passar, até escutar trovoadas. Apesar da chuva que a castigou uma hora após dela ter chegado, a garota não pareceu fazer menção de levantar. Abraham foi buscá-la com um guarda-chuva por volta das 17 horas, estranhando a demora da filha se recolher após o início da chuva forte.

— Hey. Está chovendo, vamos entrar?

— Está, não é...?

— Mari. – Ela olhou para ele, séria. – David não deve vir hoje, já vai escurecer, venha.

— Ele pode estar atrasado...

— Então ligue para ele. – Abraham colocou a mão na cintura, igualmente sério.

— Não posso... – E ela mostrou o celular encharcado para o rapaz. – Molhou.

— Vamos ligar lá de casa... – Ele estendeu a mão para a menina, que demorou um pouco para aceitar. – Boa garota...

Segunda – 09:30

— Vocês pretendem ficar, afinal?

— É, eu acho que aqui é melhor que o Japão. Meu marido vai demorar para aceitar, mas em breve ele vem...

— Não se incomoda...? – Ilys deu de ombro, entregando Yuki para os braços de sua mãe. – Esse garoto, ele é estranho. Eu nunca vi uma criança tão quieta.

— Yuki raramente fala. E agora, menos ainda já que perdeu a amiga dele na batalha. Eles eram bem próximos.

— Bom... – Ilys entrega o resto de seu sorvete para o menino que aceita de bom grado. – Eu vou ficar muito feliz em tê-los comigo, uma vez que todos resolveram me abandonar de alguma forma após alguns atritos.

— Eu te conheço o suficiente para saber que não é perigosa o bastante para nosso grupo, essas crianças tolas acham que qualquer coisa contra elas é “ser do mal”.

— Sim! – Ilys ri, se levantando. – Você pretende fazer seu filho treinar quando ficar mais velho? – Com a loira concordando com a cabeça, Ilys sorriu. – Mesmo não sendo mais um escolhido?

— Acho que vai fazer bem para ele, afinal, não é aqui que vive tendo guerra de máfia?

— Não é bem assim...

Ambas riram. Ilys alisou os cabelos do menino loiro e se despediu da amiga com um beijo no rosto, justamente quando o carro de Kumi apareceu na frente na praça. Acenou para Cintya e se retirou, indo para o carro. Ao chegar lá, a expressão de Kumi estava sobressaltada.

— O que foi...?

— Nada!

— Você parece ter visto um fantasma.

— Eu não encontro a Viktoria em nenhum lugar...

Ilys suspirou. Ela tinha algo importante para fazer as 10:30 no seu trabalho, mas tinham tempo para gastar até lá. Tombando a cabeça para trás, ela fecha os olhos e diz para a amiga ruiva ir até o cemitério. Quando foi contestada, Ilys apenas explicou.

— Já a levou para lá varias vezes e aquele é o lugar mais importante para a menina. Aposto que se ela quisesse, conseguiria ir para lá sozinha.

— Ela é autista, Ilys...

— Ela é uma Perpétua ainda assim...

Kumi suspirou e procurou a primeira rotatória que achou, em vez de ir para o trabalho de Ilys, foi para a entrada do cemitério. Kumi resolveu ficar dentro do carro quando a albina a chamou para que fossem juntas para a cripta de Yomi. A mulher negou com a cabeça varias vezes, como se estivesse temendo por algo. “É só um cemitério!”, Ilys brincou, mas Kumi sorriu e mesmo assim disse que não iria. Falou também que preferia não levar Viktoria para a própria casa, queria que seus filhos não tivessem contato com uma Perpétua. Não aquela.

Ilys deu de ombro. Se virou para dentro do cemitério e caminhou tranquilamente como sempre, comprando na pequena venda perto da guarita uma rosa vermelha. A rosa caiu de sua mão quando ela viu uma figura um pouco mais alta que Viktoria na frente da cripta. Primeiro imaginou ser seu pai, uma vez que a semelhança era grande e que a figura também usava um sobretudo preto. Quando se virou, a surpresa foi ainda maior do que ver seu pai ali.

— Nina.

— Ilys... – Yomi sorriu ao vê-la, com um livro na mão, enquanto caminhava lentamente para perto da albina. – Minha nossa, você cresceu.

— Você não mudou nada. – Ilys sorriu, e também se aproximou de Yomi. Quando se preparou para dar um abraço, negou com a cabeça e colocou as mãos atrás do corpo, enquanto a morena colocou uma das mãos no bolso. – Então sua morte foi tudo uma farsa?

— Que arisca. – Ela disse antes de explicar. – Não, você sabe que não temos como morrer nesse plano. Apenas ficamos em uma espécie de sono eterno até que haja razões para nos levantar novamente.

— E a razão é...?

— Minha filha. – Ela balança o livro em sua frente. – Ela conseguiu o livro com Abraham.

— Um livro para te levantar de volta? Magia negra? – Ilys cruzou os braços.

— O livro dos mortos. O que a trouxe. O livro completo. Tinha uma pasta com páginas arrancadas dentro da cripta ao meu dispor caso eu precisasse. Assim como a raça de seu pai, não é comum ter dois Perpétuos do mesmo atributo convivendo juntos.

— Eu e minha mãe convivíamos. Ela e o meu avô também.

— E foi assim que o poder de vocês três foi dividido. – Yomi guardou o livro no outro bolso, colocando a mão apoiada sobre a parte superior do mesmo, que ficava para fora do bolso. – Isso é perigoso, e costumamos não o fazer. Mas Hakushiro sempre pensou mais no bem estar da família do que do reino.

— Você tem uma razão para voltar...? Está tudo acabado. Não há mais Siyahs para lutarmos, e nem Conchita pra proteger. Acabou, Yomi. Tudo.

— Então eu tenho tempo para viver minha vida. – A morena disse, passando por Ilys lentamente e seguindo em direção dos portões do cemitério. – Pode fazer o mesmo agora.

Ilys deixou a morena se afastar antes de formular a resposta. Sua voz saiu um pouco exaltada, tanto pela altura da voz, quanto por uma raiva que estava crescendo.

— E Viktoria? Vai ceder ela para você retornar a vida? Não se importa?

Yomi se vira para a albina e esboça um sorriso. Com isso, lágrimas escorrem pelos seus olhos verdes e belos, e ela nega com a cabeça, respondendo calmamente.

— Minha filha, Ilys, morreu faz tempo. Essa é apenas uma cópia feita pelo livro. E todos nós sabemos que não se pode brincar de deus... – E então segue seu caminho. – Espero que você se torne uma pessoa maravilhosa como sua mãe e seu avô, e seus antepassados, e Byakushi, e Hayalleri.

Ilys deixou a morena se retirar sem dizer mais nenhuma palavra. Quando Yomi saiu do cemitério e viu o carro junto de sua dona, acenou suavemente para o mesmo, tendo tempo apenas de ver Kumi arrancar com tudo, sem ao menos responder a outra com palavras ou gestos. Ficando a observar a fumaça que se soltou dos pneus, ela voltou até a lojinha de flores do cemitério e comprou uma flor azul, levando consigo no bolso superior da jaqueta enquanto subia a rua do lugar em direção ao centro da cidade, sem dizer mais nenhuma palavra, até ser encoberta pelas copas das árvores da calçada.

Terça – 21:35

Sentados na primeira fileira de bancos vermelhos da casa de shows, Luke e seus pais, Sumia e Donatella esperavam ansiosos o show de Kamille que estava prestes a começar. Do lado deles, estavam Koda e Xinavane – os pais da garota – e logo atrás, Dianne, Stevan, Jim e Andrew, que às vezes falavam com Luke. A apresentação demorou mais 5 minutos para começar, e durou pelo menos 15 minutos antes da troca de equipes. Foi uma excelente apresentação de Street Dance, cuja tal a mulata parecia muito mais que preparada. O diferencial foi que a mesma havia posto movimentos de batalha no meio dos passos, como se recriasse a capoeira.

Infelizmente os juízes acabaram colocando seu grupo em segundo lugar na parte técnica e em primeiro na parte artística. Ela se gabava das duas lindas medalhas presas em sua jaqueta curta de couro preto enquanto escutava os metais tilintando.

— Hm, vocês possuem as matérias inteiras desse primeiro semestre de aulas? – Luke disse, um pouco envergonhado, para seus amigos. – Eu não quero rodar, já estou carregando uma coleção de zeros.

— Haha, não se preocupe. – Dianne lhe deu um soco no ombro. – A gente vai conseguir uma nova chamada para você. É só mostrar que estava de fora por causa de problemas pessoais pesados.

— Mas eu...

— Eu entendo, ter uma mãe meio louca, sua prima sofrer um acidente e perder a namorada por assassinato tudo de uma vez é uma barra pesadíssima... É comum que você mesmo esteja agindo de forma estranha...

— Estranha? – Luke retirou o único fone que estava no ouvido, para ver se não havia perdido metade da conversa. – Eu estou normal...

Ele olhou para Sumia por alguns segundos, que se divertia enquanto comentava com Kamille quão ótima ela foi. O loiro reparou que nenhuma das duas estavam com suas respectivas joias, e quando percebeu isso, acabou por arrancar sua própria pedra e jogar no lixo.

— Tem razão. – Ele disse, arrumando a jaqueta verde e branca. – Está tudo bem agora.

Lucy apareceu para oferecer carona para todos – levando em consideração o que cabia no carro – e Sumia negou, dizendo que já tinha ligado para a própria mãe e que poderia levar os pais de Kamille e ela também. Stevan podia levar a namorada com ele na moto. Todos foram embora em menos de 40 minutos.

Terça – 23:31

— O que está lendo?

— Nada em particular. – Octavia abaixou o livro e sorriu ao ver a pequena xícara de café posta na mesa de centro. – Oh. Obrigada...

— Você fica muito tempo aqui dentro. Não vai juntar traças como os livros, ok?

— Está tudo bem. – Ela começou a beber lentamente enquanto olhava para um jovem Kouta com um meio sorriso no rosto. – Hm, sua mãe sabe que está comigo? – Ele concordou. – E não tem problema...? – Ele negou, se afundado em outra poltrona. – Hm. Você ainda está com as pedras, não é?

Kouta retirou de dentro da camisa listrada de cinza e preto as pedras dele e de sua irmã, negando com a cabeça suspirando.

— Você não acha que está cedo demais para acabar?

— Acabar o que...? – Ela tombou a cabeça, ajeitando o fino par de óculos para leitura. – Não acha que já deveria ter terminado faz algum tempo? Você vê quantas coisas a gente perdeu?

Ele rapidamente se levanta e corre até ela, retirando o livro de suas mãos e se apoiando em suas coxas, aproximando perigosamente de seu rosto, que se tornou vermelho.

— Eu sei, mas veja. – Ele se afastou, apontando para os milhares de livros que cercavam a garota. – Olha todo esse conhecimento. Olha tudo isso. Não acha que seria simplesmente horrível jogar tudo fora? Abandonar esses livros? Essa pintura na madeira do chão, e o lustre com flores no teto, isso tudo não te excita de uma forma única? Sempre que entro aqui, sinto como se meu coração fosse explodir de magia!

— Kouta. – Ela parecia zangada. – Eu não vou mais me meter com isso, com Ilys, com as Perpétuas, nem com nada que tem como origem o meu pai. Eu não estou interessada. Estou lendo esse livros justamente por serem raros e cheios de conhecimentos que, por deus, não se aplicam só ao nosso mundo!

— Então por que está com o colar...?

— ... – Ela desviou o olhar.

— Vocês não precisam se preocupar.

Quando os dois nerds se viraram para trás, encontraram uma bela morena com seu próprio livro nas mãos, olhando aos arredores. Acenou para eles quando viu o brilho de surpresa nos olhos do pequeno mago.

— Minha nossa, você é real!

— Saeris Von Mavra, Princesa de Karanlik, Perpétua da Morte, a Corsária de Hell, o Dragão Sem Nome, Seimei, Tigre da Rainha, a Cientista Sullin, Bruxa Yomi...

— Yomi, a empregada, que se tornou também guardiã da torre azul, Nina, a babá de uma Perpétua do Destino. A psicopata capaz de ajudar a dizimar uma raça para conseguir seu marido, uma Siyah de Pedra, e sua filha das garras de outras Siyahs e que falhou e blábláblá, muitos títulos, e muitos que você sequer sabe. Não foram escritos pelas Perpétuas pois elas sequer existiam.

— O que está fazendo aqui...? — Octavia se sentiu ligeiramente ofendida. – Quero dizer, Ilys disse que você havia morrido.

— Ilys e eu não temos mais nada a ver. Mas é bom saber que vocês estão com seus amuletos...

— Por que...? – A aproximação da morena parecia suspeita a Kouta, que tomou a frente de sua amada Octavia para uma futura defesa. – O que pretende...?

— Vou querer todos eles! – Ela se virou, atipicamente animada e com um sorriso quebrado no rosto, com os olhos verdes aparentando estarem opacos. – Os poderes, eu os quero.

— Você pretende algo contra nós...?

Yomi deu uma gargalhada selvagem quando ouviu aquele comentário de Kouta, abrindo o livro numa página específica:

— Não eliminaram todas as Siyahs... – Os dois gelaram com aquele comentário. – E podem ter certeza que com o que possuem como força agora que derrotaram Golden não dá pra resolver. Então não se preocupem, a biblioteca de Love Nightmare é minha agora.

— As fadas... – Octavia olhou assustada e curiosa em respeito a aquilo. – Você está blefando...

— Não tenho razão alguma para isso, crianças. – Ela olhou para o teto, depois para eles, exibindo um largo e perverso sorriso. – O sangue delas eu quero nas minhas mãos... Lady Rainbow e Lorde Mono, os restantes, nem respirarão o mesmo ar que vocês...

— E como pretende fazer isso?

— Eu não sei mesmo! – Ela fechou o livro. – Essa droga não me diz paradeiros, apenas que estão vivos. Mas está tudo bem. Consigam os outros colares para mim, eu imploro...

E os dois acabaram cedendo após pensarem juntos sobre ser ou não insano ajudar aquela mulher.

Quarta – 10:15

Ilys resolve acordar um pouco mais tarde naquele dia e se espreguiçava e bocejava, esticando sua camisola rosa e preta cheia de rosas bordadas na extensão, enquanto fareja um cheiro doce e familiar. Ela se vira e encontra em seu criado mudo leite com mel e um pedaço de bolo-mil-folhas. Na poltrona logo atrás, estava um rapaz que a encarava com um esboço de sorriso no rosto e os olhos verdes bem vivos.

— Oh, se não fossem por esse par de esmeraldas me encarando, eu poderia jurar que era o papai.

— Hm. Bom dia, madame. Como dormiste?

— Bem. Eu dormi bem. Hey, você deixou seu celular aqui, mas não consegui achá-lo até ontem de manhã. Ele tocou loucamente algumas vezes.

— Oh, é mesmo? Deixe-me ver. – Ela apontou para o moreno a mesa do outro lado do quarto enquanto se servia. – Entendo...

— Hm...? – Ela olhou para ele, com um pedaço de bolo bem grande dentro da boca.

— Tem açúcar em todo seu rosto. – Ele disse, abrindo um sorriso um pouco maior. – E não é nada, Louise resolveu falar comigo de última hora.

— Vai ligar de volta? – Ela respondeu limpando os lábios. – Apesar de tudo eu não a odeio, muito pelo contrário, eu...

— Não. Não vou.

Christian se aproximou de sua amada irmã e se sentou na cama, acariciando os seus cabelos brancos e brilhantes, deslizando pela extensão, até chegar na nuca e então no pescoço. Ele pegou a corrente da pedra de Ilys e a dedilhou com a ponta dos dedos.

— O que...? – Ilys disse, desviando o olhar para o leite.

— Mesmo tendo acabado tudo, ainda usas o colar dos escolhidos em sua garganta. Por que?

— Por que eu sou uma escolhida.

— Disseste que te juntarias a mim quando acabasse. – Ele aproximou ainda mais da menina, se esfregando levemente em seu ouvido, enquanto sussurrava. – Voltarás atrás?

— Não, eu... Hey, pare. – Ele se afastou. – Eu vou me juntar a vocês agora como prometido. Mas por favor, não tire o colar...

— Se desejas...

Quando Ilys terminou de comer, sua bandeja havia desaparecido. No segundo após, sua bela camisola havia desaparecido. No próximo, ambos já haviam deixado o lugar, que havia sido arrumado pelo rapaz manipulador de tempo sem deixar sua futura esposa perceber quanto tempo havia se passado.

Quarta – 18:32

— Why doesn't anyone stay here? Why do they leave me?... Don't they realize? I'm a porcelain doll. Small, unsure, beautiful, breakable...

Uma pequena loira de capuz de gatinho caminhava pela calçada da doce Itália, olhando os prédios, os casais da praça, os cães e gatos livres. Se sentou num banco de madeira por um tempo, olhado para o entardecer belo e, que de alguma forma, lhe trazia paz.

— If I sit here waiting to be wanted, something good will pass me by. Many people look through the windows, but seldom do they ever look into my eyes…?

Ela se levanta subitamente quando escuta um “hey!” vindo de uma voz jovem e masculina. Se virando, vê um rapaz na frente de outros 3, apontado para uma bola perto dos pés da garota.

— A bola! Passa ela!

— They can tell that I am sweet…They can tell I'm like a porcelain doll…

E ela os ignorou, se retirando as pressas em direção a grande ponte da cidade, que dividia a mesma em duas e cortava um belo e largo rio. Ela deslizou as mãos pelo peitoril, ofegante por ter corrido, retirando o capuz e olhando o sol se escondendo.

— Beautiful and demure...

E se apoiou no mesmo peitoril, em pé. Retirou a jaqueta e jogou na água, como se fosse divertido a ver afundar.

— Lost, alone, unsure, kind, demure, small, fragile, helpless…

Ela tirou seu colar da garganta, jogando-o no chão, vendo-o pingar algumas vezes. O olho vermelho brilhava, não se quebrando apesar da queda devido a escolha de um material forte. Então, a loira se jogou do peitoril, caindo suavemente como se fosse seu último show do circo de sua mãe e mergulhando nas águas. Crianças, adultos e velhos se juntaram ao redor da queda para ver o que tinha acontecido, mas nenhum ali se arriscou a se jogar. Um rapaz decidiu contornar o rio para descer pela margem na intenção de salvar a menina antes que fosse tarde...

... Mas o rio não estava raso.

— Breakable... – Uma voz silvou baixo.

Yomi caminhou entre as pessoas e pegou o colar, juntando-o com os outros dentro de seu bolso. Então, abrindo o caderno, aguardou alguns minutos para que aparecesse em vermelho, depois tendo as letras escurecidas em preto o nome: Marina Engberg.

— Geez, falta alguns...

Quarta – 20:44

“Oi, Rose! É o David, tudo bem? Só tive créditos hoje, mas tentei ligar para seu celular e ninguém atendeu. Só queria dizer mesmo que eu não conseguiria me despedir de você se eu tivesse te encontrado e que teve de ser assim. Infelizmente perdemos a casa e fomos despejados! Hahaha! Bom... Me liga quando puder para eu saber se está brava, prometo te visitar a cada seis meses! Eu te amo... Muito...”

Abraham tocava a gravação deixada pelo garoto vez após vez, enquanto jogava as cinzas de seu último cigarro do segundo maço no cinzeiro que estava lotado, ao lado de uma poça salgada que se juntou abaixo de seu rosto. Ele ligou uma última vez...

“Pietra...”

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