Domingo – 10:40

– Luke! Campainha!

O rapaz não estava jogando com fones, mas esperava que seus pais fossem atender a porta. No entanto, ambos estavam no andar superior, e trancados no quarto. Não queria pensar besteira, mas um sorriso malicioso brotou em seus lábios quando ouviu a voz de sua mãe. Pausou o vídeo game, deixou os controles no acento do sofá, caminhou até a porta e quando a abriu, uma expressão de espanto.

– Luke Cavallaro? – O carteiro disse, pegando de sua mochila uma carta de papel vermelho metálico. – Pode assinar?

– Posso... Não me lembro de ter comprado nada.

– É uma correspondência urgente.

Após acenar e receber a carta, a primeira coisa que ele o fez foi se sentar e abrir o envelope. Dentro, estava apenas um endereço, uma data e um nome, escrito em letras vermelhas. “Ilys – Basílica de San Marco – 21/03 , 18:00”

– Ilys? Quem é Ilys? – Ele se perguntou. – Eu preciso ver quem eu conheço que recebeu essa carta.

Domingo – 11:00

Os gêmeos ficaram com o pai nesse curto sumiço de Kumi Amane. Eles sabiam onde ela estava, que estava com a “tia” Ilys. Aliás, era um alivio que Viktoria não estivesse presente. Eles pareciam mais livres, menos em perigo, tanto que naquela manhã, Sumia estava fazendo o almoço da família: Filé de frango e macarrão com molho branco. Kouta abriu as portas da casa para varrer a poeira para fora e aproveitou para verificar contas e correspondências. Retirou de lá um montinho de papéis. Umas duas contas, uns panfletos, e uma carta dourada. Não deu muita atenção a ela, só levou todas para dentro.

– Meu deus, que fome, Mia. – Kouta reclamou, quando sentiu o cheiro da comida.

– Daqui a pouco!

– Cadê o pai?

– No escritório.

Kouta largou a vassoura em um canto e foi para os fundos da casa. Escutou o pai digitando pesadamente sobre o teclado através da porta do escritório. Bateu algumas vezes, e quando recebeu resposta, abriu-a e entrou.

– Cartas.

– Oh, obrigado. – Ele pegou as cartas e, ajeitando o óculos no rosto, começou a ver uma por uma, o remetente e o assunto. – Essa é pra você e pra Sumia, Kouta.

E entregou a ele o mesmo envelope dourado. O garoto correu contar a novidade para a irmã, que se afastou metade do corpo, como se tombasse para trás, para ver o que era aquilo. E as inscrições eram idênticas aos da carta recebida por Luke.

– Hah! Mamãe está planejando algo grande! – Sumia exclamou, com um sorriso animado.

Domingo – 13:10

O som ecoava alto através do salão dos fundos daquela casa, que não era muito grande, mas tinha um quintal razoável, e nisso foi instalado atrás um cômodo de 7 metros quadrados. Apesar de estar alto, de fora quase não se reconhecia as músicas. Na casa, logo na frente, uma mulher de cabelos verdes cheios de cachos amarrados por uma fita castanha, lavava as louças enquanto ouvia a maquina bater as roupas que estavam sujas.

O cachorrinho da família latia loucamente na porta e quando a carta foi jogada por debaixo, ele pegou-a na boca e levou até a mulher, deixando-a aos seus pés. Depois, saltitou para fora.

– Obrigada, Mika – Ela disse ao pequeno shih-tzu. Ao pegar a carta e abri-la, um sorriso brotou em seus lábios e logo após, um suspiro melancólico. – De novo não...

Ela pegou a carta e colocou-a debaixo dos papéis do lado do telefone, com a ponta verde metálica aparecendo para que chamasse a atenção. Koda, como era seu nome, era uma mulher de tanta importância quanto Kumi e Lucy, a primeira tinha ciência disso, a segunda de nada se lembrava. Mas diferente das outras duas, ou pelo menos de como Kumi parecia querer, não desejava que sua única filha Kamille, agora vidrada nas aulas de dança junto de seu pai, se envolvesse num problema gigante como aquele que estava por vir.

Domingo – 14:00

Ilys estava embalando uma carta azul claro metálica, uma azul escuro metálica e uma branca simples. Mas a carta azul marinho não precisou de selo, a dona dela estava logo ali. Viktoria estava sentada montando um quebra cabeças no chão, e quando Ilys se virou em sua cadeira, encontrou os olhos opacos da criança.

– Hey, Unk. Você quer seguir o caminho de sua mãe?

A única coisa que ela pareceu ter ouvido foi “mãe” e ergueu a cabeça rapidamente, não vendo de fato Ilys, mas uma figura, um ser que ali estava. A mulher se abaixou perto da pequena e entregou-lhe a carta. A menina não mostrou entusiasmo, mas também, como poderia? Sequer sabia o que era isso.

Domingo – 18:30

Kumi entregou a carta à filha de Vidia pessoalmente, mas quando Vidia olhou para a carta roxa, seu coração pulsou.

– Não. Ela não. Por favor. Já está mal, imagine se envolver-se com tudo isso...

– Estou igualmente preocupada com meus filhos, Vidia. Mas confio nos poderes de Ilys e em como ela poderá os proteger. Aliás, eu poderei os vigiar de perto como segunda oficial no comando.

– Mas eu não estou podendo sequer me levantar...

Kumi colocou as mãos sobre os ombros da amiga e se abaixou um pouco, ficando da mesma altura. Aquele seu olhar era o típico olhar de uma pessoa solidária: “Estou contigo” e a outra concordou com a cabeça. Deu um olhar para Octavia e a menina abriu a carta. Enquanto a mesma lia, as mais velhas se despediam e Kumi foi embora.

– Eu vou seguir em seu cargo, mãe?

– Um último esforço... O último, prometo.

– Não estou com medo de morrer, mãe. – Octavia abraçou Vidia, que mesmo a outra não vendo, tinha lágrimas nos olhos. – Você exerceu seu cargo com honra, farei o mesmo.

– Eu sei...

Domingo – 20:00

Era hora de recolher. Logo, Pietra largava os ensaios com os integrantes do circo e retornava para casa. Como sempre, a primeira coisa que fez ao subir pelo prédio até encontrar seu apartamento foi perguntar ao porteiro sobre visitas, e ao receber resposta negativa, prosseguia. Nisso, verificava o correio e só depois entrava. Naquele dia chegara uma carta prateada, e o coração da mulher palpitou violentamente.

Ela escancarou a porta e depois a mesma se fechou pesadamente atrás das costas da mulher. Retirou o cachecol e o casaco preto, exibindo a simples camisa branca de mangas longas sem gola. Usava calça legging preta e sapatilhas. Seus cabelos eram loiros, medianos e cacheados, com pelo menos dois terço dos fios pintados de verde. Os olhos eram negros como a noite. Deveria ter seus 30 anos e era baixa. Só depois de muito esperar, as mãos trêmulas e ansiosas abriram o envelope, mas seus ombros caíram em decepção quando ela leu para quem a carta estava destinada.

– Marina? – E ela releu novamente. – Como aquela desgraçada ousa me esquecer...? – E a voz que iniciou aparentemente calma, caiu em histeria. – Por que Marina?!

Mas ela sabia que não podia interferir na escolha da Perpétua do destino. Se a convocada não estivesse em condições de participar, outra poderia ser escolhida, não? Matar Marina ainda não era uma opção. Estavam sozinhas na casa, seu marido havia saído para resolver algumas coisas na Alemanha. Aliás, Alemanha sempre esteve dentro de sua vida, não? Apesar de ser nacionalmente italiana. Então deveria pensar em outra solução para seu probleminha pessoal: Era dia 21, não era? Então, Marina deveria suicidar-se até lá. Um sorriso brotou nos lábios da mulher. Ela não precisaria sequer tratar a criança diferente.

Se levantou com um baque surdo e com passos lentos, foi seguindo para os fundos do apartamento. A cada centímetro, mais alto o som do piano ficava. E ao abrir a ultima porta, encontrou uma cena que a desagradou.

– Bonecas não dormem.

– Só cochilei.

– O som não está alto o suficiente, não é? – E ela olhou para o rádio que estava disposto do outro lado do quarto. – Bem, resolverei isso logo. – Desligou a musica por um tempo.

A menina estava presa numa gaiola. Uma pequena gaiola de um pouco mais de um metro quadrado, onde ela era obrigada a ficar sentada, encolhida. Estava usando uma camisa cor de creme de alças finas e shorts acinzentados. Seus cabelos eram loiros e curtos, presos numa tiara para não atrapalharem a visão da menina ao ler as letras de sua canção que estava fora da gaiola um pouco distante.

– Olhe para mim enquanto estou falando contigo! – A menina ergueu a cabeça, mas essa pendeu para um dos lados em exaustão. – Seus olhos estão vermelhos, cansada? – E Marina apenas concordou, arrancando um novo sorriso da mais velha. – Está vendo essa carta?

Pietra balançou o papel prateado entre os dedos e a menina acompanhou os movimentos como um gato e um laser vermelho. Pietra explicou rapidamente do que se tratava e de como estava “satisfeita” da filha ter sido escolhida, mas que infelizmente não poderia participar da reunião.

– Qual a razão?

– Você estará ensaiando nesse dia.

– Já estou ensaiando a dois... – E tossiu. – Minha voz sequer está saindo direito.

– Que pena. Ainda não é 10 horas para dormir.

– Mãe...

– Pietra, pra você é Pietra! Me trate com respeito, insolente! – Marina desviou os olhos, mordendo o lábio inferior. – Eu vou fazer o jantar.

Aquela palavra pareceu uma melodia para os ouvidos de Marina. Seu estômago doía, a cabeça doía, os olhos embaçavam. Ela era uma garota magríssima, e dava para ver de longe sua clavícula saltada, assim como as costelas delineando levemente a camiseta fina. A pele tomando uma cor levemente arroxeada também apontava frio.

– Me soltará?

– Soltar, como assim?

– Para jantar...

– Bonecas não comem. – Pietra deixou a carta sobre uma mesa do quarto e se virou. – Continue praticando. – E quando se abaixou para tocar no botão que ligaria novamente o rádio, Marina levantou sua voz.

– Não como faz dois dias!

– Então mais um não te fará diferença.

– Estou exausta... Por favor...

– CANÁRIOS NÃO FALAM! – Ela exclamou para a menina, que se encolheu na grade anterior da gaiola. – Quero te ouvir cantando até as 10. Não... 11. Ou melhor, vire a noite. Bonecas não dormem.

E saiu batendo a porta num estrondo. Apesar de Marina tentar cantar os próximos versos assim que a mais velha saiu, sua voz não quis sair e acabou por desabar no choro, um choro silencioso. Proibido.

Domingo – 22:30

Tushitsuji havia posto David para dormir. Arrancou seu celular e levou consigo para que ele não se distraísse. O sono do garoto deveria ser completo. Ela era uma mãe coruja totalmente preocupada com o desempenho do menino.

David sofria de hiperatividade e era muito complicado para colocá-lo na cama, mas naquela noite, ele parecia esgotado. Antes da mais velha apagar a luz, ela se virou para o garoto e sorriu. Tushi era uma garota magra, de cabelos bem curtos negros e olhos púrpuros. O cabelo do menino, assim como os olhos, puxou muito dela – Se não tudo – e ela parecia feliz com isso. Divorciada do marido bêbado, sentiu-se agora totalmente responsável pelo bem estar do garotinho, coisa que lhe foi roubada da infância.

– Parece cansado...

– Eu tentei falar com ela, mãe. – Ele lamentou, roubando o sorriso da mais velha. – Com Pietra. Mas... É como falar com um morto. Ela sequer me olhou nos olhos.

– David, eu sei que você gosta muito da Marina, mas infelizmente...

– Isso é... Mãe, ela deve ser presa pelo que faz!

– Ela já foi. – Tushi tombou a cabeça para baixo, suspirando. – Algumas vezes, mas a liberam por que... Ela tem um quadro clinico que...

– Ela é uma atriz! – David exclamou, quase bagunçando a cama. – Ela é uma das melhores atrizes... Marina não vai aguentar... Ela não tem forças...

Tushitsuji sabia como era ser torturada. Quando pequena, sofreu com isso e seu corpo estava inteiramente marcado, eternamente. Mas infelizmente, não era uma guerra dela, e ela se sentia impotente pelo filho. Voltou a caminhar até ele, beijou-lhe a testa e limpou suas lágrimas.

– Hey. Você pode... Pedir para Marina passar um tempo aqui, na próxima vez que encontr]a-la. Podemos cuidar dela, até que Pietra... Bom, até que a gente consiga coloca-la atrás das grades. Mas agora descanse. Amanhã você acorda cedo. – E ele concordou.

Tushi se retirou do quarto e caminhou pelo pequeno apartamento. Foi até uma das janelas e de lá viu o prédio nobre do condomínio. Bem na sua frente, estava o quarto de Marina, e se aguçasse bem os ouvidos, poderia ouvir o piano a torturando. Pobre garota. Ela deveria realmente ir pro céu após tanto sofrimento. De qualquer forma, retirou da gaveta da escrivaninha onde estava sentada sobre, uma carta negra. Ajeitou o casaco de malha enquanto lia o mesmo pela quarta vez. Balançou a cabeça negativamente e olhou através da janela para o céu, para a lua, e implorou a ela.

– Por favor... Proteja meu filho... Ele não está pronto...

A meia noite, havia uma carta branca e uma carta azul claro indo para França e Japão, respectivamente. E as duas completariam o arco de membros convocados.