Terça – 22:47

Na delegacia, o grupo estava dividido em dois. Os dois amigos e Tushi em bancos do lado esquerdo, e os outros amigos, além de dois funcionários do lado direito. Muitos dos processos aconteceram e as testemunhas já haviam sido ouvidas durante a noite. O processo no entanto não parecia querer acabar bem.

Uma moto parou no estacionamento da delegacia, fazendo um ronco que fez Djin saltar. Sua parte de lata era toda artesanal e logo a frente do acento de couro marrom escuro havia a estrutura de uma coluna vertebral prateada, que ligavam a costelas que recobriam o motor, as pernas do esqueleto prendiam-se na roda de trás e os braços na da frente, com guidões altos que eram conectados às omoplatas como a armação de uma asa de anjo queimada. A parte do farol era o crânio.

Quem desceu da moto foi uma mulher que parecia muito jovem e tinha um corpo robusto. Coxas fortes e torneadas, marcando as calças jeans pretas rasgadas nos joelhos. Ela estava com uma jaqueta de couro com spikes nos ombros e nas mangas. Usava botas de plataforma, com salto de pelo menos 10 centímetros, quadrado. Os cabelos eram levemente ondulados e negros, bem volumosos, usava um óculos de sol que cobria bem os dois olhos azuis, e os lábios estavam da cor do vinho. Ela escancarou a porta da delegacia e procurou o filho com os olhos. Quando o achou, seus músculos tencionaram e sua voz saiu como um trovão.

— Ok! De quem foi o nariz que você quebrou agora, Djin?!

— Não... Não foi culpa dele. – David disse, cabisbaixo, chamando a atenção da morena. – Ele tá aqui como testemunha.

Ela pareceu relaxar, mas nada respondeu. Quando olhou para David, encontrou ao seu lado uma menininha toda encolhida, com os pés descalços – já que as sapatilhas pretas estavam no chão – sobre o banco, e abraçava as pernas, encobrindo o rosto.

— MARI?! – A mulher ergueu os óculos e os prendeu nos cabelos. – Marina! Sua coisa linda! O que está fazendo aqui?!

— Tia Lil... – Mari respondeu, erguendo a cabeça e abrindo os braços quando percebeu que ia ser abraçada e a morena a levantou do banco, deixando-a suspensa no ar. – Tia, tia, menos... Por favor...

— Mari, Mari! Você está tão raquítica. Minha irmã não lhe alimenta? – Os olhos da loira caíram para o chão, num suspiro. – Ah... Eu acho que deveria esperar por isso... – A colocou no chão e depois se abaixou, se agachando na frente de David e colocando as mãos sobre os próprios joelhos, olhando com um dos olhos o menino, deixando o cabelo cair parcialmente sobre o outro. – E o que você, tão pequeno, fez?

— Tentei matar meu pai.

— Nossa, que simples! Todos nós queremos isso, né? Até mesmo eu quando menina. – David estreitou os olhos, incomodado com aquelas palavras. – Não sério, tentei mesmo... Ok. Bem... Você é menor de idade, talvez não seja punido!

Djin se aproximou da mãe e da loirinha, sem se dirigir em direção de David, não queria conversar com o menino por achá-lo meio louco. Não que a mãe fosse uma pessoa completamente sã. Ela olhou para ele e depois para Mari, e apontou para um e para o outro, como se falasse “se apresentem”. Djin estendeu a mão, mas Marina demorou para pegar, e quando pegou, foi apenas nas pontas dos dedos, muito tímida e cabisbaixa.

— Você é minha meia prima, certo? Prazer.

— Oi... – Ela voltou a se sentar e se encolher.

— Está preocupada, menina?

— Não quero que façam mal para David... – Ela disse, escondendo a cabeça.

Naquele momento, Giovanni saiu pelo corredor com uma expressão zangada e pisando forte no piso branco. Ele estava com a jaqueta sendo suspensa pelas mãos através de um ombro e caindo pelas costas. Quando passou pelos bancos, ele olhou para a motoqueira e sorriu maliciosamente, mas voltou a fechar a cara quando ela o repreendeu com um olhar estreito. Depois, fuzilou Tushi e David e se retirou, com uma expressão triunfante. O menino se levantou para perseguir, mas as mãos dele foram seguras por Lil e pela própria mãe do rapaz.

David voltou a se sentar, no momento em que Marina se levantou. Quando Djin tentou segurá-la pelos ombros, ela desviou com a velocidade de um gato quando é perseguido por uma criança travessa. Seus olhos estavam vidrados e a pupila dilatada, embora não fosse fácil de ver já que seus olhos já eram originalmente negros. Ela rodopiou em um dos calcanhares e caminhou quase como um zumbi para dentro do corredor, sem falar nada ou olhar para os lados.

— Ok, o que houve com ela? – Lilith, como era conhecida pelas pessoas, se levantou e resolveu ir atrás. Luke, tentando ser um herói de armadura dourada, se ofereceu para ir atrás também. – Tudo bem, só não atrapalhe.

Lilith avançou pelo corredor e ficou distante de Marina, pelo menos em 2m. A menina fez o mesmo rodopio da outra vez, mas agora em uma meia lua, entrando em uma das salas da delegacia. Lil se aproximou furtivamente com facilidade, mas Luke parecia um ladrão de comédia ao invadir uma casa, completamente desengonçado. Os cabelos negros penderam através da batente da janela e ela aguçou os ouvidos, ou o único que lhe restara.

— Você soltou ele.

— Infelizmente a lei o cobre. Pagamento de fiança é uma chave para...

— Você soltou ele. E David?

— David vai ter o caso estudado. Ele realmente foi com intensão de matar e...

— Vai prender David?

— Não sabemos, menina.

— Vão prender ele, não é? – Lilith estreitou os olhos quando viu o tom de voz de Marina ficar menos “Infantil”. – Temos uma promessa de não abandonarmos um ao outro. Não pode prendê-lo.

— Não se preocupe, seu caso também será verificado, você ajudou-o.

— Não temos testemunhas a nosso favor?

— Elas também falaram que vocês tentaram matá-lo.

— E Tushi?

— Falaram que não sabiam do começo da historia, portanto, não podiam falar muito sobre isso e... O que está olhando?

Marina havia subido na mesa do delegado loiro e olhando para seu crachá com a cabeça torta para um dos lados, como uma coruja. Depois olhou para os olhos púrpuros do homem, os olhos abertos como se quisesse devorar a alma do rapaz.

— Rivel, não é? – E depois ela sorriu abertamente, tombando a cabeça novamente. – Você tem um belo olho...

— Vou ter que pedir que se retire da minha mesa.

— Deixe-me ver o outro.

— Por favor, menina.

Rivel não pode perceber quando a caneta de pena estava nos dedos brancos e trêmulos da menina e nem sabia com que força ela conseguiu enfiar a mesma caneta na mão do rapaz, cuja tal foi posta contra o rosto para impedir que acertasse seu olho. Teve de revirar a mesa para derrubá-la quando percebeu que as mãos já estavam prontas para enforcá-lo. Rivel era inteligente, mas não forte. Sangrava e se protegia com a mesa como barreira, mas Mari era do circo e aquilo não era o suficiente para ela. Ela saltou a mesa e Rivel recuou para o fundo da sala, pegando o mastro de uma das bandeiras como bastão para bloqueá-la, mas Mari estava correndo tão rápido que cada mão segurou uma parte do mastro e usou-a como apoio para empurrá-lo contra a parede.

— VOCÊ. NÃO. PODE. FAZER. ISSO! – E sua voz estava rouca e insana. – Eu não vou deixar! Eu vou quebrar teu pescoço! – E forçou o mastro contra a garganta do rapaz, que tentava recuá-la, gemendo com a dor na mão. – Vocês são todos iguais! Todos! Eu vou matar todos vocês! E então eu vou construir um mundo onde David não precisa sofrer! NUNCA. MAIS!

Rivel estava com o mastro a milímetros da garganta e já sentia o gelado do metal se aproximando, fazendo-o prender a respiração, mas do nada a loirinha soltou o mastro e caiu no chão, desacordada, mostrando a imagem da morena robusta com um taser na mão, olhando para o homem.

— Obrigado...

— Não. – Ela piscou algumas vezes. – Eu não estou te ajudando, eu sei que Mari vai parar num lugar pior se te machucar.

— Ela agora é a causadora de duas tentativas de homicídio...

Lilith sorriu torto e pegou a loira, colocando-a sobre um dos ombros como um porquinho e se retirou, sem falar absolutamente nada. Os braços da menina pendiam nas costas da morena e a cabeça estava oculta pelo capuz de orelhas de gato, que caiu quando ela foi jogada ali. Lilith marchou para fora da delegacia e deixou um David preocupado. Ele só não saiu por que precisava terminar de resolver as coisas da mãe, agora não apenas sozinhos, mas com Ilys como advogada particular. Ela havia acabado de chegar e sentou-se numa cadeira próxima, onde Luke, ofegante, contou tudo o que sabia para ela.

Quarta – 10:00

— Marina...? – Uma voz masculina a chamou. – Marina. Marina! – E a voz ficara cada vez mais clara e forte. – Marina!! Acorde!

Marina acordou sobressaltada e rolou na cama, caindo no chão e batendo as costas, fazendo-a soltar um grito. O piso estava muito frio, e as luzes do quarto eram fortes, forçando-a a fechar os olhos. Depois ela girou o rosto para um dos lados e olhou para as mãos que acabara de encontrar, se lembrando que antes vestia uma blusa de frio e agora estava com os braços nus. Seus olhos se abriram mais e ela saltou, ficando em pé rapidamente como uma boa circense. Ela olhou ao redor e seu coração disparou quando viu apenas uma cama branca de colchão fino. As paredes eram brancas, o teto, a porta e uma portinha lateral que tinha um banheiro pequeno. Ela estava descalça, e percebeu só naquele momento que o que usava era um vestido branco todo solto, como se estivesse num hospital.

Na sua frente, estava Abraham e atrás dele estava Ilys, que se escorava na batente. Ela não estava num dos quartos de segurança máxima, era um quarto qualquer dentro daquele hospício. Possivelmente próximo da entrada e das salas dos psiquiatras. Ela faria alguns tratamentos e seria liberada. Era o que o homem esperava.

— Filha, está tudo bem.

— Não... Onde estou?

Ilys se aproximou, fazendo Marina se afastar e bater as costas no metal da cama. Ela estremeceu, mas olhou no fundo dos olhos de Ilys, que parecia tentar ser calma e amável como sempre.

— Eu não consegui te livrar totalmente, mas pude forjar uma situação onde você tem um pequeno desvio de sanidade. Assim não te enfiam na ala dos psicopatas e assassinos doentes mentais.

— Eu não... Posso ficar presa.

— Marina, vai ficar tudo bem. – Ela sorriu. – Conheço a psiquiatra, aliás... É uma amiga antiga minha. Se chama Naze. Vai cuidar bem de você.

— Pai! – Os olhos negros de Marina se encheram de lágrimas. – Não, papai. Não!

Abraham não podia fazer nada. Era da ideia dele colocá-la ali fazia algum tempo, desde que Mari começou a agir de forma estranha devido a perda de seu irmão gêmeo, Max.

Ah. Max. Maxwillian era o irmão gêmeo e melhor amigo de Marina, também lhe ajudava no circo. O dia que mudou a vida da loira foi o dia que Max se acidentou no circo quando uma lua de enfeite de aço e lona caiu sobre ele numa apresentação. Depois daquilo, a menina passou a ter pesadelos, a gritar quando estava sozinha, a reagir ofensivamente quando estranhos se aproximavam e a chamar pelo irmão por todo o apartamento nos dias de seu aniversário. Naquele ano, ela passaria seu terceiro aniversário sem o irmão, sendo que tudo aquilo aconteceu quando ela tinha 10, e no fim do ano, faria 13. Ela faltou em todas as consultas médicas e prometeu ao pai que se estudasse numa escola não normal para que ela tivesse contato com pessoas anormais, ela melhoraria, e então ele a colocou em Fiore Consacrata di Pietá. Mas Mari não melhorou, realmente. Talvez aquilo fosse necessário.

— Eu preciso ir para uma reunião agora. – Ele disse, se aproximando dela e dando um beijo em sua testa. – Volto daqui a 5 dias, e te trago um presente, ok? Ilys disse que pode vir aqui todo dia para te tirar um pouco do quarto, podem conversar sobre... – E olhou para Ilys. – Ahn... As coisas estranhas que você disse que conversaria com ela... E também poderá te levar para receber visitas numa sala da recepção separada, feita para essas coisas.

— Eu quero ficar contigo, papai.

— Infelizmente não dá. Mas eu prometo, mesmo! – Ele acariciou os cabelos da filha e apertou a mão de Ilys ao sair, dando um tapa em seu ombro como se desejasse boa sorte. – Ilys gosta de ti, não seja má com ela.

Mari engoliu seco e desviou o olhar, logo depois caindo de joelhos no chão e soltando um choro contido até aquele momento. Ilys não podia fazer nada além de consolá-la e prometer que o tempo que ela ficaria ali seria bem curto. Depois de muito tentar, pareceu convencer Marina que tudo daria certo, e a menina abraçou-a forte, buscando apoio e solidariedade nos braços da líder e Perpétua do destino.

Sexta – 20:00

Golden Black cruzou as pernas, afundando as costas no encosto da poltrona empoeirada, jogando as papeladas em cima de uma mesinha, fazendo as folhas escorregarem pela tábua e caírem do outro lado, se espalhando pelo chão. Ela colocou os óculos sobre os olhos e se levantou, caminhando até Cora e dando um tapinha sobre o topo de sua cabeça, como se parabenizasse uma criança por algo bem feito. Cora se sentou num canto, ao lado de quem fechou seu contrato, Not Equal. Quando tentou retirar a coroa, se assustou quando viu que não conseguia. Se levantou num salto e foi até um espelho encostado na parede, meio torto, passando as mãos no vidro para limpá-lo. Forçou a coroa para cima novamente e nada dela se mexer. Ela se virou para Golden que estava observando com o canto dos olhos por trás do vidro dos óculos.

— Não pode cancelar um contrato, minha cara. – Golden disse. – Not Equal não te falou dos termos quanto você pediu a coroa? – A garota negou com a cabeça. – Bem, leve isso como uma punição pela sua ganância. – Ela estreitou os olhos e girou nos calcanhares, ficando frente a frente da menina. – Eu posso explicar os termos, mas é melhor que se sente.

A explicação começou já com os termos de contrato: Not Equal utilizava o método de auto-sacrifício como pagamento, sempre que o usuário agia de forma não condizente com a vontade da Siyah. Até aquele momento, Cora havia seguido Luke como uma sombra nas áreas externas da escola, vivendo para isso como ordenado por Golden. E seu coração palpitou quando a loira lembrou-a da razão do acordo, e agora a adolescente se arrependia amargamente de ter selado o contrato apenas por se vingar de Junko e da suas tentativas de afastá-la de Luke.

Mas Golden também falou que a coroa se desprende quando o usuário alcança o objetivo dos termos do contrato. Para isso, ele deve seguir todas as vontades da Siyah antes dela decidir deixar o acordo ser encerrado, mas as vezes poderia não acontecer. Intervenção de terceiros é necessária para a coroa ser quebrada a ponto do contrato ser desfeito. Ela apontou para um canto e Donatella aproximou-se de Cora e cruzou os braços ao vê-la. A loirinha também odiava aquele menina justamente por ser prima de Luke e por querer dele mais do que uma relação de “primos”. Cora viu o reator na perna de Dona e desviou o olhar, fazendo a outra rir.

— Hey, hey. – Estreitou os olhos. – Eu sou contratante de Stigma. Sabe o que isso significa? Que se eu quiser me livrar de ti de forma dolorosa, só preciso te contaminar com o plasma do reator.

— Eu não sei por que desejaria isso...

— Por que eu também gosto do Luke, e não gosto de você, como Junko. E diferente do contrato com Not Equal, Stigma me permite fazer o que eu bem desejo.

— Você não era assim...

— Mas foi você que desejou fazer um contrato com um tipo de demônio para resolver casos amorosos...

— Vocês duas. – Golden Black rosnou. – Nenhuma está aqui para resolver casos amorosos. Vão primeiro me trazer o trono. Depois, se eu desejar, vão se livrar desses acordos.

— Sim senhora! – Donatella imitou a saudação de um soldado. – Como desejar.

— Sim... – Cora desviou o olhar, com os olhos quase derrubando lágrimas. – Senhora...

Cora foi ordenada a reunir todos os papeis. Aquelas folhas continham informações sobre o paradeiro de todos os escolhidos e dados da evolução de cada um. Not Equal sempre foi o espião da raça de Golden. A mulher caminhou até a pequena janela e olhou as luzes da cidade através da abertura, tombando a cabeça sobre os braços apoiados na pequena mureta.

— Não precisamos dar nenhum passo considerável e elas já estão facilitando o jogo e nos deixando dar check. Estamos com praticamente dois membros de Conchita fora de cena temporariamente.

— Devemos agir? – Stigma falou, através de Donatella. – Você já tem o próximo passo do plano?

— Vamos tirar o dragão de cena. – Golden ficou ereta e se virou para as duas meninas. – Assim, podemos pegar Ilys e matando o rei, o jogo acaba. – E então, alargou um sorriso maligno.

Sobre o porão, uma moça estava estirada em um sofá rasgado e incrivelmente sujo, usando uma máscara de médico e olhando para a tela de um tablet onde um ponto vermelho piscava logo abaixo da casa, mas ela não pareceu achar a entrada que dava ao lugar. Então precisou se contentar com a parte de cima e com as meias palavras que ecoavam ali. Ela usava um casaco roxo e preto, todo listrado na horizontal, e no capuz havia o sorriso do gato de Alice e seus olhos em verde. Usava uma saia lisa preta e botas plataforma que iam até o meio das canelas. Quando se levantou e bateu as mãos nas roupas para afastar a poeira, dava para ver que não era uma garota alta, talvez com menos de 1,70 e a pele era branquinha como de porcelana.

Ela saiu da casa e se virou para a frente da mesma, toda cinza e escura por estar abandonada e tirou fotos de sua frente e depois que encontrou o endereço da rua, fotografou a placa também. Ela retirou o capuz e exibiu seus cabelos médios, lisos e negros, com dois coques que caíam em duas tranças finas, ambas com as mechas em escala de vermelho e branco, combinando com o resto do cabelo, que tinha além dessas duas cores, mechas como verde e roxo. Seus olhos eram negros e orientais, e ela corria rápido como uma gazela. Retirou a máscara em meio à corrida e ligou para Luke com o mesmo tablet.

— Olá? Boa noite! – Ela sorriu quando ele perguntou quem era. – Sou uma amiga de sua prima e ela ativou o rastreador quando se sentiu em perigo. Achei sua localização e... Como assim? Chip, sim. Um... – E ela suspirou. – Te explico aí, onde você está? Como assim não confia em mim?! Ora! Estou aqui pra te ajudar, garoto!

Sexta – 22:30

— Como assim ela nunca falou de mim, que horrível! – A chinesa se jogou no sofá da casa de Luke, que havia acabado de sair do banho. – Meu nome é Jim Ranmao, prazer!

— Prazer... – Ele estreitou os olhos e se sentou na frente dela, passando uma toalha branca em seus cabelos loiros. – É normal você colocar rastreadores em seus amigos? Se for, não seja minha amiga.

— Ora! – A expressão que Jim fez foi de profundamente ofendida, misturada com sarcasmo. – Eu já tinha até comprado um pra ti... – Depois olhou para o teto e cruzou as pernas, suspirando. – Não, somos amigas desde pequenas, então fizemos isso quando eu disse que me mudaria de volta para minha casa na China.

Jim demonstrou ser muito mais amigável do que Luke esperava. Ela fazia brincadeiras, e com o tempo o loiro ficou mais tranquilo. A chinesinha sabia sobre baseball e videogames, e depois de um tempo, ele se juntou a ela no braço da poltrona para ver o que ela tinha a falar do ponto brilhante no tablet. Então começaram a discutir formas de ir até lá sozinhos, sem contatar nenhum outro guardião. Não tinha uma razão em particular para aquilo, apenas queria provar ser o mais forte.

Jim dormiu na casa, num dos quartos de hospede. Eles dormiram muito cedo pois a confusão envolvendo Donatella era muito para a cabeça de pobres jovens. Lucy pareceu entender o que acontecia, pois escutou tudo de longe e se sentiu desconfortável com aquela conversa. Caminhou em passos lentos até o quarto onde a visita estava e roubou-lhe o tablet, vendo assim o paradeiro da sobrinha. Aquela hora mesmo, ela pegou o carro da família e, com o pouco de sabedoria que tinha em relação à direção, seguiu até a advocacia de Ilys e torceu para que a menina estivesse lá, mas ela não estava.

Onde Ilys morava era um mistério. Sequer ficou sabendo, e não se lembrava de nada para conseguir informações do paradeiro da menina. Correr com o carro de noite era inviável por razões policiais: a única pessoa que tinha carta de motorista era Denzel.

Mas ela prosseguiu e decidiu ir por conta própria até onde o ponto piscava. Se deparou com a mansão abandonada e desceu do carro. Mas diferente do que ela esperava, a recepção não foi nula: como se Stigma sentisse sua presença, ela abriu as portas da mansão e imergiu das sombras, não com a forma que sempre aparecia, toda negra e de olhos vermelhos. Estava com a aparência de uma mulher bonita, usando correias grossas em forma de X que cobria os seios, e que descia em faixas em direção do quadril e coxas, como uma múmia, só que em vez de pano, eram aquelas fitas negras. Seus cabelos caíam sobre os ombros, mas a maior parcela de cabelo estava nas costas e alcançava a cintura. Ela abriu um sorriso delicado e caminhou lentamente até a loira baixa, ficando no topo da escada enquanto Lucy ficava na base dos degraus.

— Lucienne!

— Como sabe meu nome?

Stigma torceu os lábios e estreitou os olhos com aquela resposta, mas ela sabia a razão de Lucy ter esquecido tanta coisa. Quando o reator estourou do peito da loira, ela perdeu o laço que tinha com Stigma e como resultado, perdeu todas as memórias que continha a Siyah, isso significa que dos 5 aos 21 anos, ela praticamente não existiu.

— Quer entrar?

— Eu... Precisava saber onde está a minha sobrinha, e acho que ela está por aqui...?

— Não, aqui eu moro sozinha...

— Eu sinto que ela está aqui...

— Não está, quer entrar pra conferir? – Stigma mexeu a cabeça, balançando a franja reta que quase lhe cobria os olhos para o lado, como se fosse um pequeno curto circuito no seu sistema. – Você sempre será bem-vinda!

— Eu estou sozinha, não acho que é muito seguro entrar sozinha... Eu posso ir para casa e trazer um amigo?

— Não, eu quero você. – Depois Stigma desviou o olhar. – Na verdade eu receio que não posso mais tê-la... Mas... quer entrar? Entre! Tem bolo!

— Eu vou ter que recusar...

Mas quando Lucy disse aquilo, em um piscar de olhos ela já estava dentro da casa, e as portas de trás rangeram e bateram violentamente. O tablet de Jim quase caiu de suas mãos e ela abraçou-o contra o peito, caminhando perdidamente pelo espaço escuro e dando com as pernas e abdômen no encosto do sofá.

— Por aqui!

Lucy se virou violentamente, fazendo seus cabelos flutuarem numa massa dourada em volta do rosto e cobrindo os olhos castanhos antes de se assentarem nos devidos lugares. Ela seguiu Stigma lentamente, batendo e esbarrando em poeira, móveis e objetos. Encontrou uma escada de 3 degraus e desceu, vendo em sua frente a mulher, com um bolo em mãos, de cobertura rosada. Ela assoprou a mesa, limpando-a do pó e colocou a bandeja do bolo sobre a madeira. Lucy se sentou, mas não desgrudou do tablet para comer.

— O que houve?

— Eu não te conheço. E já tenho idade para saber que não devo comer coisas de estranhos.

— Mas não sou estranha... – Stigma se sentou ao lado da loira, apoiando os cotovelos na mesa e observando a mulher. – Eu te conheço a tempos, eu diria que acompanhei teu crescimento.

— Mas... Não tenho lembranças disso.

Stigma se levantou e se afastou da mesa e da loira, caminhando até uma porta e simplesmente passando por ela, sem aviso algum. Então, as luzes já fracas do lugar piscaram e apagaram, deixando uma Lucienne no escuro, apenas com a vela do bolo como companhia e a luz da tela do equipamento.

Então, quando a morena voltou, tudo ficou bem: as luzes se acenderam, a vela se apagou. O tablet fez ruídos e a tela escureceu. Primeiro Stigma apareceu, com o corpo novamente todo negro. Depois, atrás dela, uma figura baixa chamou atenção de Lucy, que abriu bem os olhos e empurrou a cadeira com força.

— Donatella!

— Tia.

— Está tudo bem?!

— Tia.

Donatella se vestia com roupas que Lucy pareceu reconhecer. A saia marrom, laranja, vermelha e preta que exibia uma das pernas, o corset vinho e dourado sobre uma blusa de gola alta e mangas longas, os braceletes dourados em cada pulso, um colar grosso de ouro e um véu dourado fino, que se enrolava no pescoço e caía sobre os braços, tudo aquilo mostrava que Dona havia assumido o cargo que Lucy tinha, mesmo que informalmente. A sua dor de cabeça aumentou quando viu na coxa dela, o reator que vivia antes em seu próprio peito.

Ela retirou das costas duas facas curvas e atacou Lucy, banhando as facas em chamas azuis. Nisso, os olhos castanhos da mais velha dilataram suas pupilas e ela caiu sentada no chão, não em estado de choque, mas por parecer se lembrar de algumas coisas do passado.

Foi com essas coisas que ela deixou de lado o equipamento da chinesa, se levantou, limpou os lábios com as costas das mãos e avançou contra a mais nova, mostrando ataques muito similares a ela, e também fazendo Stigma se lembrar de por que raios foi a sua contratada.

Sábado – 07:40

O telefone de Ilys tocou a madrugada toda, mas Christian silenciou o mesmo para não acordar sua meia irmã e quase parceira de cama. Quando acordaram, Ilys não pôde entender a razão de o moreno reclamar de dor de cabeça. Assim que ele destravou o tempo do telefone, o mesmo tocou fortemente, e todas as vezes que ela atendeu, ninguém falava.

— Chris! Você tem algo a ver com isso?

— Estava fazendo barulho.

Ele se virou para um lado e se cobriu, tampando o rosto da luz. Fez um rosnado, uma reclamação de dor, e a albina riu, ameaçando voltar para a cama com ele, mas novamente, o telefone tocou e quando atendeu, a voz do outro lado estava desesperada.

— Luke! Luke! Com calma! – Christian descobriu-se e sentou na cama, coçando os olhos quando ela exclamou daquele jeito. – Como assim Lucy foi atrás da Donatella? Ela descobriu onde a menina está? – E quase arrancou o fio do telefone, surpresa, quando o rapaz explicou o que havia acontecido, e o que ele achava que a mãe dele foi fazer. – Ótimo! Você fez algo horrível, sabia? Agora estamos com uma das guardiãs originais em apuros!

E desligou sem dizer mais nada. Ilys se virou para Christian que estava massageando suas têmporas. Ele se levantou, foi até a poltrona, pegou uma camisa que havia jogado ali na ultima noite, se vestiu e colocou o sobretudo, tudo isso de costas para a menina.

— Onde vai?

— Vou contigo, sabe-se lá onde.

— Sabe-se lá onde?

— Tu estás saindo, não?

— Sim.

— Vou contigo.

Ilys sorriu ao ver o irmão falar aquilo e finalmente se lembrou por que, que de tantas coisas que ela podia pedir de aniversário, pedia para a mãe trazer seu irmão e pai de volta. Ela engatinhou sobre a cama de casal e saltou do outro lado, agarrando o rapaz por trás fazendo-o suspirar e dar um meio sorriso.

— Vamos, pare de ser tão carente.

— Você é a melhor companhia que eu poderia desejar, sabia? Eu poderia ficar contigo para sempre!

Christian estreitou os olhos e curvou as sobrancelhas, numa expressão irritada. Soltou as mãos da menina que lhe apertavam o abdômen e se virou para ela, fazendo-a engolir seco quando viu que o mesmo estava daquela forma, tão gélido.

— Só vamos logo, ok?