Sábado – 09:30

Ilys chamou pelas suas parceiras e também Perpétuas. Foi uma reunião muito rápida, mas ela percebeu que havia alguma faltando. Perguntou o paradeiro de Kikuri, a Perpétua do delírio, mas ninguém sabia.

Logo os escolhidos foram contatados. Os perpétuos podiam escolher um ou mais para treinar, e todos deveriam treinar alguém.

Alisson ficou com a filha Louise e com Yuki. Na reunião havia dito que tinha novidades a respeito do menino, mas que a respeito de Louise, até mesmo Ilys já sabia e nada havia mudado. A loira francesa com ar de eras atrás continuava com a mesma habilidade de prever ações que não podem ser mudadas, ou seja, as que estão realmente prestes a acontecer.

A ficha de Yuki estava realmente assustadora. A estrutura de gelo não se mostrava apenas como um braço, e sim como a figura de uma mulher muito magra e deformada. Se ela podia ser realmente considerada uma mulher algum dia, era mistério, mas era uma figura de aspecto feminino. Ilys até se assustou quando Alisson usou o termo “Suposta Siyah”, e decidiu investigar mais tarde.

Annie não entregou fichas, mas sabia de tudo sobre sua única aluna. Octavia era uma violinista, mas também tinha os saberes de Vidia, e até mesmo de Mairim, isso se não levar em consideração o que aprendeu com as escrituras de Ryuka, morta em combate muito tempo atrás. Ela quase não precisou de ajuda, Annie ficou a maior parte do tempo sentada, além de que nos intervalos, Octavia não simplesmente descansava, como também ajudava a grávida. Era uma pessoa muito bondosa para ser posta na frente de um combate.

Singel ficou com os gêmeos Kouta e Sumia. Pareceu muito mais intima do rapaz, já que Sumia não tinha interesse em aprender a parte teórica das coisas, já o garoto, era o que mais fazia. Singel, apesar de ser a Perpétua do desespero, não tinha muitos ataques físicos, e se continha em transformar a realidade do oponente um inferno, do tipo que dá esperança e depois a arranca. Não precisa de armas ou técnicas pra isso, e Kouta aprendeu muito bem sobre o peso psicológico que as palavras tem em um inimigo. Já Sumia, bem... Melhorava a pontaria do lado de fora da casa.

Lyrin era a Perpétua do desejo. E como tal, escolheu a que mais tinha objetivos na vida. Kamille era uma jovem que além de dançar, queria ser professora do primário, queria se casar, ter dois filhos, um casal, para ser mais exato. E também adorava animais e plantas. Treiná-la foi fácil, já que seus ataques já eram fluídos pela dança. Lyrin não demorou para se adaptar e também adaptar os cenários, momento em que sentiu falta de seus poderes de criar mundos a partir da tinta.

Lunatus estava ali à toa. Ia treinar David, mas ele passou um tempo ausente devido à sua tentativa de homicídio. No entanto, ajudou Ilys a treinar Viktoria algumas vezes, já que, no final das contas, Viktoria era sua sobrinha. Já Ilys não precisava de treinamento. Passou a maior parte do tempo cuidando de seu irmão, que poderia estar muito bem de saúde, mas aparentemente, estava muito melancólico, e a menina não aceitava ninguém do seu lado triste.

Apesar de Ilys saber que Kikuri não podia treinar a sua discípula, foi muito assustador para ela saber que a Perpétua do delírio não estava ali. Assim que encerrou a reunião, pediu para que cada Perpétua levasse seus alunos para o ponto de encontro, muito perto da casa onde Jim havia dito que era o covil dos inimigos. A albina tinha outro destino: precisava buscar David e Marina, e também descobrir o paradeiro da Perpétua perdida.

Sábado – 11:20

Marina acordou tarde naquele dia. Na verdade, tinha mais vontade de ficar na cama do que sair, já que a psiquiatra Naze não parecia ajudar muito numa forma de melhorar, e sim jogava na cara da menina quão péssimo será seu destino se ela não o fizesse.

Ela foi guiada por duas enfermeiras para o refeitório, e sequer se lembrava de quão perturbador era aquele momento. A comida não era ruim, mas a companhia era barulhenta e um pouco complicada de se lidar. Se sentou no lado de dois rapazes altos, ambos muito calados, mas na sua frente, havia crianças, e até adultos que sequer sabiam como levar a colher cheia até a boca sem se sujar.

Algumas coisas dentro daquela cena arruinavam o apetite da menina. Pegava a colher e misturava seu cereal, pegando o alimento com a pontinha do talher e comendo lentamente. Já havia feito alguma amizade com o rapaz do lado direito, apesar de não ter perguntado seu nome ou por que estava ali. Não queria reparar, ou comentar mesmo, mas ele não tinha o dedo anelar.

Quando determinada porta se abriu, um grupo de pessoas se afastaram de uma mesa qualquer e foram para outras, se enfiando nas cadeiras apertadas, tudo para ficarem distantes de quem estava chegando. A mulher, que tinha aproximadamente 1,65, cabelos longos até a cintura, púrpuros, mas não um púrpuro sobrenatural, era apenas um negro que brilhava de tão sedoso, por alguma razão já que dentro do hospital não havia tanto tempo para esses cuidados todos. Ela tinha olhos castanhos, mas que de longe pareciam brilhar. Sua pele era mais morena que a de Mari, e os lábios eram estreitos, como se tivessem sido costurados em um eterno sorriso sarcástico. Estava com uma espécie de coleira e era puxada por um enfermeiro bem maior que os outros. Usava uma camisa de força, e também uma espécie de mordedor. Ele arrancou o mordedor dela quando a mesma se sentou em frente àquela mesa solitária e deu à garota seu café da manhã.

Mari não sabia se estava vendo coisas, ou se realmente tinha aqueles olhos esquisitos e imponentes sobre si mesma, como se a morena arrancasse sua alma fora com o olhar. Ela se sentiu estranha e cochichou algo com seu amigo. Ele apenas sorriu e falou para não encarar de volta. Aquela mulher, ou menina, estava ali fazia 5 anos.

— Seu nome é Lara. Lara Lyanna, está presa aqui desde seus 10 anos, por apenas uma razão.

— Qual? – Mari disse, curiosa.

— Matou a família e os colegas de teatro, em shows ao vivo para escolas particulares. Não viu nos jornais? Ou... É mesmo, você sequer sabia ler...

Marina estreitou os olhos para o amigo, mas depois encarou seu próprio prato. Por alguma razão ela sentia que se Lara fosse matar alguém, ela era o próximo alvo. E não parecia contente em saber disso.

Quando um sinal tocou, os que podiam andar, foram simplesmente parar em seus quartos, apenas sob a vigia dos olhos dos enfermeiros. Os que não podiam, foram guiados até lá, mas Mari tinha permissão especial para seguir pelos corredores, já que Ilys pagou alguma quantia para o administrador do sanatório. Ela não precisava ficar com escolta ou ser guiada, só não podia sair do local. Quando a maioria já estava nos respectivos quartos, a loira se viu sozinha num corredor e seguir por ali cabisbaixa.

Sabia escutar o próprio passo, mas vendo as imagens ao seu redor – portas e paredes – passando bem lentamente, achou estranho escutar o som de uma corrida, e não de um caminhar. Nisso, seus músculos tencionaram e ela se virou rapidamente, olhando para trás e dando de cara com a criatura que mais temia encontrar enquanto estava sozinha. Lara estava a centímetros de distância e a respiração dela era densa, puxando o ar pelas narinas e expelindo pela boca, fazendo o sopro tocar a delicada pele de Marina e também vibrando sua franja, exibindo parte do ferimento do rosto, agora já cicatrizado.

— Que bela marca você tem aí.

A voz de Lara era rouca e assustadoramente calma. Mari conseguiu ver a correia da coleira no chão e achou que a menina teve forças de escapar daquele homem gigante, então poderia muito bem parti-la em dois ali mesmo.

— O...Obrigada. – Gaguejou, dando passos para trás, lentamente, pois se lembrava da época em que caçava com o pai: movimentos bruscos irritavam qualquer animal. – Lara, não é?

— Lara. – Ela estreitou os olhos. – E você deve se chamar... Oh, desculpe, sou horrível com nomes...

— Eu receio que não nos conhecemos... Bem, eu preciso ir para meu quarto, estou um pouco enjoada.

Todo o esforço de Marina foi em vão. Os pequenos passos que ela dava para trás foram encobertos pelo grande passar de Lara, que novamente deixou-as numa proximidade perigosa. A loira sabia que Lara não podia fazer nada com as mãos atadas, mas não pensou em soltá-la. Apenas se virou e saiu às pressas, sabendo que se a outra era do tipo “predadora”, independente de fugir andando ou correndo teria a morena logo nas suas costas. E foi realmente assim. Assim que Lara viu sua presa correr, foi atrás, virando na primeira esquina e assim, se deparando com a imagem de Mari abrindo a porta de um dos consultórios e batendo-a violentamente logo após passar por ela.

Lara podia muito bem bater na porta e fazer o som ecoar ameaçadoramente do lado de dentro, mas estava com as mãos presas, então tudo o que fez foi jogar o próprio peso contra a porta, e quando a viu abrir, devido à sua força ser superiora à da menina, que realmente foi imbecil de achar que conseguiria travar a maçaneta com as mãos, cambaleou para frente e caiu no chão, batendo o rosto contra o piso por não ter os braços para por como apoio. Ela se levantou com dificuldade e a espécie de mordedor escapou de sua boca.

Lara tateou o céu da boca com a língua e sentiu pela primeira vez um item metálico ali, bem preso. Era uma coisa que iria resolver depois, mas naquela hora, ela tinha um alvo pequeno, trêmulo, e olhando-a de uma forma bem diferente do que ela esperava que olhasse.

— O que foi, menina? – Exclamou, sua voz saindo menos rouca devido à falta do mordedor. – O que há? Você morreu?

Mas as palavras chegaram aos ouvidos de Marina bem diferentes do que deveriam chegar.

Para a menina de 12 anos, ambas não estavam em um consultório e muito menos Lara se vestia com a roupa do manicômio. Lara ainda era ela mesma, mas usava uma cartola, roupas típicas de um apresentador de circo com um terno andorinha, nos tons roxo, vermelho e branco. A ponta de seus fios de cabelo também estavam verdes, e os olhos se preencheram com uma coloração negra.

— Mãe...

— Eu não tenho filha.

— Não... Você deveria estar presa! Eu... Eu não te vi... Na sala de almoço... – Então deu alguns passos para trás, abraçando os próprios braços e tropeçando no que na cabeça da menina, era uma bola colorida cheia de estrelas. – Por favor, não me faça mal. Eu juro que não liguei para ninguém aquele dia.

— Aquele dia? – Lara tombou a cabeça para um dos lados, completamente perdida. – Eu sequer te conheço!

— Eu não sei por que você nunca me quis, mas mamãe... Eu juro que vou ser uma boa garota para você.

Lara estreitou os olhos quando a garota continuou com aquelas palavras estranhas e deu de ombros. Quando se virou, sua visão ficou distorcida, e ela passou a ouvir sussurros sobre coisas desconexas. Sua respiração ficou densa e ela se apoiou no que realmente seria uma mesa de consultório, mas que na visão da loira, era o palco. Lara sentiu as pernas enfraquecerem quando começou a entender as palavras. “Eu não quero morrer”, “Por favor, pare”, “Por que está fazendo isso?” e por fim, viu vultos e sua visão duplicou. Depois, tudo ficou normal. Tanto para ela, quanto para a menina mais nova.

Marina quando abriu os olhos viu Lara se retirando da sala em direção ao corredor, e um pouco confusa, caiu sentada no chão. Iria se recompor em breve, mas naquele momento, estava enjoada e um pouco tonta.

Lara quando saiu as pressas, esbarrou numa figura alta, que não parecia extremamente magra, pois tinha curvas bem delineadas. Seus cabelos eram esverdeados e escuros, e os olhos verdes e claros. O rosto era redondo com um queixo delicado. Os lábios eram carnudos e tinha a pele pálida. A mulher encarou a jovem, mas depois desviou o olhar. Não estava ali para resolver-se com Lara, e sim para falar com a loira. Quando abriu a porta do consultório e viu a pequena chorando, preferiu nada falar. Saiu do corredor dedilhando um colar com uma grande pedra verde, ligada a uma corrente fina com um pequeno símbolo, basicamente um circulo, com um tipo de “cerquilha” dentro, três triângulos e mais acima, um L que dava as pontas para o circulo.

Era Kikuri. A Perpétua do delírio. Sabia que Ilys estava perto, e sabia que ouviria broncas por não ter participado da reunião logo mais cedo. Então preferia ir de encontro com a albina e não o contrário, para diminuir o sermão.

Sábado – 15:10

— Escuta. Não é por que você acompanhou o crescimento de Byakushi que você pode fazer o que quiser. – Ilys estava encarando uma porta de vidro, de costas para Kikuri. – O que estava fazendo lá?

— Eu estava procurando Marina.

— E falhou.

— Aconteceram coisas estranhas. Ela não estava bem.

Ilys olhou para a amiga por cima de um dos ombros e suspirou. Depois voltou seu foco para frente e cruzou os braços. Inquieta, retirou um dos braços e apoiou-o sobre o outro, brincando com os cabelos com a mão do braço levantado. Demorou mais alguns minutos até que a porta abrisse e saísse de lá um pequeno menino vestido com um macacão laranja largo. Ele pediu permissão para abraçar a albina, já que estava com roupas consideradas sujas. Não era presidiário, mas estava numa espécie de casa para menores infratores.

— Como foi?

— Não deu tempo de fazer muita coisa. Eu estava trabalhando no refeitório. Obrigado por pagar para eu sair e... Ok, pela sua expressão, temos algum problema, não é?

— Marina não conseguiu sair do sanatório, precisamos falar com Abraham. Ele tem que tirar ela de lá.

David sentiu o peito apertar mas concordou com a cabeça e segurou a mão da albina para seguir caminho em direção ao apartamento de Marina. O percurso levaria 2 horas a pé, então no primeiro ponto de táxi eles foram de carro até o destino.

Ilys ficou na recepção. David subiu e conseguiu arrastar o pai da menina para baixo. Depois de um breve diálogo com a albina, eles chegaram na conclusão de que Marina precisaria ficar alguns dias ali, com a psiquiatra Naze. Só assim ela poderia recuperar o norte para ser uma boa ajudante. A advogada não pareceu feliz com a ideia, mas também não poderia bater de frente com aquele rapaz, já que ele poderia arrastar Marina para longe se bem entendesse. Abraham disse que estava ocupado e voltou ao apartamento.

— Estamos com problemas... – Ela disse, enquanto discava para Alisson, que estava no ponto de encontro, se tudo tivesse dado certo. – Alisson, onde está? Por favor, saia daí. Estamos com problemas. Sim... A Mari. Ela não pode sair ainda, precisamos atrasar o esquema. Isso significa que podemos upar os poderes dos escolhidos. Sim, achei Kikuri. Colar? – Ilys olhou para o colar estranho que estava no pescoço da outra Perpétua, e depois voltou a olhar para frente. – Sim. Ela está com o colar. Poderes? O colar...? Vou conferir. Encontre-nos na advocacia em algumas horas. Acho que chego lá e preparo o andar para os treinos em duas horas. Até.

— Está tudo bem? – Kikuri disse, só agora olhando para a albina e reparando o olhar profundo de volta. – Tá, o que foi?

— Você está com um colar de perpétuo?

— Sim, eu o consegui antes de sairmos de Conchita.

No segundo seguinte, as mãos da albina estavam agarrando a gola da outra, com um olhar cheio de fúria. As poucas palavras ecoaram por toda a recepção: “ATÉ QUANDO IA ESCONDER ISSO DE NÓS?!”.

David separou as duas e segurou o pulso cerrado de Ilys, que estremecia em pequenos impulsos de ira que poderiam lançar aquela mesma mão até a cara da outra Perpétua. Depois de alguns segundos, relaxou e se sentou no sofá da recepção do prédio.

— Ótimo. A única Perpétua com poderes agora é a do delírio. Útil? Claro!

— Mas seus colares estão no mundo real. – Kikuri ajeitava os cabelos enquanto dizia, com a voz trêmula. – Quero dizer... Eles não sumiram, só não falei por que achei que estávamos bem. Agora é uma hora para ativá-los, não é?

— Onde estão?

— Estão enterrados na onde Conchita nos deixou.

— Stonehenge... – Ilys suspirou. Depois de algum tempo de silêncio, ela bateu nos braços do sofá cor de creme e rugiu, começando no som de um humano e terminando com o timbre de um dragão. – Inglaterra! Você jura? Isso foi muito esperto.

— Era um lugar seguro... Aquela região é protegida contra Siyahs.

O silêncio reinou por uns instantes.

Kikuri encarou a companheira e observou-a enquanto a mesma pensava como iria viajar para tão longe. Nisso, David se sentou no sofá e cruzou os braços, esperando alguma ideia das duas. Ilys colocou ambas as mãos nos ombros de Kikuri e deu um tapinha ali, dando a ela a missão de buscar os colares. A união das Perpétuas somaria poder ao dos escolhidos. A albina voltou à advocacia com o garoto e a mulher de cabelos verdes trabalharia na busca dos colares.

Segunda – 08:30

— Você está aqui, pois fez o que?

— Eu ataquei um delegado. Após algo que ele fez com um amigo.

— Eu matei.

— Matou?

— Eu matei. Matei meus pais. E algumas pessoas.

— Você é uma Serial Killer?

Lara sacudiu a cabeça, fazendo seus cabelos irem gradualmente cobrindo os olhos castanhos avermelhados em pequenos trancos. Mari estava sentada com as pernas cruzadas como um índio e as mãos postas sobre os ombros. A morena, no entanto estava numa cadeira branca de pernas enferrujadas, com suas mãos ainda presas em X pela camisa de força. A sala era enorme e cada uma estava num canto. A coleira no pescoço de Lara estava presa numa corrente que ligava à parede. Marina estava totalmente solta, apenas vestida com a roupa padrão do hospício.

A porta de metal se abriu e Mari foi chamada. A loira se levantou, acenou para a morena e se virou para ir embora.

— Escuta. – Lara disse. – Me diga. Sua mãe lhe fez muitas coisas, incluindo tentativas de homicídio. Por que você não a mata?

— Por que ela é minha mãe. – Ela disse, ainda de costas. – E mesmo que ela me odeie... Eu a amo.

O corpo de Lara vibrou. A cabeça baixa sacudia lentamente e depois violentamente, ela jogou-se para trás, esticando as pernas para frente e deixando os cabelos caírem na parte traseira do acento da cadeira, enquanto gargalhava alto, de forma que toda a sala ecoava como se fosse muitas pessoas rindo. Mari simplesmente se retirou rapidamente e fechou a porta logo atrás dela.

A loira acompanhou uma enfermeira até a porta da entrada e quando viu seu pai, saiu correndo até ele e agarrou-o. Foi levantada no colo de Abraham e ele apertou-a contra o peito. Acariciou os cabelos da menina enquanto escutava um leve choramingo. Ela saltou do colo dele e ficou observando-o, esperando boas novas, mas o homem permaneceu com a expressão neutra – mas serena – que não dava para ela identificar se o que ele veio fazer era algo bom ou ruim. Ele acariciou os cabelos da loira e se abaixou para perto dela, com um meio sorriso.

— Mari, você não precisa mais ficar aqui. Mas também não posso fazer com que simplesmente saia do tratamento, entende? – Ela concordou com a cabeça. – Você terá que vir aqui toda sexta. Vai ficar duas horas com Naze e depois te levarei para casa. Espero que não se importe.

— Não. Não me importo, papai.

— Ilys quer que você melhore logo para trabalhar com ela. Com aquele grupo.

— Tudo bem...

— David me chamou sábado para eu te buscar. Não foi possível. Mas eu estou aqui agora e te fiz um presente. Grande. Em casa, que talvez te ajude no tratamento.

Mari concordou com a cabeça e segurou a mão de seu pai, sendo levada por ele para fora do hospício. Quando sentiu o calor do sol em sua pele, seus olhos lacrimejaram. Aquele pouco tempo dentro de um ambiente tão hostil deixou o coração da menina apertado.

Na casa, Marina tinha acabado seu banho (quente, finalmente) e estava secando seu cabelo. Usava um macacão jeans cinza de saia, com uma blusa branca por baixo de mangas longas. Ela secava o cabelo com uma toalha felpuda verde, enquanto seu pai fazia seu café da tarde. Chamou-a e a menina correu até a cozinha e quando chegou lá, derrubou a toalha e a escova que tinha em mãos no chão. Seus olhos negros brilhavam e não podiam acreditar, ela sentiu o peito se agitar e a emoção percorrer em cada osso de seu corpo.

— Maxwillian? Pai... – Ela olhou para seu pai e viu que ele estava sorrindo. – Pai, o Max...

— Vai abraçar seu irmão, Mari.

Marina caminhou lentamente até o irmão e quando o mesmo se levantou, ela agarrou-o fortemente. Max era um rapaz um pouco mais alto que Mari, tinha os cabelos castanhos médios e ondulados, olhos brincalhões e azuis bem claros. Era bem magro, da forma que dava para contar todas as costelas e brincar com os ossinhos do quadril. Era clarinho, mas um pouco mais moreno que a loira. Entretanto, a pele dele era fria, os olhos não estavam brincalhões, os lábios não continham o sorriso de sempre.

Ela olhou para ele, ele olhou para ela, se sentou sem dizer nada e Mari se sentou ao seu lado, prestando atenção mais nele do que na comida. Max não comia. Sequer tocava no alimento, apenas bebendo um pouco de algo oleoso e marrom.

— Pai. – Ela queria saber o que estava acontecendo. – Pai, ele está bem?

Abraham foi até Max e colocou a mão em sua cabeça, acariciando os cabelos. O menino sequer falava ou reagia ao contato, parecia morto. Mas então, o homem ativou o sistema de sensações do robô, que fez o menino olhar para Mari e sorrir.

— Esse é Luppi. O sistema 2.0. O primeiro, não sei se lembra, usei naquela empregada robótica que falhou quando ambos tinham 7 anos. –Mari concordou com a cabeça. – Eu ainda não tive como ligar as memórias, mas estou trabalhando nisso.

— Usou um sistema falho... – Ela colocou a mão sobre a mão do robô e ele retirou-a, segurando a mão da loira de forma firme, como se realmente fosse um humano. Ela olhou para seu pai e descobriu que o mesmo estava desapontado com a falta de animação da loirinha. – Não! Não me leve a mal... Eu fiquei muito feliz, papai... Mas é complicado olhar para ele e não ver o sorriso alegre que o Max tinha...

— Eu sei. – Abraham levou um pedaço de bolo de chocolate para Mari e ela passou a devorá-lo. – É por isso que não o chamo de Max. Pelo menos, não antes dele agir como tal. Estou trabalhando nisso, Marina. Eu juro que...

— Sim, papai... – Ela sorriu docemente. – Não se preocupe. Eu vou cuidar de Luppi até ele se tornar realmente Max. Não vou me desanimar por conta das diferenças.

Abraham sorriu e acariciou o rosto da filha. Depois, eles foram para o quarto da garota, que antes era dividido com o do Max. Ela e Abraham montaram a beliche novamente, e depois o homem deixou os dois sozinhos. Luppi tinha o mínimo de vontade própria, ele se sentou na cama e massageou a cabeça, onde havia se machucado ao bater na parte de baixo da cama superior.

— Você fala?

— Falo.

— Meu nome é Marina. Eu tenho 12 anos. Estudo numa escola de ensino especializado para crianças com problemas mentais, chamada Fiore Consacrata di Pietà. Tenho um melhor amigo chamado David e preciso ir toda sexta feira na psiquiatra para conseguir controlar meus surtos provenientes da morte de meu irmão, cujo tal você está exatamente igual.

— Prazer. Meu nome é Luppi 2.0, tenho 2 dias de vida, dois HDs onde um está branco e o outro está corrompido. Nos dados não consta idade de Maxwillian, mas se ele é seu gêmeo, então devo ter 12 anos também. Lamento não poder substituir teu irmão, eu só estou registrando memórias novas.

— Tudo bem... Podemos criar novas, eu acho... – Ela abaixou a cabeça, ainda um pouco desanimada. – Eu posso sentar em seu colo? Ele deixava eu sentar no colo dele...

Luppi concordou com a cabeça e Mari se sentou em seu colo, envolvendo o robô com os braços e escondendo o rosto dos olhos azuis do rapazinho. Ele não tinha noção de que ao ser abraçado, deveria abraçar de volta. Suas mãos estavam na cama, apoiando o corpo que agora estava levemente arqueado para trás devido ao peso da menina. Marina afastou o rosto da onde estava e aproximou-se dos lábios de Luppi, que afastou o rosto alguns centímetros.

— O que está fazendo?

— Eu gostava de encostar meus lábios nos do Max...

— Não tenho registros desse tipo de contato. É comum entre os humanos?

— Às vezes é sim... Não se preocupa, não precisa fazer...

— Eu posso tocar seus lábios se for seu desejo, sou programado para fazer você feliz.

Luppi aproximou seu rosto do rosto da loira e tocou-lhe os lábios num selinho, que foi bem curto, pois ela se assustou com a sensação fria do toque e afastou o rosto. Depois negou com a cabeça e voltou a abraçá-lo. Novamente, Luppi não retribuiu o abraço.

Meia hora depois, Mari se afastou do robô que se colocou deitado na cama e foi até uma mesinha, abrindo a gaveta principal e retirando um celular. Ligou para David e disse que precisava vê-lo. Para sua surpresa, foi ele quem atendeu e não sua mãe, ou seja, ele estava finalmente em casa.

— Você vem...? Me espere em baixo do prédio, eu vou descer. Sim, está tudo bem. Treinamento? Ouvi falar... Conversaremos melhor depois. Beijos... Ah... Neko... – Ela deu uma pausa. – Eu te amo.

Segunda – 10:20

— Neko! – Marina correu até seu amigo e agarrou-o forte. David, sempre muito forte, pegou-a no colo e girou-a no ar. – Você conseguiu escapar! Senti sua falta! Tanto... – Ela se afastou do moreno e fez uma reverência para Ilys que o acompanhava. – Olá, Ilys, obrigada por tudo.

Ilys deu apenas um sorriso. A única razão de David não ter falado nada até aquele momento, foi que viu Luppi e viu que ele era do sexo masculino. Não que ele e a loira estivessem juntos, mas em sua mente, ele era dono dela. Luppi estava com as mãos nos bolsos da calça preta, usando all stars negros e camisa branca sem gola, que mostrava um dos ombros. Estava olhando para um canto qualquer, analisando com seus olhos de vidro o novo ambiente.

— Hey. – O robô não respondeu. – HEY. HEY! Não me ignore! Quem é você?

Luppi olhou para David e piscou algumas vezes. Marina foi até ele e segurou em sua mão, sorridente. Explicou quem era a máquina e depois de muito debate entre ela e o moreno, David aceitou que o menino era realmente apenas uma máquina. A garota percebeu também que ele estava com os punhos feridos, além do maxilar de David ter uma leve marca de hematoma. Todos marcharam até a advocacia. Todos os membros já estavam lá, sob os olhares das Perpétuas. Kikuri voltaria por volta das 11:00, como a ligação recebida pela albina dizia.

Segunda – 11:10

— Bem vinda, Kikuri. – Ilys estava séria. – Espero que tenha conseguido resolver seu probleminha.

— Sim, eu estou com os colares. – Kikuri retirou da mochila cor de areia uma caixa de veludo preto. Ela colocou-a numa mesa e os escolhidos se afastaram. As perpétuas se reuniram em volta da caixa e Viktoria, sendo ajoelhada sobre uma cadeira, abriu a caixa lentamente e colocou a tampa do lado da mesma. O interior era todo forrado por uma seda vermelha, e os colares estavam em pequenos travesseiros igualmente vermelhos.

— Lindo... – Ela exclamou.

Ilys tomou a frente e pegou cada colar, dando para determinada Perpétua. A formação final foi que todas as Perpétuas tinham apenas um colar. Apenas Viktoria e Ilys estava com dois: o de Perpétuo e o de escolhida.