Segunda – 10:00

Como Ilys e Christian não retornaram dentro de dois dias, Louise foi buscar ajuda para sua mãe que também era Perpétua. Infelizmente era a mais pacifista de todas ali, então em vez de ela mesma os treinar, cedeu o jardim de sua casa para que os treinamentos fossem feitos. Na manhã de sábado, Singel e Lunatus chegaram, respectivamente sendo Perpétua do desespero e da ganância, ambas muito fortes mesmo sem as habilidades. As outras não foram encontradas.

Domingo os membros foram testados pelas duas sob os olhares de Alisson para que nenhum deles ultrapassasse os limites de seus próprios corpos. Naquela segunda o treino foi outro: Os escolhidos foram colocados um do lado do outro de acordo com as cores de suas cartas e joias, como se fossem do exército. Fizeram uma saudação ao “comandante”, Singel. Depois ela chamou Luke para frente.

Ele retirou a jaqueta e jogou num canto no gramado. Depois colocou as luvas de couro bem similares com as de Ilys no treino na advocacia. Sua pedra brilhou avermelhada e suas mãos pegaram fogo novamente, fazendo as luvas entrarem em combustão. Singel observava.

Singel aparentava ter bem mais de 40 anos. Seus cabelos eram na altura do fim do pescoço, cacheados e castanhos, mesclados com grisalho. Ela usava uma capa preta que quando estava com os braços abaixados, cobria todo seu corpo, mas a capa foi retirada. Os olhos acastanhados e o nariz levemente curvado para baixo e os lábios finos. A pele era um pouco mais clara que cor de canela. Usava uma regata branca e calças jeans surrada, botas de couro e luvas do mesmo material, cobrindo até metade do antebraço. Havia dois cintos, um para a calça e outro para guardar seus pertences, cheio de bolsinhas.

— Venha com tudo. – Ela disse, com um sorriso no rosto que exibia o canino esquerdo um pouco mais longo que o direito. – Não seja tímido.

Luke avançou contra Singel e conseguiu fazer o ataque de chicote que “aprendera” com Donatella. Tentou ataca-la no horizontal, mas Singel se abaixou e o mesmo lambeu seus cabelos, fazendo com que eles cheirassem a queimado. A mulher era conhecida como guerreira mais rápida dentre as Perpétuas e no segundo depois chutou o abdômen do loiro, fazendo com que ele fosse lançado para trás alguns metros, mas se levantou rapidamente. Quando contra atacou, socava como no boxe, só que com as mãos em chamas, e ela desviava sem dificuldade, provocando e o chamando de lento. Os movimentos dela eram barulhentos como se tivesse coisas de aço em seus bolsos ou algum tipo de sino. Quando conseguiu controlar a chama de seus pés, ele também passou a usar chutes. Singel derrubou-o pela segunda vez e circulou-o.

— Seus ataques são precisos mas também são esperados. É fácil ler. Além disso, sua sabedoria em relação a sua habilidade é bem concentrada, você não sabe fazer nada além do que já viu.

Luke estreitou os olhos e agarrou o tornozelo da morena e a mão em chamas queimou o cano da bota. Ela sentiu o calor, mas pisou no braço dele com a outra perna, se soltando logo após.

— Vai falar ou me ensinar? – Ele disse em tom de reclamação. – Sua coisa!

— Eu testo. Não ensino. – Singel disse, olhando para o rapaz com o canto dos olhos, meio de costas para o mesmo. – A que ensina é Lunatus. Seu olhar é mais técnico, o meu é prático.

— Vai me sentar numa cadeira e passar lição na lousa? – O rapaz estava estressado. Mas não era para menos, sua prima havia seguido Stigma após aquele dia. Tudo o que ele queria, acima até de Ilys, era ter a menina de volta. – Por que eu acho que vocês vão apenas enrolar a gente?

Singel ignorou a ofensa e decidiu testar os próximos escolhidos. Sumia e Kouta lutaram juntos cada qual com uma pequena Howlita amarela na forma de uma moeda. Como Kumi, a menina tinha excelente pontaria, já o rapaz era estratégico e a colocava nos lugares devidos para que as táticas funcionassem. Durante todo o exame, apenas se escutava a voz do rapazinho. Kouta tinha os cabelos cor de chumbo, batendo no pescoço e bem repicados. Usava óculos e naquele dia estava com uma blusa de frio branca, calças jeans pretas, tênis e cachecol de um amarelo bem claro. Seus olhos eram vermelhos e muito se lembrava os olhos de Kumi. A batalha rendeu uma fenda no braço de Singel, bem rasa. Dava para ver de longe o sangue escorrendo pela pele cor de canela. Depois do mesmo prazo de 10 minutos, Singel encerrou o teste e os parabenizou, em particular Kouta, dizendo que estrategistas eram raros nos tempos atuais. Lembrou de lançar um olhar à Luke nessa hora.

A próxima a ser chamada foi Kamille e Singel se surpreendeu quando ela colocou fones de ouvido para lutar. A mulata avançou com passos rápidos e braços em movimentos robóticos. Seus chutes eram duros mas certeiros e ágeis. Um deles acertou o braço de Singel, e ela enrolou os dedos na canela levantada e a puxou, derrubando-a e fazendo com que um grito alto e agudo – indo contra a aparência rustica dela – escapasse da garganta. Ela girou e tentou levantar, mas aquela perna ainda estava presa. Quando tentou chutar a mão da outra, Singel a soltou e depois Kamille se levantou. Levava no pescoço uma Malaquita em forma de “martelo”. Singel terminou com ela chutando seu abdômen e fazendo-a cair sentada para trás, depois ela acabou se deitando no chão com as mãos na barriga, muito forte para reclamar de dor. A Perpétua se abaixou e pegou um dos fones da garota.

— “I feel stupid, and contagious. Here we are now entertain us. A mulatto, an albino, a mosquito. My libido... Yeah!”

Yuki... Bom. Ele tinha 4 anos, como iria lutar? Singel olhou para ele, depois para Cintya que fez uma expressão de assustada.

— Eu luto por ele, Singel. – E ela negou. – Singel... Por favor.

— Não. Se Ilys o escolheu é por que ele tem algo especial. Já viu alguma amostra de habilidade? – Cintya desviou o rosto, sem jeito. – Sim, não é? O que era?

Cintya suspirou. Ela colocou a pedra, uma Aquamarine em forma de caveira, numa corrente dourada em volta do pescoço do menino. Soltou-o e o mesmo caminhou meio cambaleante até a Perpétua. A Perpétua tinha se esquecido que Cintya também foi uma guardiã. Se abaixou para ficar na altura do garoto e tocou-lhe os cabelos, mas uma espécie de mão cristalizada, fazendo um tipo de som de vidro estilhaçando segurou o punho moreno da mulher e apertou, fazendo escorrer seu sangue denso e sujando o sistema cristalizado azul claro de vinho.

Quando Singel puxou sua mão, sentiu a pele rasgar e ceder, e grunhiu de dor com aquilo. Aquela mão pendeu ao lado do corpo, adormecida, os tendões rasgados. A mulata rosnou para o menino e arrancou um punhal de seu cinto. Avançou contra ele e o resto do corpo cristalizado, seco, como se fosse um esqueleto de vidro, avançou contra a mesma e rasgou a roupa junto da carne. Singel pareceu explodir dentro da estrutura cheia de pontas afiadas como facas ou agulhas. Ela gritava, agonizada, as pernas sacudindo.

—Y..Yuki! – Cintya gritou. Correu até o moleque e retirou seu colar, colocando-o dentro da caixa de veludo preta. – Por favor, perdoe ele... Ele já fez isso na escolinha. Foi expulso, machucou pessoas... Ele não controla.

— Ele precisa... – Singel já estava caída no chão, sentada, rodeada de pequenos pedaços de cristal, tentando contar em vão sua hemorragia. – Eu preciso de uma pausa... Estou no limite.

Segunda – 19:00

Alisson enfaixou todas as feridas de Singel. Naquele mundo as Perpétuas não tinham total controle de sua regeneração. E elas nunca se feriram para testar aquilo, também. Singel ainda queria treinar os restantes. Faltava Octavia, Marina, David, Louise...

— Onde está Unknown?

— Ela não vai treinar. – Alisson disse, olhando para dentro da casa. – Eu vou acender as luzes do jardim.

— Como assim? – Singel estreitou os olhos. – Ela não vai?

Alisson deixou um suspiro no ar e se retirou, deixando a Perpétua do desespero em dúvida. Não se sabia se tinha algo a ver com a afirmação da loira, mas de fato, a Perpétua da morte, a figura original, Saeris – Ou Yomi – Tinha o poder supremo de todas as Perpétuas. Quando uma pessoa morre, perde-se tudo: Ganância, Esperança, Desespero, Delírio, Sonho, Desejo, Tempo... Destino... Uma pessoa morta não tem destino. Então por que Saeris sempre foi submissa à do destino? Singel estreitou os olhos. Uma pessoa perde tudo quando morre.

As próximas pedras: Ametista, Pedra Estrela, Onix e Opala. Octavia, Marina, David e Louise. No final, demorou mais 4 horas até ela os liberarem.

A casa de Alisson era grande, mas não havia 10 quartos. Teve de reunir o grupo em duplas, sendo que de todos, os últimos que dormiram foram Marina e David, que ainda conversaram além da meia noite e foram interrompidos por Alisson. Singel e Lunatus não ficaram na casa. Haviam se hospedado num hotel próximo dali para tratarem com outras coisas sem chamar atenção da querida loirinha da esperança.

Segunda – 23:57

Ilys estava na cama de Christian e ele estava no banho. No banheiro, uma cachoeira de sangue escorria pelo corpo do homem até o chão, e ele grunhia de dor enquanto isso. Ilys escutava... E ficou desesperada pelo irmão.

— Christian! – Ela exclamou. – Precisa de ajuda?

Mas Ilys também estava ferida. Seu abdômen foi cortado, e ela se cicatrizava lentamente. Os poderes dos cyrons estavam sofrendo algum dano por alguma razão, e ela pensava que a razão estava do seu lado.

Viktoria girava uma manivela de uma caixa. A melodia parecia a deixar em transe. Ela havia atacado Not Equal num momento que Golden não estava presente, e novamente o poder de “Viktoria 2.0” se comparava com o de uma Siyah. Aquela caixa era antiga, dada por Hakushiro, que foi, para ela, a única lembrança boa que seu pai lhe deixou, ou seja, a teoria era de que passou de geração por geração. Mas a canção era desconhecida para Ilys e para ela mesma, não fazia tanto sentido: era densa e deixava um ar pesado ao seu redor. No final dela, parecia um choro de criança, talvez um desajuste dos dentes.

Ela olhou para a morena depois que Christian respondeu que estava tudo bem e viu que os olhos da menina não estavam opacos como sempre, estavam realmente mais escuros.

— Viktoria? – Ela chamou, sem resposta. – Viktoria!

Mesmo com as pernas e pulsos feridos, a menina foi até a criança e arrancou-lhe a caixinha. Abraçou a pequena e fechou a caixa, parando a música. Era uma boa hora para se juntar com quem conhecia o passado e perguntar mais coisas sobre as Perpétuas, sobre as Siyahs, sobre Vik.

Mas Viktoria não aceitou tranquilamente a perda da caixa. Ela esticou as mãos para a mesma e começou a gritar. Nisso, Christian retornou ao quarto, pegou a criança no colo e levou-a para um quarto ao lado. Depois buscou a caixa e levou-a junto. A menina finalmente pegou no sono.

Christian já estava totalmente recuperado, diferente da albina. Ele se sentou ao seu lado, a deitou, e depois, tentando a todo custo não passar uma imagem pervertida, lambeu a ferida do abdômen. A ferida tomou, rapidamente, a forma de uma cicatriz fina e suave. Ele se deitou ao lado da albina e suspirou.

— Tu me enches de problemas.

— VOCÊ me enche de problemas. – Ela retrucou, quase que imediato. – Arruinou minha família, minha vida e agora... Está aqui.

— Não entendo por que falas assim. Desde que cheguei, só pensei em ajudar. Seja trazendo Louise, seja te buscando no covil daquelas mulheres.

— Escuta aqui. Quem fez as coisas foi Viktoria e ela nem tem 11 anos ainda! – Ela desviou o olhar e suspirou. – Parece tanto comigo na idade dela... Só que... Christian, você poderia voltar no tempo e ver... Ver por que estamos destinados a tudo isso? Ver por que... Eu tenho que passar por tudo? – Ela começou a ficar com uma voz chorosa.- Eu tento estar sempre forte e alegre perto deles, mas... Sinto que vou quebrar...

— Não. – Ele respondeu, seco, frio. – Se eu voltar no tempo, ver e retornar, posso trazer comigo uma folha. Essa folha não servirá de alimento para a lagarta, que não se transformará em borboleta, e esta não cruzará a visão de uma jovem, que a seguirá com os olhos e encontrará os de um rapaz, e então amá-lo.

— O que fazer quando se ama alguém que não se pode ter?

— Por que estás dizendo isso? – Ele encarou-a, tentando ficar menos frio. A primeira coisa que lhe via na mente quando se mantinha rude daquela forma era de seu pai. – Quero dizer. Quem tu perdeste?

— Você ama Louise.

— Não posso amá-la, de qualquer forma. Tu te lembras de que cyrons só se casam entre eles?

— Sou híbrida.

— Por isso és fraca.

— Não enche.

Christian se apoiou em um dos braços e se forçou para cima dela, prendendo-a com o próprio corpo. Acariciou a face, os lábios, brincou com os cabelos e roubou-lhe um longo selinho. Depois ficaram em silêncio por um tempo, silêncio quebrado quando ele resolveu se retirar do apartamento para mais alguma de suas ações misteriosas noturnas.

— Golden será destruída, minha pequena flor. Não por ela ser quem é, mas por ter tocado em minha propriedade.

— Tentou ser fofo... – Ela riu, se levantando um pouco. – Mas me ofendeu chamando de propriedade.

— Cyrons são criaturas possessivas. – Ele subiu novamente na janela, para saltar exatamente como fez outro dia com Viktoria. – E tu és a ultima de nossa espécie.

— Idiota!

— Estressada... – E esboçou um sorriso gentil. Aquele sorriso que acalmava qualquer estresse do coração, vindo de um homem tão fechado. – Retornarei de manhã. Te cuida.

Terça – 12:10

— Garoto!

— É comigo?

— Sim! – Luke jogou a mochila no chão, ofegante. – Você é do clube de Boxe?

— Eu receio que sim.

— Sou Luke Cavallaro. – Estendeu sua mão. – Eu preciso de treino. Eu preciso aprender a lutar boxe.

— Desculpe... – Ele apertou a mão do loiro, mas durou por pouco tempo. – Está na hora da saída.

— Por favor.

— Eu... – Ele desviou o olhar e suspirou. – Ok.

Aquele rapaz era famoso por ser o malandro da escola. Aliás, foi por isso que estava no momento tão submisso. Foi suspenso 3 vezes e a quarta lhe traria uma expulsão gratuita. Seu nome era Djin Fukui, não só membro do clube de boxe, mas sim seu líder. A sala reservada para eles era grande, um pouco menor que uma quadra. Tinha um ringue, mesas, uma arquibancada, armários, e um vestiário improvisado feito com lona e ganchos. Havia dois ou três membros ali, todos acenaram para o rapaz.

Djin era forte, de cabelos escuros – da cor do café – e bem curtos, arrepiados, tinha uma musculatura definida e estava com os braços feridos, cheios de cicatrizes e ataduras, deu para ver isso quando ele arrancou a jaqueta. Os olhos azuis eram complicados de entender, já que seu nome era japonês, seu pai era japonês, e ele possuía olhos claros. A pele também era levemente morena.

— Me mostre seu melhor soco. – Disse, ao apontar para um saco de boxe. – Eu preciso ver do que é capaz antes de iniciar.

— Já vi esse filme. – Ele murmurou.

Depois de meia hora de treino, Luke viu Junko passando pela porta de grandes abas, andando com pressa. Ele parou subitamente o treino, suado, cansado e ofegante. Saiu correndo atrás da mulher e gritou seu nome no corredor, fazendo com que Junko se virasse assustada e olhasse para ele com uma expressão de “Diga”.

— Sabe sobre Cora?

— Não...

— Sabe, você é professora. – Disse, em tom ameaçador. – Me diga. Estou preocupado com ela.

— Cora sumiu. – Junko estreitou os olhos e deu um sorriso. – Nem seus pais sabem do paradeiro dela.

O mundo de Luke desabou e seus braços tremeram nas laterais do corpo. Como era? Ele esperou alguma risada que denunciasse uma brincadeira, mas Junko simplesmente se desfez do sorriso e se virou, os cachos castanhos girando em volta, pousando nas costas, enquanto ela caminhava. Ele chamou-a mais uma vez, mas ela não parou de caminhar, então correu atrás da mesma e prendeu-a contra uma das paredes, cada mão em um dos ombros da mulher. Ela desviou o olhar e seus olhos marearam de dor.

— L..Luke! Por favor, não faça isso... Suas mãos são fortes e meus ombros estão com pinos... Fisga...

— Não tô nem aí. – Ele respondeu. – Eu lembro da sua mania de jogar dardos. E eu vi as mãos de Cora com furos espalhados por ela. Ela anda estranha, e você, bom... Suspeita.

— Eu não... Por que eu faria isso com a Cora?!

— Por que você mudou comigo desde que comecei a namorar.

— Não estou não.

— Ah, está.

— Luke! – Junko gritou, agora com uma expressão ofendida. – Eu sou sua professora! O que está sugerindo?

A mulher, com muito esforço, afastou o corpo do loiro do dela e massageou os ombros, encolhida. Seu coração acelerado poderia denunciar culpa ou alguma outra coisa. Luke cruzou os braços e olhou-a de forma torta, com a cabeça tombada para um dos lados, e os lábios comprimidos, além das sobrancelhas arqueadas. Junko visou seguir seu caminho, mas ele fechou o trajeto, batendo a mão na parede do lado onde ela ia seguir.

— Não, não vai sair enquanto eu não receber uma resposta decente.

— Eu não sei o que quer de resposta.

— O que acontece com a Cora?

— O que quer que eu fale?! – Ela se exaltou, encarando o loiro com olhos nervosos e irritados. – Sério, o que? “Matei ela e escondi seu cadáver em meu armário de fantasias”?! Eu não gosto dela, tá legal?! Eu realmente não quero saber dela, e quando ela sumiu, foi uma satisfação pra mim! Agora, para onde ela foi, eu não sei! Eu gostaria de ter eliminado aquela garota com minhas próprias mãos, mas não fiz! Sou uma professora, Cavallaro, não uma assassina!

Luke deu um passo para trás quando ela começou a falar daquela forma. Seus braços tremeram, como se fosse bater em seu rosto, mas ele enfiou as mãos nos bolsos e respirou fundo. Junko Jiro ajeitou os cabelos, depois a boina preta e dourada, encarando o rapaz e esperando uma reação condizente com a ação dela.

— O que ela te fez? – Ele disse, tentando deixar a voz mais calma possível.

— Ela... Se tornou especial para você.

— O que isso tem a ver contigo, Junko? – Ele suspirou, encostando as costas na parede que tinha prendido a mulher a recém.

— Gosto de você. De verdade. – Luke engoliu seco e encarou-a. – Mas sou sua professora. E sendo assim, eu não queria confundir as coisas, entende? Quando ela apareceu, senti como se tivesse te perdido...

Junko pensou que ele ia dizer algo em solidariedade com aquele sentimento, mas ele simplesmente passou as mãos no cabelo e saiu do caminho dela, com a expressão fechada. No meio de seu trajeto, ele olhou por cima de um dos ombros e corrigiu a expressão que a mais velha tinha usado.

— Não me perdeu. – Ele viu um semblante de esperança nos olhos dela. – Deixou de ganhar.

Luke entrou na sala e a garota sentiu o peito apertar. Depois, caiu de joelhos no chão e deixou suas papeladas caírem ao seu redor. Não havia gente ali perto para ajudá-la a recolher as coisas, então ficou ali sentada, encostada na parede, esperando a sensação ruim passar antes de conseguir pensar em organizar tudo.

Djin havia pego algo ruim com Luke, tanto que no resto do treinamento, fez com que ele pegasse mais pesado. Será que ele era afim de Junko? Luke não perguntou sobre.

No final de tudo, cansado, ofegante, sentado no degrau que separava a sala do piso do corredor, Luke limpava a testa enquanto o boxeador arrumava as coisas dentro da mesma sala. Do nada, uma ideia passou pela cabeça do loiro e ele olhou para o outro por cima de um dos ombros.

— Hey. Que tal sairmos de noite? Vou com uma galera, quer vir junto?

— Onde?

— No Bar “Floresta do Demônio”.

— É um bar para maiores!

— Não antes das 10 da noite.

Terça – 20:35

Luke realmente tinha um belo poder de persuasão. 20:30, de acordo com seu relógio de pulso, e uma galera já estava reunida em volta do pub. A primeira pessoa a chegar foi Dianne, que olhava no celular freneticamente para ver onde seu namorado estava e se ele iria para a reunião. Como uma das mensagens que recebeu de Stevan lhe acalmou, ela puxou assunto com o loiro, tendo de levantar a cabeça para olhá-lo.

— Tá chique!

— Claro que não, estou normal!

— Eu estou normal, você está chique.

O rapaz estava com uma calça jeans preta e uma camisa regata branca com o desenho de uma ancora em dourado no peito. Ela era meio folgada, estava encoberta por um casaco folgado azul marinho com SF estilizado em dourado nas costas. Seu cabelo estava totalmente arrepiado, em vez de só o topete. Estava com coturnos pretos de couro. A garotinha estava com um vestido preto com mangas morcego. Elas eram esvoaçantes e quase lhe cobriam as mãos. A barra do vestido parava um pouco acima dos joelhos, e usava um salto de 5 centímetros. Seus cabelos estavam soltos e a maquiagem bem escura.

— Ele vem?

— Ele está vindo, pegou a moto do irmão. – Luke estreitou os olhos e Dianne entendeu a razão. – Ele vai fazer 18 mês que vem! Os pais já deixam.

Depois de mais cinco minutos, Andrew e Djin vieram juntos, e Luke descobriu só aquela noite que os dois moravam no mesmo bairro e que Djin ligou para o outro com o intuito de saber onde era o tal bar. Acenaram para o loiro e Dianne nessa hora ligou novamente para o namorado, descobrindo que ele já estava num quarteirão atrás do estabelecimento.

Djin estava com uma regata preta e jaqueta jeans combinando com as calças, calçando all star vinhos. Andrew já não se sabia se estava com camisa, mas seu colete era sem mangas e estava todo fechado, numa escala de marrom com uma chama vermelha no peito, combinando com as calças que também tinham chamas nas laterais. Seus cabelos estavam para trás novamente, e os óculos de aviador estavam sobre os olhos, encobrindo-os com suas lentes avermelhadas.

Stevan estacionou a moto e saltou da mesma, alta, preta, com o adesivo de uma caveira na lateral. Ele caminhou até Dianne e agarrou-a por trás, beijando o topo da cabeça e olhando para os amigos. Seu sobretudo quase cobria os pés. As botas tinham um salto plataforma de 5 centímetros. A camisa era preta, com uma outra roxa por baixo, que aparecia através de rasgos na de cima. E as calças eram de um couro brilhante, que refletia a luz como se fosse plástico molhado. A maquiagem estava carregada e o batom era preto, junto com as sombras. Parecia mascar chiclete também.

— Demorei, mas cá estou. Vamos?

— Até que enfim. – Suspirou Luke, e todos entraram.

O bar não estava totalmente lotado, mas fazia sentido, já que a atração era mais tarde só para adultos. Tinha muitas crianças e adolescentes ali, todos assistindo um show de rock meia boca, que não era tão importante, já que na real eles estavam ali para socializar. Meninas mexeram com Luke, mas ele apenas ignorou. A situação de seus sentimentos não era das melhores. Ele estava ainda muito perdido com o que aconteceu com Cora. Se sentaram todos em uma mesa mais afastada e conversaram sobre coisas aleatórias, assim como perguntaram do treinamento bizarro de Luke, e ele não se acanhou em dizer o quanto apanhou de Singel, a Perpétua do desespero.

Demorou-se meia hora até que as coisas ali começassem a se movimentar. Começaram a tocar músicas que fez Luke puxar Dianne pra dançar, já que Stevan não o fazia, e também sabia que o amigo não faria nada com ela. Foram para a pista onde chamaram a atenção de muitas pessoas avulsas. Até que os cantores pararam de tocar quando avistaram uma confusão no fundo do bar e o loiro ficou em estado de alerta para entender o que havia.

Uma mulher magra e de estatura mediana foi lançada contra uma das mesas e grunhiu quando as costas bateram contra a madeira, e depois ela caiu no chão, zonza e com as mãos na cabeça, fazendo-a parar de girar. Depois, um homem robusto – não imenso, apenas musculoso – apareceu com uma garrafa quebrada na mão. As pessoas saíram de lá correndo e os que ficaram, observaram a situação. A mulher começou a gritar “não” e a chamá-lo pelo nome, que se Luke entendeu bem, era Giovanni. O homem ergueu a garrafa contra ela e nenhum dos funcionários resolveu ligar para a policia, já que ele era o chefe dos mesmos. O garoto tentou intervir, mas Dianne e Andrew agarraram os braços do mesmo e impediram, pois o cara era talvez mais forte que o loiro.

A garrafa ia acertar a cabeça da moça, bem no centro de sua testa, mas um fantasma branco se colocou na frente e ergueu o antebraço, abaixando a cabeça para se proteger dos estilhaços da garrafa que espatifou ao se chocar. O garoto estava de capuz, a jaqueta branca era larga e cobria até o meio dos dedos, e a calça jeans era folgada e cobria parte dos tênis escuros. O homem olhou para o moleque surpreso, mas logo a expressão se desfez em um “ah, é você”. Ele cerrou os punhos que com certeza daria uma volta inteira no pescoço do garotinho.

A mulher gritou em protesto quando viu a blusa do menino se tornar vermelha no lugar do impacto e engatinhou até ele, mas o garoto olhou para ela e depois para o homem.

— Eu sei que a estupidez dela é enorme e eu com certeza adoraria que ela parasse. Mas prometi que se tocasse em um fio de cabelo de minha mãe, eu te mataria.

— Com que força? – O homem debochou. – Você mal alcança meus braços. Você é apenas uma criança!

— Com a força do homem que tem em mim, e que falta em ti. – Provocou, com os olhos quase faiscando.

Giovanni era um rapaz moreno de olhos negros e cabelo castanho escuro. Usava uma jaqueta de couro, tinha uma barba farta, parecia realmente um motoqueiro. Aquele era o homem que a sua mãe havia casado uma vez e que ele tinha repulsa em chamar de “pai”. Mas Giovanni não parecia com vontade de conversar. Retirou do bolso algo que pareceu uma faca, e quando ela reluziu, a pedra negra do peito do menino brilhou de volta, e em um fragmento de segundo, uma cadeira o estabelecimento havia voado contra do grandalhão. Quando o mesmo retornou em si, já havia outra cadeira sobre a cabeça do garoto, cujas mãos pressionavam a madeira das pernas do objeto, amassando a mesma, mostrando que aquela força era real e que não foi um golpe de sorte.

— Quer tentar? – Silvou, com os olhos estreitos e na posição de um leão pronto para atacar uma pobre gazela.

— Você vai continuar sendo o rato de sempre, David. – Mesmo falando aquilo, a boca do rapaz estava sangrando, afinal. – Sabe o que faço com ratos? Eu os mato!

Aquela cadeira havia sido lançada antes mesmo de Giovanni falar, mas ele sabia disso e se desviou, abaixando-se e se lançando contra o garoto, que deu uma ponte para trás e saltou através de uma mesa, colocando-a entre os dois. Luke sentiu seu corpo formigar de nervosismo e escapou dos braços dos amigos. Aquele garoto... Ele conhecia aquele garoto. Era David, e não sabia que o mesmo tinha problemas pessoais para tratar. Precisaria conversar com o menino a sós. Não sabia se era melhor ajudá-lo ou deixar que ele descobrisse os poderes, já que sabia que era a Onix do colar dele que estava o fazendo reagir daquela forma.

O menino se pendurava em vários objetos, o cenário não podia ser mais propício. Aquilo não parecia ser da pedra, e sim do garoto, os olhos de Luke brilharam. Ele atravessou a mesa correndo, sem temer o tamanho do alvo, e se lançou sobre as costas de Giovanni que não caiu no chão, mas desequilibrou-se. As luzes do bar piscaram varias vezes e os cantores já não estavam mais ali. Aliás, só estava Luke, os amigos do mesmo, David, Tushi e o homem.

David foi lançado no chão e ficou atordoado quando as costas acertaram o piso. Tushi se arrastou por ali e agarrou o filho, encostando-o em seu peito e aninhando-o. Dizia que estava tudo bem, e que podiam viver em paz agora. Mas David sabia o que aquilo queria dizer e não era “vai ficar tudo bem”. Giovanni foi atrás do balcão e pegou uma escopeta antiga que guardava para cuidar de bandidos. Mas ela não teria aquela finalidade no momento. Ele apontou a arma para a cabeça do menino, depois para a da mulher, quem mataria primeiro? Ele pensava. Poderia eliminar aquele elo fraco do sangue para recomeçar.

Luke avançou contra eles, mas foi impedido quando algo estourou do teto e desabou contra as costas de Giovanni, exibindo lá em cima uma garota de cabelos loiros claríssimos e curtos com uma faca de caça na boca e fios de um lustre que não estava mais ali nas mãos. Luke a reconheceu como Marina e esperou pacientemente o resultado. A escopeta escorregou quando ele caiu perto dos pés de David e o menino se desvencilhou do abraço, com a testa sangrando pelos destroços do lustre.

— Você está bem?! – Mari gritou, tirando a faca da boca. – Está ferido!

David ignorou o chamado da amiga e chutou os destroços do teto e lustre, achando as costas do pai lentamente. Depois o virou e se sentou sobre o peito do mesmo, sentindo o rapaz respirar com dificuldade.

— Ratos! – Ele exclamou. – Eles ainda são mais espertos e ágeis que um grande gato velho. Eu não estou aqui por que segui minha mãe, eu já sabia que ela vinha te observar sempre que saía sozinha. E chegava transtornada, te via com alguma namorada? Não sei... Eu não quis saber... Como Marina estava comigo hoje, devido a razões... Quis trazê-la para conhecer meu querido pai... Que não é muito diferente da mãe dela, aliás... Vocês já se conhecem? Vou providenciar isso.

— MONSTRO! – Ela gritou lá de cima, mas tampou a boca quando David a silenciou com um “shhhh”.

— Você se lembra do relógio que falava quando eu era menor? Você comprou e colocou em casa por que eu estava doente por um cuco. Se lembra dos ponteiros? Os ponteiros em forma de lança?

David arrancou ambos os ponteiros do bolso da blusa ensanguentada e mostrou para o rapaz, bem perto de seus olhos, girando-o entre os dedos, fazendo a madeira negra reluzir. Ele levantou a mão e disse “adeus”, descendo-a rapidamente contra a carótida do pai. A mão estava firme, ele já queria fazer aquilo fazia tempo... Teria treinado tanto? Mari, que também parecia ansiosa, olhava para a situação com olhos vidrados, mas a decepção caiu sobre seu rosto logo após: Luke.

O loiro agarrou o menino e levantou-o, impedindo-o de completar o ato. David escapou dos braços do moço logo após, mas nisso Giovanni já estava se levantando e olhando assustado e surpreso para o filho de menos de 1,60 de altura. A sirene apitava logo atrás, policiais chegavam. Dianne estava com o celular na mão, mas não parecia ter ligado pois tinha se surpreendido com a velocidade dos mesmos.

Eles invadiram o estabelecimento e renderam todos, até mesmo o grupo de amigos. Aquilo daria dor de cabeça para Djin, como ele explicaria para sua mãe que estava numa delegacia?