Sábado – 6:40

Após uma birra longa de Viktoria, ela teve de ser levada até aquele mesmo cemitério e se desesperou ao ver que as portas da cripta pareciam seladas. A menina correu até elas, se atrapalhando com os novos sapatos de cadarço, sendo que até aquele momento usou sapatilhas de boneca. As unhas arranharam as grades de metal e seus ombros relaxaram antes dela começar a soluçar um choro contido. Kumi se aproximou da criança e com um suspiro, acariciou os cabelos negros.

– O cemitério está aberto há 40 minutos. Quer encontrar o zelador?

– Que é?

– Zelador, o homem que cuida daqui. – Viktoria se virou e estendeu os braços para cima. Foi pega no colo de Kumi e ambas prosseguiram caminho até a entrada do cemitério, onde tinha visto uma pequena casa de tijolos expostos. A porta estava aberta e o homem, um senhor de uns 70 anos, gordo, de barba farta e cabelos em falta, dormia debruçado sobre a mesa, roncando como um porco. Kumi limpou a garganta num som rouco e ele acordou num soco, olhando para ela assustado.

– Bom dia.

– Bom dia, senhorita.

– Você tem as chaves das criptas?

– O que? – Ele disse, surpreso. – Vocês não podem entrar na cripta. Só o coveiro e os pedreiros podem, para fazerem as estruturas onde...

– Viemos prestar luto a alguém.

– O luto se presta do lado de fora, tem uma base para vela e tudo mais...

– Essa menina quer ficar mais próxima da mãe...

– Lamento. Mas não posso abrir uma cripta, há cadáveres dentro!

Kumi colocou a menina no chão e se sentou na mesa do zelador. Explicou ao homem toda a historia de Viktoria, ou pelo menos a parte que ela sabia, dando ênfase ao suposto autismo, que ela mesma já sabia que não era mesmo a doença da criança, mas não precisava dizer ao homem. O queixo do homem caiu quando ela citou o fato da menina ser encontrada dentro da cripta ao lado do corpo de sua mãe, posto ali por mais de anos e mesmo assim sem indícios de putrefação. Aquela conversa estava incomodando a moreninha, não pelo assunto propriamente dito, pois ela parecia não entender, mas a voz do homem parecia ofensiva demais para ela. Já estava do lado de fora, olhando para qualquer bichinho, folha ou pedra que sua visão captava. Andava até ela, pegava na mão, brincava e jogava fora.

Não demorou nada para que Kumi aparecesse atrás da criança girando a grotesca chave de ferro nos dedos.

– 30 minutos.

Foram até a cripta, a porta foi aberta e a menina entrou. Kumi, curiosa, foi junto, e seu coração apertou ao ver o que lá dentro tinha. Nunca foi tão íntima daquela mulher, mas a via com frequência. Flashs do passado perturbaram sua cabeça e ela cambaleou.

Conchita era composta por vários lideres de exército. Por sorte, não por obrigatoriedade, uma líder era Perpétua e nos fins da era dourada da cidade, duas Perpétuas se tornaram líderes. E aquela mulher era uma delas. Kumi se aproximou um pouco mais. A morena estava serena na cama. Os lábios fechados delicadamente, como se o ar passasse por eles. Os olhos fechados, prontos para abrirem, prontos para mostrarem que ela estava acordada e que aquilo tudo era uma brincadeira. Ela parecia isto mesmo: Pronta para acordar de um sono revigorante para sua beleza. A pele branca não tinha nenhuma mancha. Os cabelos negros estavam brilhantes e sedosos. A roupa era uma simples mortalia de seda, alvíssima. Até deixava a pele da mulher mais apagada ainda.

– Eu nunca a vi tão... Suave. Yomi sempre foi uma mulher rude, e seu cenho vivia arqueado. Me surpreende não ter marcas de expressão. Também nunca a vi vestida de branco. Se ela nos tivesse mostrado esse lado, talvez ainda estivesse a... O que está fazendo?

Viktoria vasculhou em umas pedras atrás da cama de pedra e retirou de lá uma bolsa de couro escuro. Dentro da bolsa, tinha um cantil, e então saiu correndo até a sala do zelador, sem aviso prévio. Retornou 5 minutos depois, com o cantil cheio de água, e com um saquinho de uvas pequenas e verdes, que o senhor comia antes. Ele deu a ela?

– Não! – Ela exclamou quando viu a mão de Kumi deslizando pelo rosto de Yomi. – Não encosta nela.

– O que você vai fazer?

– Mamãe tem sede.

– Ela está morta!

Viktoria pegou uma caixa de pedra e subiu em cima dela, na lateral da cama. Virou o cantil bem lentamente e com cuidado sobre os lábios da morena e um filete de água escorreu para dentro, como um córrego seco. Depois, se sentou na mesa e começou a conversar, fazendo um eco terrível.

– Tem fome? Viktoria trouxe uvas. – Sem obter respostas ela sorriu de forma vazia. – Tudo bem, Viktoria adora uva.

Kumi estremecia. E começou a perceber que estava transpirando frio. Sua pressão devia ter caído para 7. Aquela criança era louca! O que Vidia tinha feito em sua ausência?

Sim. Viktoria ficou de segunda à sexta de noite na casa da bruxa. E agora, parecia ter voltado ainda mais insana. Não sabia se devia confiar nos estudos de Vidia, mas a criança ia ficar com ela novamente na segunda. Deu meia hora e ambas escutaram o zelador berrar.

– Devemos voltar.

– Mas...

– Amanhã te trago.

– Ok...

Elas saíram da cripta e Kumi trancou a porta. Ainda olhava para Viktoria de uma forma estranha mas a menina saltitava despreocupada, como se tivesse realizado um sonho. Parou de caminhar quando uma visita misteriosa entrou no cemitério. Encarou em choque para a figura que entrava e seguiu-a com o olhar enquanto ela passava pelas estradas de pedra que levavam aos túmulos, em particular à cripta.

A moça era magra, de estatura média-alta, cabelos longos e brancos. Vestia um terno feminino preto e possuía olhos azuis. Quando Kumi se virou e viu aquela mesma figura se aproximando, sua voz morreu na garganta e não conseguiu sequer exclamar algo. A moça se abaixou perto de Kumi, deixou seu buquê de flores no pé da porta da cripta e se levantou, em silêncio, estática. Como se esperasse uma exclamação da ruiva.

– Você voltou dos mortos...

– Ora. – A mulher respondeu, erguendo seu rosto para Kumi. – Mas eu nunca morri.

– Você está mais alta que eu.

– Você nunca foi muito alta, de qualquer forma...

Kumi abaixou a cabeça e tapou a boca, soluçando, engolindo um choro, e foi abraçada pela albina.

– Ilys... Minha pequena Ilys...

– Faz tempo...

Ilys. Ilys foi a décima encarnação da idolatrada Byakushi e a mais forte por ser hibrida não de deusa e homem, mas de deusa e dragão. O poder, este suficiente para banir os cinco generais de Mirabilia de dentro de Conchita, foi embora junto com a mesma cidade. Ilys era a menina mais linda que existia lá, e a mais jovem a fazer um feito histórico no mesmo: Com apenas 15 anos, resgatou a mãe da morte, selou a cidade, e transportou todos os membros para o mundo real. Nisso todo, a morte de sua mãe iniciou uma revolução dentro de seu coração e Ilys saiu do campo de batalha. Na verdade, todos saíram. E diferente do esperado, a menina não parece nutrir ódio pela causadora da morte de sua mãe.

E não. Não foi Kumi. Kumi Amane era filha adotiva da mesma mulher. Já tinha 11 anos quando a pequenina nasceu.

– Faz tempo que está na cidade?

– Bastante. Na verdade eu queria ter falado contigo antes mas era complicado, eu tinha tantas coisas para resolver e...

– O que importa é que está aqui! — Ela apertou ainda mais forte a albina. – Eu me senti tão sozinha, Ilys. Por mais que eu ainda tenha contato com muitos de Conchita, eu não podia contar com todos eles.

– Eu venho aqui toda manhã. Nina era importante para mim.

– Nina...?

Ambas olharam para a criança. Nina era apelido de Yomi, nome dado à Perpétua da morte depois que ela veio à Conchita. Seu verdadeiro nome era Saeris, mas poucas pessoas a conheciam assim.

– Nina, sua mãe. – Ilys se abaixou e ficou ajoelhada, próxima da criança. Tocou o topo da cabeça e fez um afago, com um belo sorriso no rosto. – Você é a Viktoria, não é? – Ela concordou com a cabeça. – Não se preocupe, você não vai me machucar. Eu sou sua Perpétua do destino.

Sábado – 7:20

– Café? – Ilys ofereceu pra pequena, que negou com a cabeça. – Prefere beber o que?

– Leite.

– E você, Kumi?

– Tem vinho?

Ilys olhou para Kumi e sorriu, enquanto servia Viktoria com leite. A menina ficou bebendo, enquanto a mais velha se juntou à ruiva. Um silêncio se seguiu enquanto as mais velhas atacavam o vinho, pão e queijo. Ilys estava tão confortável e despreocupada que seu sorriso não desejava sair do rosto. Já Kumi parecia rever um amigo antigo. Talvez um que se espera nunca mais ver: Um amigo falecido, ou em estado terminal.

– Kumi?

– Ah! – Ela suspirou. – Tive um devaneio. Falou alguma coisa?

– Perguntei por que pintou o cabelo.

– No mundo real as pessoas não tem cabelos cor de rosa. – Ela disse, quase de prontidão. Ilys passou as mãos nas próprias madeixas alvas e jogou-as por cima dos ombros. – Seus cabelos brancos não são tão assustadores.

– Sua filha vai ter que pintar?

– Eu receio que sim.

Ilys suspirou e saltou da mesa que estava sentada. Não, aquilo não podia ser certo. Colocando o copo na mesa, ela se virou para Kumi e automaticamente retirou a parte de cima do terno, depois a camisa branca, seu sutiã, ficou de costas e mostrou à ruiva horríveis cicatrizes salientes. Duas, uma em cada omoplata. Descendo um pouco o cos da calça, podia ver um pedaço de uma terceira cicatriz. Antes de se virar de frente novamente, ela se vestiu e disse.

– Eu tive 10 anos de tortura onde minhas asas e cauda eram arrancadas pela nossa mãe, Hakushiro.

– Que Hayalleri a tenha.

– Antes de vir para esse mundo, eu arranquei esses itens pela ultima vez. Só para descobrir que o mundo real anula nossas habilidades. Contigo isso também aconteceu? – Kumi concordou com a cabeça. – E você acha que sua filha vai ter problemas com a cor do cabelo? Tira essa tinta já! Deixe seus cabelos crescerem. Seja você!

Ambas olharam para Viktoria que havia berrado e quebrado mais um copo. Agora, parecia emburrada. Ilys suspirou e correu até a criança, esfregando seu rosto contra o rostinho da mesma e apertando-a contra seus braços.

– Desculpe, bebê. Eu não percebi que estava gritando.

– Não está brava pelo copo? – Kumi perguntou, com um meio sorriso.

– Claro que não. – Ela deu um beijo no topo da cabeça da pequena e tombou-a para cima de seu ombro, fazendo carinho na nuca e nos fios curtos de cabelo. – Ela é uma criança. Eu também já quebrei algo, querendo ou não, quando era pequena. Mamãe disse que você também.

– Bem, você me chamou aqui para tomar café?

– Na verdade... – Ela escondeu a morena nos braços enquanto observava Kumi, agora com olhos tristes. – Acredito que a formação de Conchita voltará a existir em pouco tempo.

– Não entendi.

– Lembra-se de Cindy e de B.Bang?

– As Siyahs Stigma e Not Equal.

– Sim. Como Perpétua, eu tive condições de invadir a biblioteca e descobrir o diário de Byakushi que só Nina tinha.

– Que ela lia para você, quando menor.

– Isso. E há relatos lá da Siyah suprema, a que deu origem a todas. Seu nome é Golden Black. E eu tenho quase certeza que ela está aqui.

– Aqui mundo real?

– Isso.

– E como sabe disso?

– Pega a Vik.

Ela empurrou Viktoria para os braços de Kumi e a menina caiu sentada sobre seu colo, sendo abraçada. Kumi acariciou os cabelos da morena enquanto a albina caminhava até um armário. Fez alguma bagunça: Entre os recipientes ali dentro, achou um jornal. Depois, descendo um pouco, pegou um livro, deixando cair junto disso alguns talheres e uma panela. Antes de Viktoria escutar, seus ouvidos foram tampados por puro instinto da ruiva. Sabia que a menina, com seu suposto autismo, iria se incomodar com a confusão.

– Aqui.

Ilys se aproximou das duas e abriu algumas páginas do diário. Byakushi tinha dons artísticos invejáveis, e suas páginas viviam cheias de esboços em seus cantos e meios. Aproveitava dos espaços em branco das folhas. Numa delas, justamente quando citou Siyah, havia o desenho de uma figura de cabelos lisos e franja cortada reta. Os olhos tinham a ausência de pupila e íris, parecendo dois globos dourados. Dentro dos cabelos, na parte perto da nuca, havia uma grossa mecha negra. Ou pelo menos era o que a caneta de nanquim dizia.

– Essa é a Golden? – Kumi pegou o diário e Viktoria deslizou seus dedos no papel, contornando o rosto do desenho. – Não consigo imaginar ela com cores. Seria uma albina como você?

– É loira. – Ela disse. – Olhe isso. Essa revista é do ano passado. Está vendo os óculos dourados? Acho que é para cobrir os olhos que não possuem característica humana. As mechas do cabelo são da mesma intensidade. O corte do cabelo também. As roupas são diferentes, mas temos épocas diferentes aqui.

– Não dá pra saber se ela está na cidade. Essa coisa é antiga! Tem algo recente?

– Tem. Isso aqui. – Ela mostrou um jornal. Nesse jornal tinha a foto da suposta Golden Black ao lado de um rapaz alto e usando um terno. Parecia ter cabelos claros, talvez loiros Ela estava com um sorriso glorioso. – Essa aqui é a foto da inauguração do novo banco. Golden e Rivel. Eu me pergunto se ele sabe quem ela é.

– Não é ele o marido de Annie?

– Uhun. Mas Annie não tem nada com Golden. Ela é uma ex-Perpétua, aqui. – Ilys ficou analisando as fotos. – Ela está controlando a parte econômica do país. Aos poucos contamina ao mundo.

– Vamos com calma... Meu cérebro já está velho demais para eu absorver tanta informação de uma vez só.

– Golden Black quer recuperar seu trono. Se já está num nível tão alto, estamos atrasadas. – Kumi concordou com a cabeça. — Não sei as habilidades dela. Não tenho informação escrita sobre, nem aqui no diário, nem em lugar algum.

– Lembro que as Siyahs são criaturas de Karanlik, logo, Yomi tinha informações.

– Eu tive esperanças de vê-la novamente, mas creio que dessa vez ela realmente partiu.

– É por isso que estamos tentando invadir a mente de Unk. – Ela deu um tapinha no topo da cabeça da criança que olhou para cima e depois olhou para Ilys, que sorria amistosamente. – Vidia fez uma sessão, disse que não consegue entrar. Me pergunto se tem alguma característica de Perpétua para que impeça a invasão.

– Bom, está falando com uma Perpétua. – Ilys disse, se sentando no chão, na frente das duas meninas. – Eu não tenho mais poder algum. De verdade, nenhum. Eu não sinto mais nada correndo em meu corpo, então acredito que somos pessoas normais aqui.

– Então temos que ver o que está acontecendo... – Kumi olhou para Ilys que estava com um sorriso travesso. – Ah, não. Ilys, não! Eu estou muito velha para mais uma aventura, sequer tenho minha habilidade como governante do sol.

– Tem filhos.

– Não envolva Sumia e Kouta nisso!

– Deixe-me apenas reunir todos, por favor... – Ilys fez uma expressão triste, como se implorasse com os olhos. – Eu quero conhecer quem seria os escolhidos para a 11ª geração...

– Tudo bem... Desde que eles não lutem... Ainda são muitos jovens... Eu realmente não quero envolver meus pequenos nisso.

– Prometo que nada acontecerá com eles! – E sorriu docemente, embora ela estivesse cruzando os dedos atrás de seu corpo.