Aljha Rhara: Return to Zero - Livro 5
7 Simpathy For The Devil
Sábado – 17:45
Na tarde de reunião, faltava muito pouco para o horário combinado, mas apenas Kouta, Sumia e Viktoria estavam ali. Ilys jamais se perguntou se deveria confiar mesmo naquelas pessoas escolhidas, ela os escolheu por alguma razão. Vendo Viktoria brincar com dados, ela se lembrou muito de sua infância, onde sua mãe lhe ensinou muitos jogos de estratégia. Aquela menina no entanto descobriu tudo sozinha. Dentro da capela, os gêmeos se sentavam aos pés do altar, impacientes. Ilys estava no banco perto dos portões e Kumi esperava do lado de fora para ver se avistava mais membros.
— Tem certeza de que eles virão? – Sumia disse, enchendo as bochechas. – Eles podem achar que é brincadeira de alguém.
— Não vão.
— Podem. – Kouta disse, fechando um livro grosso, que parecia do tamanho de uma bíblia e meia. – Uma figura desconhecida mandou uma carta para todos. Isso é bem normal. – Disse em ironia.
— A única pessoa que pode tentar faltar é Luke. – Kumi não pôde deixar de escutar. – Ele é o único que não tem o apoio dos pais.
— Já cuidei disso também. – Ilys disse, saltando do banco de onde estava ao ver de longe uma figura conhecida. – Eles estão vindo. Pelo menos Octavia está.
Octavia vinha correndo na direção da capela olhando num relógio de pulso. Estava vestida com saia preta pregueada e fofa, meia ¾ brancas, sapatilhas, camisa de botões preta de camisa branca por baixo. Estava com os cabelos presos num rabo de cavalo e ela estava ofegante quando chegou na porta.
— Oi, desculpe. Tive aula de violino. – Só naquele momento que as meninas repararam na bolsa de couro que ela carregava. – Não estou atrasada, certo?
Todas negaram. Octavia perguntou se deveria vir vestida com as cores de sua carta, mas Ilys negou, se esparramando num banco. Para uma líder, a albina era incrivelmente liberal e totalmente “tanto faz”. Seus cabelos lambiam o chão, e ela olhou para o teto da capela, que tinha lustres góticos muito bonitos. Nessa hora, Cintya chegou junto de seu menininho. Ela caminhou até Kumi e cumprimentou-a com um beijo. Yuki, o pequeno menino, foi posto no chão e ficou ali, estático, sem saber o que fazer, mas era incrível como a albina demonstrava simpatia por crianças. Ela rolou do banco ao chão e se ajeitou sentada igual um índio, abrindo os braços. Ele olhou para sua mãe e quando ela concordou, ele caminhou até a albina e a abraçou.
— Meu deus, eu tinha me esquecido da idade dele!
— Eu receio que terei de acompanha-lo, Ilys. – Cintya disse, se aproximando. – Ele sequer está na fase pré-convencional.
— Não tem problema, você foi uma guardiã. Ele fala? – Ela olhou para o menininho e ele concordou com a cabeça. – Ótimo, ótimo! Então você pode se comunicar conosco!
Os outros membros vieram logo depois e todos sozinhos. Primeiro Luke. Ele estava com os fones, camisete xadrez, camisa preta, calça jeans e all star negros. Meia hora depois, Marina e David, que se sentaram no fundo da capela. A menina ficou calada, ele estava atento aos assuntos, mesmo que ainda não tivesse começado nada. Chegou então Kamille e Louise, e Louise trouxe consigo Christian, que parou na porta como se repelido, e ficou lá fora de braços cruzados e de costas para o interior. Louise olhou para Ilys e saiu correndo agarrá-la. Ambas se abraçaram forte e a francesa expressou profundamente o quanto sentia saudade da amiga.
— Meu deus, meu deus. – Ela se afastou, com as mãos nos ombros da albina. – Como está linda. Como está... Meu deus.
— Acalme-se. – Ilys deu um tapinha nas mãos da amiga e sorriu. – Estamos aqui reunidos para coisas mais importantes.
E então ela rodopiou pelo ambiente, fazendo um eco com seus passos. Subiu num banco, ergueu os braços e alegremente, deu início.
— BEM VINDOS AO PEQUENO RITUAL DE INICIAÇÃO! – E o eco levou “Ção” para toda o salão de missa da capela. Marina se incomodou e Viktoria também, tanto que ambas tamparam os ouvidos. – Falei muito alto?
Ambas concordaram com a cabeça e depois se entreolharam. Viktoria não sabia, mas acabara de ganhar uma nova amizade, talvez não a melhor amizade do mundo, mas uma igualmente transtornada. Autismo e Borderline lado a lado. David estava perdido.
Então começaram a conversar sobre a reunião. Eles se sentaram no mesmo banco, enquanto deixavam um entre eles totalmente vago para que ela desfilasse em suas danças teatrais enquanto explicava.
Golden Black é uma mulher muito forte, de acordo com a descrição. Ela fez um resumo histórico do que havia lido nos diários de Byakushi, a Perpétua do destino original. A raça daquela mulher era chamada Siyah, e reunia criaturas que possuíam índole ruim ou egoístas, que eram humanoides mas com características particulares muito diferentes de todas as outras raças de Beyas. Eles não existiam em Karanlik, mas quando Pivhalin, o líder do exército do reino de Beyas esposou Golden com Zero, um dos Siyahs mais fortes, e ambos atacaram Karanlik com unhas e dentes, eles tomaram conta dos dois mundos, e com o êxodo desses mundos para o novo reino criado por Aiya, tentaram controlar aquele mundo também.
— Mas as Perpétuas silenciaram a raça maldita. – Kumi disse, apoiada em uma pilastra, com os braços cruzados. – O extermínio de Siyahs foi gradativo. Primeiro, dois terços foram apagados. Os amuletos que os selaram foram confiscados por Conchita e guardados com sete chaves. Mas as remanescentes conseguiram acordos com algumas pessoas de Conchita, criando o caos, mas por fim, também foram executadas.
— Sobraram 3 delas. – Ilys completou o pensamento de Kumi, que passou as mãos nos cabelos rubros e curtos e escutou o resto da explicação. – Stigma, Not Equal, e Golden; que contrataram Lucienne, Vidia e Louise, respectivamente... – Olhou para a loira, que abaixou a cabeça, desconfortável.
Depois que falou, viu todos os escolhidos com expressões diferentes. Alguns simplesmente não acreditaram no que ela falava. Outros pouco se interessavam. Viktoria não absorvia as informações, e Mari absorvia, mas achava complicado demais.
O silencio tomou conta dali. E por fim, os lustres vibraram num vento que era totalmente impossível de entrar dentro da capela, circulando dentro da construção como um furação fraco e depois parando. Agora, os convocados começaram a pensar que aquilo tudo era real.
Ilys perdeu a pose teatral e saltou do banco, tencionando os músculos em uma pose de guarda alta. Os cabelos deles sacudiam, o dela parecia um véu de seda branco e brilhante. Ótimo, o que estava acontecendo ali agora?
Uma ferida se abriu na lateral do rosto de Ilys, fina, longa, e o sangue escorreu, ela sequer teve tempo de ver o que havia acontecido. Viktoria, como se fosse possuida por alguma entidade, se posicionou na frente da albina de costas para ela, e sacou duas pistolas de cano curto. Segurou-as do contrário, com os cabos para cima e os gatilhos presos no dedo do meio. Seus olhos continham um brilho sinistro, como se brilhasse realmente, emitindo uma luz azulada. Ela atirou. E atirou seguidamente para um único ponto, depois rodopiou em uma meia volta e ergueu a pistola da mão esquerda para frente, atirando pelo vão entre pescoço e cabeça de Ilys, logo atrás dela, estilhaçando um vitral. Quão potente eram as balas? Ela acompanhou algo no teto como um gato e uma mariposa, com olhos ágeis. Sequer piscava. Atirou para cima, circulando os lustres, e os convidados se amontoaram num único canto da capela, numa tentativa de proteção.
— O que está havendo?! – Sumia exclamou com os ouvidos tampados. – Ela está atirando no vento?
— Não... – Ilys respondeu, acompanhando os tiros da menina com a mesma atenção que ela mesma. – Alguém está aqui.
Os tiros cortaram o ar com silvos esmagadores. Depois de muitas e muitas tentativas, uma fumaça vermelha, como se pó de giz vermelho estivesse se espalhando pelo ambiente, caiu sobre eles, seguindo por um cheiro de ferrugem extremamente forte. Viktoria abriu um sorriso extremamente largo e malicioso. Uma sombra preta caiu no chão, com um rosnado metálico. A figura que se levantou era feminina e sensual, mas não tinha realmente uma forma: seus contornos pareciam sem foco, como se compostos por uma névoa espessa. Seus olhos estavam acesos de uma cor violeta intensa, e era a única coisa distinguível ali. Todos ficaram estáticos olhando para a criatura. Ela liberou uma risada gutural que ecoou por toda a capela, e depois se desfez numa lufada de ar em direção à porta.
Viktoria continuou atirando, mas quando Louise percebeu que os tiros estavam se direcionando para a saída, bem onde Christian ainda estava, totalmente despreocupado, ela se lançou sobre os braços da pequena e derrubou as pistolas no chão. Depois a morena caiu, com a cabeça girando. Ilys agarrou Viktoria e levantou-a do chão, ainda tensa. Sua respiração estava densa e a da menina agitada.
— Bem... – Ilys disse, ainda com olhos atentos. – Vocês acreditam agora?
E olhou para trás. A expressão que encontrou foi a mais esperada possível: todos a olhavam de volta, em pé, ao seus postos, prontos para receberem ordens. Ela agradeceu com um sorriso sem jeito. A décima primeira geração estava pronta.
Sábado – 19:00
Ilys já teria se regenerado se estivesse em Conchita. Mas o mundo não era o mesmo. A expressão dela se congelou desde que viu seu irmão. Agora estavam na casa dela, onde Kamille curava a ferida enquanto tentava barrar os olhos de fogo de Ilys para com Christian, que estava do outro lado do quarto, evitando o contato com os olhos dela.
— 15 anos?
— Para mim foi mais tempo.
— Você está com medo de mim? – Ela disse, liberando um meio sorriso. — Como era? A fêmea da sua espécie tem direito a controlá-los?
— Tu te lembras disto ainda?
— Lembro. Lembro sim... – Ela fez um ruído de dor quando Kamille encostou o tecido com o iodo na pele. – Você estava me falando isso enquanto eu gritava.
Sua voz pareceu dilacerar o peito de Christian, que passou as mãos no cabelo e no rosto, suspirando. Aquela cena ele se lembrava bem. Louise estava do lado dos dois, girando uma cadeira de escritório enquanto observava os irmãos e escutava, e estava séria, não gostando do rumo que aquela conversa estava tomando.
— Christian? – Louise mordeu o lábio inferior. – Você e sua irmã já...
— Sim. – Ele concordou desviando os olhos e Ilys se levantou num baque, encarando-o. Ela apontou-lhe o dedo e “atirou”, levantando o dedo para cima como se a arma tivesse levado um coice. – Ilys, desculpe-me. Juro que não desejo teu mal.
— Mas eu desejo... – Ela abaixou a voz. – Se minha mãe estivesse com o papai, ela estaria bem agora. Ela não lutou contra a doença por que não tinha mais motivos para isso.
— Sinto muito.
— Não sente. – Ela estreitou os olhos. – Você é um senhor do tempo e sequer pôde trazê-la de volta!
Christian se levantou. Olhou para Louise, que estava olhando para baixo, aparentemente enojada com as cenas que imaginou: ele e uma menina de 10 anos na cama, enquanto ela gritava para que ele parasse. Christian teria feito mesmo isso? Esperava do fundo de seu peito de “Perpétua da esperança” que não. O olhar que ela retribuiu foi do tipo “Te darei um tempo, mas não tenho condições de ficar contigo agora”. Chris balançou a cabeça negativamente e caminhou até a janela do quarto de Ilys. Se sentou na janela e colocou os pés para fora, dando uma ultima olhada pra trás.
— Bem. Eu não queria incomodar, realmente. Não sou útil nesse momento, já que estarão lutando com algo que eu não tenho memórias ou referências de como o fazer. Então...
Mas Ilys sentiu seu coração “parar” quando ele forçou o corpo para saltar. Sabia que ele não morreria, mas voltaria a vê-lo? Correu até ele e agarrou-o por trás, beijando-lhe as costas sem dizer nada. Christian quase perdeu o equilibro e se saltasse sem preparo, cairia de uma forma ruim.
— Não. Não vai não. Chris, eu senti tua falta... – Ela sussurrou. – De verdade... Chris...
— Te amei. Te amei muito... Mas... Louise... A amo também. Está complicado para mim...
— Não fale nada, apenas... Entre de volta e vamos conversar sobre o passado e... Sobre nós e... Sobre o que temos de fazer com Golden. Toda ajuda é bem vinda, Chris. – Ele assentiu.
Domingo – 00:00
Não se sabia exatamente quem era dono da casa, mas aquela grande mansão era gigantesca e estava caindo aos pedaços. A única coisa da estrutura que estava realmente intacta era o porão. O passado da casa era realmente misterioso e por isso lendas a respeito do lugar se levantaram: era uma casa mal assombrada.
Ela não era, de fato, uma casa mal assombrada. Mas depois da chegada delas, passou a se tornar. Ouvia-se de lá guinchos e grunhidos naquela noite. Lá dentro, uma mulher era chutada com força e ela caía contra a parede e depois escorregava ao chão. Seu corpo estava físico, e ela de nada se parecia com a criatura maligna que invadiu a capela.
A voz da outra que lhe chutava era metálica e estridente. Quase um som robótico, calmo e sem tom algum. Sua aparência era composta de um corpo negro, um campo vago e vermelho em seu peito, que brilhava como se tivesse luz própria, cabelos longos e negros, olhos rubros, dentes e orelhas pontiagudas. Nas orelhas pendiam pesados brincos de joias avermelhadas. Nas mãos haviam garras negras e curvadas como as de uma ave de rapina. Ela era altíssima, magríssima, e a franja reta. Essa era Stigma. A segunda mais forte Siyah. Mas será mesmo que era? E se as duas regulassem de poder?
Not Equal era uma figura magra e um pouco mais baixa que Stigma. Tinha a pele igualmente negra, mais pontilhada de branco, dourado e vermelho. Seu campo vago no peito era totalmente ausente de cor ou luz e ao redor dele continha um sistema circular. Uma espécie de constelação, ou quem sabe até um buraco negro (a segunda opção era mais plausível). A figura da mulher era fortemente comparada com o universo. Havia uma máscara em sua face que exibia o violeta dos olhos, mas não exatamente a forma deles. Subia em duas espécies de “chifre”, curvados para dentro, prateados e com ranhuras que brilhavam também lilás, e pareciam se ligar aos olhos. Não havia nada lhe cobrindo os seios, mas ele realmente não tinha uma forma erótica: era apenas negro e pontilhado de amarelo e branco. Cobrindo as pernas no entanto havia uma longa saia de cintos e mais cintos na parte frontal, e a traseira era lisa e roxa, com detalhes em branco.
— Você é ridiculamente inútil. – Stigma reclamou. – Não entende o quanto. – Sua voz pareceu perder fôlego e oscilou. – Tem uma mandíbula na cabeça e não consegue arrancar o pescoço de uma humana!
— Sinto. – Foi a única resposta, mas que realmente não foi direcionada à Stigma. Havia mais alguém na sala. – Eu peço permissão para mais uma tentativa.
— Não terá!
— Eu não estou falando com você!
A terceira figura não estava satisfeita com Not Equal. Mas ela sequer apareceu do esconderijo que se encontrava, as mulheres apenas a sentiam por serem todas da mesma raça. Ela estava sentada até então em uma poltrona velha e empoeirada, e se levantou no fim, abrindo os olhos dourados e ameaçadores. Caminhou e seus passos ecoaram pelo cômodo, até que ela se aproximou das duas e afastou Stigma com um sinal de mão. Abaixou-se ao nível da que apanhara e então o misero brilho da luz da cidade noturna iluminou a janela e também a sua face. Negra, os lábios amarelos, os cabelos negros e dourados, aliás, o extremo oposto do que as fotos de Golden mostrava. Todos os detalhes das fotos que era dourado, ali era negro. E os que era negro, ali era dourado.
— Na próxima vez que for, eu aconselho que morra por elas. – E abaixou os óculos estilo aviador de lente única, que cobria os dois olhos dourados. Abriu um sorriso maligno e ameaçador. – Por que se voltar de mãos vazias, eu vou te torturar, vou cortar membro por membro, arrancar tua cabeça, perfurar seus órgãos... Você consegue entender?
— Sim senhora... – Sua voz tremulou. – Sim... Senhora...
Golden só percebeu agora que sua mão estava em volta do pescoço frágil de Not Equal e a soltou, para que a outra pudesse respirar. Se levantou e olhou para Stigma, que estava parada de braços cruzados, se divertindo com a situação da “companheira”.
— Acho que está na hora de você assombrar uma velha amiga, Stigma. – Golden disse, olhando para a subordinada. – Faça isso de forma secreta e cautelosa. Ainda não está na hora de entrarmos em ação de verdade.
Aquelas palavras serviram como energético nas veias de Stigma e ela deu um sorriso voraz, como se fosse um predador faminto.
Fale com o autor