Terça – 12:30

A olimpíada feita entre salas na escola de Luke estava a todo vapor. Havia se passado uma semana e dois dias, e a única diferença que ele carregava consigo era uma pedra que levava no pescoço. Ela tinha o formato triangular, e continha um orifício redondo no centro, onde acorda passava. A pedra era vermelha, Villiaumite. Ela tinha o formato de um cone e tinha umas pontas esbranquiçadas, misturadas com o que era realmente a pedra preciosa. De acordo com Ilys, se ele continuasse com a pedra e treinasse suas habilidades, elas cresceriam o suficiente para ele realmente se tornar um guardião.

Luke e Andrew eram, ironicamente, lideres dos times inimigos. Os amigos foram até o centro do campo em forma de diamante, deram as mãos numa saudação informal e depois um abraço rápido composto por um simples tapinha nas costas. Depois Luke foi para sua área como rebatedor, e Andrew chamou um dos jogadores para lançar a bola.

Donatella mesmo não sendo da escola, havia sido convidada para liderar o grupo de torcida e abusou de suas habilidades de dança e sedução, usando como roupa um shorts colado, uma saia pregueada xadrez e suspensórios pretos numa camisa branca regata e de gola alta que era bem justa. Meias altas, um pouco abaixo dos joelhos, tênis rasteiro de correia e os cabelos mais cacheados que o normal. Ela dava piruetas e gritava o nome de Luke em particular, em meio a todo o movimento. Mas ele só retribuía com pontos e mais pontos para o próprio time de basebol.

Os pontos se acumulavam. A sala do loiro estava vencendo nessa modalidade. Dianne e Stevan berravam para que o menino vencesse, e Junko, tendo que ficar imparcial o máximo possível, apenas cruzava os dedos atrás das costas. A plateia uivava a cada acerto, mas logo Andrew entrou em jogo e levantou o placar, mas mesmo assim ficou um pouco atrás do outro time. O apito final anunciou o fim de jogo e os amigos se cumprimentaram novamente, um passando o braço nos ombros do outro, comemorando juntos a boa partida.

Donatella enlouqueceu lá em cima, saiu saltitante e percorreu toda a extensão dos bancos para ir até onde os garotos estavam, mas havia uma grade barrando. Então ela saltou a grade alta e voou em cima de Luke, montando nas costas do primo.

— Aye! Meu deus! – Ela agarrava o menino com força. – Meu deus, Lucy deve ter orgulho de teu nome!

— Minha mãe tem uma tatuagem com meu nome. – Ele suspirou, fazendo o corpo dela dar pulinhos conforme ele saltava. – Hey, Andrew.

— Eu.

— Não fique triste, é só um jogo. – Andrew deu um sorriso maligno. – E eu sei que tem como acabar comigo na próxima!

Os rapazes riram e Donatella acabou sendo contaminada pela risada. Eles entraram no vestiário e quando ela desceu das costas do rapaz, se virou de costas, corada. Homens se trocavam ali. Mesmo Dona sendo mais velha e não virgem, era estranho ver homens nus. Ou semi nus. Andrew retirou o uniforme do time e mostrou o corpo definido. Ficou com as calças em respeito à garota, mas a loira dedilhou mesmo foi o corpo de seu primo quando ele retirou o uniforme e mostrou toda a musculatura das costas, bem demarcadas, e ao se virar, o famoso “caminho da felicidade”. Chamou a atenção dela, mas ela estava em uma espécie de transe. Depois sacudiu a cabeça e suspirou.

— Devo esperar lá fora?

— Ora. – Ele riu. – Eu não tenho mais namorada, certo?

Donatella corou e cruzou os braços, como se “ofendida com o comentário”. Soltou um “run” e saiu do vestiário, indo até o lado de fora.

Foi quando de repente, o mundo ficasse em câmera lenta, ou ela apenas teve uma queda de pressão. Se apoiou na parede e vasculhou o local com os olhos, quando sentiu uma vontade forte de vomitar. A falta de ar tomou conta dela e ela arranhou a própria garganta com as unhas grandes e vermelhas como se quisesse arrancar algo que estava prendendo-a ali. Aos poucos, como se jogassem tinta preta num ser invisível, uma mão apareceu em sua garganta, depois o braço, peito, cabeça, corpo, e por fim, a figura feminina do demônio negro.

Stigma ergueu a loira pelo pescoço e ela sequer conseguia gritar. Ali só tinhas as pessoas do vestiário, ocupadas. A plateia estava longe. Ela foi balançada no ar e sentiu os nervos do pescoço deslocarem, logo temeu pelo seu pescoço. Numa dessas mais forte, ela poderia quebrar aquilo. Depois Stigma mergulhou a mão livre no buraco de luz vermelha em seu próprio peito, se desfazendo gradativamente e depois sua presença realmente sumiu. Donatella caiu no chão ajoelhada e com certeza feriu os joelhos por isso. Massageou o pescoço, nuca e ombros. Depois gritou de dor quando sentiu a pele da coxa esquerda queimar.

Olhando para baixo, ela percebeu um pequeno buraco no tecido que soltava uma fumaça e cheiro de pano queimado. Depois ao levantar a saia, percebeu que sua coxa havia sido perfurada por um medalhão circular, com um triangulo no meio, e algumas ligações entre ele e o campo circular. Ela puxou a corrente e tudo o que sentiu foi ainda mais dor, como se aquilo estivesse enfiado dentro dela, mas a corrente estourou.

Luke e Andrew foram falar com ela. Pegaram-na pelos braços e a levantaram. Donatella gritava de dor, e o sangue que escorria da onde o amuleto havia se enfincado se misturava com um plasma azulado.

— Luke! Luke! Ela me pegou! Ela me pegou!

Donatella agarrou o primo, que passou as mãos pelas partes traseiras das coxas dela e levantaram ambas as pernas, fazendo com que ela ficasse pendurada nele como um coala. Levou-a para dentro e quando os homens viram aquela ferida, fizeram um circulo ao redor deles.

— Calma. – Ele suspirou, tentando acalmar sua prima. – Quem te pegou? Como fez isso aqui?

— Cindy! Cindy! Foi a Cindy! Meu deus. Ela ainda está viva! Luke, tira de mim! Tira!

— Isso está encravado! – Ele tentou puxar, mas em vão. Não podia tocar no liquido azul, como foi instruído por ela durante o processo. – Dona, se acalme.

— Isso tá ardendo. Demais! Luke!

E depois seus músculos colapsaram e ela caiu deitada sobre o balcão que foi sentada, desmaiada. Ranhuras apareceram em sua pele como se trincasse e elas foram tomadas pela coloração azulada. Quando havia visto isso? Ah sim...

— As fotos de minha mãe.

— Oi? – Andrew disse, tentando conter os companheiros que murmuravam coisas horríveis sobre a menina e sobre a situação. – Se refere a toda a história da pedra, da carta e afins?

— Sim, mas com uma origem mais distante. Stigma é uma Siyah, e eles são apelidados de contratantes. – Acariciou a testa de Dona e mediu sua temperatura, pondo a outra mão sobre a própria testa. – Cada Siyah tem sua peculiaridade de contrato, o de Stigma é dar poder em troca do sacrifício extra pessoal.

— Matar as pessoas ao redor? – Andrew perguntou e todos ficaram em silêncio, assustados.

— Exato.

Quarta – 08:10

Luke estava avoado no dia seguinte. Tanto que realmente preferiu faltar à aula, mesmo que estivesse pronto para a escola. Aliás, ficou estático na porta da entrada, enquanto escutava o sono profundo de Donatella que havia sido posta no sofá na noite anterior. Deveriam ter posto a menina num dos quartos, mas preferiam ali, onde ela poderia se levantar e ir até a cozinha. Dona estava exausta, a mão pendia ao chão e os dedos encostavam no tapete. E sim, Luke estava ali desde a hora que precisava sair pra ir à escola, ou seja: Desde as 7:40.

Ele se virou para ela e deixou a bolsa no chão perto da porta de entrada e a fechou logo após. Encostou-se na porta e suspirou, encarando a menina e a perna ferida, agora sem sangrar ou escorrer o líquido azul. Dona abriu os olhos e piscou algumas vezes, dando um sorriso vazio para Luke, que correspondeu.

— Você não ia para a aula?

— Algo me barrou, sei lá, uma vontade de ficar contigo.

— Estou com medo de te machucar. – Ela disse, com a voz bem baixa. – Eu li alguns relatórios e descobri que Stigma faz a pessoa ser impulsiva.

Luke negou coma cabeça. Sacou o celular dos bolsos, desligou a música que estava tocando baixo, discou alguns números e esperou chamar, a mulher olhou para ele e sorriu, pensando que ele estava tentando chamar a Ilys, mas Sumia falou “Oi oi” no viva voz e a loira se virou para o outro lado. Claro, chame uma criança. A conversa que se seguiu foi basicamente eles combinando de treinarem naquele dia, já que a menina havia dito que também faltara, diferente de seu irmão Kouta. Depois ele olhou para Dona e esperou que ela retornasse o olhar.

— Virá conosco?

— Atualmente estou envolvida, não é?

— Está.

— Então eu vou... – Ela se levantou num salto, mas gemeu de dor quando pisou com o pé da perna ferida. – Eu só estou preocupada contigo e...

— Dona, se eu sou um escolhido... – Ele retirou de dentro da camisa aquele mesmo colar e mostrou a ela. Donatella fixou seu olhar na pequena pedra e como se empurrada para cima de Luke, tentou agarrá-la, mas o menino usou seu reflexo e segurou seu punho, encarando aqueles olhos claros daquela forma, tão de perto. – Você tem belos olhos. Bem, se eu sou o escolhido, tenho força para vencer uma entidade.

— Desculpe...

— Não se preocupe, você não tem culpa.

— Eu vou acabar te machucando... Luke, tire essa pedra de perto... Parece que Stigma não gosta dela.

— Ah é? Vamos ver com Ilys a razão.

Quarta – 09:15

Luke percebeu em seu celular que uma de suas redes sociais estava com um grupo escrito CNT, com 34 mensagens ali. Ele leu uma por uma, e se resumiam em avisos de faltas na aula, devido a uma convocação de Ilys. Deveriam estar as 8:30 no lugar combinado, sim, na onde ela trabalhava. Ele deu um meio sorriso. Deveria usar o celular para alguma coisa além de foto e música.

Enfaixou a perna da loira com gaze, que estava com as pontas meio sujas pois eram as mesmas que usaram para limpá-la na ultima noite. Pegou Dona em suas costas e sabendo que sua mãe ainda dormia, se despediu apenas de Denzel. A menina agarrou-o pelo pescoço e enlaçou-o com as pernas fortes e torneadas, que mesmo feridas ainda pareciam cheias de vigor. A menina era bem leve para ele e também mais baixa. Ele tinha 1,86 de altura e ela 1,66. Ele pesava 80 e ela 55. Caminhou muito com ela por ali, errou o caminho algumas vezes, nunca foi na advocacia, mas lá chegaram. Desceu a loira de suas costas e se alongou.

A porta estava com um recado de “fechado temporariamente por razões...”. Ele olhou para a porta, estressado, bateu na mesma e nada de abrir, então pegou na maçaneta e forçou-a, abrindo-a lentamente. O primeiro andar estava todo apagado e parecia assustador. Dava para escutar alguns estrondos no andar superior e o lustre de flores parecia um pendulo lento. Ambos subiram as escadas com uma pressa regular. O segundo andar estava trancado. O terceiro, no entanto estava com uma porta encostada e lá dentro havia vozes e risadas. Ele abriu-a quando ouviu um grunhido de dor.

— O que está... – Ele relaxou os músculos. – Ilys!

Ilys estava com seus cabelos totalmente trançados. Usava o mesmo terno com risca de giz de sempre, mas agora com a calça no lugar da saia e um saltinho de 5cm. Nas mãos, luvas de couro negras que brilhavam na pouca luz. Do outro lado do “ringue” estava Octavia, estatelada no chão, massageando o queixo e carregando consigo uma espada de madeira, que ainda estava em sua mão. Ela usava uma camisa branca baby-look, suspensórios, tênis all star com meias listradas até metade da canela preta e roxa e um shorts curto que parava um pouco acima do meio das coxas.

— Olá Luke! – Ela se virou para ele, com um sorriso largo no rosto. – Estou testando a habilidade delas! Para saber por onde vamos começar.

— Na advocacia?! – Ele exclamou, soltando a mão da prima e fazendo um gesto que levantava ambos os braços para cima. – Normal, vão pensar que estão cometendo assassinatos aqui!

— Qual é! – Ela bufou e ficou séria por um segundo, ou pelo menos ele pensou ter visto a expressão no rosto dela. – Olá, Donatella! Long time no see you!

I don’t speak English, but it’s true. Hello!

Ilys pensou em dar uma pausa no treino, mas a próxima seria Marina e ela não parecia com paciência de interromper aquilo naquele momento. Pegou a espada da mão de Octavia enquanto ela se recompunha e em silêncio se colocou em pose ofensiva. Ilys foi se abaixar perto de Dona para verificar o item ali presente e se entreteve com a análise. Mari usava naquele dia um casaco cinza chumbo com orelhas de gato, a parte interna delas rosada, a parte interna do casaco também. Saia rodada e pregueada da mesma cor que o casaco e sapatilhas negras. Teve de enrolar a manga da blusa para pegar na espada.

A menina avançou contra a mais velha. Os seus 1,52 e seus 32 quilos deram a ela uma velocidade que calou todos na sala. A sala tinha por volta de 7 metros horizontalmente e ela atravessou-o “num passo”. As mãos se levantaram com a espada e ela caiu em um movimento vertical como se fosse cortar a cabeça de um peixe. A parte da lâmina sem fio acertou o nervo que ligava entre o pescoço e o ombro, um ponto fraco de todo humano. A dor que a albina sentiu foi insuportavelmente forte e ela se desequilibrou e já que estava agachada, caiu de joelhos e depois com as mãos no chão.

O silêncio que se seguiu foi quase o de um velório. Só se escutava a respiração violenta da pequena Mari. As mãos se fecharam contra o cabo da espada e ela sentia as mãos arderem. Nada se focalizava além da figura da albina caída, nada, nem mesmo via Donatella plantada com uma expressão de incredulidade para a líder forte e sábia caída ali, vencida por uma garotinha.

Ilys engasgou e começou a rir. Ria muito, gargalhava. Os escolhidos cochichavam entre eles, e David em particular observava a cena sério, sem nenhuma reação. Ilys se levantou rapidamente, os olhos devolveram o olhar agressivo da menina e depois ela bateu palmas, massageando o local ferido por fim.

— Ora! Tinha que ser a torre da lua! A torre da noite, a torre das trevas! – E depois olhou para Octavia, que estava encolhida num canto, assustada. – Sua avó, e... – Apontou para David. – Sua mãe... – E depois voltou a apontar para Mari, que agora já havia descido a espada. – E agora você, sempre nutridas do naipe de trapaça. Sempre o coringa, sempre pronto para agir de maneira suja. Mas sabe...

Ilys levantou a guarda e colou os punhos perto do rosto, numa pose de boxe. E de velocidade similar à da pequena, avançou contra ela e lhe chutou na altura das mãos, arrancando-lhe a espada. Mari havia levantado as mãos no segundo anterior evitando um ferimento. Desviou do outro chute, agora na altura de sua cabeça. Depois, pequena do jeito que era, deu uma ataque baixo e avaliou a base de Ilys, passando uma rasteira no pé de apoio, mas a albina sabia ler movimentos com aqueles belos olhos azuis. Rodopiou numa esquiva para a direita e chutou a pequena na altura de seu peito, a fazendo cambalear para trás, mas Marina movimentou os braços em círculos e recuperou equilíbrio. Voltou a atacar e seus punhos frágeis avançaram em socos em vão, todos sendo interceptados pelas mãos ágeis da albina. O movimento seguinte trouxe um sorriso aos lábios de David.

Ela segurou ambos os punhos de Ilys e usou-os como suporte para escalar em uma “parada-de-mão”, a mesma coisa que fazia com as barras da estrutura que a levava para a corda bamba no circo, coisa que o menino já havia observado inúmeras vezes. Ela desceu suas pernas uma em cada ombro de Ilys e se sentou ali, seguindo por tombar seu corpo para trás, como se fosse dar uma ponte, saltar dos ombros da albina e ir ao chão. Isso faria as costas da albina se arquear para trás e possivelmente perder o equilíbrio, assim ambas desabariam no chão. Mas não foi o que aconteceu: Ilys segurou a menina contra seus ombros através dos joelhos dela e soltou seu peso contra a mesma, ambas desabaram e Mari bateu com as costas fortemente no piso, gritando de dor. Depois foi solta e a mais velha se levantou acariciando os ombros e as costas.

— Eu já sou vacinada contra ataques circenses. – Ela estreitou os olhos. – Tive que vencer os antigos membros da Midnight sozinha, se lembra?

— David! – Marina exclamou e seus olhos marearam. O rapaz saltou da mesa onde estava sentado e correu até ela, erguendo-a com cuidado de forma que ficasse com metade do corpo levantado. – Eu quebrei alguma coisa...

Não dava para saber se Ilys se sentiu culpada por ver a pequena loirinha chorar, mas se aconteceu ela não demonstrou. Chamou David com a mão, era a vez dele, mas ele não foi. Se recusou a lutar, e em choque, Louise também. Sendo assim, Ilys retirou suas luvas, soltou os cabelos e chamou Luke e Dona para conversarem no particular. Enquanto os outros, ficaram na sala comendo alguma porcaria que ela havia comprado.

Na sala logo abaixo, Donatella teve as pernas esticadas sobre uma mesa oval onde se faziam reuniões. Ela acabou por se deitar e olhar para o teto, em vez de olhar para o que Ilys fazia. A albina bateu o dedo na tampa do medalhão varias vezes, olhou o brilho acender e apagar a cada toque do dedo e uma pequena energia percorria o braço dela, assim como na perna da moça, já que a mesma vibrava a cada toque.

— Dói?

— Arde um pouco.

— Eu posso tentar arrancar?

— Não! – Luke exclamou, parando de girar a cadeira, coisa que estava fazendo até aquele momento. – Isso pode estar fundo... Vai abrir um buraco na perna.

— Não posso levá-la no médico... – Ilys lamentou. – Eles vão achar que isso é... Sei lá... Eu sequer imagino o que vão pensar.

Ela levou as mãos para o reator e puxou-o com a ponta dos dedos, forçando de forma que arrancasse um grito de dor de Dona, que cobriu a boca com as mãos logo após. Nisso, a tampa escapou e o líquido azul começou a borbulhar para fora. Ilys recuou as mãos antes delas tocarem os dedos e no segundo depois, as luzes da sala piscaram. Ilys se levantou com um sorriso e ambos – Ela e Luke – se viraram para trás e encontraram quem a mulher queria ver. Stigma estava ali parada, os cabelos negros flutuando como névoa, as coxas se acabando no nada, apenas numa fumaça preta e desfocada. As mãos continham garras longas, e a “fechadura” estava azul, assim como os olhos que eram duas esferas brilhantes, como se só a íris tivesse cor e o resto fosse negro.

— Está exatamente da forma que me lembro...

— Você está igual, só mais alta e mais gorda. – Ilys mordeu o lábio inferior com aquela provocação. – Eu não via a hora de por as mãos numa Perpétua do destino sem ser morta. – Ela olhou para os membros ali. – E você tem apenas uma criança para te proteger.

— Tecnicamente, duas crianças! – Ilys corrigiu, com um sorriso provocativo no rosto.

— Uma. – E a entidade negra apontou para Donatella, que já estava em pé na frente da mesa, mãos paralelas ao corpo, cabeça estática olhando para Ilys, e o sorriso da albina sumiu novamente, agora numa expressão ridiculamente preocupada. – Só uma.

O reator respondeu ao chamado se banhando de uma coloração rubra e brilhante. Os olhos e o espaço vago no peito de Stigma também ficaram vermelhos. Ilys levou as mãos até um cinto de sua saia, onde havia uma bolsinha, e manteve a mão ali. De fato a mulher tinha razão: estava sem seus poderes totais, no mundo humano a única coisa que lhe ligava à Conchita era sua pedra laranja – uma pequena, oval e brilhante, quase como se tivesse dentro dela uma luz que a deixava acesa – Ágata Cornalina. Com aquela pedra, ela podia sim ter contato com os poderes que lhe eram de direito, mas Stigma era diferente, seu poder era totalmente dela, sem ligações com Conchita, aliás, ela nunca foi de lá mesmo.

Ilys sacou uma Pistola Obregon .45. Apontou e atirou, a bala silvando sobre a cabeça de Luke e atingindo a altura da garganta da oponente. A albina engoliu seco quando o corpo da mulher se desfez como se de liquido e depois voltou a forma original, a bala atingindo um armário logo atrás e fazendo um barulho que ecoou por toda a advocacia. Errou a mira por pouco, ela sabia que o ponto fraco era aquele mesmo local vago...

Na verdade não. Ilys se virou e apontou para Donatella mas ela não estava ali. Já havia marchado roboticamente para cima de Luke e ambos estavam no chão. Ele havia pego uma régua de aço que usava como “espada” em riste, apontando para Dona para que ela não lhe alcançasse a garganta com as mãos fortes. A menina segurou a régua e tentou puxá-la de sua mão, mas Luke era mais forte. Ele virou-se com ela, ficando sobre seu corpo e prendeu-a pelos pulsos contra o chão. Dona começava a se contorcer e gemer, as pernas batendo no chão violentamente impedindo uma mira precisa de Ilys. Isso poderia ser critico para a menina, a mulher sequer tentou.

Distraída, não viu que Stigma já estava sobre ela com as garras brilhantes. Como um tigre, atacou com uma bela direita, arrancando fios brancos da Perpétua que desviou no ultimo segundo, saltando para trás da mesa oval. Stigma manchou a mesa quando passou por ela, viscosa, como se de piche. Recebia inúmeros tiros, um atrás do outro, até a pistola morrer. Os inúmeros tiros que atingiram, dentre eles, metade acertou a vaga vermelha sem lhe causar efeito. Claro, ela se lembrava dos relatórios agora: Siyahs quando selam o contrato com o contratante, tendem a perder a única fraqueza e transportam-na para ele, no caso de Donatella, o reator da perna.

As mãos de Donatella alcançaram a garganta de Luke nessa hora. Ilys guardou a pistola e saltou sobre a mesa, se lançando contra Stigma sabendo que além de suas mãos, o corpo era plasmático. Atravessou-o, se sujando totalmente, os cabelos ficando negros e colados no corpo, sacudiu como se fosse um cachorro molhado e avançou contra a loira, puxando-a para trás enquanto Luke tentava acertá-la em algum ponto fraco com a mesma régua. Para um rapaz comum, ele era bem forte, na verdade era um excelente rebatedor e suas mãos eram ágeis. Stigma avançou contra eles e nesse momento Ilys puxou Donatella de cima de Luke e colocou-a na frente do próprio corpo, usando-a como escudo.

Ofegante, Ilys encarou Stigma. A mulher parou de imediato, contra Donatella nada podia fazer, ou se mataria.

— Eu não sei por que estão fazendo isso. – Ela falou para a mulher de plasma, com a voz quase nula. – Mas vocês estão sacrificando vidas e eu não aceitarei isso. Não na minha era.

— Sua era já passou. – Stigma deu um belo e grandioso sorriso. – Agora, é a era de ouro. Golden. Golden irá reinar.

— Vá pro inferno você e sua Golden! – Luke exclamou, se levantando com as mãos feridas. – Tudo o que trouxeram para nós foi desgraça!

— Então... – Dona disse, com a voz em tom baixo e tranquilo. – A rainha de vocês nunca escreveu um diário falando sobre o extermínio de Siyahs, os escravos dos reis de Karanlik e Beyas? – Luke piscou algumas vezes e nada falou. – Só estamos tomando o que é de nosso direito.

Ilys soltou Donatella quando ela atingiu a potência que um guardião teria. Que um guardião da torre vermelha teria. Fez um X de fogo no ar cruzando e descruzando os braços rapidamente e se virou para atacar a albina. Os olhos azuis da advogada refletiram as chamas brilhantes e azuladas que saiam das mãos de Dona, o reator soltava faísca. Stigma parecia recuar, observando as habilidades da líder de torcida. A loira era ágil como uma serpente. Suas pernas rodopiaram em movimentos de dança e luta, chutava o ar na altura da cabeça de Ilys, que por sua vez teve dificuldade para recuar dos chutes e dos chicotes de fogo puro.

A pedra de Luke respondeu ao ataque e quando ele avançou contra a prima, suas mãos também entraram em chamas, se enchendo daquele mesmo fogo, mais claro, avermelhado. Ele encostou nos ombros da menina quando caiu sobre ela e depois desabaram sobre o armário de lata. Dona sentia a pele queimar e gemia com isso, mas a dor parecia não a incomodar realmente. Afinal, a parte azul de um fogo é bem mais forte que a vermelha, e a chama de Dona era azul. Luke se abaixou ao próximo ataque de Dona mas depois daquilo, ela simplesmente apagou e caiu sobre os braços dele.

Quando Luke olhou ao seu redor, não encontrou nem Stigma e nem Ilys. Ele sentou a loira no chão e saiu correndo da sala para fora, seguindo o rastro da Siyah negra que sumia no meio do corredor. Nisso, ele, em desespero, chamou Ilys e não obteve resposta. Os outros escolhidos desceram a escada, e, assustados com o acontecido, saíram da advocacia e deixaram a loira “possuída” ali mesmo. Ela se virava.

Quarta – 20:00

Ilys abriu os olhos e sentiu os punhos e tornozelos doerem. Os primeiros, mais que os segundos. Ela não enxergava nada, pensou estar vendada, mas quando piscava, sentia os olhos livres. O cheiro era de guardado, mofo, ela estava numa casa que não era aberta fazia dias pelo visto. Se concentrou um pouco e a Cornalina piscou. Uma, duas, cinco, dez, e depois se manteve acesa. Ela iluminava um pouco da sala, o suficiente para Ilys saber que estava a pelo menos 1 metro de altura do chão, suspensa por cordas grossas e apertadas.

A porta rangeu e uma luz foi direcionada para ela, tendo por reação automática desviar a vista do foco da mesma. Piscou algumas vezes e depois encarou quem chegava. A lanterna foi deixava no chão, o coração de Ilys palpitou a cada passo que a outra dava e depois a distinguiu.

— Golden Black. Você é mais baixa do que eu imaginava.

— E você é um pato mais fácil de capturar. – Golden respondeu.

Ela estava exatamente como Ilys se lembrava, naquele momento. Óculos de aviador com uma única lente que cobria ambos os olhos, preto de lente dourada. Ela puxou-o para a testa e exibiu os olhos dourados sem íris, apenas com o globo ocular da mesma cor metálica. As roupas eram as mesmas também: A jaqueta dourada escrito “Golden” na frente, em preto. O shorts dourado curto e largo, o cinto cheio de triângulos pretos e amarelos, as botas negras com detalhes e correias douradas. E o sutiã preto, logo abaixo da fechadura que lhe pertencia e pela primeira vez, era realmente uma fechadura, uma de porta antiga.

— Eu esperava mais de uma hibrida. – Ela se afastou, exibindo os cabelos negros e loiros que esvoaçavam a cada passo. – Para uma mulher de tanta pose, você foi enganada cedo demais.

— Eu não fui enganada. – Ilys estreitou os olhos. – Eu sabia que isso ia acontecer, assim que toquei no reator.

— Lucy, eu sei. – Golden suspirou, recobrindo os olhos com os óculos. – Mas agora, você está aqui. Onde estão seus escolhidos? Chorando na frente da advocacia?

— Se preparando, espero. – Ilys sorriu. – Pois vou liderá-los para a vitória, finalmente. E conseguiremos retomar o que é nosso.

Golden rosnou e levou sua mão ao rosto de Ilys, segurando-a pelo queixo violentamente, forçando um contato direto de olhar, mais próxima, mais ameaçadora. Ilys sequer tentava respirar naquele momento. Com a outra mão, Golden deslizou sua unha do indicador pelo abdômen da mesma, rasgando a pele e deixando escorrer o sangue. Cobriu a boca da outra para que ela não gritasse. Depois voltou a encará-la nos olhos, escutando a respiração descompassada e vendo seus olhos lacrimejarem.

— Aljha Rhara é nossa, por direito. – Golden disse, em único tom. – E Conchita está, por azar, dentro do território. Eu vou abrir o lugar novamente e vou colocar um trono bem grande sobre o que você chama de templo dos ancestrais. Vou espatifar cada estátua. Enquanto você, espere aí. Espere que seu sangue coagule e reze para não ter uma hemorragia. Se não tiver, reze para que as feridas não inflamem. Não vamos deixar que passe fome ou sede, não se preocupe. – Abriu um sorriso psicótico. – Sabemos que a sua Cornalina não funciona sem que esteja em seu pescoço, então precisamos de você viva. Reuniremos todos os escolhidos aqui, cada um amarrado e olhando o outro morrer lentamente de desespero.

— Eu não vou ficar aqui. – Ilys respondeu, rouca. – E eles não precisam me buscar. Vocês vão ver um belo recado na parede de vocês, escrito como vocês são imbecis por manter uma Perpétua e cyron amarrada em cordas.

— Já chega de meias palavras! – Golden gritou, fazendo com que Ilys fechassem os olhos. – Sequer consegue liberar suas habilidades de Perpétua, imagina de cyron. – E depois estreitou os olhos, se afastando de Ilys e voltando para a porta da entrada do porão. – Você só é como um padre. Sobe no altar, prega por um mundo perfeito, depois se senta e espera que seus fiéis façam as coisas por ti. Em nome de Hayalleri amém.

Ilys olhou para a Siyah que se retirava lentamente do lugar. Depois desativou a luz da pedra e esperou o coração se acalmar. Acabou por não ser forte e conter o choro, o corte em seu abdômen estava fundo demais.

Quarta – 23:00

— Não desejo me envolver, não mais.

— Viktoria quer!

— Viktoria deves sair de meu quarto agora. – Christian apontou para a porta. – Louise não deveria ter deixado entrar.

Quando Christian voltou a se deitar, ignorando complemente a presença da pequena criança sobre sua cama e seu corpo, Viktoria fez o maior escândalo.

Louise chegou na porta e se escorou na batente. Ficou irritada com a forma que Christian tratava a pequena e chamou sua atenção. O moreno se virou de barriga para cima e olhou para a loira com o canto dos olhos. Já fazia algum tempo que ele não dormia com ela e sequer sabia se ainda namoravam. O rapaz disse que sequer entendia o recado que a menina passava, e depois a loira se sentou num canto da cama e chamou Vik pra se aproximar.

— Ilys foi sequestrada. – Christian se levantou num tranco, encarando ambas as garotas. – Stigma a levou e não sabemos para onde. Além disso, somos muito fracos ainda para derrotar alguém que levou uma Perpétua! Chris?

Christian já estava em pé, colocando o sobretudo por cima do peito nu e calçando seus sapatos negros. Louise ficou calada, acariciando os cabelos de Viktoria. Segurou-a na altura dos punhos e levantou seus bracinhos, vendo agora a pedra que estava em seu pescoço. Era uma Lapis-Lazuli em forma de caveira, dado pela própria mãe dela, ou melhor, retirado dela quando a mesma entrou no estado de morte.

— Você já tem seus poderes aí dentro, não é? – Viktoria abaixou os olhos e os levantou logo depois. – Eu lembro dos seus movimentos quando aquela mulher atacou na capela. Você tem alguma forma de ativar? Gosta de Ilys? Ela está em perigo. – Viktoria concordou com a cabeça. – Me diga então. Como ativamos seu poder?

Viktoria não sabia. Christian colocou seu colar, pegou a moreninha e colocou-a nas costas, prendendo-a com as mãos em suas coxas magras. Vik estava de sainha rodada azul marinho, curta, com um shorts logo abaixo. Tinha sapatilhas de saltinho quadrado, ambos de 2cm. A blusa tinha manga longa, abotoadas nos pulsos.

— Eu sei como ativar. – Christian colocou algumas coisas numa bolsa lateral média e de couro escuro. – Uma frase. Não sei qual exatamente, pois não tive tanto contato com Ilys na infância.

— Ninguém falou nada quando fomos atacados lá.

— Penso que Ilys e Unknown tenham algum contato mental por serem Perpétuas. É uma coisa que preciso ver. – E se caminhou até a janela.

— Você vai? – Ele concordou. – Meu deus. Você a encontrou?

— Sou um rastreador, Louise. – Ele subiu no peitoril. – Ilys tem meu sangue, sinto a presença dela de longe. Eu volto assim que eu conseguir ela.

— Por que vai levar a Unknown?

— Por que ela é a Perpétua da morte.

O rapaz saltou e Viktoria se agarrou ainda mais forte nele, gritando alto, e por pouco não escapando de suas costas. Louise correu até a janela e observou. Seus olhos brilharam assustados quando ele caiu como uma pedra, mas por fim suas asas se abriram, verdes, brilhantes, em forma de asas de morcego só que mais grossas. Acompanhado por uma cauda da mesma cor e chifres cor de madeira queimada, levemente curvados em um S.

— O QUE RAIOS VOCÊ É?! – Ela gritou, mas ele não pôde ouvir.

Nervosa, Louise fechou os vidros da janela.