Notas iniciais
Todos os capítulos possuem nomes de músicas. Podem pesquisar se sentirem-se inclinados a isso. Boa leitura!

Quando a guerra dos reis estourou, nosso universo ficou dividido em três facções. Os que lutavam pela luz, os que lutavam pelas trevas e os neutros. Beyas era a sede dos seres “puros”, Karanlik era a sede dos seres “imorais”. Os neutros ficavam espalhados entre esses dois extremos, como anarquistas que negam os dois regimes. Apesar de algumas intrigas internas, os mundos estavam bem assim, até que descobriram a líder dessa terceira facção.

Aiya era rainha de Beyas e primeira esposa de Zakeriel, rei e também seu irmão. Beyas era totalmente dividida em classes sociais, diferente de Karanlik que todos eram iguais perante a ditadura dos reis. Ela estava completamente contra com o regime proposto pelo seu irmão e marido. Grávida, fugiu de Beyas para a Terra, viveu como humana por 6 meses, sua filha nasceu no sétimo mês, fora dada a um camponês e a mulher nunca mais foi vista.

Descobriu-se depois que Aiya passou toda a sua vida cultivando uma terra, um pequeno continente, cujo tal seria dado à sua filha. Essa terra não era de mundo algum: Uma terra qualquer, num universo inexistente. A existência do mesmo era dada pela pedra Taz Arzu. Uma pedra apelidada de “Pedra dos Desejos”, feita pela união de garotas aprendizes que tinham poderes especiais dados pela “Deusa suprema”: Hayalleri. Essa terra foi chamada de Aljha Rhara. E mais para frente, um forte foi criado: Conchita.

Conchita passou na mão de varias pessoas por inúmeras gerações. Inúmeras guerras, perdas e mortes mergulharam a historia da terra em escuridão. Depois de tudo isso, ainda restava o desejo de lutar pelo lugar, na mão da décima geração celestial, uma das sucessoras da filha de Aiya. Aljha Rhara foi selada, e todos os que se lembravam dela guardaram em sigilo a lenda que cercava toda a historia daquela terra, mas... Conchita ainda tinha uma porta que ligava ele ao mundo real. E aquela porta voltaria a ser aberta após sombras de um passado voltarem a assombrar. E agora não apenas Aljha Rhara. Mas o mundo real.

Domingo – 23:20

Era numa noite fria, que noticiários de todos os cantos falavam de uma pequena lenda urbana que estava se tornando real. No cemitério municipal, dentro de uma cripta, ouviram choro de criança duas horas depois dos portões do mesmo se fecharem. Como ela entrou ali era um mistério, as portas da cripta estavam seladas. Além do mais, foi selada 10 anos antes do acontecido, como uma criança teria sobrevivido tanto tempo ali dentro sem comida?

Acreditavam que era uma menina que foi dada como morta erroneamente, mas nos registros, a mulher que ali estava tinha corpo de 20 anos, mas com carga de carbono que indicava uma idade extremamente superior a essa. Acreditando em erros nas pesquisas, os cientistas não revelaram.

A menina não tinha memória de como foi parar lá dentro. Dizia coisas desconexas e muitas delas cheias de “magia” e “misticismo”. Foi batizada de Viktoria, mas apelidada pelas pessoas que conheceram sua história de Unknown. Ela era uma criança de rosto perfeitamente simétrico. Os olhos eram de um verde vazio, sem alma, que em todos os telejornais assustaram os telespectadores. Ela quase não falava e sua voz era distante. Muitos achavam que ela era uma fantasma, ou uma doente mental que se meteu dentro da cripta por alguma forma. Testes e exames comprovaram sua ligação com aquela mulher estranha que descansava dentro: Era sua filha. Uma menina de 10 anos, e agora, desconfiavam que aquela mulher foi “enterrada” grávida. E que a menina sobreviveu tanto tempo com a água de chuva que poderia ter escorrido lá dentro, e talvez, de pequenos animais.

Internaram-na numa clinica de reabilitação psicológica, para que conseguissem retirar informações daquela criança. Mas tudo o que ela dizia era que precisava cuidar da mãe.

Segunda – 07:30

No dia seguinte, o frio que a chuva trouxe ainda estava presente em volta dos membros daquela cidade. Uma névoa muito fina percorria as ruas e ninguém queria sair de suas casas para mais um dia de aula. Mas o filho dos Cavallaro não estava incomodado. Já cedo, saltou de sua cama, vestiu a camisa do uniforme de seu colégio, pegou um casaco estilizado verde e branco como os dos jogadores de basquete americanos, calça jeans, tênis, e ficou meia hora se ajeitando para descer e tomar café da manhã. O cheiro sutil que subia escada acima era conhecido: Panquecas. Seu pai era um bom cozinheiro, já sua mãe parecia mais com um pai. Desde pequeno, ela estava presente em seu crescimento, brincava com ele, era uma mulher esportiva. Além de tudo isso, trabalhava fora como design de interiores e professora de dança.

Seu nome era Luke. Tinha 17 anos, popular, jogador principal do time de baseball da escola e supostamente namorava uma garota um ano mais nova. Amava jogos e estava aprendendo paralelamente um curso de modelagem em 3D. Trabalhava junto de sua mãe nas aulas de dança, se mostrando muito talentoso. Era um rapaz alto, loiro e de cabelos curtos e arrepiados no topete. Seus olhos eram castanhos avermelhados, de forma amendoada. Sua barba pegava apenas a ponta de seu queixo, era bem discreta. Estava ouvindo música em volume alto em seu celular, e quando desceu as escadas, de longe dava para ouvir o chiado que os fones produziam.

– Luke. – Uma voz feminina lhe chamou, mas ele não pôde ouvir. – Luke!

Antes do garoto descer as escadas, uma almofada voou da sala até escada, ele por reflexo desviou e o objeto acertou os quadros pendurados na parede, sem quebrar. Ele retirou um dos lados do fone e olhou para a sala, encontrando sentada no sofá enquanto tomava um copo de leite puro uma mulher de aproximadamente 40 anos, de cabelos loiros claríssimos e cacheados batendo um pouco abaixo do ombro, queixo levemente quadrado, com um corpo cheio de curvas e seios fartos. Seus olhos eram tão castanhos quanto os dele.

– Bom dia, mãe.

– Eu não queria ser tirana, mas vou começar a pedir que coloque os fones em volume baixo ou apenas um deles. – Deu mais um gole em seu leite. – Agora, bom dia.

Luke sorriu e balançou a cabeça negativamente, pegando o travesseiro e jogando de volta para ela. Não iria perder tempo perguntando por que ela não estava na sala de jantar com o marido para tomar café, sabia que na hora de comer ela preferia ficar sozinha. Ela se levantou quando ele passou por ela, e deixando o copo na mesa de centro da sala, foi abraçá-lo ficando na ponta do pé para alcançar os seus ombros. Luke resolveu até mesmo desligar as músicas. Lucy era uma mulher muito caminhoneira para abraçar o filho logo pela manhã. Apesar de abraçar de volta, ele resolveu perguntar.

– Você está bem? Brigou com o pai?

– Sim. E não.

– Eu não deveria estar perguntando isso, mãe, mas nesses 17 anos, essas situações foram bem raras...

Lucy soltou-se do filho, com um sorriso claramente triste e desamparado. Mordeu o lábio inferior, colocou o cabelo atrás das orelhas e respirou fundo.

– Eu estou com um pressentimento ruim. Nada demais.

– Sexto sentido feminino é assustador. – Ele passou as mãos no cabelo dela como se ela fosse uma pessoa mais jovem, afinal, era uma mulher baixa. – Vai ser uma aula normal, como sempre. Você sabe.

– Eu sei... Não estou preocupada com a escola.

– Eu prometi para você que ia voltar todo dia direto para casa...

– E só depois ia sair com seus amigos, eu sei, eu sei. – Ela disse, desviando o olhar e segurando as mãos dele. – Mas... Não sei...

Ele perguntou se podia levar o copo para a cozinha e ela concordou. Sentou-se na poltrona mais uma vez, ainda muito tensa com alguma coisa. Seus olhos estavam vagos e perdidos, ela não sabia em que pensar, e ao mesmo tempo parecia pensar em tudo.

Luke foi até a cozinha e encontrou seu pai terminando de lavar algumas panelas, logo pela manhã. Ele não era um homem mimado, fazia o trabalho sozinho e gostava disso.

– A mãe está preocupada com algo. Vocês tiveram alguma conversa pesada?

– Não. – Ele parou de lavar as panelas, olhando para a parede por um tempo, pensando antes de prosseguir. – Mas essa noite ela não dormiu.

– Dormiu, tipo, não dormiu nada? Ou teve uma noite ruim?

– Ela ficou sentada na cama a noite toda. – Ele secou as mãos e levou as panelas até um armário. – Tá estranha desde o noticiário.

Luke começou a rir. Agora tudo fazia sentido. Aquela noticia mais parecia uma historia de terror e foi posta na TV numa hora ruim. Naquela família, a única que era vidrada em noticiários era Lucy. O garoto sentou-se à mesa e começou a comer as panquecas. Nessa hora, sua mãe também entrou na cozinha, ficando na porta, observando um pouco antes de se dirigir ao pai mesmo.

– Denzel. Pode levar o Luke hoje?

– Mas ele sempre vai a pé com a menina.

– Eu prefiro que ele vá contigo hoje. – O olhar morteiro de Lucy convenceu Denzel. Luke suspirou e olhou para ela. – A gente busca a menina se quiser. Mas não vão a pé...

Ele deu de ombros. Por ele, tudo bem. Denzel, que só estava tomando café, soltou os cabelos e se retirou para pegar as chaves e os documentos do automóvel.

Denzel era um rapaz muito atraente. Seus cabelos eram mais escuros que os de Lucy, e Luke havia puxado para ele, com os cabelos cor de ouro, e não quase platinado como os da mulher. O tempo não foi rude com o casal. Além de sutis marcas de expressão, Lucy quase não tinha rugas, e Denzel tinha o corpo de um rapaz de 20 anos, mantendo-se em forma na academia da casa deles. Talvez estivesse com os cabelos lisos salpicados de grisalho, mas o dourado não deixava aparecer tanto. Quando ele voltou, o garoto já estava pronto.

– Sabe onde ela mora? – Luke concordou. – Me fale o endereço.

Segunda – 07:50

A chegada deles na escola não poderia ser mais chamativa. Vieram montados numa Lamborghini vermelha. Denzel estacionou uma esquina antes, para que não acontecesse mais confusão. Luke desceu e foi até a porta traseira para abri-la. A menina saltou de lá, deu meia volta e acenou para o pai do garoto, que seguiu seu caminho com o carro. Então ela olhou para o loiro e sorriu.

– Posso parar de fingir agora...?

– Pode.

Seu sorriso se alargou e ela envolveu o pescoço do rapaz com os braços, ficando na ponta dos pés, beijando-o com um longo e demorado selinho.

Cora. Um nome simples para uma menina complicada. Não estava na sala de Luke, mas foi por alguns meses uma stalker do mesmo, ingressando no curso de modelagem e em tudo mais que ele fazia. Ela fingia ser uma garota tímida, mas seus amigos sabiam que na verdade era a pessoa mais espontânea do universo, até por que foi ela quem pediu o rapaz em namoro. Se tratando da aparência, ela não era uma garota comum: Seus cabelos eram extremamente curtos e negros, com uma mecha loura na franja. Seus olhos também eram escuros, um castanho café. Naquele dia, usava um casaco vermelho curto, calças jeans justas e claras, o uniforme por baixo de tudo, e sua mochila tinha a imagem de um E.T, criatura alvo da obcecação da garota. Ela tomou a mão do rapaz e puxou-o para a escola.

Lá dentro, antes de seus caminhos se separarem, ela lhe entregou um embrulho prata. “Você só poderá abrir no intervalo”, foram as ordens, e ele concordou com a cabeça. Quando tocou o sinal, o rapaz correu até sua sala, onde encontrou seus amigos mais íntimos, um casal gótico que era mais gentil do que aparentava. Ele cumprimentou o amigo com um aperto de mãos e a jovem com um beijo no rosto.

– Quem é a menina? – Dianne, a garota, perguntou, sentada sobre a carteira do loiro. – Faz tempo que tu anda com ela, mas nunca falou dela.

– E a gente não queria perguntar. – Stevan, o namorado de Dianne, concluiu, sentado de “cavalinho” na cadeira da frente da carteira do garoto. – Mas hoje vocês vieram de mãos dadas!

– Cora. – Luke respondeu, sacudindo de leve o embrulho, tentando adivinhar o que era. – Cora Smart.

– Que nome bizarro! – Dianne disse, fazendo uma expressão de surpresa. – Mas ela é uma fofa. O que é isso?

– Eu não sei. Eu só posso abrir no intervalo.

– Muito grande para ser uma aliança.

– Mas não é. – Luke olhou para o amigo, dando um meio sorriso. – Estamos namorando, mas não aceitei um compromisso tão sério.

Dianne e Stevan piscaram algumas vezes e não falaram nada. Naquelas caras estava escrito “É a sua cara!” e Luke sabia disso. A garota era extremamente baixa. Se ela tivesse 1,57 era muito. Seus cabelos eram negros, curtos, e ela vivia de tiara. Seu colar com a foto do pai falecido não saia de seu pescoço. Adorava vestidos, mas como a camisa da escola impedia, ela usava uma blusa listrada por baixo, cinza e vermelha, meias da mesma cor, e uma saia de babados. Ela, toda de preto, combinava com seus olhos, da mesma cor. Stevan não sabia se seu estilo era punk ou gótico. Suas pulseiras e colares eram cheias de espinhos. Seu cabelo negro tinha uma mecha roxa na franja, cor também de seus olhos. Usava lápis de olho e batom preto, sem ter vergonha de usar na rua, mas na escola, o segundo item era descartado. No dia, usava um sobretudo preto simples, bem mais curto do que aquele que costumava usar. A calça jeans escuras também era diferente das que ele usava fora das aulas.

Sentaram-se quando o professor chegou.

As aulas passaram num ritmo normal, e logo estava na hora do intervalo. Era meia hora para conversarem sobre coisas aleatórias, e a primeira coisa foi descobrir qual era o misterioso presente. Para desanimo de todos, exceto de Luke, era um fone de ouvido verde, sua cor preferida, e ele não desgrudou do mesmo em todo o intervalo.

A roda de Luke era ele, o casal, um rapaz do outro terceiro do ensino médio, que faltara aquele dia, e gêmeos de 13 anos que estavam no fundamental, sétima série. O intervalo dos meninos era meia hora antes dos do ensino médio.

Mas aquele dia estava atípico. Passou-se a hora do intervalo, e os alunos não foram recebidos em suas salas, ficando para fora, todos eles. Os professores estavam nervosos com algo, e corriam pelos corredores sem explicar nada para os garotos. Até que então algumas crianças do sétimo ano saíram correndo pelos corredores, deixando Luke e seus amigos perplexos. O que acontecia ali? Ele procurou por um dos gêmeos com os olhos, e quando encontrou os fios cor de rosa dos cabelos de Sumia, ele saiu correndo atrás dela.

– Ow. Ei. – Ele segurou seu braço, e ela deu um salto, mostrando o quanto estava nervosa. – Meu deus, Sumia, o que tá rolando?

– Unknown está na minha sala.

– A menina dos noticiários? Mas ela tem 10 anos.

– Ela está na minha sala, Luke. – Sumia agarrou Luke e mordeu o lábio inferior. – Ela é muito estranha...

Sumia era uma criança adorável e sempre muito alegre. Seus olhos eram azuis, seus cabelos rosados eram longos e ela usava uma touca de abas preta com pelugem rosa claro, sempre, SEMPRE, até nos tempos de calor. Usava uma saia preta e pregueada, sapatilhas de boneca e meia ¾ branca naquele dia. Seu irmão não foi encontrado pelo loiro. Ele se abaixou um pouco para ficar do tamanho da menina e com a voz muito tranquila, perguntou.

– Tá, e por que a sala inteira está em pânico?

– Tivemos 3 aulas, estávamos no final da quarta. Os professores, todos eles, passaram mal no meio da aula.

– Todos? Pode ser epidemia de algo.

– Todos passaram mal quando falaram com ela, ou pediram para responder algo, coisas do tipo. – Sumia não falava aquilo com a intenção maldosa de uma garota que faz bullying. Ela estava realmente em pânico. – Ela não é humana, Luke...

– Que coisa ridícula, Sumia!

O rapaz afastou-a de seu corpo, com a expressão muito zangada. Seus lábios estavam pressionados e curvados em um dos cantos, assim como as sobrancelhas estavam tensionadas.

– Você está se ouvindo? Lembra de quando veio para essa escola e sofreu preconceito pela cor de seu cabelo? Aquela menina está sozinha, e agora sofrendo com todos vocês falando essas asneiras. Onde ela está?

– Ela não quer sair da sala.

– Sua sala é no andar inferior? – Sumia concordou com a cabeça. – Quer vir comigo? – Ela negou. – Você está realmente com medo dela? Sumia, você tem 13 anos, pare de ser uma criança mimada.

– Você ouviu as drogas dos noticiários?! – Sumia deslizou as mãos pela toquinha e puxou os dois cordões que estavam logo abaixo das abas, agonizada pela conversa não sair do lugar. – Ela estava numa clinica desde ontem, como pode estar aqui?!

– Então como tem certeza de que é ela, garota? – Sumia não lhe respondeu de imediato e Luke perdeu a paciência, colocando ambas as mãos nos ombros da garota e sacudindo a mesma. – Sumia. Eu vou te bater!

– É a garota.

Luke e Sumia olharam para onde a voz veio e encontraram a professora do ensino médio mais idolatrada daquela escola, Junko Jiro. Ela estava com o braço esquerdo enfaixado, mas aquilo não era uma novidade para ninguém, raramente aquela mulher dava passos sem tropeçar e cair. Para a sorte do loiro, Junko era quem ministraria a próxima aula, e a mesma seria no pátio, um debate entre os terceiros anos para decidir qual seria o tema da apresentação do fim daquele ano. Ela era a professora de artes da escola.

– Junko. – O rapaz fez uma leve reverência. – Eu ouvi que você ficaria um tempo fora do trabalho por conta do ferimento.

– Eu não tenho tempo, Luke. – Ela olhou para Sumia e fez um afago no topo da touca, como se a menina fosse um cachorro obediente. – Agora, eu acho que deveríamos todos descer. Os professores já foram medicados e estão na enfermagem.

– E minha aula? – Sumia disse, olhando para a mais velha. – Como vai ser?

– Estão falando do fundamental ser liberado. Vocês teriam mais duas aulas mesmo, não é?

Sumia não sabia qual expressão fazia. Estava feliz por não ter aula, mas sabia que sua mãe só podia buscá-la junto de seu irmão no horário normal, pois trabalhava até meio dia. Então Luke convidou a menina para sentar-se com ele no debate e ela aceitou. No final das aulas, quando Junko liberou as turmas, chamou o loiro em particular para poder falar sobre contratar Lucy, sua mãe, para desenhar os figurinos. Ele disse que daria o recado.

Sumia e seu irmão estavam esperando sua mãe na porta da escola quando tudo acabou. Luke esperou por Cora, mas por alguma razão ela não esperou-o no ponto de encontro. Já preparado para sair e ir até a casa a pé, algo lhe chamou a atenção no jardim da escola. Caminhando até lá, o garoto pode ver que tinha, amarrado na árvore, algo escuro, e chegando mais perto jogou a mochila longe por ver que era a novata. Quando ele chegou perto dela, ela se encolheu. Estava toda ferida, pequenos cortes espalhados pelo corpo e rosto. A roupa estava surrada, e sua boca, tampada.

– Meu deus. Quem te colocou aí? – Mesmo descobrindo a boca dela, ela nada disse. – Você é muda? Está bem?

Viktoria. Ele pôde ver naquele momento por que todos tinham tanto medo da pequena garota. A escuridão abaixo dos olhos mostrava quão profunda era cada olheira. Dava para se perguntar quantos meses aquela criança ficara sem dormir. Os lábios estavam pálidos, os cabelos negros e curtos totalmente bagunçados. Ela não usava o uniforme da escola. Usava um simples vestido preto que parava nos joelhos e sapatos de salto de 2cm, uma boneca de porcelana de tão branca e de tão belos que eram seus olhos esmeralda, se não fossem sem vida. Uma boneca de porcelana que agora ardia em febre.

– Hey. Estou falando contigo. Eu não vou te machucar, quem fez isso?

Ela balbuciou algo, e Luke percebeu que de muda não tinha nada, apenas algum problema para se comunicar. Depois de algum tempo de esforços, ela abaixou a cabeça e disse, com uma voz sussurrada que ele teve de aguçar os ouvidos para ouvir sem falhas.

– Um moço. Não aluno. Homem. Funcionário.

– Um funcionário da escola? Pode me dizer como ele é? – Ela olhou para as cordas que prendiam suas mãos, e quando foi libertada, passou as mãos nos ferimentos, borrando os filetes de sangue, deixando seu rosto todo vermelho. – Eu preciso te levar pra enfermaria.

– Não. Moço. Castanho, por aqui. – Ela apontou na altura da orelha, mostrando que os cabelos do rapaz não eram longos. – Olhos roxos. Alto. Magro.

– O tesoureiro... – Luke trincou os dentes.

O loiro visou se levantar para ter uma conversa com o tal, mas Viktoria segurou seu braço quando ele ameaçou, os olhos arregalados como os de uma coruja e os lábios entreabertos. Negou com a cabeça e sussurrou um “não”, e depois soltou-o, fechando os olhos como se tivesse desmaiado. O rapaz balançou-a e escutou um gemido de protesto, então soube que a criança estava bem.

Algo tocou o ombro do rapaz e ele se virou subitamente, onde seus olhos se encontraram com os de uma mulher de cabelos cor de fogo e raiz de aparência rosada. Seus olhos eram de um castanho vivo, avermelhado, mais do que os olhos do próprio loiro. Na verdade, pareciam mesmo rubros. Ela era extremamente baixa, um pouco mais alta que Dianne, e ao ver que era mãe dos dois pequenos gêmeos, o garoto riu baixo.

– Bom dia.

– Bom dia. – Ela deu um meio sorriso, seus lábios volumosos mas delicados, quase como um coraçãozinho, se delineando naquele sorriso falso. – Meu nome é Kumi. Você pode não me conhecer, mas sou mãe de...

– Sumia e Kouta, prazer. – Ele sorriu animado. – Você e sua filha são idênticas. Eu logo deduzi que era.

– Sumia disse para eu ver se você queria carona, mas te encontrei aqui. E vejo que está com alguém em apuros.

– Eu vou para casa a pé, muito obrigado por perguntar, mas... – Ele olhou para Viktoria, que naquele momento já estava encolhida e abraçando as pernas. – Eu estou preocupado com ela, não quero deixá-la aqui.

Kumi olhou para aquela menina e seus ombros caíram como se ela estivesse sentindo o que a criança sentia. Abaixou-se e ficou encarando a menina com olhar de pena. A bolsa cinza escuro que ela carregava escorregou do ombro e caiu no chão, e mesmo estando com saltos, aquela posição não lhe era desconfortável. Só tinha cuidado para que o terno cor de rosa escuro não exibisse sua calcinha, pois era composto por uma saia.

– Menina. – Ela olhou para a mulher, sem se desfazer daquela posição. – Qual seu nome? ...Não vai dizer? Você tem mãe...? Alguém vem te buscar? – E sua voz ficou mais desesperada quando percebeu que a criança estava ferida. – Oh, Benim Tanriça Hayalleri! Você está sangrando toda! Venha cá já!

Kumi acolheu a menina nos braços e quando foi retirada do chão, a criança começou a gritar como se estivesse sendo sequestrada. Já tendo lidado com casos parecidos com aquele, Kumi procurou um ponto entre a nuca e o ombro da menina, pressionou forte e ela apagou. Assim, pôde ser colocada com carinho nos braços da mulher, que posicionou o queixo de Viktoria em seu ombro.

– Ela é realmente estranha...

– Não. – Kumi olhou para ele, um pouco ofendida com aquele comentário. – Essa menina sofre de autismo. Precisa de tratamento especial. Sabe quantas crianças eu já tive que lidar para saber disso? Sou professora de educação física numa escola de deficientes. Essa aqui deve ser só mais uma, e esse lugar não é dela.

– Alguém colocou ela aqui, logo, deve ter alguém responsável.

– Seja quem for, não vai tê-la até eu ter certeza de que está bem! – Aquilo soou como uma ordem para o próprio menino, como se ele fosse o pai da criança. – Sumia e Kouta a partir de hoje vão lidar com uma irmãzinha autista.