Aljha Rhara: Return to Zero - Livro 5
2 Painful History
Segunda – 12:50
Kumi já foi atendida pelo marido quando chegou em casa. O rapaz viu seu carro de longe, um Alfa Romeo Spider azul marinho. A casa deles, em comparação com a dos Cavallaro, era bem pequena. Tinha sete cômodos, uma suíte e um quarto comum que era dos garotos. A sala de jogos ficava no porão, e era bem extensa. O quintal era maravilhoso, ela adorava flores por uma razão particular.
Etienne Louvain era dois anos mais jovem que sua esposa. Era um rapaz alto e magro de cabelos negros, curtos, e olhos claros, de um azul acinzentado. Naquele dia usava uma camisa simples preta e calça jeans larga, com um tênis simples. Ele pegou Viktoria nos braços e subiu com ela às pressas. Antes de Kumi ir atrás dele, pediu para que seus filhos brincassem na sala de jogos por algum momento, depois ela resolveria algumas coisas com eles.
Ambos levaram a menina para o banheiro, fecharam a tampa do vaso sanitário e sentaram a pequena ali. Etienne pegou um kit de primeiros socorros e Kumi sentou-se no chão, na frente dela, começando a limpar seus ferimentos. Naquele momento, ela já estava acordada.
– Não vou te machucar. – Kumi dizia, enquanto limpava cada corte. – Agora você pode me dizer seu nome? – Ela ainda não respondeu nada. – Você não sabe?
Sumia não havia aceitado as ordens da mãe. Estava logo atrás dos dois, ainda fora do banheiro. Seus olhos encontravam os da criança, que olhava de volta de maneira vazia. Retirando a touca, ela se aproximou do pai e segurou sua mão, puxando de leve.
– Pai. Essa menina é assustadora.
Com um sotaque carregadíssimo, o francês lhe repreendeu, mas abraçou-a para que juntos pudessem ver o tratamento da Viktoria.
Kumi deu sua atenção total à criança naquele dia. Sempre que seus filhos apareciam, ela pedia para que fossem brincar com o pai. Com conhecimento básico de medicina, Kumi ficou analisando os olhos fundos da menina e também fazendo alguns testes psicológicos. Foi assim que descobriu seu nome.
– Hey. Qual das peças você escolhe? – Apontou para pequenas figuras geométricas que estavam soltas na mesa. Alguns quebra-cabeças, que na verdade não estavam ali para serem resolvidos, e sim apenas para serem julgados pela forma e cor. – Escolha apenas um item.
– Viktoria quer isso. – E apontou para um cubo mágico.
Kumi anotou em um caderno as reações da garota. Seria pelas diversas cores do quebra-cabeça? Ou sua forma? Quando Kumi se deu conta, Viktoria estava girando as peças do brinquedo freneticamente, como se a resolução estivesse memorizada na cabeça da mesma. Tombou a cabeça para o lado, a franja caiu sobre um dos olhos, e aquele único olho livre começou a seguir os movimentos dos próprios dedos como um gato observa o laser vermelho. A caneta caiu da mão da mulher enquanto ela observava a agilidade e inteligência que aquela criança tinha, apesar de autista. Na verdade, já tinha visto muitas com habilidades surpreendentes, mas quando a moreninha entregou a ela o cubo totalmente completo, o medo cresceu dentro do peito de Kumi.
Sobre a história de Conchita, Kumi Amane, governante da Torre Amarela, se lembrava claramente de todos os fatos que aconteceram desde que ela assumiu o cargo. Naquele lugar, no entanto, todas as habilidades que ela se gabava de ter em Conchita, como a técnica de sacrifício, onde seu sangue se tornava sua arma e seu poder vinha da auto mutilação, deixaram de existir. Seus filhos eram, na forma médica, completamente normais. Totalmente desconectados com aquele universo, mas agora ela tinha duvidas: Aquela menina ali era claramente o resquício do passado. Em pensar que tudo aquilo poderia voltar, seu coração acelerou.
– Se você for quem é... – Kumi pegou o cubo mágico e brincou com o mesmo, girando na palma da mão. Seu ânimo era completamente nulo. – Se for quem é... Então seu nome é um problema de ser dito. Eu vou cuidar disso.
Kumi revirou o quarto em busca de uma agenda amarela e folheou por tempos até encontrar um nome especifico na letra V. Discava em seu telefone residencial enquanto olhava para Viktoria, cujo apelido adotado foi Unk, algo entre o Unknown e o “fofo”, pois chamar alguém de Desconhecida era horrível para a personalidade da pessoa. Demorou alguns momentos, mas foi atendida por uma jovem chamada Octavia. Um diálogo seguiu e ao concluir, ela olhou para a criança.
– Vamos visitar uma antiga colega.
– Viktoria vai passear?
Kumi estreitou os olhos. Esperava que desse tudo certo. Pegou Viktoria no colo, suas chaves, bolsa e desceu as escadarias da casa. Encontrou Sumia no caminho, mas a menina não desejou sair junto da mãe. Viajou através da cidade, numa rota longa de 30 minutos, a menina no banco do fundo ainda brincando de montar e desmontar aquele mesmo cubo mágico.
Segunda – 13:27
Estacionou o carro numa garagem comunitária de um condomínio de prédios altíssimos. A morena subiu nas costas da ruiva e ambas subiram num prédio denominado como A-2. Ele possuía 35 andares e o andar de seu destino era o numero 21. No fim do corredor, havia uma porta onde desenhada nela havia um filtro dos sonhos, todo negro. Ela tocou a campainha, desceu a menina e aguardou alguns momentos.
– É você? – A voz disse abafada. – É a Kumi?
– Abra a porta.
Octavia abriu a porta e olhou a mulher dos pés a cabeça. Um sorriso escapou de sua boca. Kumi era mesmo muito baixa, ela, com quase 40 anos, tinha menos altura do que Octavia com 17. Estendeu a mão e a outra apertou-a, reparando só agora que seu braço todo estava cheio de gazes manchados de marrom e vermelho escuro.
– Você se machucou? Ou... É o mesmo problema da sua mãe?
– É. – Octavia tinha uma voz muito suave. Parecia sonolenta, ou drogada, como se estivesse dopada. – Minha mãe já vem, sente-se aí.
A garota tinha longos cabelos de um roxo bem claro. Eles estavam amarrados com uma fita preta e amarela, que fazia um lacinho. Naquele momento estava usando blusa de frio azul marinho e shorts jeans curtinho, andava descalça e seus olhos eram negros como a noite. Se virou em direção ao corredor e sumiu dentro de uma das portas. Kumi se sentou e ficou de olho na criança, que ainda estava entretida, mas alguns minutos depois, seu olhar desviou e encontrou uma mulher vindo de cadeira de rodas. Ela tinha cabelos extremamente curtos, usava um chapéu de aba curta, quase como uma boina, e faixa sobre um dos olhos, exibindo o outro – verde como esmeralda – triste e desamparado. Usava um vestido de seda preto que batia um pouco acima dos joelhos. Sua perna direita era mecânica, assim como ambos os braços.
– Meu deus...
–Não se preocupe com isso. – Vidia deu um meio sorriso. – Eu logo vou morrer, e minha filha assumirá o cargo.
– Ela já está recebendo os genes da Not Equal?
– Eu acredito que ela esteja recebendo os genes de uma fonte secundária: Eu. Então acredito que ela não sofrerá tanto assim.
– Sua vida se tornou mais complexa que a daquela loira vagabunda.
Vidia suspirou. Sabia do problema entre ela e Lucy. Um problema antigo e mais forte do que ela gostaria que fosse. Com esforço, colocou parte dos cabelos atrás da orelha e olhou para Viktoria, que demorou alguns momentos para retribuir o olhar.
– Hm... É sobre ela que queria dizer, não é?
– Eu receio que ela tenha uma ligação forte com a Perpétua da morte. E você sabe o que o contato íntimo com ela fazia. Estamos chamando a menina por um apelido, não sabemos se é realmente verdade, mas eu acredito que sim.
– Filha de Yomi? – Quando Viktoria escutou o nome da mãe, ela deixou o cubo cair de suas mãos e o mesmo se estilhaçou no chão. – Bingo.
Vidia era a considerada sábia de toda Conchita, quando ela existia. Assumira o cargo de governante após a morte da mãe, e por azar ou sorte, não pegou sua torre amaldiçoada. Conchita era dividida em exércitos e cada um tinha um líder. Com o falecimento da líder da torre de cor roxa, Ryuka, Vidia assumiu, com seus 19 anos. Ascendeu no cargo muito rápido e isso surpreendeu todos os membros da cidade. Ela naquele momento era dona de uma das bibliotecas mais completas em relação ao estilo de vida Oriano. Na biblioteca municipal havia uma sala secreta que a porta era aberta por uma única chave existente, a chave de sua gargantilha, que passaria para a gargantilha de Octavia. Lá, tinha os diários dos perpétuos e dos supostos deuses e reis que reinavam não só em Aljha Rhara, como também em Beyas e Karanlik. Logo, Vidia sabia de todos os segredos do lugar.
Vidia, no entanto, estava no fim de sua vida. Com muito esforço, se levantou da cadeira de rodas e com o chiado seco e fumaça saindo dos canos de sua perna mecânica sempre que ela se comprimia contra o chão, se aproximou de Viktoria, que olhou para cima, devido a sua altura em comparação com a mulher.
– Sua mãe morreu e levou com ela segredos de uma era inteira. – Vidia disse, sabendo que Viktoria prestava atenção. – Sua mãe tem em sua alma agora morta o diário de todas as Perpétuas do Destino, e agora não temos acesso a isso.
– Viktoria não entende...
– Viktoria... – Kumi prendeu a respiração quando a mulher disse o nome da criança. — ...Não é autista. Ela é o receptáculo das propriedades da Perpétua da morte, com isso, suas memórias e sabedoria.
– Não acredito que ela vai ter condição de nos dizer alguma coisa. – Kumi cruzou os braços e observou, séria. Dava para ver em seus olhos rubros toda a tensão que aquela conversa provocava. – Vai...?
– Sou Vidia Zero-ovna, filha de Zero e de Mairim, maga da noite e da ilusão, proprietária da chave dos segredos e mãe de Octavia, filha de Bellph, conde europeu. – Ela encostou a mão mecânica na testa da criança, que arregalou os olhos. – Biz oynayabilir miyiz?
E os olhos verdes de Viktoria se tornaram opacos como os de uma criança sem alma.
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