Aljha Rhara: Return to Zero - Livro 5
17 I'm not a Robot
Segunda – 11:11
Chica estava lavando as louças com luvas de borracha brancas quando o telefone tocou. Ela se sentou na bancada e pegou-o da parede, atendendo com sua voz melodiosa. Do outro lado da linha, havia uma voz desconhecida e feminina, de uma mulher madura de aparentemente 40 anos de idade. As palavras dela pareceram confusas no começo, pois ela estava vomitando informações desconexas. A robô se preparava para responder, mas não tinha brechas. Seu corpo gelou, no entanto, quando o nome de sua “irmãzinha” foi citado.
— Onde ela está? – Ela parecia mais tensa, mas não havia mudado sua voz. – Eu não estou achando isso divertido, por favor, me responda.
Chica apenas recebeu informações de onde deveria encontrar a dona daquela voz. Ela saltou da bancada e jogou o telefone no gancho, saindo pela porta e descendo as escadas correndo. Encontrou Abraham no caminho, carregando sacolas de compra e simplesmente desviou-se dele, explicando enquanto sua voz sumia em meio aos barulhos da rua e seu corpo se camuflava no meio da multidão:
— Rose foi sequestrada! Eles querem me ver em troca de sua liberação!
— Que...?! – Abraham se virou subitamente, mas já havia perdido a menina de vista. – Por que tem que ser tão esquisita...? Marina estava com David hoje cedo... – E deu de ombros, voltando para sua casa.
Segunda – 12:50
— Terminou...?
— Terminei agora. – Rivel disse, com uma voz muito distante. Ele mandou o arquivo para imprimir e se levantou da cadeira. – Falta apenas uma agora.
— Sim... – Ilys disse, suspirando. – Eu queria fazer uma pergunta. Por que reabriu o caso dos Midnight? Justamente por dinheiro e pela sua filha que não vem mais?
— Coisa... – Ele disse de volta, estreitando os olhos e indo até a impressora para pegar o documento. – Não. Há muitas pessoas envolvidas com o projeto, sabia? A família de Engberg precisou usar recursos do projeto para criar Luppi e agora Chica.
— O que esse projeto é exatamente...?
— Uma modificação genética onde células das Siyahs são postas no corpo de uma pessoa humana. Ou um robô, ou um animal, desde que seja um receptáculo capaz de suportar os testes.
— Espere, você está me dizendo com toda a calma possível que o projeto está criando pequenas criaturas similares a Siyahs, criaturas que estamos até agora tentando eliminar? – Rivel acenou com a cabeça. – Engberg também usou isso, significa que o Poder da loira burra é uma Siyah?!
— Eu não sei. – Ele entregou a folha para ela. – Eu não sei de tudo, Lenusya. Tudo o que sei foi que ele ia ceder o receptáculo perfeito para Golden em troca da recuperação mental da sua esposa.
— Mas Pietra já está morta. – A albina falou bem simples. – Eu mesma a matei, você me ajudou a pegar permissão para eutanásia.
— Chica foi criada antes disso, se lembra? Quando ainda era Luppi...? Ele era para ser o receptáculo, mas falhou. Agora, Abraham saiu totalmente do caso.
— Hm... – Ela ouvia enquanto passava seus olhos pelas letras do papel. – Isso está muito bom. – Rivel olhou para ela enquanto enchia sua xicara de café. – O papel. Parece realmente que o caso foi encerrado.
— São coisas que aprendi sendo corrupto. – Ele disse em tom de lamento. – Você tem sorte de Cora não ter muito passado ou família. Foi muito simples para apagar a existência dela.
— Eu não posso mais me deixar levar pelas emoções. – Ilys colocou o papel dentro da pasta de documentos e colocou-a abaixo do braço, enquanto se retirava da sala. – Obrigada, Rivel. Você está muito amável atualmente.
— Não sente remorso por ter matado alguém? – Ele deixou a pergunta no ar e ela sorriu em resposta, fazendo o corpo do homem estremecer. – Você e débil moral?
— Não me chame de psicopata. – Ela se virou subitamente, olhando para ele enquanto colocava a mão na porta, pronta para fechá-la. – Eu já matei muitas pessoas por uma razão maior. Atualmente, minha honra está diretamente ligada aos meus objetivos e vou sim eliminar quem estiver no meu caminho.
— E qual seu objetivo?
— Eliminar Siyahs. – E bateu a porta. Poderia aquela mulher ter um objetivo tão vago? – TODAS! – Ela gritou do outro lado.
Segunda – 13:40
Kumi estava tomando chá junto com Lucy pela primeira vez após tanto tempo. Mas aquilo tudo tinha uma razão. Lucy havia retomado com as atividades envolvendo Conchita. Ela queria retornar com suas memórias e achava que era possível agora que Stigma não existia mais. Kumi não falava com a loira ou olhava para ela, estava ocupada com relatórios que havia recebido de seu filho falando sobre as baixas no sistema de cores. Ilys estava sendo uma líder horrível! Estava tão preocupada com o fim que havia se esquecido dos meios: Perdeu duas escolhidas fortes, a roxa e a prata. Aparentemente, Lucy estava com problemas para lidar com o filho que entrou numa espécie de depressão profunda. Ele seria enviado para Kikuri bagunçar suas lembranças para que ele não se lembrasse que foi Ilys quem eliminou Cora. Nisso, já eram 3 escolhidos fortes. Ela jogou o relatório na mesa e isso chamou a atenção dos olhos castanhos da loira, que estavam encarando o chá até aquele momento.
— Eu vou ajudar com Luke. – Ela disse, nervosa.
— Tudo bem, agradeço. – Kumi respondeu, se levantando e alongando as costas. – Meus filhos estão com medo de Ilys atualmente. E eu estou preocupada com a ira de Golden que deve estar no limite extremo.
— Eu gostaria de entender essas coisas. – Lucy lamentou, bebendo um gole da bebida. – Mas eu não entendo nada. Não consigo me lembrar por mais que eu me esforce.
— Está tudo bem. – Kumi já havia deixado de odiar Lucy, estava apenas indiferente. – Só fique do lado de Luke, se perdermos ele os outros escolhidos vão cair por terra.
Elas voltaram a conversar sobre coisas de pouca importância. Em determinado momento, a campainha tocou e Sumia atendeu, dando passos para trás quando viu Christian ali. Ele afagou seus cabelos rosados e caminhou para dentro sem dar satisfação, olhando ao redor e encontrando quem procurava. Lucienne saltou da cadeira e olhou para ele, surpresa. Permanentemente sério, Christian era um rapaz que causava temor. Ela disse um tímido “olá” quando ele tombou a cabeça para o lado e deu um esboço de sorriso.
— Tu serias Lucienne, não? Podes conversar?
— No que posso ajudar? Kumi sabe mais sobre os trabalhos de Conchita do que eu.
— Preciso fazer algumas perguntas sobre Hakushiro e tua doença.
— Infelizmente não me lembro desse caso, mesmo sabendo da minha ligação nele... – Lucienne voltou a se sentar, sem desviar-se dos olhos verdes do rapaz. – Qual a importância disso agora?
— Estou trabalhando numa missão paralela. O veneno de Hell Stigma me atraiu muito pelo efeito rápido que fez numa mulher Perpétua.
Kumi fuzilou-o com o olhar e se levantou para empurrar o homem para fora de sua casa, mas Chris apenas colocou as mãos nos bolsos do sobretudo e suspirou, não cedendo do local onde havia se fixado mesmo com a força que ela aplicava em seu peito. Depois o rapaz passou suas mãos nos cabelos da ruiva que ficou estática em seu lugar.
— Vamos ser civilizados?
— Não podemos te ajudar com uma coisa dessas! – Ela rosnou de volta, retirando a mão dele após algum tempo em estado de choque. – Quantas pessoas você pretende matar com o veneno da Stigma?
Christian passou suas mãos nos ombros de Kumi e afastou-a de seu próprio corpo, segurando a frágil mulher no lugar e depois a sacudindo para calar sua boca. Por fim, com sua voz rouca de um choro desesperado contido na garganta, o moreno desabafou.
— Não entendes? Estou vendo minha amada irmã ruir! Ela está caindo em desespero e preciso de uma forma de derrotar Golden Black rapidamente. Acho que qualquer poder extra e perigoso em nossas mãos pode ser bem-vindo em relação ao caso.
— Vai usar o poder contra Golden...? – Kumi disse, entendendo o ponto de vista do rapaz. – Então acho que podemos tentar...
Lucienne não gostou da forma que olharam para ela. Contraiu-se na cadeira e mordeu o lábio inferior. Kumi foi solta e caminhou até a amiga, aproximando-se dela e tocando seus cabelos. Perguntou se poderiam fazer testes para analisar o sangue de Lucy e a outra não respondeu de imediato. A pergunta foi repetida de forma mais doce e persuasiva.
— Está bem... Desde que seja só um pouco de sangue.
— Nem vai sentir falta!
Sumia escutou toda a conversa por trás da porta e saiu correndo pelos corredores e subindo até o sótão onde sabia que encontraria seu irmão. Contou do plano do Dragão, como ela chamava Chris, com sua mãe e a Loba Loira, como sempre chamou Lucienne. O rapaz não pareceu ouvir de primeira e ela teve de repetir o final após ele a encarar com olhos morteiros. Sumia se aproximou um pouco mais do rapaz e se abaixou do lado dele, perguntando se estava tudo bem.
— Eu não quero mais me meter com elas, Sumia.
— Mas você... – Ela estreitou os olhos. – Kouta, você é a pessoa mais inteligente que eu conheço... Por que não ajuda o Dragão?
— Por que ele está do lado de Ilys.
— Você não gosta mais da Ilys?
Kouta então pegou seu celular e reproduziu a mensagem de voz desesperada de Octavia que falava sobre os feitos obscuros de Ilys. Então a imagem de Cora, antes uma garota animada e feliz, decaindo rapidamente na escola e fora dela veio em sua mente. A descrição da morte da garota foi tão clara que o estomago da menina revirou. Ela esfregou os olhos com as mãos no final da ligação, se sentando no chão e pensando sobre o que ouviu. Seria mesmo verdade? Ela precisava conversar com a albina. Quando se levantou e anunciou que o faria, Kouta segurou seu pulso e fez uma súplica:
— Deixe isso para lá, ninguém vai te odiar por não aceitar unir-se com eles.
— Eu faço isso por que eu quero. – E se retirou do quarto.
Ilys tinha menos um membro ao seu favor.
Segunda – 14:55
Chica estava com dificuldades para subir as escadas cheias de cacos de gesso e reboco. O corrimão estava imundo, mas ela não se importava em por a mão ali. Ao chegar ao topo da terceira escada, ela olhou para baixo e assobiou. Meu deus, como estava alto. O prédio abandonado deixava a luz do sol entrar nos corredores e nos degraus. Dava para ver uma placa de musgo em praticamente todas as paredes e a grama verdinha do lado de fora através dos buracos dela. Era um lugar bonito de se estar, com pássaros cantando ao redor, se enfiando em fendinhas e buracos para fazer seus ninhos. Era um lugar tranquilo e sinistro. Rose adoraria estar aqui.
Mas ela estava e era isso que havia levado Chica até aquele lugar. Olhou para cima e suspirou. Faltavam dois lances de escada. Ela apertou o passo e subiu mais rápido, seus olhos robóticos vasculhando a área. Entrou um corredor mais escuro e seus olhos começaram a brilhar em um tom alaranjado como duas pequenas lanternas, iluminando o caminho. Chica seguiu até acabarem as escadas e encontrou uma figura humana sentada no chão, logo no final do corredor.
— Rose!
Ela gritou e saiu em disparada com um sorriso belo no rosto. Mas quando chegou perto, diminuiu os passos e parou em frente à figura sentada. A loirinha se levantou e em pé, Chica sentiu o desespero apertar em seus ombros. A menina não era Marina. Uma outra mulher chegou logo após, colocando as mãos nos ombros da mocinha e essa olhou para ela, voltando a olhar para a robô depois.
— Bem-vinda, Chica.
— Onde está Rose?
— Rose não está conosco. – A voz baixinha da loira saiu tímida, e ela se afastou quando viu a expressão de Chica se converter em algo furioso. – Ela nunca esteve conosco, você foi enganada.
A loira era da mesma altura de Chica, tinha os cabelos curtinhos e uma faixa na testa com um clave-de-sol desenhado nela. Estava de jaqueta vermelha e branca, shorts jeans, meias listradas da mesma cor da jaqueta e tênis. Usava luvas, e estava segurando uma pasta verde grande.
Chica deu meia volta e caminhou de volta pelo seu trajeto, pressionando os olhos em raiva. Foi impedida quando a voz da loirinha logo atrás a chamou. Piscou algumas vezes e olhou por cima dos ombros, com uma expressão de desdém.
— Por favor, fica comigo.
— Como é?
— Fica comigo...
E então a mulher soltou os ombros da menina. A loira esfregou cada região apertada pelas mãos fortes e suspirou, seu corpo estremecendo em um choro contido. A mulher deu alguns passos para frente, tomando a frente da menina e colocando as mãos na cintura. Ela tinha cabelos negros e estavam amarrados num coque frouxo. Tinha também óculos quadrados encobrindo os olhos negros, um queixo pontudo e um rosto triangular e fino, nariz bem formado e lábios volumosos, com uma cicatriz que cortava a bochecha esquerda e o lábio superior. Seus seios eram volumosos e tinha a cintura fina como se tivesse arrancado duas de suas costelas. Usava um jaleco branco que cobria todo o corpo, mas dava para ver um vestido preto social por baixo.
Chica se aproximou dela e olhou para cima, se surpreendendo que o ângulo de sua visão dava exatamente para o meio daqueles grandes seios, uma vez que era bem mais baixa que a mulher. A mesma se abaixou um pouco, nivelando os rostos e exibindo um sorriso sarcástico em seus lábios pintados de vinho.
— Abraham realmente me surpreende. Finalmente seus testes fizeram efeito e conseguiu criar uma boneca capaz de amar. É capaz de sentir dor também?
Ela levou sua mão até o rosto palidíssimo de Chica e tentou beliscar sua bochecha, mas a menina bloqueou a mão levantando a sua própria e batendo seu pulso com o dela, logo após empurrando-o para longe. Exclamou um “não toca em mim” antes de estreitar os olhos em resposta da risada da cientista.
— O que você está fazendo com a loira?
— O pai dela a vendeu para mim. Na verdade é um aluguel. Eu posso fazer exatamente o que eu quiser com ela em um período de tempo. E agora eu farei o mesmo contigo. Sabe por quê? – Puxou os cabelos roxos de Chica antes que a menina pudesse revidar e trouxe o rosto dela para mais perto do seu, tendo os lábios colados aos ouvidos da robô. Sussurrou, deixando o hálito quente tocar-lhe ali de forma sensual. – Seu pai me deve isso.
Exibindo forças que ninguém imaginava que ela tinha, a mulher simplesmente pegou a robô no colo e depois a colocou sobre seu ombro, como se fosse uma criancinha. Chica não disse nada ou se rebelou, pois sabia que atacar ali, uma vez que viu na cintura da cientista uma arma, poderia significar a morte daquela loira misteriosa.
Os olhos de Chica foram vendados para a localização do laboratório permanecer em segredo. Não dava para saber quanto tempo se passou em meio a caminhada, mas em determinado momento a menina foi abaixada até o chão e sentada numa cadeira de plástico fria. O cômodo também era frio, e dava para ouvir um zunido baixo tocando no fundo da sala. Quando foi desvendada, as pupilas mecânicas da menina demoraram alguns segundos para regularem-se, aumentando e diminuindo de tamanho algumas vezes. A loira estava a olhando de volta, com uma expressão gentil e preocupada.
— Você está bem?
— Que horas são?
— Caminhamos por duas horas. Ainda não me respondeu.
— Eu sou um robô, por que não estaria? – Chica se levantou rapidamente, explorando com os olhos aquele ambiente estranho. A sala branca a incomodava muito. – Eu preciso falar com Abraham.
— Se ligar para ele, podem rastrear nosso telefone. – A menina disse, se sentando na onde Chica estava sentada anteriormente. – Acho que eles não podem saber onde que...
Chica já estava olhando de volta para a loira, com olhos morteiros, mas expressão fuzilante, e começou a caminhar em direção a ela novamente, aproximando aquela mão de juntas robóticas da garganta da menina. Ela recuou a ponto de encostar a parte traseira da cabeça na parede, com a cadeira levemente tombada para trás. Seus belos olhos claros e redondos fitavam de volta, tímidos e assustados, com os lábios retraídos em uma tentativa de engolir uma exclamação de medo.
— Eu não pretendo fugir, se ela aparentemente te matar se eu o fizer. – Sua voz pareceu mais baixa. – Mas eu preciso falar com Abraham. Avisar que estou bem. Ou ele pode investigar o caso e isso vai atrasar nossos trabalhos.
— Eu... Eu vou falar com Ruko.
A loira se levantou rapidamente e se recompondo após alguns segundos, correu para fora da sala e fechou a porta. Não era uma porta de segurança, ou seja, Chica não estava sendo mantida em cativeiro. Ela abriu a porta e olhou para o lado de fora, vendo um longíssimo corredor com poucas luzes, algumas que piscavam. O corredor se estendia até onde a vista alcançava. Apesar disso, ficou por ali esperando respostas daquela criancinha. Depois de meia hora, ela retornou com uma caixa de papelão e um caderno de almaço, além de duas canetas, uma preta e vermelha. Chica pegou as coisas de sua mão e pediu uma faca. A menina olhou de volta, com uma expressão duvidosa.
— Por favor, uma faca. Ruko pode vistoriar se desejar.
A menina o fez e logo retornou com a faca. Disse que Ruko sequer perguntou o que ela faria com a mesma. Então ambas se sentaram em volta da caixa e Chica pegou as folhas, escrevendo uma carta com uma letra completamente perfeita. A loira não ficou pendurada em seus ombros tentando ver, apenas observando de longe. Ela parecia séria e um pouco melancólica. Ao terminar, dobrou os papéis e colocou dentro da caixa. Depois se levantou e foi até um pequeno banheiro do quarto, sendo seguida pela menina que ficou do seu lado. A expressão de terror dela ao ver Chica deslizar a faca pela lateral do rosto com finalidade de rasgar o silicone demonstrava quão perturbadora estava sendo a chegada da robô. Com pequenos curtos saindo dos fios desencapados de seu rosto, a moreninha arrancou metade de seu rosto pálido e limpou-o de qualquer óleo ou impureza. Ficou parecendo uma máscara, cuja forma deixava o espaço vago de um dos olhos.
— Por que...?
— Rose tem um problema facial que a deixa sem autoestima para completar o que temos de fazer.
— Que é...?
— Derrotar Siyahs. – Ela disse, voltando para perto da caixa enquanto continuava. –Eu faço tudo por ela, até ceder parte de meu rosto de silicone.
— Ela não vai usar isso.
— Tudo bem. – Chica riu. – Ela vai usar... Eu ainda tenho esperanças de alcançar o coração dela.
A loira ajudou Chica embalar a caixa. Colocou dados simples em sua frente, dizendo apenas a data e o nome da robozinha. Do outro lado, o endereço inteiro de Marina foi escrito e a menina pegou-a nos braços para levar para fora do quarto. Chica estava sentada no chão, com as pernas abertas, uma toda encostada no chão e a outra dobrada, cujos braços se apoiavam no joelho e o queixo se apoiava sobre as mãos. Quando a menina estava se afastando, a outra exclamou rapidamente.
— Hey. Qual seu nome?
— Melody. Pode me chamar de Mel. – Ela disse, com dificuldades para abrir a maçaneta. – Eu vou ser sua companheira de quarto agora. Esse quarto que está é meu. Mas não se importe com isso, eu sequer tinha vontade de ficar aqui por muito tempo.
— Pretende fugir? – Melody não respondeu, mordendo os lábios antes de sair do quarto com a caixa, deixando uma Chica sem respostas. – Menina... Estranha... – A robô constatou.
Ela ficou ali. Rolou para um lado e para o outro no chão, olhando para o teto branco com uma lâmpada fluorescente branquíssima bem em seus olhos vermelhos. Depois olhou as paredes e por fim a cadeira de plástico. Passou a reparar que o quarto não havia decoração. Fuçou no guarda roupa marrom e viu que a menina gostava de roupas coloridas. Num armário menor havia um teclado empoeirado e um violino numa caixa, igualmente empoeirado. Depois tinha uma cama bem estendida e uma escrivaninha com papéis. Chica se meteu debaixo da cama. Lá tinha mais duas caixas com fotografias velhas, e acabou vendo-as ali mesmo, usando seus próprios olhos como lanterna. Acabou por dormir em meio às caixas, não se incomodando com a poeira uma vez que não precisava respirar.
Não sabia quantas horas havia se passado, mas quando olhou para a janela, o céu já estava vermelho. Melody estava sentada na cadeira, olhando para ela, – sabia que ela estava ali debaixo – esperando que saísse. Quando Chica se arrastou para fora, a loira deu um sorriso gentil e se levantou.
— Você... Acha que podemos ser amigas? Eu não considero ninguém aqui como...
— Não. – Chica a olhava no fundo dos olhos azuis, parecendo rude, mas na verdade falando de forma bem natural. – Eu não. Rose é minha única mestra.
— Mas... – Melody se sentou novamente, um pouco desanimada e com olhos baixos. – Eu disse amiga, não mestra... Eu não quero ser sua mestra.
Chica olhou para a loira e se sentiu estranha. O que ela falava fazia sentido em seu banco de dados, aquela frase estava realmente sendo processada. Piscou algumas vezes e sorriu docemente para a menina, indo até ela e estendendo sua mão direita para que fosse pega. Ao acontecer, ela balançou para cima e para baixo uma única vez, como se selasse um acordo.
— Eu vou voltar logo. – Chica disse. – Mas enquanto isso, acho que podemos...
Segunda – 17:59
Ilys tossia sangue enquanto estava esparramada no chão, se encolhendo após o ultimo chute em seu abdômen. Sua visão estava embaçada, ela estava ofegante, e não havia se transformado, pois sabia que qualquer castigo vindo das Perpétuas era merecido. Quem fazia aquilo era a própria Singel, completamente furiosa com o que havia escutado de Ágata.
— Já chega! – Alisson gritou, se aproximando de Ilys e pegando-a, pondo sua cabeça sobre as coxas, não se importando de sujar o vestido azul claro com o sangue da albina. – Meu deus, qual a razão disso? Podem mata-la...!
— Ela está estragando tudo. Metade de seu corpo é o “Mal”, Alisson, ela é um dragão. Sabe o que isso significa? Ela vai acabar com tudo. – Singel disse, tentando manter a postura imponente.
— Quanta besteira. – A loira respondeu, limpando o sangue do canto da boca da menina com a própria manga do vestido. – Ilys está dando tudo de si. Ela tem suas recaídas e por isso que precisamos ficar do seu lado. Não bater nela.
— Você está sozinha com ela então. – Singel disse, se retirando da sala e após isso, se retirando do prédio onde Ilys trabalhava.
Pouco a pouco, as Perpétuas se mostravam divididas. Lunatus e Annabelle deram meia volta e seguiram o rumo da primeira. Estavam aparentemente sem o apoio de 4 delas. Kikuri ficou em dúvida se ficava ou ia embora, olhando para a porta algumas vezes, mas Annie e Viktoria continuaram ali, encarando as mulheres. Annie agora estava totalmente do lado de Ilys, agora que não estava esperando um filho, agora que não tinha laço algum com as Siyahs. Viktoria era naturalmente dependente de Ilys e não tinha capacidade de escolha própria, então ficaria do lado da albina do mesmo jeito.
Ilys olhou para suas parceiras que ainda sobraram e deu um sorriso amargo, fechando os olhos logo após.
O mundo era bem mais complicado do que ela pensava. Sair de Conchita sem sua mãe foi a pior decisão de todas: Ela não tinha a mínima ideia de como liderar, uma vez que quando criança, mesmo sendo oficialmente líder, Yomi e Hakushiro amparavam-na muito. Estava sozinha agora. Ilys abriu os olhos e viu um céu azul claro e com algumas nuvens brancas. Se levantou, apalpando uma grama bem cuidada com flores pontilhando a campina. Olhando ao seu redor, já de pé, não sentia dor, não estava exausta, estava perfeitamente bem e curiosa. Onde estava? Começou a correr por aí saltitante, aquele lugar lhe era familiar. Em determinado momento, encontrou uma capela que era ainda mais familiar e seu sorriso sumiu. Agora tensa, andou com passos oscilantes, saltando e se girando quando uma mão tocou seu ombro.
— Lys, meu deus, você está linda...
— Mamãe!
— Venha cá... – Hakushiro estendeu as mãos para ser abraçada. – Eu sinto sua falta. Você nem imagina o quanto...
— Mamãe...! – Ilys não conseguiu controlar suas lágrimas e agarrou sua mãe com toda sua força. Hakushiro conseguiu girar a menina no ar antes de desabarem juntas no chão. – Meu deus, é você...
— Você herdou os lindos olhos de seu pai... – Haku disse, com uma voz suspirante. – Sente-se aqui, vamos conversar um pouco...
Ilys não queria comentar que o altar daquela capela – AQUELA capela – era onde Hakushiro tinha morrido. A menina queria chorar, estava tudo em sua garganta, seu corpo estremecia em soluços e Haku percebeu, abraçando-a. Então, começaram a conversar seriamente.
— ...Eu não sei o que fazer. – Ilys explicou a situação e encerrou-a com isso. – Todos me odeiam, se não todos, uma grande maioria. Metade das Perpétuas, quatro escolhidos... Eu não controlo meus instintos.
— É o problema herdado de seu pai. – Hakushiro negou com a cabeça, suspirando. – Vamos pensar em uma forma de resolver... E se você pedir desculpas?
— Eu matei alguém!
— Ora, e se você pedir muitas desculpas?
— Mãe! – Ilys encarou a mais velha completamente incrédula com o que ela falava. – Bem que dizem que você não faz mal a uma mosca! – E Hakushiro deu uma risada gostosa.
Hakushiro não havia mudado desde a última vez que Ilys a viu. O que era óbvio, afinal a menina sabia que aquilo tudo... Infelizmente... Não era real. Seus cabelos eram curtos e com camadas, que deixava um pouco armado. Os braços estavam com cicatrizes horríveis da doença que a pegou em vida, e ela via também as mesmas marcas no pescoço. O rosto dela continuava angelical e intocado. Ela era linda. Seus olhos prateados combinavam com as madeixas cor de neve, dando um aspecto ainda mais sobrenatural ao rosto da mulher. Ilys queria beijá-la e abraça-la como nunca tinha feito em vida. Queria ficar do seu lado para sempre. E Haku disse:
— Você deve mostrar para elas que essa fase não é a sua personalidade oficial. Mostrar que está tudo sobre controle, dar a elas a tranquilidade de conviverem com suas asas e cauda sem medo. Por que não se transforma na frente delas e deixa que se aproximem...? Assim poderão ver que você não é tão ruim assim.
— Eu acho que posso fazer isso...
— Não precisa ter medo, ser escolhido está no sangue. Eu também não desejava. Eu também briguei muito com Yomi quando jovem. – Ela riu. – Mas entendi que era meu destino e é por isso que somos escolhidas como Perpétuas do Destino. – Tocou os cabelos da filha e depois os próprios. – Sempre pense nisso ao se olhar no espelho. Você é o elo mestre dos escolhidos, Lys. É a cola que gruda todo mundo junto. Então se mostre forte.
— Mãe... – Ela disse, olhando docemente para a mais velha. Depois abriu um largo sorriso e se afastou um pouco. – Eu devo falar com cada um? Cada um que magoei? Tentar arrumar tudo? – E Haku concordou.
— Eu confio em você...
Ilys abriu os olhos e, sentindo o rosto molhar com lágrimas, ela saltou do colo de Alisson rapidamente como se não houvesse ferimento algum. Limpou o sangue seco em seus lábios e simplesmente caminha em direção de Viktoria, pegando-a no colo e levando-a consigo para fora da sala.
— Onde vai?! – Kikuri gritou, acompanhando a albina com os olhos. – Com a pequena Vik?!
— Vamos reunir todos para treinar.
— Reunir todos? Você destruiu os elos, como pretende arrumar?
— Dando a eles o que desejam: A minha ausência. – E se retirou. Alisson se levantou do chão e correu atrás de Ilys, pedindo para que esperasse.
Terça – 13:15
Uma Yamaha Star Bolt parou em frente do prédio de Abraham. Marina conseguiu ver pela janela do quarto, lá do alto. Se escondeu logo após, nas sombras, indo para debaixo de seus cobertores. Abraham estava em casa e quando a portaria ligou para sua casa, ele atendeu e prontamente se arrumou para receber a visita. Um moço de cabelos pretos na altura das orelhas, levemente ondulados e sem franja encobrindo a testa desceu da moto e deixou o capacete no acento. Demorou 5 minutos para a campainha tocar.
Ele abriu a porta e encontrou o rapaz com uma caixa de papelão nas mãos. Estava meio sem jeito, entregou a caixa, passou as mãos nos fios curtos da barba e visou se retirar. Abraham chamou-lhe a atenção.
— Não quer ficar para o almoço, Brahms?
— Sem... Problemas para vocês?
— Em nome dos velhos tempos.
Abraham e Brahms já foram amigos quando mais jovens. Reencontraram-se em Tokyo quando Abraham foi chamado por Lyrin e Ruko, mas os dois não se olharam muito devido a alguns problemas: Depois do término de Brahms com sua esposa, ele começou a sair com a cientista morena e deu a ela sua filha em troca do salário de auxiliar. Sua própria filha... Enquanto Abraham fazia de tudo para proteger Mari. Agora, dois solteiros – um viúvo – fez com que se batessem melhor.
— Eu juro que não sabia o que ela quis dizer com “dar Melody” a ela... Eu pensei que ela queria apenas enche-la de trabalho... – O moreno lamentou.
— Tenho medo de saber o que eles fazem com ela lá. – O outro acendeu um cigarro. – Quer? – Brahms negou com a cabeça. – Estranho terem saído, sabia? Quero dizer, eu sei que Ruko tem uma atração por meninas jovens.
— Ela tem suas fases. Eu pensei que poderia mudar a personalidade dela, já que Ruko se casou uma vez e tem um filho.
— Ela tem um filho? – Abraham fez uma expressão de surpresa e respeito. – Falando em filhos, como está Melody?
— Melody está um pouco doente. Possui leucemia e se nega a fazer tratamento. Diz que prefere morrer com a honra intacta. Ela é um pouco complicada de se lidar, mas é uma filha adorável. Está aprendendo alguns instrumentos agora. E seus filhos?
Abraham chamou Marina e ela veio de prontidão. Ela estava de camisa larga e longa rosa com uma borboleta no peito que lhe cobriam parte das coxas. Estava tecnicamente bem arrumada, mas estava descalça e de olhos fundos, exausta, com a expressão morta de sempre. Brahms se perdeu nos olhos negros opacos da loira e perguntou para Abraham em seu ouvido o que havia acontecido com ela e o rapaz apenas suspirou em resposta.
— Bom dia, Mari. Eu te peguei no colo! – Ele sorriu. – Onde está seu irmão?
Marina estreitou os olhos, mas não reagiu. Olhou para seus lados e viu a caixa de papelão, indo até ela e abrindo rapidamente. Enquanto os caras conversavam, a menina se manteve ocupada lendo a carta de Chica explicando situações. Tombou a cabeça para o lado, sem expressar nenhum tipo de animação novamente. Por fim, pegou a máscara de silicone e levantou-a no alto.
— Chica está com você? – Ela olhou para Brahms, séria. – Minha empregada.
— Está. Mas eu não posso a trazer, infelizmente. – Abraham se levantou de súbito. – Ei, calma, ela está bem!
— Sabe quem é “ela”?
— Não, mas...
E então seu pai começou a gritar e gritar, e Mari que estava completamente não afim de participar daquela discussão, pegou a máscara e os papéis, indo para seu quarto novamente.
A discussão ficou calorosa na sala, o pai de Mari exigia a devolução de Chica para a família, dizendo que ela não era uma coisa qualquer e sim um membro da família. Enquanto isso, a loirinha lia a carta com mais cuidado.
“Eu sinto tua falta, Rose. E queria que estivesse aqui agora. Estou aqui por que ameaçaram sua saúde, então não se preocupe, ficarei bem e retornarei para casa em breve. Deixo contigo um pedaço de mim para que você possa lutar sem medo de mostrar o rosto. Use-a como se fosse uma máscara de teatro, depois falo para meu pai refazer meu rosto. Tentarei te mandar cartas para dizer como vão as coisas aqui. Vou aproveitar meus processos para ficar forte e te proteger...”
— Eu não quero saber... – Ela grunhiu.
Terça – 14:07
— Eu acho difícil a pesquisa dar certo em menos de um mês.
— Garoto de pouca fé.
— Já faz alguns meses que estamos nisso, e aqui na Itália não temos a tecnologia de Tokyo. Isso vai me atrapalhar muito.
— Tss... – Ruko grunhiu e encheu sua xicara com chá. – Eu tenho tudo o que precisamos para isso, basta marcar nossa viagem de volta para Tokyo. Pretendo fazer isso logo de noite. Levaremos as garotas e Brahms conosco para terminarmos os estudos.
— Você pretende fazer com que uma robô simplesmente ceda totalmente? Quero dizer, que ela abaixe a cabeça para seus caprichos? Você esta brincando com a sorte. Chica tem muita força dentro daqueles circuitos. Meu marcador estourou quando fui medir seus reflexos.
— E ela vai ficar ainda mais forte inserindo os genes de Siyah. E seu corpo não vai ruir, por que ele não é orgânico! Isso não parece fantástico? Ela não morrerá.
— Ela pode se rebelar contra você depois.
— Não. Não vai não. – Ela bebeu seu chá com um sorriso vitorioso no rosto. – Vai dar tudo certo!
O rapaz que estava junto de Ruko se levantou e jogou seu headset na mesa do computador, se levantando logo após. Ele era um moreno cuja franja encobria os olhos e às vezes mexia com o cabelo de forma que um dos olhos aparecia, exibindo o orbe negro. Tinha um nariz pequeno e lábios iguais ao da cientista, volumosos e de sorriso amplo. Era magro e alto, usando um suéter preto com uma coroa e letras douradas que formavam KING no peito. Usava calças jeans cinzas e tênis de cano largo brancos, cujo cano estava frouxo pelos cadarços estarem passados até a metade dos passadores.
Ele se alongou e disse que iria tomar alguma coisa no bar da praça. Ruko deixou-o passar por ela, mas olhou para ele por cima dos ombros, antes de deixá-lo sair da sala.
— Eu preciso muito que faça amizade com elas. A loira e Chica.
— Por que eu?
— Por que você é jovem. E é um hacker, poderia muito bem entrar na cabeça da robozinha para fazer com que ela aceite os procedimentos.
A porta foi escancarada e a pálida Chica apareceu na sala, se aproximando do garoto e olhando no fundo de seus olhos que estavam ocultos. Ela era mais baixa que ele, parando um pouco acima de seu peito. Seu rosto estava furioso. Olhos estreitos e lábios pressionados. Então ela retirou as mãos dos bolsos de sua jaqueta branca e mostrou-se completamente relaxada, olhando agora para Ruko – que estava assustada – do outro lado da sala.
— Não precisam me manipular. – Ela disse. – Estou aceitando a proposta.
Melody estava logo atrás, brincando com um ioiô vermelho e olhando para o chão, enquanto mascava chiclete.
— Como é? – Ruko disse, sorrindo maliciosamente. – Quanto tempo faz que está aí?
— Melody me chamou quando ouviu meu nome sendo citado. – Ela olhou para a loira, que só olhou para cima quando foi citada. – Eu estou aceitando, desde que prometam não fazer mais nada com ela.
Ruko saltou de sua cadeira e saltitou pela sala, se aproximando do próprio filho e roçando seu rosto no pescoço dele, depois se colocando do lado do mesmo e tomando sua mão.
— Então vamos viajar agora mesmo!
— Meu pai ainda não chegou... – Melody disse, tímida.
— Shit! – Ruko bateu em sua própria testa, suspirando. – Ok, ok, vamos lá! Assim que ele chegar, partiremos! Existem muitas pessoas lá que vocês vão gostar! Uma pena que a primeira geração foi morta...
— Morta...? – Chica se sentiu mal com essa informação. – Você matou elas?
— Eu não! Eu nem estava envolvida com elas! – Ela riu. Depois se aproximou de Chica, deixando os lábios perigosamente próximos aos dela. – Quem as matou foi Ilys... A propósito, esse aqui é Irie. – Ela voltou a sorrir.
— P-prazer. – A robô disse.
Terça – 16:00
Louise tinha conseguido reunir todos os escolhidos na mesma sala pela última vez, pelas formas que estavam agindo. Discutiam entre si, e depois falavam mal de Ilys. Christian estava no fundo do cômodo, tomando vinho numa taça de cristal enquanto observava a discussão meio alheio de tudo.
A porta foi aberta lentamente e um silêncio reinou por um segundo, enquanto Ilys e seu sorriso gentil entrava junto da expressão morteira de Viktoria. Ambas deslizaram seus olhos para cima dos membros ali e a menininha foi puxada pela mão até o centro da sala. Luke automaticamente se levantou, mas Vik estendeu a mão para ele pedindo que parasse com gestos e olhar.
— Como que você ousa?!
— Estou aqui a negócios. – A voz da albina estava intocável e imperturbável. – Sei que muitos de vocês querem que eu suma. E eu entendo. E eu farei isso desde que vocês terminem a missão comigo. Até por que sabem que Golden vai esfolar cada um aqui assim que eu der as costas à causa...
E aquele sorriso ficou ainda mais perturbador. Marina estava ao lado de David completamente desatenta ao discurso, enquanto ele olhava para a albina por ele e por ela. Luke foi puxado até seu lugar por Kamille que se aproximou de Ilys logo após.
— Estamos começando a ficar com medo de suas atitudes, Ilys. – Ela disse, olhando para seus companheiros. – Eles estão achando que pode explodir e nos matar a qualquer momento. – Colocou a mão no peito, começando a falar de uma forma mais melodiosa como se estivesse prestes a chorar. – Eu confio em você, por que minha mãe também confia. Aposto que Sumia também está aqui de bom grado, não é? Ela também tem relatos em sua família que comprovam a sua bondade. – Sumia concordou. – Mas está nos metendo em um caso complicado, Ilys.
— Eu sei. – Ela suspirou. – E é por isso que estou aqui.
Christian olhou atentamente para Ilys quando ela liberou as asas, os chifres e a cauda. Ele saltou da cadeira e correu até ela, pensando que aquilo poderia ser algum tipo de descontrole, mas parou quando ela pareceu completamente tranquila.
— Essa é a forma mais diabólica vindo de mim que verão. – Finalmente a atração chamou atenção de Marina. – Então... vocês podem simplesmente explorar essa minha forma aqui. Eu não vou ferir mais ninguém inocente.
Kouta aproximou-se de Ilys após aquilo e deslizou as mãos pelas pontas de suas asas. Depois, um pouco exausto de tudo aquilo, disse em uma voz de reclamação:
— Sua palavra não vale muito agora, você matou uma inocente importante para Luke e nos ataca quando algo não sai do jeito que planeja.
— Não precisa acreditar em mim, precisa me ajudar. Nunca mais me verão na sua frente após isso...
— A faixa em sua cintura é do que? – Octavia comentou, lá no fundo da sala. – Aconteceu algo?
— Me meti com uma briga. As... Perpétuas não andam gostando das minhas atitudes com vocês, e é por isso que quero recomeçar. Quero que tudo fique bem agora.
— Eu acho que devemos dar uma chance para ela. – David disse, abraçando Marina. – A última.
— Eu acho que... Sim. Desde que suma após isso. – Octavia disse, e Kouta concordou com a cabeça. Depois, membro após membro concordou com alguma reação.
— Ahh! Obrigada! – Ela sorriu, sacudindo a cauda de um lado para o outro como um cachorro feliz.
Terça – 19:00
— Há muitas crianças para você brincar lá, sabia?
— Eu posso fazer um diário...? – Chica perguntou para Ruko que riu antes de olhar para trás e concordar com a cabeça. – Quer expor o que acontece contigo para sua amiga filha de Abraham?
— Algo assim...
— Desde que só envie quando eu a liberar...
— Claro.
Melody passou a viagem inteira aninhando Chica em seus braços. A robô estava com uma espécie de mascara de ferro que lhe encobria toda a cabeça, desmontável nos lábios e nos olhos. A parte dos olhos era encoberta com uma placa de acrílico negra que se abria, e a parte da boca estava conectada ao cano de uma máscara de gás com dois filtros. Quando o avião saiu da cidade, ela girou dois botões em seus ouvidos, tirando todos os sentidos de Chica. A loira nunca saberia a razão da máscara, mas se lembrava de ter usado uma quando entrou no centro.
Quarta – 11:00
Luke havia ignorado a presença de Ilys o dia todo, enquanto ela observava o treinamento dele contra Louise. Ela, assim como Ilys, havia treinado quando criança e lutava muito. Conseguiu defender-se de seus socos certeiros que por pouco não lhe arrancavam o ar. Mas ela sentiu certa dificuldade contra o poder de fogo dele, além do Poder de sua pedra. Levando em consideração que aquelas armas eram similares ao organismo das Siyahs, era muito complicado para uma quase Perpétua conseguir simplesmente se safar de ambos. Suas calças de couro haviam se queimado em determinadas regiões, e a loira gritava de volta, reclamando da ousadia dos ataques do menino.
Ao terminar, Luke estava ferido no braço e Louise simplesmente não conseguia se colocar em pé. Esse resultado agradou as outras Perpétuas. Elas serviram os primeiros socorros enquanto parabenizavam o menino que simplesmente estava ganhando uma postura arrogante demais para responder.
Caminhando de volta aos braços de sua mãe, encontrou Lucy assustada com a evolução monstruosa do menino. Ela não conseguia saber quando que os braços de Luke ficaram tão músculos e seu peito tão robusto. Ilys apenas anotava os resultados num caderno, sem se importar mais com o bem estar dos jovens.
— Octavia e Sumia. – Ela chamou, e as meninas foram até a frente de todos os escolhidos.
Kouta foi logo atrás e, ao ver o poder de Octavia ganhar vida, simplesmente não sentiu pena da mulher, que seria, de fato, mutilada pela irmã. Era o que ele imaginava. Momo tomou o lado de Sumia e atacou o lorde de Octavia, enquanto ela lançava uma magia de cadeia na mais jovem. Sumia tinha apenas ataques ofensivos que eram feitos de força bruta e tinha fraquezas contra magia, e era ai que Kouta entrava. Ele criou uma proteção arcana na frente da menina, e quando as magias se chocaram, foram anuladas, e Sumia atacou a maga com um tiro que fez o livro saltar de sua mão.
Ela correu ate o livro e o pegou, rolando no chão quando Sumia atirou novamente. Começou a usar magias ofensivas, esferas de veneno que poluíram o ar de forma que nem mesmo Ilys conseguia observar com os olhos inteiramente abertos. Kamille e David abriram as janelas para evitar intoxicação de todos. Sumia desenrolou sua touca e a amarrou na boca e nariz, fazendo uma máscara improvisada. Avançou contra Octavia, que sequer moveu um músculo, elaborando seu plano forte antes mesmo da menina atacar. Quando Sumia atirou, um clarão tomou a sala e todos protegeram seus olhos, e Annie agiu de imediato.
...
— Ghss... Esses jovens estão cada vez mais suicidas.
E Octavia estava prestes a atacar com as esferas de veneno, e Sumia não estava com a máscara improvisada, e ambas olharam ao redor como se um déjà vu tivesse acontecido. Annie estava olhando para seu relógio de bolso, séria, e Ilys caminhou até ela tocando seu ombro.
— Algo ruim aconteceu?
— Octavia acabou de matar todas nós.
— Espere, como é?
— Essa magia de veneno faz uma combustão terrível, e quando acesa por um tiro, explode.
— Sua carta mágica, seu trunfo e sua morte.
— Sua carta mágica, seu triunfo e sua morte. – Annie corrigiu, guardando o relógio. – Octavia pode explodir mundos com esse ataque.
— Pode explodir Siyahs? – Annie olhou para a outra e deu um sorriso debochado. – Oh. Apenas uma... Por favor...
— Elas morrem apenas com a própria chave delas.
— O que acha de usarmos a chama de Luke para forjar uma arma capaz de derrotar Golden?
— Jeff...! – Ambas falaram juntas.
Pondo Viktoria para anotar os resultados das lutas e Alisson para sortear as participantes, Annie, Luke e Ilys saíram da sala para criarem a arma capaz de destruir tudo: A nova lança do destino.
Quarta – 12:10
Jeff quase não cedeu a posse da chave para a menina. Precisou de muita insistência de Annie, alegando que se ele fizesse isso, seu nome seria limpo perante a lei. Ilys era uma advogada, afinal. Mas conseguindo a chave, todos eles foram até a casa de Singel, Perpétua que não estava presente no treinamento.
— Eu não vou fazer isso.
— Eu preciso que faça. – Ilys disse, suplicante. – Por favor. Se duvida de mim, pergunte a Annie.
Singel não podia negar um pedido de Annie, uma vez que ela era muito importante para a mais velha desde os primórdios dos tempos em que se conheciam como Perpétuas. Quando a mulher olhou para a outra com olhos cansados de lutar e prestes a quebrar, Singel suspirou e pegou a chave dourada.
A chave foi levada para uma sala nos fundos da cabana de madeira onde ela morava. Lá havia maquinários bem medievais para produzir materiais de ferro. A chave foi depositada em um balde de pedra e esse por sua vez foi posto na entrada de um forno. O forno atingiu sua força máxima e só depois que Luke ajudou com sua chama que a chave começou a derreter em uma sopa dourada de ouro. Com uma pinça grande, o pote foi despejado em uma placa de pedra guardada a muito tempo com a forma da lança de ponta curva que já foi invocada por Ilys. A dela era feita de aço, e a nova teria a ponta venenosa para Golden. Singel martelava, moldava, mexia no formato até que ficasse de seu agrado. Era claro para todos ali presentes que ela era profissional no que fazia e Annie sabia do passado das habilidades dela: Não havia uma arma sequer que ela não tenha feito dentro dos exércitos de Aljha Rhara, Karanlik, Beyas ou Conchita.
Singel limpou o suor da testa e desdobrou as mangas enroladas da camisa branca, imunda no momento. A lança foi jogada num balde com água e resfriou. Depois, polida e limpa, revelou o símbolo dos conchitanos gravado num dos lados. Ela uniu a ponta a um cabo de madeira forte e enrolou a emenda com uma fita alaranjada de seda. Lançou a arma pronta para Ilys, que exibiu-se movimentando-a lindamente ao seu redor. Sua lâmina uivava sobre as cabeças dos membros, que as vezes se esquivavam, e a mesma também deixava um belo rastro dourado atrás.
— Espero estar de seu agrado.
— Está. Obrigada.
— Agradeça encerrando esse assunto. Eu não aguento mais olhar para sua cara.
— É reciproco. – Ilys silvou entre os dentes. – Mas não vai demorar mais que um mês.
— Eles estão prontos...?
— Estão. Preparados para matar ou morrer.
— Que assim seja...
Os presentes se retiraram da sala e Singel finalmente se esticou em sua cama macia, descansando toda a dor dos músculos já velhos demais para trabalhar.
Foi nessa posição que foi perturbada por Lunatus, encostada no batente da porta de seu quarto com seus longos e sedosos cabelos negros e seu vestido branco com rabo de sereia. Seu sorriso era petulante. Quase intimidador, como se planejasse a morte de alguém. E de fato era, talvez. Singel descobriu os olhos com o braço e olhou para ela, séria.
— Sabe por que Golden está deixando o grupo treinar?
— Por que...?
— Por que ela quer mostrar que não há ser vivo nesse mundo capaz de derrubá-la. Ela está se tornando Deus.
— Por que diz isso...? – Singel disse em meio a um suspiro.
— Por que... Lyrin está dando forças a ela. Todos nós teremos um lugar ao novo reino, criado por Golden.
— Lyrin...?
— O Midnight... – Singel se levantou quando a outra disse isso. – Ele está com todas as forças. A fraqueza de Golden se tornará seu aliado.
— Estão criando uma nova Siyah?!
— Estão criando uma Siyah com os poderes de Zero...
— Isso é loucura!
— Isso, minha amiga... – Ela se virou, visando se retirar. – É o futuro.
Quarta – 14:05
A albina exibiu seu novo artefato para os escolhidos, que estavam maravilhados com a nova lâmina. Ela acabou por testar a arma com todos que quiseram, e pediu para Annie conseguir algumas armas para cada um deles, vindas diretamente de Singel. As espadas duplas, a lança, a besta, o mangual de espinhos, a katana, as adagas de arremesso, o athame, o cutelo, o grande martelo e uma funda.
Ilys não os veria pelo resto do mês. Eles treinariam com as novas armas. Ela mesma acabou por treinar até a exaustão, e a Perpétua do desejo ligou anunciando seu retorno.
Segunda – 07:19
O retorno dela causou alvoroço nas demais, pois todas sabiam que debaixo dos panos, estava uma cientista trapaceira e traidora do credo delas. Data e hora marcadas, os protetores do credo de Conchita fizeram fila em frente ao trem que trazia a loira. As Perpétuas de um lado e os escolhidos do outro, todos armados silenciosamente, prontos para atacar...
A porta do trem se abriu e quem saltou de lá foi uma figura bem menor que Lyrin. Ela tinha cabelos roxos e lisos, apenas um olho vermelho. Tinha um braço e meio rosto costurado e a pele clara, mas levemente rosada. Vestia um Macacão Colante preto e roxo, com duas ombreiras que continham dois chifres curvados como os de um rinoceronte. Ela jogou o colar vermelho para Annie, que o pegou no ar, reconhecendo o mesmo como o colar de Perpétua de Lyrin. Todos olharam para a menina, horrorizados e viram o trem partir atrás dela. A loira não veio.
— Onde está... – Annie começou, mas foi interrompida.
— Em coma. – A resposta foi seca. – Em coma igual a mãe da pirralha. – E apontou para Viktoria. – Com os pulmões cheios do veneno que colocaram em mim para me conter. Mas agora estou aqui. – Deu um rodopio em seus calcanhares e fez uma reverência teatral, aquelas com o braço logo à frente do abdômen. – Chica Tetera ao seu dispor. Poison Kiss para as Perpétuas.
— Te transformaram em uma Siyah... – Ilys estremeceu, sacando a lança. – Eu vou ter que eli...
— Vai eliminar três de nós. Além da Golden. A mulher fantasma e a babá de gelo também são.
Ilys não respondeu e tomou cuidado com suas reações. Olhos azuis encararam a orbe de vidro vermelha, numa tensão como se anjo e demônio estivessem se preparando para o ataque mútuo. A albina não podia começar mais uma guerra, ainda mais por que sua relação com Marina estava em um fio. Chica caminhou até Mari que a recebeu com o mesmo olhar de gelo. Acariciou seus cabelos loiros e entregou dois cadernos grossos, com algumas marcações, a capa um pouco chamuscada e suja de marrom. Por fim, seguiu seu caminho, sem dizer mais nada. Escolhidos e Perpétuas estavam atônitos: Chica era a criatura mais divertida e animada do grupo e agora parecia simplesmente “nada”.
Quando chegaram na sede do grupo, Chica se sentou numa cadeira como uma dama. Não parecia nem de perto aquela garotinha robótica que sorria à toa. Ilys limpou a garganta e começou a exibir dados na tela do computador, onde marcava registros das atividades e das habilidades realizadas por cada membro. Os medidores de Luke eram os mais fortes em força bruta. Octavia se surpreendeu a ver que seus medidores de magia não eram mais altos que o de Viktoria. Na verdade, ela tinha números incríveis e nunca havia treinado em grupo. Naquele momento, estava em pé do lado de Ilys, olhando a tela e depois para o grupo como se estivesse totalmente alheia ao assunto.
Então o grupo se dividiu em dois times. Os de magia que atacariam de longe e os de força bruta que incluía Kamille, Luke, Yuki, David e Louise, que de forma impressionante, estava com os números apenas um pouco abaixo dos de Luke. Os grupos não quiseram combinar estratégia pelo simples fato de não terem a menor ideia de como Golden Black lutava. Fizeram teorias:
— Talvez... Ela tenha força bruta e lute no mano-a-mano! – Kamille socou a própria mão quando disse aquilo. – Então meu grupo pode simplesmente socá-la até a morte.
— Não, não temos registros de Siyahs que apenas batiam. Não se esqueça que eles possuem um nível igual ao nosso, com margem de erro para cima e para baixo dependendo do tipo. – Annie corrigiu a mulata. – Ela possivelmente tem um ataque à distancia, então quem ficará de suporte, atenção. – Kouta, Octavia e Marina concordaram com a cabeça. – Bom, algo para ressaltar, Ilys?
— Vidia tinha um livro de raças na biblioteca. – Octavia falou antes de Ilys sequer tomar fôlego. – Posso pedir para Amethyst ler para a gente por telefone.
— Deixou seu Poder em casa?! – Sumia gritou, pegando a própria pedra nos dedos. – Está louca?!
— Ele está ferido, não pode lutar. – Octavia deu um olhar venenoso para Ilys. – Vou fazer isso já.
Enquanto ela ligava para o rapaz, Chica se levantou e caminhou pela sala, observando. Então, ela olhou para Ilys, com a expressão morteira de desdém. Ilys retribuiu o olhar, um pouco zangada, achando que a menina estava sendo ousada demais.
— Eu vou ser a isca.
— O que...? – Ilys tombou a cabeça para o lado.
— A isca. Eu vou atacar Golden primeiro para testar suas habilidades.
— Vamos descobri-las agora, não precisamos de uma isca.
Chica colocou as mãos sobre uma mesa, usando como apoio para se sentar sobre ela num salto. Então ela olhou para todos ali novamente e por fim olhou para Marina, lançando para a mesma um globo ocular vermelho amarrado em uma espécie de corda feita em forma de rede. Marina deixou o mesmo cair em seu colo e só depois pegou-o e olhou para o mesmo. Por fim, olhou para a garota que exibiu o lado costurado de seu rosto, de forma que havia até mesmo ausência de cavidade ocular. Ela sorriu e Mari entendeu que a mesma estava perguntando sobre a “máscara branca”.
Pela primeira vez, aquele lado de seu rosto foi mostrado para os escolhidos. A franja foi posta para o lado, exibindo a metade da face encoberta pelo silicone que anteriormente vivia encapando os mecanismos do rosto de Chica. Quando a loira fez menção de se levantar, foi impedida por uma mão, e olhou para David perguntando com os olhos a razão.
— Posso falar agora...? – Chica olhou para Ilys que parecia consentir. – Vocês não vão encontrar muita coisa de Golden, o livro foi escrito por criaturas que não enfrentaram Golden, até por que ela não foi vencida alguma vez. Seu contrato com Jeff era uma fraude.
— Está dizendo que a chave não a mata...?! – Ilys se levantou, quase derrubando o computador junto de sua brutalidade. – Então como que...
— Mata sim, mas ele não tem nenhum controle sobre ela. Muito pelo contrário, é bem provável que ele mesmo esteja sendo controlado com algum presente idiota. – Deu de ombros, desviando o olhar. – E só assim que vamos vencer ela. Fechando a fechadura com a chave.
— A chave está conosco. – Annie disse, olhando de certa forma curiosa para a menina. – Fizemos uma arma com ela.
— Ah, se é assim me ignorem, vou dormir. – E se esparrama na mesa, cobrindo o rosto com os braços.
Octavia voltou correndo com uma expressão séria.
— Não temos muitas informações. Apenas que seu ataque mais poderoso dizimou um dos exércitos de Karanlik.
Annabelle assobiou, surpresa. Annie fez uma expressão que demonstrava a mesma coisa. Destruir aquele exército não era fácil até mesmo para as Perpétuas. Todo mundo ficou em silêncio com aquela informação e após algum momento David se levantou e limpou o canto da boca com as costas de uma das mãos, colocando as mãos no bolso e exibindo um sorriso confiante.
— Vamos lá. – Ele disse. – Vamos morrer se perdermos, e morreremos também se desistirmos. Então vamos vencer.
Fale com o autor