Aljha Rhara: Return to Zero - Livro 5
13 Hells Bells
Sexta – 14:13
Se passaram algumas semanas. Ilys podia ver nos olhos de seus escolhidos o fogo de vencer. No dia da reunião e do teste final, Luke, Sumia e Kamille não estavam presentes e preocupada, Ilys mandou Jim localizar o loiro.
– Eles estão resolvendo pendencias externas.
– Não estão se metendo com Golden sozinhos, você jura para mim?
– Juro. Na verdade o chip de Luke tem uma rota bem oposta...
David estava aparentemente mais tenso que o normal. Ilys caminhou até ele e se abaixou para ficar na sua altura, olhando fixamente em seus olhos roxos. Perguntou se o menino sabia do paradeiro dos jovens e como ele estremeceu: mesmo que mentisse, ela saberia que ele estava mentindo, então ele não seria burro. E de fato não foi.
– Fizemos uma noite dos meninos no domingo passado. Falamos sobre Lucy, sobre a namorada de Luke, a prima dele, sobre muitas coisas. Sobre os problemas que a Marina teve com a mãe... – Ela olhou para ele quando foi citada, estreitando os olhos. – E sobre meu pai. Eu falei que muito dos problemas, e também do atraso que estamos tendo na busca de Lucy foi por conta de meu pai.
– Já entendi. – Apesar de a mulher tentar se mostrar serena, Ilys estremecia por dentro. – Você comentou disso com Djin também? – Ele concordou. – Então Luke e Djin foram ver seu pai para se vingar do atraso em relação à nossa busca da tia Lucy.
– Como sabe...?
– Por que Luke é o que está mais dando de si para recuperar a mãe, prima e namorada. Ele está envolvido pessoalmente no caso.
David se abraçou e sentiu o maxilar tremer. Marina olhou para ele, ainda um pouco distante do mesmo, já que bem pareciam “não amigos”, e ignorou a atitude do moreno. Ela se sentia estranha. Precisou dela, David, e do fator surpresa para conseguirem fazer alguma coisa em relação ao monstro que David se recusava a chamar de pai. Luke sequer havia tocado em Giovanni e agora queria realizar aquela tarefa sozinho? Que imbecil. Ela achava isso. Que loiro imbecil. Mari enroscou os dedos na camisa branca estilo social, bem transparente que mostrava um top branco por baixo. As pernas cruzadas definindo a saia azul marinho se apertaram mais e ela saltou, explosiva, olhando para David e para Ilys.
– Já passaram meses desde que nos encontramos! Quanta preparação é necessária para acabar com três mulheres?! Só três mulheres!
– Menina. – Ilys se levantou. – Abaixe o tom de voz.
Se Mari sentiu medo alguma vez, naquela hora foi três vezes mais forte. Tropeçou e caiu sentada no piso branco da advocacia, tendo sua mente toda fragmentada comparando Ilys com um demônio, ou algo assim. A expressão dela estava tão sólida, os lábios comprimidos em uma fina linha, as mãos na lateral do corpo como um soldado, a respiração densa. Os olhos estavam tão opacos quanto os de Viktoria sempre estiveram.
– Por que se ofendeu com algo tão simples?
– Essas três mulheres desgraçaram gerações e mais gerações de pessoas com poderes comparados aos dos deuses terrestres. O que vocês chamariam de anjos, o que chamariam de demônios, o que chamariam de semideuses, de forças da terra, de espíritos protetores, de mitologia... No nosso mundo sai do papel e realmente existe. E elas são nossos inimigos. Somos os seres divinos, e elas os seres demoníacos. Eu não vou deixar que elas destruam mais uma geração de...
– Para. Para com isso. – Mari trincou os dentes. – Minha cabeça não absorve o que você me diz, Ilys. Ela não vê sentido nisso. Sou cética? Sou. E daí? Além do mais, o que tenho a ver se SEUS antepassados sofreram com um grupo de rebeldes? O que todos nós temos a ver? Nascemos aqui... Somos daqui. Sou filha de uma italiana com um inglês. E eu tenho meus problemas.
Ilys avançou contra Marina e agarrou-lhe a gola da blusinha. Ergueu o corpo da loira no ar enquanto seus olhos tomavam uma coloração rubra no lugar do azul escuro. Ela rosnou, suas presas ficando afiadas, suas unhas crescendo afiadas, suas cicatrizes azuis se tornando vermelhas. A aura ficou pesada e Louise viu isso. Ela se aproximou furtivamente da albina e apertou a divisa entre clavícula e pescoço com força, fazendo a Perpétua desabar e soltar a criança. Mari deu alguns passos para trás, horrorizada. A partir daquele dia, Ilys e os escolhidos estavam sem o apoio da oitava guardiã: Mari saiu pela porta, desceu as escadas e correu pela rua afora.
– Não vai atrás dela? – Louise disse para David e ele negou com a cabeça. – Meu deus...
Sexta – 16:00
– Complicado. Mas eu acho que não posso fazer isso.
– Você pode. – Luke disse, com uma voz triste. – Você pode sim. Eu te deverei minha vida se fizer isso. Por favor...
– Não fale essas coisas! – A morena exclamou, tampando a boca do rapaz. – Não fale isso. Eu já disse tantas coisas assim, e agora me arrependo demais.
– Mãe... – Djin disse, levantando a cabeça e suspirando. – Mãe, por favor. O pai de David é até pior que meu pai. Enquanto Lúcifer apenas observa, sendo neutro, Giovanni tentou matar uma família! Não tenha piedade de um homem assim...
Lilith se levantou da poltrona e colocou o copo de cerveja na mesa, sobre um apoio de metal. Ela deu a volta na mesinha de mogno e se sentou ao lado de Djin, pondo-o em seu peito e acariciando seus cabelos. Ela olhou para Luke e o viu tão para baixo que pediu para que ele desabafasse suas dores. Até a esposa de Lúcifer tinha seu lado sensível. O que ouviu do loiro eram coisas que já imaginava, coisas que normalmente um adolescente fala ao perder os pais num acidente: “Eu deveria ter dado mais atenção e amor a eles.”
Aquela morena robusta e estranha sabia o que era sofrer sem os pais. A mãe foi morta e o pai se casou novamente, cuja relação surgiu a psicótica Pietra, de passado turbulento, talvez o causador de tantos transtornos psicológicos. Por tempos Lil perseguiu o pai para obter respostas e só quando ele faleceu que ela as encontrou. Mas então tudo já estava feito: Ela estava com os poderes dos demônios e sua alma pertencia ao seu marido. Ele havia lhe dado prazo por conta de seu filho – que por alguma razão tinha conquistado o coração do pai – e a mãe ainda exigiu que ele não tocasse em Djin. Ela tinha direito a mais um objetivo e não tinha se decidido de qual era ele.
– Djin...
– Mãe? – Ele olhou para ela, sentindo as mãos da mulher afagarem seus cabelos castanhos arruivados – Você está chorando...
– Djin. Você gosta do Luke?
– Ele é um grande amigo...
– Você quer que eu o ajude?
– Você pode tentar, não? Eu conheço seu potencial...
– Eu ajudo sim...
Ela se soltou do filho e coçou os olhos, secando-os. O boxeador nunca tinha visto a mãe daquela forma, toda tensa e chorosa, sensível realmente. Lilith foi até o quarto e buscou duas jaquetas grossas, jogando-as para eles. Disse em voz grave, já totalmente recuperada de sua crise materna: “Vistam-se.”
A tardezinha estava fria, pois não tinha sol. Eles montariam na moto da motoqueira e o vento congelaria seus músculos. Não que fossem fazer alguma coisa, pois ela se comprometeu em trabalhar sozinha, mas queria plateia.
A moto silvou no chão das ruas. Os carros pareciam manchas cinzas. Luke era corajoso e encarava o movimento, aproveitando da adrenalina em suas vezes e da ânsia de vingança, já Djin estava se sentindo mal com alguma coisa: uma premunição que seu espirito não parava de tocar em sua cabeça.
Giovanni escapara da sentença de prisão e Lilith sabia muito bem onde ele estava, se não era atrás das grades ou do bar que ele cuidava. Pararam em frente de uma casa de shows que funcionava 24 horas e tinha divisões de shows por faixa etárias. Quase 17 horas, Lilith sabia que ele estava administrando as apresentações de dia para poder curtir as noturnas. Ali foi sede de muito teatro famoso e logo na entrada havia um quadro gigantesco do grupo mais famoso da cidade, extinto, chamado Black Birds. A historia por trás do grupo era misteriosa e o ultimo membro deles acabara de falecer e levar o segredo para o túmulo. Luke saltou e se alongou, Djin fez o mesmo e cruzou os braços. Assim que escutaram o musical o coração do loiro congelou.
– Que tipo de show é esse para se tocar a essa hora?
– Não é pornográfico. É só de duplo sentido. Aliás, a menor idade desse local para as horas de agora é de 14 anos. – Lilith esclareceu.
Entraram, deixando um letreiro para trás escrito “O inferno de Dante.”
Que conveniente, ela pensou. O ambiente estava com todas as janelas escurecidas como o salão de um cinema quando assistem matines. Mas o filme ali era real, e o fogo também. Algumas pessoas aplaudiam em pé, mas uma grande parte delas estava atônita. A peça era bem real, e às vezes muito pesada. Retratava realmente o inferno que Dante dizia ser real, mas não o inferno que Lilith achava real. O que ela considerava era menos cruel. Que inferno era aquele?
Eles simplesmente se sentaram nos bancos, sem mais nem menos, ate os olheiros perguntarem sobre suas entradas na peça. Como eles não tinham, ela foi chamada para falar com a administração e então bateu algumas vezes no topo da cabeça do filho com um sorriso no rosto, falando que estava tudo bem.
A sala do fundo tinha portas de vidro fosco e quando foi aberta, dois homens saíram de lá. O mais velho, de aproximadamente 60 anos e alguma coisa. O outro era mais jovem e ela o conhecia do bar. Era Giovanni. Era seu alvo.
O senhor olhou para ela. Ele era alto e estava com o corpo ereto. Seus cabelos eram totalmente brancos e brilhantes, penteados para trás. Usava um terno preto e uma bengala dourada com a cabeça de uma ave no cabo.
– Matteo.
– Marlene. – Ele respondeu. – Quão diferente esta, agora que se meteu com o submundo italiano.
– Era sua esposa a líder da máfia, não eu... Eu trabalhava nos negócios de Jean.
–Sua língua continua afiada, apesar da tatuagem nos olhos e cabelos bagunçados e rebeldes, como as suas vestes vulgares.
– Quanta pose para um homem que perdeu a esposa para um charlatão como Jean.
Matteo trincou os dentes e passou as mãos no cabelo engomado de gel. Virou-se para a porta e depois olhou para Giovanni, apontando-lhe a ponta da bengala:
– Tudo nessa região pertence a mim, principalmente seus bares e boates de sacanagem. E eu aconselho que me pague o que deve, se não quer sofrer confisco de bens.
Giovanni, que olhava para umas papeladas, fez um “uhum” baixo e deixou que o velho se retirasse sem uma resposta polida. Aquele agiota imbecil só ameaça, ele não tem mais controle da máfia, o homem pensou, e foi tirado dos pensamentos quando a cadeira em sua frente foi arrastada.
– Oh. Marlene! O que te traz aqui, no meu humilde estabelecimento?
– Nem parece que e rico, falando assim...
A garota colocou os cotovelos na mesa e entrelaçou os dedos, apoiando o queixo sobre a rede que fez com estes. Giovanni perdeu o sorriso quando viu que a expressão dela estava gélida e composta de um olhar sínico.
– Quer algo em particular, não é? Pois saiba que não te pagarei nada, você não fez aquele trabalho para mim antigamente.
– Sabe de quem sou filha, rapaz? Tenho mais dinheiro que todas as pensões que pagou, somadas e multiplicadas pelo dobro. – Ela estreitou os olhos. – Meu assunto é outro, estou pedindo uma trégua e um pacto.
– ...Pacto?
– Ahn. – Lilith olhou para um dos lados, tomando uma expressão mais melosa em seu rosto. – Sabe... Naquela época eu estava apaixonada por alguém, mas não deu certo... Disso nasceu Djin, e eu me arrependo muito dessa relação. Mas já foi.
– Prossiga. – Ele cruzou as mãos atrás da cabeça, com o sorriso voltando lentamente no rosto. – Onde esta esse cara que era apaixonada?
– Ele esta... Em outro lugar. – Ela voltou a encara-lo. – Eu quero dizer que... Você esta sem esposa e eu sem marido. Somos ricos, o que acha de juntarmos isso e controlarmos o senhor agiota?
– Esta me pedindo em casamento?
– E uma proposta. Não um pedido... – Ela fez bico com os lábios e se levantou. – Eu... Bem... Eu acho que você sabe que eu posso te dar muita coisa boa...
Giovanni não sabia se sorria, rosnava, ou puxava aquela mulher para seu colo quando ela se moveu sensualmente em volta da mesa e se aproximou dele. Giovanni, como era robusto, precisava de uma mulher igualmente robusta, e aquela era uma ‘senhora de uma mulher. Ele abriu os braços e ela se sentou no colo dele, de frente para o mesmo. A porta bateu algumas vezes, com os seguranças perguntando se estava tudo bem, mas não obtiveram resposta. Eles batiam mais forte, enquanto Lilith tomava os lábios do moreno selvagemente. As mãos deslizaram pelos braços fortes e depois para as costas, onde o couro da jaqueta do mesmo foi arranhado. Depois ela o empurrou contra o encosto da cadeira e deslizou as mãos pelo seu peito.
– Eu não me lembro de qual foi a ultima vez que uma mulher brincou tanto com meus sentimentos assim.
– Ora, eu apenas sei como domar leões. E também sei deixar domar. – As batidas na porta ficaram mais forte, quase como se estivessem a arrombando. – Esses seus ajudantes são tão chatos...
– Ignore-os...
Lilith se afastou, caminhando para trás enquanto olhava para ele. Seu cinto foi afrouxado lentamente e o homem encarava a ação da garota. A alça da roupa intima negra foi mostrada, mas só isso e nada mais. Ele sorriu. Queria descobrir o que ela tinha ali.
– Sele nosso pacto, Giovanni... – Ela colocou as mãos para trás do corpo. – Suas habilidades são comentadas pelas cidades e eu gostaria de conhecê-las.
O homem, mesmo muito orgulhoso, se levantou daquela cadeira e se ajoelhou na frente da morena, colocando as mãos no cos dos shorts e enroscando os dedos nos passadores do cinto. Ele focou a visão naquela parte ali, e depois ela o chamou. Quando foi chamado, ele ergueu a cabeça e seu sorriso malicioso sumiu quando reparou que a expressão da garota estava seria, mas beirando ao maníaco.
– Nunca. Mexa. Com o Escorpião.
Giovanni sentiu o peito gelar, mas não teve tempo de reação. As mãos da garota saíram de suas costas e subiram sobre a própria cabeça, logo a do rosto, e com um movimento na vertical, de cima para baixo, como se estacasse uma cerca, sua arma branca ganhada pelo marido, Scorpion Tail – onde não se tinha lamina, e sim apenas uma estaca de metal afiada e o apoio de mão era similar a uma espada de esgrima, mas numa versão mais rustica e com espinhos na parte externa da proteção – desceu violentamente contra a boca do homem, penetrando sua garganta e rasgando tudo o que encontrava pela frente, parando na altura dos pulmões, e depois puxou para trás, trazendo consigo um mar de sangue que escapou pelos lábios do homem enquanto ele caia no chão. Ela se virou para a porta que havia acabado de ser arrombada e manteve a arma perto da própria boca.
Os barulhos e confusões que se seguiram bagunçaram toda a plateia e o show foi interrompido. Atores, curiosos e mais seguranças apontavam na porta da sala e Luke com Djin correram para lá. Na cabeça do loiro, Giovanni tinha esganado a mulher ate a morte, mas o boxeador já sabia o que poderia ter acontecido. Abriram espaço entre as pessoas e Djin conseguiu se estreitar entre os corpos de segurança, onde esticou o braço e gritou pela sua mãe.
Ela estava com lagrimas nos olhos, e em prantos, pediu para que ele não olhasse, mas o garoto era forte como ela e o pai. Ela ergueu Scorpion Tail e enquanto descia, pedia perdão para o filho, afastando-se de costas enquanto chorava.
– Djin. Eu queria poder ficar mais contigo... – Ela sacudiu a cabeça para os lados, bagunçando seus cabelos. – Eu queira poder ser sua mãe... Mas eu não posso. Eu não tenho a capacidade de ser mãe. Então eu quero que ajude Luke a conseguir salvar a dele...
– MÃE! POR FAVOR, PARE COM ESSA LOUCURA! – Ele encontrou o corpo de Giovanni e depois olhou para ela novamente. – MÃE! Esta tudo bem! Você não vai ser presa! Pode pagar mãe!
– Seu pai me espera... – Ela disse. E desceu a estaca contra a própria garganta enquanto ouvia Djin perguntar “E eu? Como vou ficar...?!”. Ela não podia falar nada, mas suas ultimas palavras foram passaras para a mente do boxeador. – “Eu te amo...”.
????? – ??:??
O ambiente era escurecido por nuvens densas de chuva e um mar revirado, negro, mas de luzes intensas e vermelhas no mesmo. Parecia muito com magma condensando no exterior da terra, mas aquele era o que dividia o céu do inferno. O juízo. Cheirava a enxofre e possuía dois barcos, onde um estava sendo dirigido por um anjo e o outro, por um demônio.
Lilith caminhou ate o barco dos anjos e acenou a Gabriel, o anjo que ela tinha visto proteger a Perpetua do destino quando era mais jovem. Ele acenou de volta, de forma muito tímida e preocupada, olhando para trás. Esse anjo afastou o barco quando Giovanni correu para ele, e o deixou ajoelhado na “praia” encarando a embarcação partir com seus respectivos merecedores. Azazyel, no outro barco, acolheu Lilith muito bem, estendendo sua mão para a mulher e abraçando-a forte contra seu corpo definido. Depois, buscou Giovanni na terra, relutante, e o jogou contra a embarcação negra e vermelha. Azazyel tinha os cabelos brancos, lisos e longos, e Gabriel tinha cabelos médios, negros e ondulados. O antagonismo era presente. Lilith caminhou ate o fundo da embarcação e encontrou seu marido, que estava sentado e estendeu os braços para a amada.
– Finalmente.
– Alu.
– Venha cá, minha cara...
E Lilith, nos braços de seu marido Lúcifer, olhou o céu negro e o mar, respirou o ar denso e fétido e sorriu amargamente.
– Dante estava certo... Ele veio realmente para cá.
Sábado – 08:00
Caminhando pelo cemitério, Ilys encontrou Octavia que deixava velas no túmulo de Vidia. Ela estava bem rígida para uma garota que acabara de perder a mãe. Deixou flores ali e se virou, vendo a albina e acenando para ela.
Ambas se sentaram num banco ali perto e conversaram sobre os acontecimentos atuais em relação ao grupo. Amethyst se aproximou de nós e trouxe à sua dona um copo de cappuccino. Se juntou as duas e nenhuma delas se sentiu incomodada em falar na presença dele. Viktoria se uniu a elas também, depois de visitar sua mãe. Se sentou no colo de Ilys e foi abraçada.
– Estamos enfrentando dificuldades agora. E nossa batalha final está batendo em nossas portas. Eu preciso muito que apresse o passo agora. – Octavia concordou. – Está treinando?
– Todos estão. Estamos fazendo temporadas com as Perpétuas, em rodizio.
– Bom.
– Não, Ilys, isso é mal. Não estamos treinando em grupo. Exceto os que já eram amigos entre si antes, não tem união em nosso grupo. Lendo os diários dos antepassados, eu vi que anteriormente não era assim entre os guardiões.
– É difícil para organizar isso. Estou trabalhando sozinha.
– Não, Ilys, você não está. Tem a mim, tem a Luke, tem Kumi e Koda da velha guarda. Você pode contar com a gente, querida. Sabe disso.
– Me desculpe. – Ilys suspirou. – Eu esqueci de compartilhar todos os problemas que tenho com vocês. Eu estou com muitos processos paralelos em meu emprego, envolvendo vocês. Ontem, Octavia, eu tive que dar mais uma baixa no banco de dados dos Conchitanos.
– Quem morreu...?
– A antiga suplente da torre do Pós Vida. Maer Von Friedhoff. A mãe de Djin.
– Lilith?
– Isso.
– Sequer sabia que ela tinha outro nome. – Octavia olhou para o lado e suspirou. Depois tomou um gole de cappuccino. – Mais alguma baixa?
– Estou temendo que tenha que dar baixa em Lucy logo, logo...
Os olhos de Octavia se arregalaram e ela quase engasgou com a bebida. Encarou Ilys com a expressão surpresa e até assustada. Aquilo estava mostrando uma desistência? Ela estava falando sério? Ou só estava sendo pessimista?
– O que quer dizer com isso?
– Se não conseguirmos atacar nessa semana, pelo menos numa missão furtiva para salvá-la, ela pode morrer contaminada com Stigma. Ela sequer é sua portadora.
– Esqueci que foi assim que sua mãe faleceu.
– Sim... Mas vocês não estão preparados. Eu não sei o que fazer.
– Vamos pensar em algo! – Ela exclamou, ansiosa para trabalhar em alguma missão paralela ao treinamento. – Vamos buscar Lucy.
Sábado – 09:50
– Pois não...
– Grande Kouta! – A voz no telefone foi reconhecida. – Está tudo bem contigo? Como está sua mãe?
– Está melhor, eu diria. Mas faz algum tempo que não tenho mais contato algum com ela. – Ele disse, se sentando numa poltrona e colocando o telefone entre o ombro e o queixo. – O que você deseja, Octavia?
– Kouta, você quer ganhar crédito com Ilys?
– Como é?
– Eu quero planejar contigo uma missão de busca. Uma missão furtiva, apenas entrar e sair com ela.
– Nossa, que plano ótimo para se montar com um pré-adolescente. Ir sozinho em busca de Lucienne no covil de Golden Black, nossa grande inimiga.
– Isso que estou cheirando é medo?
Kouta se levantou e rosnou com a amiga no telefone. Marcaram um local para se encontrar em meia hora e ele subiu as escadas para se trocar. Teve a surpresa de ver sua irmã jogando em seu videogame e ele estreitou os olhos, pedindo para que ela saísse por uns momentos, mas ela negou. Disse que não olharia para trás e que ele podia ficar despreocupado, mas o garoto se trocou por trás da porta do guarda roupa. Trocou suas calças de moletom por jeans escuros e saiu de trás de lá, pedindo para sua irmã lançar uma camisa cinza que estava sobre uma poltrona. Quando ela se virou para entregar a peça para ele, se surpreendeu em ver o tronco esculpido do irmão.
– Wow...
– O que foi?
– Está treinando com a Momo?
– Estou. Um pouco além de simplesmente estudar técnicas de batalha. Por que?
– Está fazendo um efeito bonito, sabia?
Kouta corou e puxou a camisa das mãos dela, olhando para o outro lado enquanto se vestia rapidamente. Jogou um casaco preto sobre o corpo e analisou a temperatura externa no termômetro da janela. Iria morrer se colocasse o cachecol, então apenas se calçou e foi para a porta.
– Onde vai?
– Resolver uns problemas com Octavia.
– Posso ir junto?
– Acho que preciso resolver sozinho algumas coisas, Sumia. – Ele pegou uma mochila lateral e colocou nos ombros. – Eu volto na janta, avise o pai.
Sumia concordou e desejou boa sorte, acenando para ele enquanto ele descia as escadas e ia em direção à porta sem dar nenhuma satisfação à Etienne.
O garoto foi, com cara de poucos amigos, através da avenida principal em direção ao lugar combinado. Ele caminhava cabisbaixo, seus cabelos cinza chumbo caindo sobre os olhos e seus óculos impecáveis começando a escorrer pela extensão do nariz. Chegou ao pé de um morro com uma longa escadaria de cimento e subiu-a sem mostrar sinais de cansaço. Olhou para baixo após isso e sentiu a visão girar. Era muito alto.
Ali tinha um parque. As amoreiras se espalhavam entre os pinheiros e carvalhos, o cheiro delicado das plantas se espalhou pelo ambiente, que tinha poucas pessoas por ser logo cedo. Os frutos enegrecidos pendiam das arvores ao chão e esse ultimo estava forrado com as frutinhas. Kouta passou a pegar algumas amoras e encheu a mão delas, comendo durante o trajeto até o banco da parte principal da praça. A primeira coisa que ele viu foi os cabelos roxos de Octavia, e depois um homem robusto de olhos arroxeados chegou perto dela e entregou-a uma caixa de chocolates. O rapaz se sentou ao seu lado e Kouta estreitou os olhos e depois caminhou até eles, acenando para a garota.
– Oh, Kouta! Olá! – Ela olhou para Amethyst logo após. – Esse é Amethyst, meu poder.
– E grande amigo seu, pelo visto...
– Porque diz isso? – Eles se entreolharam, mas Amethyst não falou nada, além de esboça um meio sorriso. – Quero dizer. E o normal entre o invocado e o invocador, uma relação profissional e...
– Esta namorando, Octavia?
– Espere, como é? – Ela colocou um dos bombons na boca e fechou os olhos, extasiada pelo sabor. – Não, eu acho que não.
– Então o que fez a marca roxa em seu pescoço?
Octavia corou e tampou o local com a mão. Ela havia se esquecido que a roupa que usava agora era de gola baixa, diferente do que costumava usar antes, gola alta, casacos ou sobretudos. Era uma camisa de gola V com mangas curtas brancas e calça legging preta, com botas pretas com fivelas negras ate a metade das canelas. Amethyst olhou para Kouta e rapidamente percebeu seus sinais de ciúme. O garoto apertava as mãos contra as roupas, apesar de estarem dentro dos bolsos. Os dentes dele estava pressionados e sua mandíbula se delineava devido ao músculo saltado.
– Por acaso você gosta dela? – O homem falou.
– O... O que? – O garoto prendeu a respiração. – Espere, o que está falando?
– Eu sou um mago, Kouta, e você é jovem e transparente. Quase consigo palpar seus sentimentos. Mas não vou incomodar o desenvolvimento dos planos de minha mestra.
Amethyst aproximou-se do rosto de Octavia e após um curto beijo em seus lábios, se desfez em uma poeira roxa e clara, sendo selada no amuleto. A garota deslizou as mãos pelo pescoço e nuca, não conseguindo olhar no fundo dos olhos do pequeno menino prodígio. Depois de algum tempo, tentou se desculpar e disse que não sabia de seus sentimentos, e que se soubesse, não teria se envolvido com Amethyst. Mas em meio às desculpas, o garoto estendeu a mão num sinal de “pare”, estressado.
– Temos assuntos para resolver. Me diga o que planeja.
Octavia pediu que ele se sentasse. Evitou tocar no assunto ou fugir do profissional, apesar do rapaz ser considerado um grande amigo. O plano foi posto em uma ordem linear, assim como as considerações importantes, rabiscada nos papeis brancos das embalagens dos doces:
Golden está sempre no porão.
Stigma está quase sempre na parte superior da casa.
Not Equal é a única que realmente sai da casa.
O porão tem uma janela estreita que cabe uma pessoa pequena. É aí que você entra.
Usarei um olheiro encantado e o passarei pela mesma janela.
Furtivamente, Lucy deve ser buscada se:
Golden não estiver.
Golden estiver dormindo.
– Eu acho que é isso.
– Você acha que é isso.
– Não gostou do plano...?
– Não muito, sei lá, talvez por que eu terei que entrar lá desarmado e totalmente tranquilo, assim, no quarto onde tem a mulher que nem uma Perpetua consegue derrotar...
Octavia sorriu e acariciou os cabelos do garoto. Fez um discurso onde tentava da forma que podia melhorar a confiança de Kouta. Ele não estava nem um pouco a fim de dar ouvidos para ela depois do que ela tinha feito. Na verdade a filha de Vidia não havia feito absolutamente nada de errado, o relacionamento dos dois estava só na cabeça jovem e inocente do menino.
– Por Luke e Lucy.
Octavia sentiu o coração apertar. Ele pegou as pequenas folhas das mãos dela e se retirou, com passos pesados. Ela o chamou, mas o garoto de cabelos cor de chumbo não quis responder. La distante, ele lhe chamou no celular, e a menina não sabia a razão disso, ela podia vê-lo de longe, não fazia sentido.
– Octavia.
– Vem falar comigo, eu estou te vendo.
– Octavia, quando vamos nos encontrar?
– Amanhã? As 10?
– Onde...?
– Na cafeteria da mãe da Dianne.
O menino demorou muito para responder que estava tudo bem, pois acessou seu “banco de dados” para se lembrar de quem era Dianne. Disse um tchau seco e se retirou.
Kouta desceu as escadarias e foi para o caminho da casa. Durante o trajeto, começou a chorar, e como era um rapaz orgulhoso, evitou chegar em casa ate a sensação passar, mas ela não passava. Se abaixou num canto do morro, escondendo o rosto enquanto tentava se controlar, e se perguntava como era possível. Aquela garota estava namorando um poder. Estava errado. Estava tudo errado. Mas depois ele começou a se culpar por aquilo: talvez a culpa tivesse sido ele não contar para ela de seus sentimentos. Esse pensamento afastou gradualmente os soluços e em poucos momentos, o rapaz já estava revigorado para continuar seu caminho. No dia seguinte, a situação ficaria complicada. Seu coração palpitou. Ele precisava contar para alguém sobre o que pretendia fazer, mas quem?
Sábado – 20:00
Ele se sentou na sua mesa após jantar e trancou a porta. Sumia não ousou chama-lo para brincar, sabia que o rapaz ficava arrogante e frio quando estava em seu modo “estudos”.
O garoto reviu varias vezes o roteiro e depois ligou para Luke, para perguntar o telefone da chinesa para depois perguntar para ela os detalhes do paradeiro tanto de Lucy quando de Donatella. Com Jim a conversa foi bem mais animada. Ela estava com boas noticias, Stigma não estava junto de Golden, ela estava numa praça do outro lado da cidade, na sua forma humana, com as meninas numa espécie de caçada. Cada Siyah sobrevivia de uma forma, já que elas não se consideravam humanas. Stigma era considerada uma parasita e precisava contaminar outras pessoas para que a vida delas pertença a Siyah.
Kouta então achou melhor aproveitar a deixa. Ele se arrumou novamente, saiu do quarto, pegou a bolsa e atravessou o corredor onde Sumia estava. Ela lhe olhou, assustada. Perguntou para onde o irmão ia, mas tudo o que ele falou foi “resolver um problema”. Sumia ficou bastante desconfiada. Precisava investigar as atitudes estranhas do irmão.
Kouta pegou um ônibus e cruzou a cidade. Desceu um ponto além do que deveria e teve de voltar a pé. Era incrível como de sua janela, os letreiros gigantescos que estava conhecendo agora pareciam pequenos pontos coloridos, e havia uma grande roda-gigante que estava carregada de cores vivas e brilhantes, e que girava lenta e romanticamente. Se surpreendeu quando percebeu que seu destino era justamente aquela roda. Ele se aproximou ainda mais dela, caminhou lentamente em direção ao parque e sentiu o estômago revirar com a quantidade de pessoas presentes ali, nas barracas das lojinhas.
O garoto se deu ao luxo de entrar em uma casa de doces e comprar sorvete. Ele se sentou sobre uma cadeira de madeira enquanto afiava os olhos para conseguir reconhecer a figura de Lucy, já que não conhecia Donatella ou Stigma.
– Está perdido, garotinho?
– Oh. Não... – Ele fez a cadeira girar e ficar de frente para a bancada. – Estou esperando alguém, apenas.
– Namorada?
– Não. É a mãe de um amigo, na verdade. Preciso resolver algo com ela.
– Entendi. – O rapaz disse, se sentando ao lado do garoto. – A propósito, meu nome é Stevan.
– Kouta. – Ele sorriu gentilmente. – Você é amigo do Luke? Eu lembro desse nome.
– Sou. – O moreno disse, passando as mãos na franja roxa. – Convidei ele para comemorar o aniversário da minha namorada. – Kouta corou e seu coração disparou. – Nossa, cara, relaxa aí, você parece que viu um monstro!
– Eles estão vindo aqui agora...?
– Luke disse que está vindo com o pai.
Kouta suspirou. Olhou em seu relógio e fingiu se assustar com a hora. Desculpou-se cordialmente e disse que precisava encontrar essa mulher urgentemente. Na verdade, era mais do que urgente, era questão de vida ou morte.
O menino correu pelos campos do parque em busca do alvo e ligou cinco vezes para Jim, pedindo a localização de Donatella, já que era ela a portadora do chip. Ele encontrou os quatro primeiros lugares em vão, e no quinto, conseguiu ver Stigma de longe.
Stigma estava com a forma mais normal possível. Era alta e magra, sua pele clara e olhos cobertos por óculos de sol. Usava uma jaqueta de couro com capuz cheio de pelagens internas, cujas mangas paravam logo acima dos cotovelos. Nos braços haviam correntes, correias e braceletes. Usava calças jeans justíssimas e uma camiseta preta com inscritos em branco que não conseguiu ver. Calçava tênis. Do lado dela estava uma loira de cabelos curtos com regata cinza chumbo com inscrições em vermelho, calça legging xadrex e botas, e do outro lado, uma mulher mais velha, igualmente loira, mas de cabelos medianos e com vestido escuro. Era Lucy, ele pensava. Aquela mulher era inconfundível. Mas estavam muito longe dele. Stigma foi caminhando e falando com rapazes que lhe ofereciam bebidas e ela negava. Seu coração parou quando ela virou apenas o rosto para o jovem como se tivesse o detectado, e ele se escondeu atrás de uma pilastra.
– Eu achei... – Ele disse para Jim. – Me deseje sorte.
Quando ele retornou a observar as garotas, Stigma já estava encostada na pilastra. Kouta se assustou e se jogou para trás, caindo sentado no chão. A morena estava tão presa quando o moleque. Não podia mata-lo ali, as pessoas cairiam sobre ela depois. Ficou observando-o fixamente, enquanto Donatella segurava Lucienne pela mão.
– Olá. – Kouta nada disse. – Que pervertido. Uma mulher não pode mais andar por aí sem ser perseguida?
– E...Eu...
As pessoas olharam para ele, enojadas. Stigma começou a fazer um escândalo e Lucy estremeceu, tentando escapar, mas tendo as mãos esmagadas pelo pulso firme da jovem Dona. Mulheres cochichavam com as amigas. Pessoas riam e outras filmavam. Até que um barulho foi seguido pelo silêncio de todos os curiosos.
O rosto de Stigma sangrava muito, e os óculos estavam estilhaçados no chão. Ela ficou estática por um tempo, mas depois se contorceu lentamente, virando o corpo até encontrar o trajeto do tiro. Seus olhos vermelhos foram abertos e o zoom natural dos olhos de um demônio identificou a arma dona da bala que lhe arrancou um pedaço da curva do nariz. Havia uma garota muito pequena de cabelos rosados ao lado de uma mulher igualmente de cabelos rosados, cujos olhos estavam cobertos por um Flying Goggles. Ela estava com uma arma Arctic Warfare Magnum que faria um estrago maior se Stigma não fosse uma Siyah.
Momo se jogou do topo do prédio, enquanto Sumia observava lá de cima com um binóculo. Stigma havia abandonar a carcaça humana e na sua forma original se jogou contra o Poder dos gêmeos. Kouta se levantou rapidamente e correu até Lucy, mas Donatella se plantou na frente da tia e intimidou o jovem com o olhar.
A segunda mais forte Siyah possuía longas garras no ponto de suas unhas. Seu corpo estava todo negro e havia ausência de pés – seu corpo parecia coberto por um longo vestido negro de musseline, que tinha as extremidades transparentes. – Momo sempre permanecia com a base abaixada, as pernas levemente dobradas e a arma em riste. Atirava e os tiros vazavam, até que ela testou atirar na onde não deveria ter transparência, o rosto enegrecido da oponente, mas falhou, pois ele se desfez e refez logo quando o tiro passou o alvo e acertou o chão. Ali naquele lugar não tinha pessoas, era o pátio de um hotel e quem estivesse ali, permanecia dentro dos quartos ou no parque logo a frente. Momo teve de desviar a arma quando o golpe veloz e desumano de Stigma tinha como objetivo destruir o cano para deixar Momo desarmada, e seu abdômen foi atingido superficialmente, rasgando as roupas de couro e estourando os cintos das balas.
A atiradora deu um passo para trás, resultado da dança entre as duas e apontou o cano da arma contra a testa de Stigma, a queima roupa e o tiro rasgou sua testa, atordoando-a. A sombria mulher não teve tempo de separar suas células e afasta-las do ponto onde seria o alvo da bala. A mulher se afastou, mas sacudi a cabeça e retornou, com as garras prontas para degolar, mas Momo desviou a ponto de sequer sentir o deslocamento de ar do ataque.
Mas aquilo era uma luta em vão. Stigma sabia, bem provavelmente, que todos os poderes eram formas inferiores do que eram as Siyahs, e em relação a isso, ambas possuíam as mesmas fraquezas, mas o Poder era inferior em habilidade. Os amuletos eram similares: O reator de Donatella e a Howlita de Sumia.
A Howlita...
Momo olhou para cima e Stigma aproveitou a deixa para subir parede acima na velocidade que uma sombra usa para ser projetada. Momo não chegaria a tempo, mesmo sendo rápida. Eram muitos lances de escadas, mas ela tentou.
Stigma se colocou na frente da pequena Sumia. A menina se afastava lentamente, tremendo. O braço da Siyah se alongou e os dedos envolveram o pescoço delgado da pequena, que quando foi levantada, teve de sustentar as próprias mãos naquele braço, para dar algum apoio e não ter o pescoço quebrado. Foi sacudida violentamente, até quase perder a consciência, e assim que desmaiasse, Stigma arrancaria o amuleto de seu pescoço e estilhaçaria o mesmo com suas mãos pesadas.
Sumia, no entanto, era filha de uma guardiã e não podia abandonar a causa. Se ela sequer tinha condições de se livrar da segunda mais forte daquela raça, imagina da líder suprema. Enquanto buscava forças para falar alguma coisa, em vão, sentia a pedra em seu peito cada vez mais quente até que a temperatura rasgou seu casaco e fez um buraco em sua camisa preta. O contato da pedra fervente com a pele da menina causou uma dor aguda, mas depois, Stigma a soltou rapidamente, se afastando com uma expressão surpresa. O olho direito da pequena tomou uma coloração amarela e brilhante e ela apontou o indicador e dedo médio para a Siyah, em posição de arma.
– Ora, que corajosa.
– HSL-1, ativar. – Seu braço tomou uma coloração amarelada e um flash de luz foi lançado de seus dedos, num tiro certeiro bem similar a um laser.
O tiro acertou o peito de Stigma, que grunhiu de dor ao sentir suas células transparentes se condensarem e darem origem a uma camada plasmática e negra no local do tiro. Vendo que havia feito efeito, Sumia atirou varias outras vezes, até a Siyah perceber o ritmo da criança. Cada bala saía num intervalo de 1 segundo, e a cada 10 balas, ela demorava 5 segundos para recarregar a energia, e seu olho voltava para a cor natural. Conhecendo o padrão, Stigma, já bem avaliada, se arrastou pelos corredores e se escondeu ao canto.
Sumia caminhou com o braço estendido, procurando pela inimiga e foi nessa hora que Momo havia chegado com sua arma de mira virtualmente perfeita. Se certificou de que a menina estava bem e nesse meio tempo Stigma se lançou por trás da atiradora, que se virou em seus próprios calcanhares e atirou contra a parte plasmática de seu corpo, estraçalhando-a ali e arrancando o braço esquerdo.
Stigma recuou seu ataque. Sua expressão estava irada, até que a fechadura em seu peito, além dos olhos, tomou uma coloração mais vívida. Os cabelos da figura enegrecida tomaram de um tom rubro, assim como o lado esquerdo do peito, onde surgiram vários feixes da luz avermelhada que seguiram em direção do braço arrancado e reconstruíram um novo, agora todo aceso e vermelho.
Os tiros amarelos da menina vazavam sem nenhum efeito naquele braço, e Stigma havia ficado mais forte em contra-ataque. Lançou um tiro bem semelhante ao da menina contra Momo, que foi lançada para trás e caiu de costas, desarmada.
– Ainda não nasceu quem vai me eliminar, pequena e imbecil guerreira!
Momo estava reclamando de dores, enquanto tentava se levantar com a mão na lateral atingida. Não dava para se saber se o trio estava lutando a muito tempo, mas foi tempo o suficiente para Kouta aparecer na porta logo ao fundo, bem na hora que Stigma apontara o braço rubro em direção de Momo, pronta para atingi-la em uma saraivada de lasers vermelhos. O pequeno apontou as mãos para frente e as folhas que flutuavam pelo ar se reuniram em um escudo circular que foi posto na frente do Poder dos gêmeos. Os tiros atingiram o mesmo, que foi desintegrado, mas Momo não havia sido acertada. Então ela deu uma cambalhota para trás e retirou do cinto duas Walther Nighthawk Umarex, atirando freneticamente contra Stigma, que tentava desviar-se minimamente só para que as partes já atingidas pelo feixe de luz amarelo não fossem acertados pelos tiros.
No mesmo tempo da luta entre os Guardiões amarelos e a Siyah negra, Donatella acabara de se encontrar com seu primo e agora novo inimigo. Ela jogou Lucy contra o chão e rodeou-a enquanto aquecia as mãos com sua chama azul para atacar Luke, que estava pronto para a batalha.
– Eu não quero te machucar.
– Que pena, não é...? Eu quero te machucar.
– Você não quer não.
A loira lançou-se para cima do primo, chutando-o com uma velocidade que ele quase não conseguia acompanhar com os olhos. Ela dava rodopios no ar e a ponta dos seus pés alcançavam o rosto do loiro, até que ele agarrou-lhe pela perna e a girou no ar, lançando-a contra uma barraca de brinquedos. Se jogou contra ela, a prendendo contra o chão, cada joelho em uma de suas pernas e segurando seus pulsos com cada mão.
– Meu deus, Dona! Acorde! Sou eu!
– Eu não poderia estar mais acordada!
Ela levantou a cabeça violentamente contra a testa dele, atordoando-a com a batida. Conseguiu escapar com uma das pernas e o chutou no abdômen, fazendo-o rolar para o lado. Se levantou rapidamente a pontou ambas as mãos para o rosto do garoto, fazendo um jato de seu fogo azul avançar contra o menino. Ele juntou as mãos contra o próprio rosto e fez um escudo com sua própria chama, forçando-a com toda sua perseverança, numa tentativa se contra-atacar e empurrar a chama azul contra a dona da mesma, mas falhou. Sua força era inferior a dela, não por treino, mas por atributo: a chama azul era naturalmente mais quente que a vermelha.
Então Luke a chutou no abdômen, empurrando-a para trás, e pegou uma barra de aço como arma, a aquecendo. Bateu-a com força contra a lateral da cabeça da garota, fazendo-a cair ajoelhada no chão. Já haviam ligado para a polícia nesse momento. Donatella avançou contra o garoto, segurando de volta na barra de aço, e a força de ambos juntos derreteu-a a ponto de entortar em quatro partes.
Dianne, a amiga gótica baixinha de Luke, chamou a atenção da polícia que rodeava o casal em meio a luta selvagem, amedrontados pelo sobrenatural que estavam vendo. A moreninha gritou e todos olharem para ela, até mesmo Luke, que quase foi socado pela menina, mas que por pouco desviou. Sumia foi pega naquele mesmo momento e lançada do alto do prédio, caindo daquela altura direto para o chão.
O silêncio prosseguiu aquela cena e até mesmo Donatella deixou de lutar. Lucy saiu correndo e abraçou Stevan e Dianne, que estavam ainda em estado de choque pela queda da criança do topo do prédio de 6 andares. Luke, tentando se manter calmo, pediu para os amigos fugirem com a loira. Enquanto Dona se levantava, o moço saiu correndo até o pátio do prédio, já se preparando psicologicamente para a cena que iria encontrar.
Kouta já havia descido todas as escadas quando Luke chegou e o gêmeo estava desesperado e desolado. Caminhava cambaleante, procurando por Sumia enquanto tremia até os ossos. Luke o apoiou em seu próprio corpo e tentou acalmá-lo, em vão, já que até mesmo o loiro estava em desespero.
Kouta olhou para o topo do prédio da onde estavam e calculou o trajeto da queda do corpo para tentar encontrar o corpo, mas os dois foram encontrados pelo corpo. A menina estava bem, apesar do braço queimado e sentada sobre os ombros de quem Luke logo identificou como Villiaumite. Quando ela foi descida, Kouta correu até ela e a agarrou, implorando por perdão, acariciando seus cabelos, beijando seu rosto.
– Eu fiquei com medo, Mia... Muito medo...
– Está tudo bem... – A garota acariciava os cabelos do irmão, enquanto sentia as lágrimas escorrendo pelo rosto. – Está tudo bem.
– E Momo?
– Momo está lá em cima ainda. – Ela disse, pensativa. – Eu preciso voltar!
– Não, você não! Sumia!
A menina já estava entrando no prédio quando Luke a alcançou e segurou-a contra a parede, explicando a situação: Todos deveriam trabalhar junto agora. Stigma não era um inimigo de baixo escalão. A garota pareceu concordar, mas quando ele a soltou, ela saiu correndo escada acima, deixando suas últimas palavras:
– Não se esqueça, Luke, que Stigma causou uma desgraça na vida de nossa mãe!
– Meu deus, que teimosa!
Mas quando chegaram lá, Stigma estava avaliada. Mal conseguia parar em pé e estava coberta com sua casca plasmática, que lhe deu peso o suficiente para impedir que andasse. Mas a casca estava se abrindo, e a figura vermelha e brilhante lá dentro estava saindo como uma borboleta do casulo. Foi o suficiente para dar tempo de Momo ir até a beirada do prédio, procurando com os olhos a loira portadora do amuleto de Stigma.
Quando a encontrou, mirou no reator em sua perna e atirou, certeira, ágil, fazendo a parte azul estilhaçar e causar uma pequena explosão, que derrubou Donatella e fez Luke correr até Momo, nutrido de raiva. O garoto empurrou o Poder para o lado e subiu sobre seu corpo, a prendendo contra o chão. O loiro não podia perceber que o brilho avermelhado de Stigma havia se apagado.
Os policiais cercaram o prédio dessa vez e pediram por calma. Momo desceu segurando a mão de Sumia, e Luke seguiu sozinho, choroso, sabendo o que vinha a seguir. Pelo menos conseguiram salvar sua mãe.
Quando eles saíram do prédio, Luke se abaixou perto de Kouta e pediu que ele cuidasse de Donatella. O menino concordou e desejou boa sorte para o mais velho.
Domingo – 08:00
– Soltem já.
– Desculpe, senhorita, mas o rapaz precisa responder algumas perguntas.
– Já!
– Vamos ter que pedir que se retire. Acha que isso é uma atitude de advogada?
– Já, agora! Eu quero esse menino do meu lado até contar três.
– Acha que é fácil assim? Aqui é uma delegacia!
– Um...
– Senhorita Lenusya...
– Dois...
– Por favor, se acalme.
Quando o policial se levantou da cadeira e Ilys, já exaltada, avançou junto, Christian segurou-a pelo ombro e depois puxou-a para perto do próprio corpo, contendo a ira da pequena. O policial suspirou aliviado, voltando a se deitar. Demorou algum tempo até que Christian persuadisse o quartel inteiro para que Luke saísse de trás das grades. Ilys estava deitada em duas cadeiras quando ele apareceu, massageando o braço que foi pressionado pelos guardas. Quando viu a menina, ele correu até ela e abraçou-a, assustado pelo que viu quando estava lá dentro da sede da cadeia. A albina logo contou o estado de Donatella e enquanto Christian falava com os tiras, Ilys retirava um pano de dentro de sua bolsa e mostrava um medalhão azul muito conhecido pelo loiro. Era a pedra que estava com sua mãe, e depois que se fundiu com Dona.
– Vocês fizeram um bom trabalho, Luke...
– Stigma pode voltar?
– Não sei... Mas acredito que não. Por segurança, vou guardar na lojinha de conveniência de Singel, numa grande vitrine escrita bem grande “não toque”.
– Posso pegar?
– Com o lenço, sim...?
O menino pegou a pedra por volta do lenço e analisou sua parte externa. Ela estava estourada em três pontos, e só não se dividia em três pedaços por que o metal da parte traseira do amuleto era forte para ter apenas envergado com o tiro. Ilys contou que Donatella teve a perna contaminada e que possivelmente teria a mesma amputada. Luke começou a chorar, se sentindo muito culpado por aquilo.
– Ela precisa de você forte, Luke, a menina não se lembra de absolutamente nada do que aconteceu.
– Ela está no hospital?
– Uhun. Posso te levar lá.
Após Christian forçar os policiais com a baixa de Luke na cadeia, o moreno puxou Ilys pela mão para fora do lugar e pediu para Luke acompanhar. Chamou um taxi que os levou até o hospital, distância percorrida em 30 minutos. Chris deixou sua amada com Luke e seguiu para o apartamento dele, já que a pequena Vik morava com eles.
A albina conversou com a recepcionista que lhe passou os dados de Donatella, como quarto e afins. A mulher disse que já tinha visitar lá, e que só poderia deixar um deles entrar, então Ilys pediu que Luke subisse.
Quando ele entrou no quarto de número 229, a dor e o medo de ser recebido com um surto da loira foi trocado por surpresa e curiosidade. Ele reconheceu a mocinha como sendo Marina, sentada no banco e balançando os pés para fora, com uma “escolta” masculina apenas um pouco mais alto que ela, e bem mais pálido. Ela acenou para ele, mas estava jogando num videogame portátil enquanto o menino estava com uma caixa cheia de ferramentas e peças sobressalentes de sua própria construção. Abraham estava ajoelhado em frente à cama, mexendo em Donatella, que as vezes grunhia de dor. Ela sorriu para Luke ao vê-lo, com os olhos cheios de lagrimas.
– Eu não vou mais poder dançar...
– Minha querida...
– Falaram que sofri um acidente e tiveram de amputar essa perna...
– Por favor, não se mexa. – Abraham disse.
Abraham estava de regata vermelha e calças jeans, além de tênis escuros. Seus cabelos castanhos estavam amarrados num rabo de cavalo baixo. Luke se mexeu para o lado para poder ver o que o rapaz estava fazendo. Seus olhos brilharam quando viu a perna metálica da menina. O metal externo estava totalmente estilizado com o desenho de chamas vermelhas, amarelas e alaranjadas. Tinha uma junta para o tornozelo e joelho e o rapaz estava analisando a estrutura. Depois de um tempo, lançou a chave de fenda para o menino que guardou na caixa. Depois pegou Donatella pelas mãos e a levantou.
– Anda. Devagar. Vê se está estável.
A loira, ainda segurando uma das mãos dele, caminhou lentamente, sentindo a parte ferida doer muito, já que ainda estava com pontos.
– Eu acho que ela deveria se recuperar ainda! – Luke disse, nervoso. – Meu deus, Abraham!
– Relaxe... Eu só trouxe para teste. Se ela gostar, fica com ela. Estava sobrando lá em casa, só reformei.
– Entendi... – Luke se sentou na cama da menina, observando-a.
Donatella conseguia movimentar a perna bem: quando o músculo de sua coxa contraía, a perna se movia. Se relaxava, ela se esticava. Parecia meio manca, mas precisava se recuperar antes de tudo.
– Obrigada, senhor Abraham...
– Se você conseguir controlar bem, você vai poder voltar a dançar. Olhe para Luppi. Ele é uma cópia fiel de Maxwillian, meu filho. Age exatamente como ele.
– Não... – Mari disse, olhando para seu pai. – Não age não. Mas está tudo bem, ele me entretém do mesmo jeito...
Donatella abraçou Abraham e agradeceu. Depois Mari saltou da poltrona e caminhou para fora do quarto, se despedindo de Luke com um “tchau” muito simples. Luppi, o robô, também acompanhou a menina e quando Abraham se aproximou do Luke, recebeu a pergunta:
– Quanto ficará?
– A perna? Não, é cortesia da casa.
– Você não nos deve nada...
– Devo a Ilys. – Ele passou as mãos nos cabelos do loiro e se despediu.
Luke ficou por mais meia hora com sua prima naquele quarto. Perguntou se Dona sabia de Cora e a mesma disse que sequer se lembrava da menina. Então ele tentou explicar a situação para a loira, sobre como ela foi pega por Stigma, e sobre como brigaram na praça Donatella não pareceu incrédula, apesar de não se lembrar de nada. Luke saiu quando uma chinesinha muito animada apareceu no quarto, abraçando a amiga loira e falando sobre o quanto ficou preocupada com a mesma.
– Jim...
– Não some mais não! – Ela esfregou a lateral de seu rosto contra o da loirinha, que ria. – Todo mundo ficou preocupado!
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