Aljha Rhara: Return to Zero - Livro 5
14 Eyes on Fire
Segunda – 8:46
— Você não veio de ônibus?
— Não, minha mãe trouxe.
— Hm.
Marina estava na laje do prédio da escola, comendo salada de frutas em um potinho de plástico. O menino ficava em pé, observando ela de cima, enquanto ela estava sentada de pernas cruzadas como um índio no chão, olhando para a grade, e por consequência para o campo florido da parte térrea. Ele se sentou num banco que estava mais atrás, com as mãos no bolso.
— Você está brava comigo?
— Não.
— Pode conversar?
— Não quero conversar, David.
— Sinto falta da época que me chamava de Neko...
Marina olhou para ele com o canto dos olhos, mas depois voltou a encarar o pote, comendo. O menino suspirou e cruzou as pernas igualmente a ela sobre o banco. Tirou o capuz da blusa branca, exibindo seus cabelos que, para a primeira vez em público, estavam brancos. Ele não disse muita coisa, apenas pediu desculpas.
— Você pintou o cabelo?
— Sobre isso... Não exatamente.
— Entendo. – Ela sorriu gentilmente, apesar de ser um sorriso distante. – Ficou bonito.
— Marina, você... Não quer conversar comigo direito?
Marina terminou de comer antes de responder. Depois se levantou e foi até o banco, se sentando ao lado dele, com o corpo arqueado para frente e o olhar perdido no chão. Um constrangedor silêncio seguiu, mas a loira tomou a palavra. Desabafando, contou como conseguia ver falhas no sistema de Luppi em muitas de suas ações. Ele não era sempre gentil. Muitas vezes absorvia uma estrutura triste que deixava a própria Marina depressiva. Aliás isso nem era raro, Luppi mais funcionava como filho do que como irmão e isso fazia sentido, já que o pai dos gêmeos sabia como o menino era como filho, mas não sabia como ele agia como irmão, pois era muito ausente.
— Você gosta de Luppi como ele próprio?
— Ele brinca comigo, ele me escuta e ri do que falo, mas eu não consigo acessar seu coração.
— Por que ele não tem um.
— Sim... – Ela estendeu as mãos para frente, olhando-as. – Eu brincava com Max sobre como as linhas do destino de nossas mãos são parecidas.
— Linhas do destino?
— Estenda sua mão.
Ela explicou sobre as linhas do destino e sobre seus pontos principais. A linha logo abaixo dos dedos longos seria a linha do coração. A logo abaixo dessa, seria a linha da cabeça. A que envolvia o dedão era a linha da vida e a que cruzava todas as linhas era a do destino.
Então ela disse para o rapaz, com base na mão que ele ofereceu, ou seja, a esquerda – sua mão não dominante – que suas linhas indicavam, respectivamente: Coração volátil que se apaixona fácil; Prefere desenvolver o físico do que o intelecto; Energia abundante; Apoio da família.
— Eu e o Max tínhamos as mesmas linhas: Egoísta no amor; Criatividade; Não tínhamos a linha do destino; E a da vida... Bem, a minha simbolizava Manipulação. A dele...
— Morte...?
— Sim. Vida interrompida por algo.
— Você acha então que ele morreu por que estava no destino dele?
— Não. Isso é apenas uma coisa que a gente gostava de comparar. Luppi não tem as linhas do destino.
David passou as mãos em seus cabelos brancos, sentindo o peito apertar. Luppi estava machucando Marina e ele não estava gostando disso. Quando o sinal tocou, ele acariciou os cabelos da garota e escondeu a cabeça no capuz. Simplesmente saiu, sem se despedir. Marina no entanto não estava se sentindo muito bem e decidiu não ir pela direção que ele foi andando; se virou para o lado oposto e caminhou até a grade da escola, subindo sobre ela e olhando para baixo. O prédio era alto, mas não tão alto e havia uma grama macia, ainda encoberta com folhas secas do outono. Marina, como uma pequena gênia de exatas, calculou a velocidade que seu corpo atingiria o solo daquela altura e decidiu que ele se quebraria todo, mas que tudo o que sentiria seria dor. Decidiu ir para a aula por fim.
Segunda – 11:20
Numa mesa arredondada, Junko e Luke estavam encarando um ao outro já havia passado 10 minutos, sem ninguém falar uma única palavra. Dianne e Andrew estavam colados na porta tentando escutar alguma coisa.
— Que feio, Dianne! Vem aqui já! – Stevan disse, autoritário, mas sussurrante.
— Shh. – Andrew disse por ela.
Andrew estava vestido com uma regata branca e calças jeans em tons acinzentados. A menina estava com um sobretudo preto que cobria toda a roupa, exceto sua bota de cano curto. Ela abriu um sorriso com os lábios vermelhos de batom quando escutou a voz de Junko.
Junko estava com uma voz incomum, desanimada:
— Você está bem? Já faz semanas que não vem para a aula.
— Você foi visitar minha prima?
— Não tive tempo... – Ela brincou com os cabelos, exibindo as mãos cheias de cicatrizes. – Mas eu fiquei sabendo do que aconteceu. Você tem uma boa advogada.
— Eu não bati na Dona!
— A policia disse que sim... – Ela desviou o olhar. – Não é isso que quero falar. Tivemos um desentendimento faz algum tempo e eu queria pedir desculpas, Luke.
— Tá tranquilo...
— Luke, eu sou uma professora muito jovem. E você é um aluno do último ano... Meu sentimento por ti é forte, e eu queria fazer algo para conseguir te conquistar. Éramos tão amigos... Desde o primeiro ano, se lembra?
— Junko, você é uma mulher incrível. Mas infelizmente eu não posso. Não estou me referindo a Cora, estou falando sobre não ter condição de perder tempo com isso.
— Tem algo a ver com seus sumiços?
— Isso. Eu não sei se você acreditaria se eu falasse.
— Eu já vi muita coisa nesse mundo, é por isso que estou dando aula de artes. A vida é uma arte.
Luke então desabafou e contou para ela tudo o que tinha falado para seus amigos. Sobre a mãe que havia sido infectada por uma entidade ruim. O mesmo para Dona, que foi liberta mais rápido do que Lucy. Sobre suas habilidades e sobre Villiaumite. O sorriso de Junko sumia gradativamente e quando ele a viu sem expressão, parou seu relato por achar que ela não estava acreditando.
— Meu amado, eu vi uma garota de 13 anos matando um por um 12 atores do falido grupo de teatro Black Birds. Eu escutei relatos absurdamente doentios e extremamente detalhados de cada assassinato. Eu já vi tanta maldade, Luke, que eu não sou mais incrédula a nada.
— Eu preciso lutar para Ilys agora e livrar Cora da outra entidade ruim.
— Pode contar comigo se precisar.
— Eu verei com Ilys a respeito de te colocar como olheira, assim como ela fez com Stevan, Dianne e Andrew.
Junko riu. Quando ele citou Andrew, ela comentou que em todos os dias que ele faltou na escola o menino veio, assustador de se ver o quão aplicado ele estava. Até suas roupas estavam mais tranquilas, ele não era mais aquele ruivo delinquente, era apenas um aluno fechado em seu mundo.
— E a respeito de Djin? – Luke perguntou. – Ele está bem?
— Está com licença de luto por uma semana, por que Maer morreu...
— Entendi. – Luke passou as mãos nos cabelos. – Mais algo, Junko?
Ela negou com a cabeça e estendeu a mão para o loiro, que apertou de volta muito gentilmente. Depois, ele a levou até seus lábios e beijou as costas da mão, soltando-a logo após e se retirando. Quando abriu a porta, viu um Andrew e uma Dianne fingindo que não haviam feito nada de errado, e isso fez ele sorrir. Bateu nas costas do amigo e envolveu a baixinha com o outro braço, chamando-os de curiosos antes de se retirarem do corredor. Estava quase na hora de irem embora, e ele havia prometido ajudar Kouta com um problema pessoal e também treinar os braços de Sumia, para seu poder ficar mais certeiro.
Segunda – 12:00
Yuki não era uma criança que gostava de brincar, mas adorava o balanço que tinha no parque daquele bairro. Uma mulher de cabelos azuis claros, olhos brancos e pele extremamente clara, além da roupa branca com losangos em vermelho que cobria parte de suas vestes, o empurrava cada vez mais alto. Duas vezes ele voou do balanço, mas ela era rápida o bastante para que com um passo alcançasse o menino em meio ao ar e o pegasse no colo, recolocando no balanço. Ele achava graça.
— Blizzard Egg! Cuidado com meu filho!
A Siyah olhou para Cintya e pediu desculpas, com uma voz muito cristalizada e robótica. Colocou-o no balanço e balançou mais lentamente, cuidadosa com o loirinho. Cintya estava num banco de madeira logo atrás, lendo jornais para buscar algumas noticias relevantes ao caso de Golden Black. Dela em si não achou nada, mas de Rivel e seu filho Jeffrey, havia muita coisa: O rapaz mais velho foi demitido da delegacia e o mais novo demitido da escola por maus tratos à alunos, mais especificamente à pequena Viktoria, cujo nome foi abreviado para VK. Mais um nome para a pequena menina que mal conversava, alguém estava ganhando da Siyah azul em relação a quantidade de nomes. Blizzard Egg tinha o nome de pedra – Aquamarine — tinha o nome de mascote – Crystal – E tinha o nome de Siyah. Depois que muitos estudos no corpo da mulher mostraram o DNA encontrado em Stigma, Cintya não conseguia mais chamar o Poder de seu filho de alguma coisa que não fosse sua verdadeira identidade.
O menino saltou do balanço e pediu para brincarem na gangorra, mas a mais velha sabia que o pequeno não conseguiria mover o brinquedo e era perigoso que ele, tão pequeno, ficasse sentado ali quase sem nenhuma proteção, então negou. Irritado, a criança começou a chorar, fazendo a fechadura da mulher brilhar vividamente e suas vestes, além da pele, se transformar em uma espécie de vidro azulado. Cintya não permitiu que a transformação fosse completa, correndo até a Siyah e tampando seus ouvidos.
Naquela hora, Kumi apareceu vindo de uma estrada que ligava o Sul do parque à parte onde eles estavam. Acenou para Cintya, com uma expressão cansada, e ao se aproximar deles, viu que Yuki estava choroso e que Crystal estava sentada no chão, com Cintya tocando seus ombros, mantendo-a próxima de si mesma.
— O que está acontecendo aqui?
— Yuki é um pouco teimoso... Você sabe, mãe de primeira viagem, não sei muito como reagir a tudo isso.
— E você ainda tem um menino com uma Siyah como Poder. A responsabilidade dobra.
Kumi sorriu e caminhou até o garoto, se abaixando e oferecendo um pirulito que era do tamanho da cabeça do mesmo. Fez carinho no topo dela e depois se virou para a mãe dele, com uma expressão mais rígida.
— Eu sinto que ele e o Poder já possuem um laço. No entanto, ela reage de forma estranha aos seus choros e birras, e tenho muito medo que ela o ataque, ou ataque a mim e ao seu pai.
— Siyahs são monstros, não se esqueça disso. Não são criaturas místicas que podem ser moldadas, são monstros. Primeiro aceite essa realidade. O que precisa fazem em relação a isso é trabalhar o controle do Yuki para com ela.
— Como faço isso?
— Yuki sabe falar alguma coisa?
— Ele já sabe falar bastante.
Kumi se sentou no chão, na frente do pequeno e pegou dentro de sua bolsa um bloco de folhas cheias de desenhos. Então mostrava coisas para Yuki, e mandava ele falar o nome do desenho em cada papel e se gostava ou não. A cada “Não”, Crystal sofria uma espécie de curto. Queria correr até ele, mas Cintya a segurava ali, firme, já que também tinha alguma autoridade sobre o Poder.
Depois de muito tempo mostrando as imagens, Kumi viu evolução nas reações de Yuki. Ele não agia mais com medo das coisas que não gostava, elas eram apenas figuras que eram inofensivas no momento. Depois, acariciando seus cabelos, sorriu para ele e disse:
— Yuki, toda vez que ficar triste, seu Poder reagirá para salvá-lo. Então evite demonstrar para ela sempre, pois ela pode machucar sua mãe.
— E se Yuki estiver triste...? – Ele disse, com uma voz fofa e infantil, além de curiosa.
— Você abraça ela, ou sua mãe. Elas vão te ajudar. Não faça birra também, vai irritá-la.
Yuki concordou e abraçou a ruiva com força. Eles ficaram ali por um tempo, mas Kumi se levantou e se afastou do menino, caminhando de fasto. Explicou que agora iria ensinar o que é realmente uma ameaça de vida, e o loirinho a encarou sem saber o que ela queria dizer.
— Se sentir muita dor, chame seu Poder. Se sentir muito medo, chame seu Poder. Apenas nessas duas ocasiões.
Aquilo era para o bem do garoto. Nas lutas, ele não poderia depender de sua mãe, pois ela tiraria o foco dele na batalha, e Cintya não tinha mais nenhum poder para ajudá-lo, seria em vão sua participação em uma luta contra, por exemplo, Golden Black. Então ela precisava ensinar o pequeno a se virar. Levantou do chão uma pequena pedra e jogou contra ele, sem mais nem menos, acertando-o na altura de sua coxa.
Cintya olhou para Kumi com uma expressão de reprovação ameaçadora. A ruiva fez um “shiu” para ela, e depois encarou o menino novamente, que começava a chorar descontroladamente enquanto segurava a área atingida. Crystal foi solta e se lançou na frente do menino, seu corpo cristalizando na mesma hora. A figura dela era muito exótica! Havia um corpo todo de cristal, com ausência de pés e mãos, e em seus respectivos lugares tinham pontas afiadas, como estacas. Ela se colocou em posição ofensiva e logo atacou Kumi, que desviou de seu ataque veloz e certeiro por pouco e rolou no chão para o lado, exclamando para Cintya acalmar o choro de dor do filho.
O resultado do duelo foi bem simples. Blizzard Egg havia voltado à forma humana e balançava Yuki em seus braços, enquanto Kumi se recompunha depois de sofrer uma chuva de ataques que lhe feriram os braços e as pernas. Cintya perguntou se ela havia pensado no treinamento já com esse resultado e tudo o que Kumi fez foi sorrir.
— Sim.
— Por que?
— Por que você é um estorvo para nós. Assim como eu também sou, para Ilys. Ela não quer os antigos guardiões nessa luta, por que eles são adultos e velhos, já com famílias e noções do que é uma vida boa, enquanto seus filhos sequer completaram duas décadas de vida.
— Isso que você disse não faz nenhum sentido.
— Eu já perdi uma amiga e quase perdi outra, mesmo que eu a odeie pelo resto de minha vida. – Kumi se virou para Cintya, exibindo seus olhos molhados, que só agora escorreram alguma lágrima. – Eu não quero te perder... Você é mais nova que eu... Você tem que libertar seu filho. Ele está nas mãos de uma Siyah.
Cintya se surpreendeu ao ver a atiradora de elite chorando e correu até ela, envolvendo-a com seus braços. Crystal observava as duas mulheres de longe, sem entender muito das relações humanas. Tudo o que a mulher sabia era o que foi apresentado a ela: Cuidar do pequeno Yuki.
Da geração anterior, Cintya era considerada a guardiã mais jovem. Numa época onde todas as meninas jovens tinham por volta dos 16-17 anos, ela tinha 12. Não era muito surpreendente, pois Lucy e Kumi também entraram com 12 na época deles. Depois de Cintya, a mais jovem foi a própria Ilys, que assumiu com 10 o cargo da mãe, pois a mesma estava doente. Ficou no cargo por 5 anos, antes do Apocalipse de Conchita. Era por isso que todas elas eram muito unidas.
A loira concordou com Kumi a respeito de ficar longe de Yuki por um tempo e foi com muita dor no coração que ela permitiu que ele fosse levado pela ruiva.
Segunda – 14:00
Na academia escolar, uma Sumia socava com violência um saco de pancadas enquanto Luke e Kouta liam um livro de magia. O jovem havia conseguido o mesmo na biblioteca de Octavia, e disse para Luke o quanto foi difícil entrar lá e olhá-la com Amethyst, acabando também por confessar que a amava para o loiro.
Luke mais olhava para o garoto do que para o livro. Ele queria ajudar de alguma forma o garoto, servindo como cupido, mas sabia que isso era mais complicado do que pensava já que Octavia era mais velha e precisava – teoricamente – de um rapaz mais velho. Kouta chamou a atenção do mais velho para uma figura em particular do livro, e ambos olharam para a mesma.
— Ilys deveria estar aqui para nos contar a historia das raças.
— Mas essa é a raça Kilici. Dos magos. Eles não se parecem com Octavia? Olhe.
Ele deslizou os dedos pela feição da maga da imagem. Os cabelos púrpuros, a pele clara, o corpo era esguio e sempre mais alto que as outras raças, com exceção da Altin. Costumava usar roupas pomposas em tons escuros e frios.
— Conheceu Vidia? Ela é a figura escrita de um Kilici nos tempos modernos. Também é uma mestiça de Siyah. Isso faz com que a Octavia tenha pelo menos três linhas de sangue em seu organismo. Por isso as características tão similares, mesmo ela não tendo poderes.
— Ela tem.
— Não, Kouta, não temos poderes inatos. – Ele pegou a pedra vermelha de seu peito e a amarela do menino. – Eles são provenientes das pedras de elemento. Por isso tenho meu atributo de fogo.
— Octavia tem o poder inato de ler mentes. Ela disse que só não consegue o fazer em Sumia, minha mãe e eu. – Sumia parou de socar o saco de pancadas, observando com o canto dos olhos quando foi citada. — Por isso pediu perdão quando descobriu que eu gostava dela. Ela não sabia.
Luke olhou para Sumia e depois para Kouta. Estalou os dedos e se esticou para cima, ainda sentado no chão. Depois se levantou e puxou Kouta pela mão, que se levantou também. A menina veio saltitante até eles e abraçou o irmão, ambos encarando o mais velho esperando algum tipo de frase épica.
— Vamos acabar logo com essa luta para que Kouta fique com a paixão platônica dele!
— Isso! – Sumia socou o ar acima, sorrindo toda animada. – Vamos arranjar a maga para meu irmãozinho!
Segunda – 19:00
Not Equal estava num canto, chorando agonizada enquanto era observada por Cora, que estava sentada sobre um banco, séria. Golden entrou no cômodo com uma aura obscura a rodeando de um lado para o outro, pensativa, às vezes suspirando. O choro de Not Equal fez a Siyah principal gritar. A terceira oficial em comando se encolheu ainda mais em seu canto, tremendo todo o corpo. Cora não se mexeu, mostrando estar em transe, tanto pelo desespero de não conseguir fugir das Siyahs, quanto pelo encantamento delas sobre si.
Golden Black estava se arrependendo de não estar mexendo os pauzinhos rápido. Deixando tudo com suas duas oficiais e também com seu pseudo-contratado, ela se viu encostada na parede pela primeira vez. Seu corpo negro se converteu na figura feminina charmosa de sempre, invertendo suas cores negras para dourado e vice versa. Toda Siyah tinha uma forma humana, e a dela era praticamente igual a original. Sem dar satisfações para a outra, ela simplesmente subiu as escadas e avançou pelo labirinto de madeiras destruídas que caíam pelos cômodos detonados da casa. Ela alcançou a porta e seus ombros caíram quando viu Rivel e Jeffrey ali. Depois, dominada por uma ira sobrenatural, avançou contra o rapaz mais velho e colocou as mãos em seus ombros, sacudindo-o violentamente.
— Sua demora custou a vida de Stigma!
— Eu tenho meus motivos para não estar agindo.
— Sua esposa...? Acha que eu me importo com sua família? Temos um acordo, Rivel Leroy, e você anda quebrando ele!
— Não grite comigo na frente de meu filho.
— Que também anda sendo outro inútil! – Ela olhou para Jeffrey, irritada. – Eu te dei uma única missão: Matar a nova Perpétua da morte. Antes que encontrasse com Ilys. E você só a machucou.
— Fui pego. – Jeffrey disse, muito seco. – Eu sou tesoureiro de uma escola, Seine, não é tão fácil assim. Eu não posso ser visto, então fugi antes que a turma saísse.
— Pensou na questão levar para a casa e apagá-la lá?
— Pensou na questão minha mãe?
Golden sentiu o sangue fervilhar. Aqueles dois eram uma dupla de idiotas. Rivel esteva com uma expressão intocável, seu olhar estreito, a franja perfeitamente desenhada sobre um dos olhos e os lábios apertados, assim como as mãos cerradas. O mais jovem estava numa posição relaxada, olhando as unhas da mão esquerda e roendo as pontas da unha do indicador. Quando o mais velho pensou em falar, ela colocou o indicador sobre os lábios dele e disse “shh”. Jeffrey tomou a frente do pai e apontou para o rosto da mulher, autoritário.
— Escuta aqui. – Ele começou, com os dentes trincando. – Você esqueceu que tem um acordo com meu pai, e ainda não foi cancelado? É uma coisa muito simples, que eu sequer vi onde nós ganhamos nisso. Um favor para minha família em troca de investimento no projeto Midnight? Certeza? E se você perder?
— Ratinho de porão, se eu perder, levarei metade desse planeta comigo.
Rivel olhou para Golden e começou a gargalhar. Até mesmo Jeffrey o repreendeu com os olhos, pois sabia que apesar de Golden estar sob seu controle, ela ainda era perigosa e traiçoeira. Mas o loiro não se importava com isso. Ele empurrou a mulher com suas forças e arrumou a gravata preta de seu terno, engolindo a risada e olhando furiosamente para a Siyah, que naquele momento estava encostada na parede de sua mansão decrépita. Foi questão de segundos para ela mostrar a eles que não estava tão sob controle como pensavam. Apontou o dedo para o ombro do loiro.
O ar em volta deles ficou pesado e o ambiente escureceu antes de iluminar-se fortemente com uma esfera de luz amarelada do tamanho de uma bola de tênis. Depois a esfera se comprimiu num disco em forma de galáxia em tons dourados. Uma corrente com uma ponta afiada foi lançada através do pequeno portal dourado, atingindo Rivel em cheio. Quando a garota abriu mais um portal, Rivel que estava caído no chão, estourou a corrente e se afastou engatinhando, genuinamente assustado com o ataque da Siyah. Então a mesma abriu um portal maior e deste surgiu uma arma estranha: se assemelhava com uma lança cuja ponta se dividia em três, mas que as pontas convergiam para um foco em comum. A lança seria lançada e faria um estrago catastrófico: abriria um orifício de pelo menos 20 cm de diâmetro a partir das costas do rapaz e ele atravessado pelo mesmo, ficando preso contra o chão.
A lança se desintegrou no ar junto dos portais quando Jeffrey balançou a centímetros dos olhos dourados dela uma chave grotescamente grande, antiga e amarela, com a parte de cima bem redonda e presa por uma corrente fina e dourada. Golden tampou a fechadura em seu peito e deu três passos para trás, assumindo a forma negra das Siyahs e se camuflando nas sombras.
— Eu sei que você está me ouvindo ainda. Se você não garantir que Thereze Fille ficará bem, nosso acordo será quebrado e tomarei toda liberdade de usar sua chave, entendeu? – A mulher nada respondeu. – Então é assim que a rainha de todas as Siyahs age? Foge de dois humanos comuns? Você tem mais 3 meses, Seine. Nesses 3 meses abriremos mais dois bancos. Você terá todo seu dinheiro, mas se eu não receber retorno, faço com que vá presa! – A resposta que ele teve foi apenas uma risada zombeteira seguida de silencio. Jeffrey guardou a chave e olhou para seu pai, que se levantava com dificuldades por conta do ferimento. – O senhor está bem?
— Uns dias no hospital e alguns pontos. Tudo ficará bem. Vá por mim, já fui ferido por coisas maiores.
Jeffrey sorriu e apoiou seu pai passando o braço ao redor de seu ombro. O carro não estava distante, mas era uma longa caminhada até encontrá-lo, considerando a velocidade dos dois.
Segunda – 20:25
Annabelle, a Perpétua dos sonhos, estava ajoelhada em frente às pernas de Rivel, cuidando do ferimento do ataque de Golden logo abaixo de sua clavícula. Ele começou a reagir histericamente quando a mulher o costurou a sangue frio. Enquanto ele rosnava de dor, seu filho o acompanhava ao seu lado, sentado, como se sua presença fosse o suficiente para dar-lhe forças. Demorou algum tempo para que Jeffrey falasse algo, com a voz muito pesarosa.
— Annie não parece estar muito bem, pai. – Ele bebia cerveja numa caneca de vidro enorme. – Ela está faz uma meia hora acariciando a barriga sem me responder.
— Eu contei para ela. – Jeffrey olhou para Rivel, atônito. – Eu não estou mais confiando nos laços de Golden conosco. E não queria que ela fosse pega de surpresa, uma vez que prometemos a ela que Thereze Fille ficaria bem.
— Como ela reagiu? Contou a parte de Louise e sobre a previsão?
— Eu contei. Aargh! Annabelle!
— Desculpe... – A garota respondeu, dando os últimos pontos e o nó final. – Finjam que eu não estou aqui.
Rivel limpou as lágrimas de seu rosto antes de continuar a falar, e deu uma pausa dolorosa para Jeffrey, que estava muito ansioso pela explicação.
— Eu contei. Contei sobre Louise falar que Thereze nasceria morta e que ainda mataria Annie pelo parto complicado. – E depois suspirou. – Ela sorriu e falou que já sabia. Me relembrou quem era, que era a Perpétua do tempo. Que sabia da própria morte e da morte da filha, mas que estava muito feliz para se preocupar com isso.
— Ela quer muito aquela menina.
— Ela quer homenagear a mãe. Eu a entendo.
Annabelle ficou triste pela irmã. Ela sabia o que a outra estava sentindo já que Annabelle e Annie eram inférteis. Foi com muita surpresa que ela recebeu a noticia de que Annie estava esperando Jeffrey. Em seu coração, a homenagem que Annie pretendia fazer para com Thereze, progenitora de ambas, era a coisa mais linda que uma mulher fria como ela podia fazer. No entanto, ela não podia mais... Despediu-se dos meninos com um beijo no rosto de cada e saiu da residência, sem falar com a irmã.
Segunda – 22:00
Marina estava tocando gaita sobre sua cama quando David tocou a campainha. Abraham não estava em casa, para variar. Ela não parou de tocar ou mexeu um dedo para abrir a porta, e Luppi estava sentado sobre uma cadeira olhando para o nada. O moreno tocou de novo e dessa vez sua concentração foi interrompida. Saltando para o chão, caminhou até a porta e abriu-a minimamente, olhando através do vão.
— Seus cabelos estão negros novamente.
— Posso entrar?
— Estou sozinha em casa, meu pai disse que eu não podia deixar ninguém entrar.
— Mas Rose, sou eu.
A garota pensou um pouco antes de abrir a porta e deu passagem para ele entrar logo depois. Estava frio do lado de fora, e o rapaz não usava sua costumeira blusa de frio branca com capuz e sim uma jaqueta de couro liso marrom, com forro de lã de ovelha. Beijou-lhe o rosto e caminhou com ela até o quarto, se sentindo extremamente desconfortável com os olhos vazios de Luppi.
— Pensei que ele estivesse arrumado.
— Ele só funciona quando papai está aqui.
— Onde Abraham está?
— Lyrin, uma amiga dele, foi transferida do sanatório para um laboratório em Tokyo. Pediu ajuda dele para montar as máquinas.
David se sentou na cama da garota e olhou para ela, que estava apenas de vestido branco sem renda ou babados, e com alças finas que exibiam as cicatrizes da queimadura causada por Pietra e também a garganta marcada em vermelho.
— Você tentou de novo.
— A corda não era forte.
— Você tentou se enforcar...
— Eu não aguento ver Luppi, ver meu irmão, dessa forma! – Apontou para ele, nervosa. – Não consigo... Eu o amo tanto!
Quando Marina olhou para o menino, ela encontrou olhos repreendedores. O rapaz caminhou até Luppi e passou a mão em frente ao seu rosto, sem obter reação. Ele olhou para a loira e antes de explodir, pegou nas mãos do robô e puxou-o para ver se pelo menos podia ficar em pé. Luppi ficou. Ele olhou para o moreno como se fosse uma criança autista.
— Qual seu nome? – Não foi respondido. – O que você é de Marina? Quantos anos você tem? Quem é seu pai?
— Meu pai se chama Abraham.
— Só sabe responder a essa pergunta quando seu pai não está? Quem é essa garota, Luppi? – Ele apontou para a loira, que já estava a ponto de desabar no choro.
— Blood Mary.
Aquilo foi demais para a criança. Marina saiu correndo do quarto em direção a sala enorme da casa e depois, um pouco sem norte, foi até o banheiro e trancou sua porta. David se aproximou de Luppi e em vez de ser violento, sabendo que o menino não sentiria nada, ele colocou as mãos sobre os ombros do outro e vasculhou a região próxima do pescoço até encontrar o botão em sua nuca. O robô caiu sobre os braços do moreno e foi posto de novo na poltrona. Com Luppi desligado, o rapaz poderia dar toda atenção para sua amada.
Foi até o banheiro e bateu na porta algumas vezes. Chamou o nome dela sem obter respostas. Suas unhas arranharam a porta e nervoso, bateu nela até estourar sua fechadura. Quando invadiu o mesmo, encontrou uma Marina enfiada dentro da banheira branca lotada de água. A mesma estava ainda soluçando muito e na estante pequena de madeira próxima da banheira, além do shampoo, havia um secador com o fio posto na tomada. O moreno se jogou em cima da menina e segurou suas mãos quando ela ameaçou pegar o secador.
— Rose! O que você está fazendo?
— Max não existe mais, não é? Ele não pode voltar... – Ela soluçou. – Eu quero me encontrar com ele de novo...
— Mas e eu?
— Você não nasceu comigo, David. Ele sim.
David estava quase chorando junto dela, mas não o fez por que seu desespero estava mais forte que a tristeza. Invadindo a banheira junto dela, ambos vestidos, ele a pegou em seus braços e apertou-a forte contra o peito, depois puxando-a pelo queixo e beijando-a ternamente. Marina tentou se afastar, mas ele a prendeu até que ela deixasse de lutar. Relaxada, acabou aprofundando o beijo.
Enquanto a beijava, o rapaz desconectou o secador da tomada. Também pegou seu celular do bolso traseiro da calça jeans, que não havia molhado. Aproveitando que sua amada estava de olhos fechados, discou o numero de Abraham e interrompeu o beijo apenas para falar com ele assim que atendeu:
— Abraham... Por favor, volte para casa. Sua filha precisa muito de você. – Quando ele perguntou por que, o menino simplesmente respondeu. – Só vem, Abraham, e verá.
Ao desligar, a menina deslizou as mãos pelo seu rosto liso e delicado, puxando-o para mais um beijo cheio de carinho. Era a primeira vez que David era tão bem recebido pela loira.
Quinta – 10:00
Viktoria havia mostrado para sua mãe a caixinha de música. Desta vez não foi acompanhada por Kumi e sim por Ilys, que tinha como levá-la ao cemitério em seus tempos livres. A morena girava a chave da caixa varias vezes, tombando sobre o corpo de Yomi que não havia mudado absolutamente nada. Seu corpo estava intocado como sempre, os cabelos continuavam sedosos como sempre e a expressão de alguém prestes a acordar era evidente.
— Mamãe. Viktoria feliz.
Viktoria se afastou um pouco da cama de pedra da morena quando Ilys tocou em seu ombro. Pediu para a menina sair da cripta também. A albina abaixou-se e ficou de joelhos, acariciando o rosto da mulher morta e sentindo sua pele fria. Depois, desceu seus dedos até sua carótida e viu a ausência de batimentos. Seus olhos azuis se encheram de lágrimas.
— Hey, Nina... – Ela disse, chorosa. – Não dá pra parar de brincar de morta? Eu sinto falta do seu bolo mil folhas... Você nunca me ensinou a fazer. – Suas lágrimas pingaram no rosto da mais velha, mas foram secas rapidamente. – Eu te tratei muito mal quando pequena e fui eu que causei sua morte. Mas sabe... Se eu pudesse voltar no tempo, um pouquinho só... Nunca teria dito tanta coisa horrível de ti.
Ela se desculpou novamente e beijou a testa da mulher. Se despediu e saiu da cripta, fechando as portas pesadas e trancando o cadeado dourado novamente. Olhou ao seu redor e procurou Viktoria, sem a encontrar.
— Vik?
Barulhos de tiros foram escutados. A albina sentiu o coração a mil e saiu correndo na direção do barulho, chamando pela criança desesperadamente. Escondeu-se atrás de uma grande cruz quando localizou onde estavam os responsáveis pela troca de tiros. Estreitou os olhos ao ver Jeffrey apontando uma Harpers Ferry Modelo 1806, calibre .54 para a criança. Sua caixa de música estava quebrada logo atrás da morena que devolvia o ataque com suas duas armas seguradas do contrário. Os tiros de Viktoria estavam mais certeiros que os dele, e sua margem de erro era extremamente menor. O rapaz foi atingido na mão e acabou por derrubar a arma.
— Você é só uma criança, como consegue atirar desse jeito?
Jeffrey tentava falar entre os gritos de dor, enquanto segurava a mão ensanguentada. Viktoria ainda estava com as armas nas mãos, e saraivou o corpo do garoto com tiros certeiros em seus pontos vitais, mas Ilys se lançou na frente dele, seus olhos tomando de uma coloração rubra e as asas de prata cobrindo os corpos, tanto dela quanto dele.
— Não faça isso, Viktoria.
— Quis machucar Viktoria.
— E então vai ser igual a ele?!
Mas Jeffrey não quis esperar que as duas se resolvessem. Armou sua mão recessiva e atirou contra as costas de Ilys. A bala acertou o vão de suas costelas esquerdas, atravessando a musculatura e o pulmão esquerdo, passando abaixo do coração. Quando a albina caiu, ele atirou novamente em Viktoria três vezes, acertando todas. Ilys não havia apagado e conseguiu registrar a queda da pequena, que havia caído logo ao lado da pequena caixa de músicas.
— Aparentemente o que Hakushiro tem de fraqueza, você tem de ingenuidade. Por sorte a senhorita é da raça de seu pai e vai se livrar dessa. Mas se não fosse por mim, sua pequena Viktoria teria partido também, então... Não acha que está na hora de me deixar sair?
— Você tem liberdade para fazê-lo. Por favor, salve a pequena. Eu ficarei bem.
— Ahahaha. É incrível como os tempos de hoje estão estranhos. Normalmente a morte está a mercê do destino. Mas dessa vez é o destino que chora pela morte. Farei o que deseja. Como irmãs de título.
— O...Bri...
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