Aljha Rhara: Return to Zero - Livro 5
15 Eyes on Fire.2
Quinta – 11:10
– Sua regeneração é perfeita.
– Estou... Ar...
Ilys colocou as mãos no peito e apertou-o antes de abrir os olhos. Depois que olhou para cima, viu uma figura de cabelos brancos e longos olhando para ela, com terríveis olhos sem íris ou pupilas, totalmente negros. A mulher usava uma mascara de gás cuja tal estava conectada a tubos em sua nuca. Sua voz era abafada pela mesma e um pouco metalizada. Sua pele era branquíssima e tinha sobre um dos olhos uma tatuagem cobreada.
– Bom dia, Ilys.
– Hik... Met...
A mulher sinistra mostrou a bala que havia atravessado seu peito. Girou-a em sua palma da mão e depois lançou-a para Ilys, que pegou-a no ar e se levantou. Sua cabeça girou um pouco e quando ficou sentada, olhou ao seu redor para procurar a pequena Viktoria.
– Ela está bem. – Hikmet disse, enquanto observava uma Ilys tensa e preocupada. – Eu recolhi o corpo de vocês duas. Ela já estava conversando quando a peguei, você havia simplesmente apagado.
– O que é estranho, eu tenho uma regeneração muito boa.
Hikmet se afastou da menina, dando uma pirueta em seus calcanhares. Mais distante, a aparência da moça era bem identificável: Usava um Macacão Colante branco com duas fileiras de quatro botões na sua parte frontal. As costas ficavam nuas, e Ilys pensava que era pelo mesmo motivo de não gostar de se transformar com as roupas normais: Asas. Hikmet parecia admirar as novidades do mundo moderno. Havia uma bobina de Tesla sobre a mesa da albina e ela achava incrível tocar e vez os raios avermelhados encostarem em seu dedo, ao mesmo tempo que não sentia choque algum.
– Você é o poder de Viktoria?
– Eu sou. – Hikmet respondeu, sem dar-lhe ouvidos algum. – Não podia deixar minha pequena morrer para um humano qualquer.
– Jeffrey.
– Um portador de Siyah. – Ela olhou para a albina, com aquela expressão completamente impossível de definir. – Possivelmente está agindo de acordo com o acordo dele, como ouvi falar que minha irmã fez com outra garota.
– Irmã...?
– Stigma. – Ela se afastou do seu brinquedo e foi até a janela. Olhou para o lado de fora através das cortinas transparentes. – Mas dela você já sabe. Foi a que mais sofreu com suas ações.
– Você é igual a ela...? – Ilys ficou preocupada. Dar uma Siyah para a Perpétua da morte? Uma das que mais é perigosa e instável? – Quero dizer... Você foi uma Perpétua do destino, imagino que...
– Não, de fato. Enquanto Stigma tira sua vitalidade da contaminação de humanos, eu tiro a minha vitalidade do que aprendo com eles. Quanto mais humana sou, mais vitalizada eu me sinto. Mas você pode ver que estou longe de encontrar a forma genuína de um humano.
– Não vai encontrar nas eras de hoje, Hikmet. O mundo está caminhando para sua morte.
– O mundo está caminhando para uma ressurreição. – A mulher corrigiu, sem desviar o olhar do mundo externo. – Vocês estão no mundo para defender Conchita. Eles estão aqui para... Passarem. E a cada era, novas e mais fortes versões de “ser humano” aparecem. O homem morre a cada dia. E renova no próximo.
– Estamos entrando na era de Aquário.
Hikmet fez um barulho muito similar a uma risada. De fato, o ciclo da era de Peixes estava chegando ao fim. Ela sabia que ainda morreriam mais algumas gerações de humanos antes do transporte das eras. E sabia também que não haveria alguém para guiar a humanidade para a era de Aquário. Isso fez com que a mulher se fechasse em uma expressão neutra.
– Você sabe que essa era pode nem chegar, se minha mãe tomar conta de todo o mundo real.
– Estamos trabalhando nisso.
Hikmet passou pela cama onde Ilys estava e depois atravessou a porta, sem avisar onde iria. Mais tarde a albina entenderia que Viktoria estava chorando.
Quinta – 21:55
Abraham havia afundado em bebidas quando viu que havia falhado com sua filha novamente. Tudo o que ele tentava fazer era ajuda-la, mas a via cada vez mais vazia, sentada em um canto do quarto, olhando para fotos de Max, olhando vídeos antigos, rabiscando ou simplesmente dormindo no chão. Naquele dia sua filha estava com o amigo “ligado no 220” como Abraham falava, e então o rapaz foi conferir algumas coisas no quarto de sua pequena Rose, cômodo da casa que ele não entrava desde a morte de Max.
Abriu a porta e acendeu as luzes, se deparando com um cenário digno de filmes de terror. A parede estava toda arranhada e descascada. As fotos do irmão da garota não estavam mais penduradas ali, e no lugar havia notícias de assassinato, além de alguns desenhos de projetos cujos tais ele não conseguia reconhecer ainda. O retrato da família estava queimado bem sobre o rosto de Pietra, e o vidro quebrado e ensanguentado.
Abraham se pegou chorando. Virou-se para a poltrona e viu Luppi desativado de uma forma serena, exatamente como se Max estivesse ali, dormindo. Não queria desmontar aquele robô. Ele era perfeito. A pele, a altura, os cabelos, o porte físico, tudo aquilo lembrava Maxwillian, e lembrar Max fazia o pai chorar mais ainda. Seu choro ficou desesperado quando se lembrou de como estava: Sem filho, com a esposa no sanatório e com a filha prestes a cometer um suicídio, tomando remédios controlados. Onde foi que ele errou? Foi com muita dor no coração que ele levou Luppi até seu escritório e o deitou sobre uma mesa de madeira.
Havia pego consigo alguns papéis do quarto da filha. Eram projetos e antes de fazer qualquer coisa em Luppi, ele analisou-os. Mari queria uma amiga. Uma parceira que poderia contar suas dores uma vez que o moreno filho de Tushitsuji não podia entender 100% a pobre loira. Uma amiga era o ideal. Uma mocinha que poderia ser animada com a filha, protetora, sincera, companheira fiel. Uma amiga que lembrasse Lara Lyanna, uma vez que a pequena chorou muito pela morte da psicopata, que na verdade nunca havia retornado o sentimento puro de amizade. A robozinha não poderia ser rude, não poderia ser fria. Deveria ser tudo o que Lara não era: Tudo o que Max foi. Tudo o que Pietra queria ser. Perfeita.
Foi com base nos sistemas desenhados pela filha que ele abriu o peito de Luppi e lhe arrancou os sistemas todos. A caixa torácica tinha a forma de um garoto muito jovem, o corpo que Maxwillian tinha antes de morrer, magro e com cintura. Não precisava de modificações ali, mas incluiu curvas na placa de acrílico para fazer pequenos seios. O sistema era praticamente o mesmo: engrenagens e um bombeador de energia, que se conectava a placa em seu cérebro.
O silicone do rosto foi totalmente remodelado: o rosto estava arredondado e extremamente pálido, já que o látex foi todo usado em Luppi e não sobrara nada. Os globos oculares de vidro vieram do primeiro robô criado por Abraham, chamado Sandy, a pianista. Foram postas no lugar de lanternas laranjas que ainda brilharam através das pupilas. Os lábios e bochechas foram pintados com perfeição e a boca da nova criação de Abraham tinha formato de um coração arredondado. Como única forma e defesa, ele aplicou dentes serrilhados em sua boca e para a voz ficar mais natural, montou uma língua de segmentos. Os cabelos deveriam ter a cor dos de Lara, negros quase púrpuros, mas ficaram em um tom de roxo bem forte, com uma franja desregular sobre um de seus olhos. O rapaz, ainda incrédulo com o que fez com seu amado Luppi, olhou para sua nova filha e achou que estava bom.
O rapaz abriu uma caixa de madeira cheia de papéis brancos, cada um dos papéis possuía o contorno em vermelho, e ele escreveu palavras em vermelho sobre a extensão branca, colando no peito da criação. Por fim, ligou dois cabos em seu peito e ativou um mecanismo em uma pequena máquina de metal preto, fazendo o corpo da robô estremecer em ondas de choque até ver que o papel havia sido totalmente queimado.
A menina tomou fôlego e se levantou, olhando fixamente para Abraham que foi a primeira figura viva que ela havia identificado. Tombou a cabeça para um lado e sorriu animada, saltando da mesa.
– Olá Grande Abraham! ~
Abraham olhou para a garota e deu um salto, assustado, por pouco não batendo na máquina e derrubando-a, estragando sua primeira criação.
– Como sabe meu nome...?
– O que está falando, idiota?! Trabalhamos juntos desde meus 11 anos. Você ficou mais velho...
– P...Pietra?
– Tem alguma coisa na minha cara? – Ela rosnou, caminhando até uma caixa de vidro onde dentro havia uma cabeça robótica sem cabelos ou olhos. – Você está mais estranho ultimamente, Abraham.
A garota deslizou os dedos pelo vidro e depois se viu refletida em outro vidro, menos transparente e mais brilhante. Seus ombros caíram e sua expressão se converteu ao desespero. O surto que se seguiu resultou na queda de muitos objetos frágeis no chão e ela correr desesperada pela casa em busca de um espelho. O espelho do banheiro se reduziu a cacos. Ela sequer conseguia direcionar seu ódio para alguém, apenas gritava em horror. Aquela figura não era ela. Não era ela. Onde estavam seus cabelos louros e cheios de cachos? Quando passou por Abraham, foi atingida com um pedaço de ferro, caindo para frente com a parte traseira da cabeça esmagada.
Abraham estava ofegante e sua expressão estava convertida para o cansaço. Luppi não foi desse jeito. Luppi recebeu exatamente a alma convocada, mas o fato era que Abraham não sabia exatamente a alma que queria convocar e o sistema de números criados pela Perpétua da morte. Tudo o que o rapaz sabia era que os números impares eram os números dos homens, e os números pares era dos Conchitanos. Tudo o que a magia do rapaz permitia, aprendida com Vidia, muito tempo atrás, era selecionar armas para suas criações, transformando-as em criaturas semivivas. Aquela magia se chamava Aurora. Vidia disse que eu não podia abusar dessa habilidade, pois as vezes a frase usada como oferenda não era exatamente o que a pessoa desejava.
– “Alguém que confiaria a vida da minha filha.” – De fato, a Pietra criança era uma Pietra doce mesmo que autoritária, e tinha um sorriso solidário uma vez que conhecia toda a historia triste de cada pessoa do antigo circo. Ele pegou o corpo da robô e levou-a para a mesma mesa de outrora – Eu não me lembro quando Pietra se tornou a criatura rude e fria com quem me casei.
As próximas cinco horas foram usadas para escrever notas sobre o livro Aurora e para criar uma chave onde a robozinha pudesse ter três almas, para criar uma pessoa completamente nova: Maxwillian, Lara Lyanna e a própria Pietra. Pessoas que de alguma forma não feriam a pequena Blood Mary. Quando o serial foi implantado dentro da placa cerebral da menina, o rapaz chamou-a.
– Projeto Aurora 2.0, serial 345673237, qual seu nome...?
– Chica. – Ela disse, em um tom muito sem sentimento. Depois que seu corpo dobrou para cima, sentando-a sobre a mesa, sorriu para Abraham, o seu criador. – Prazer. Cuide bem de mim. ~ — Apesar de seu tom de voz obscuro, a voz zombeteira da antiga Pietra ainda existia.
Terça – 12:43
Durante cinco dias, o engenheiro mecatrônico estudo todas as possíveis reações de Chica em diversas situações e viu que era bom. A menina fazia café com perfeição, o mais saboroso que ele havia provado. Registrava informações na sua mente que apareceram por um misero segundo em frente de seus olhos. Conforme o tempo passava, passou a demonstrar opções para coisas: preferia a cor roxa, gostava mais do frio que do calor, era apaixonada por répteis tendo como preferido a Serpente-Tigre, obtendo um espécime do laboratório de Lyrin, a amiga de Abraham. Não entendia ainda sobre vida e morte e perguntava para o mais velho toda vez por que aquela cobra não falava ou se movia. Tinha uma curiosidade particular para coisas doces, apesar de sempre reclamar por não sentir nenhum sabor. Apreciava mais a figura feminina do que masculina, coisa que ele achava ter herdado de Max. Abraham começou a constatar que se a robô fosse uma garota real, ela seria homossexual.
Quando Marina retornou com os ânimos revigorados, ela encontrou a casa bem silenciosa. Caminhou pelos cômodos em busca de seu pai, sem encontrar e resolveu tomar seu banho. Lá dentro se deparou com a figura da robozinha que lhe olhava de volta com um sorriso de gato, os lábios rosados em forma de coração enquanto o rosto era pálido como papel. Entregou-lhe uma toalha azul e fez uma reverência, se apresentando muito próxima do corpo nu da loira.
– Meu nome é Chica. Seu pai me criou para ser tua companheira. Prazer. ~
– Era só o que me faltava... Meu pai realmente não aprendeu?
Mas Chica era diferente de Luppi. Era simplesmente pura, viva, seus olhos vermelhos pareciam brilhar. Aqueles globos oculares foram reconhecidos pela loira, que se aproximou perigosamente da menina e tocou-lhe a íris rubra. Se fosse uma humana, Chica fecharia os olhos em resposta, mas os olhos de vidro não tinham sensibilidade e ela apenas achou engraçado.
– O que foi?
– Esses olhos são de Sandy, o que meu pai está fazendo?
– Eu fui feita para cuidar de ti. – Ela sorriu gentilmente. – Precisa de ajuda em seu banho?
Naquela tarde, as duas tentaram se dar bem. Chica era sempre muito colada na filha de Abraham, sempre perguntando se ela desejava algo ou se precisava de ajuda. Nos cinco dias que a loirinha havia ficado na casa de David, havia visto o Poder dele e se perguntado como ativaria o seu. A robozinha ficou deitada ao lado da menina enquanto a mesma olhava para sua pedra brilhante e negra. Os olhos vermelhos de Chica brilharam quando a Pedra-Estrela fez o mesmo e a curiosidade da moreninha cresceu ainda mais.
– Hey. O que está acontecendo?
– Shh.
– Mas... Hm...
Chica não conseguiu cumprir o que Marina pediu. Tocou na pedra no chão, em frente as duas, e um brilho ofuscante fez com que a loira desviasse o olhar e a robô apagasse. Quando tudo voltou ao normal, a pedra estava trincada e a morena estava caída no chão.
– E... Essa não...
Terça – 15:00
– Que robozinha linda!
– Sim, meu pai a fez. – Mari estava sentada na cama, olhando para Chica que ainda estava no chão, mas deitada cuidadosamente dessa vez. – Estou com medo de ter queimado, meu pai vai me matar.
Kouta olhou para Ilys, que com um aceno positivo, o permitiu verificar os circuitos de Chica. Quando ele abriu seu peito, a estrutura interna impressionou o pequeno gênio mecânico. Ele colocou a ponta de sua caneta de teste nos fios e viu que a energia ainda passava ali, logo, ela estava desmaiada como uma pessoa comum e não como um robô de sistema fora do ar. O menino elogiou a tecnologia usada por Abraham durante todo o tempo, e perguntou a origem das placas e técnicas.
– Tokyo...
– Não me diga que Abraham está trabalhando no projeto Midnight com Lyrin.
– Você sabe disso?
– Estou tentando abrir processos para parar esse projeto. Já faz tempo! Eu não quero incriminar Abraham, mas infelizmente o projeto e ilegal. Ele esta sendo encoberto por Rivel Leroy.
– O marido de Annie? – Kouta disse, sem olhar para ela. – Então descobrimos um traidor entre nós.
– Não, não fale assim. Annie não tem nada a ver com isso. – Ilys se sentou na cadeira em frente à escrivaninha do quarto de Marina. – Ela estava tão desamparada quando a vi pela ultima vez que parece perto do suicídio. Deve ser complicado estar casada com o rapaz que esta ajudando nossos inimigos.
– Eu me pergunto por que Golden não fez nada além de se apresentar perante a construção de bancos. Não acha estranho?
– Vou descobrir isso em breve...
Quando Ilys falou aquilo, sua voz parecia bem mais triste do que o normal, como se ela mesma não tivesse esperança no que falava. Kouta sentiu o pulso ser pressionado pelas mãos robóticas da pequena Chica, que sorriu exibindo seus dentes serrilhados, pedindo para que ele parasse. Enquanto Kouta dava toda atenção para a criação mecânica, Ilys flutuava em seus pensamentos, direcionando-os para Annie, depois para Tokyo e o projeto que ela estava tentando fechar novamente, dessa vez sem seus punhos e sim com a justiça. Era por isso que ela odiava a sociedade humana: eles complicavam muito as coisas, no fim, nenhuma legislação realmente valia a pena dar o sangue.
Depois de muito devanear, ela chamou Mari para a sala e olhou sua pedra trincada, exatamente como a de Viktoria. A criança estava naquela mesma sala, brincando com um cubo mágico enquanto era rodeada pelo seu próprio poder, que estava mantendo-a segura desumanamente. Parecia uma leoa protegendo a cria e só deixou Vik ser pega pela própria Ilys, que colocou-a sobre seu colo para brincar com ela enquanto falava com a loira.
– Viktoria também teve um objeto possuído pelo Poder.
– E como ela esta se sentindo?
– Por enquanto esse Poder não foi posto em teste, mas sinto que a hora esta próxima.
Hikmet olhou para Ilys e seu olhar era profundo. Ambas sabiam o que isso significava: Golden estava planejando algo grande e precisavam impedi-la antes do projeto Midnight sair perfeito. A ordem que a albina passou para os membros foi bem simples: Impedir todo mundo de tocar no robô, pois Chica era parcialmente desenvolvida com a tecnologia do projeto e poderia se tornar perigosa se fosse completada. Os Perpétuos e Guardiões foram aconselhados a cortarem relações com Lyrin, e Annie ficou sob custódia da própria irmã Annabelle. Assim, os vírus do grupo – os Leroy e a Perpétua do desejo – eram excluídos do plano do contra-ataque Conchitano.
Chica veio correndo até o grupo e perguntou se eles queriam comer alguma coisa e quando pediram por bolachas de nata, ela correu até a cozinha preparar. Ilys se escondeu atrás do batente da porta da cozinha, olhando para a menina que, mais baixa que a albina, precisava ficar na ponta dos pés para pegar os utensílios mais altos. Ela era totalmente agitada: Seus pés giravam e giravam enquanto ela corria pela cozinha, derramando um pouco de leite no chão, derrubando um pouco de farinha na mesa. Mas parecia habilidosa, seria os dotes culinários de Pietra? Ilys refletia sobre isso. Aliás, preferiu perguntar diretamente na fonte.
– Marina, quer ver sua mãe?
A loira correu até a sala e viu Ilys encostada na batente que separava aquele cômodo da cozinha. Seu olhos brilhavam, mas a expressão era séria. Ela acenou com a cabeça e Ilys sorriu.
– Hikmet, cuida dos garotos. Eu vou para o sanatório.
– Agora? – Sua voz ecoou pelo cômodo, rouca e metálica. – Não precisa ser agendado?
– Eu resolvo.
Enquanto Marina e Ilys saíam do apartamento, Chica correu até a sala com a bandeja e suspirou, vendo a amiga e a albina se afastando. Depois olhou para a bandeja e ficou pensando no que faria com as bolachas, mas Kouta disse que ainda queria comer.
Terça – 16:34
Ilys e Mari estavam no quarto que uma enfermeira ruiva lhes apresentou. O cartão magnético que abriria a porta estava nas mãos da albina enquanto a enfermeira estava lá atrás, no corredor, observando-as.
– Ela está sem sedativos. – A mulher falou. – Eu estou impressionada do diretor ter deixado que a vejam.
– Não se preocupa, está tudo certo. – Ilys sorriu. Mal sabia a ruiva e a garota loira que o que ela fez foi subornar o diretor. – Vamos lá.
O cartão deslizou no imã e a porta destravou. Foi empurrada com muito cuidado e primeiramente foi a mais velha que entrou. Pietra estava num canto, abraçando as pernas com os pulsos extremamente roxos e feridos. Havia ficado com camisa de força até muito tempo, mas entrou numa espécie de transe que possibilitou sua retirada.
– Pietra... – Ilys suspirou. – Meu deus, como você caiu...
Ilys conhecia Pietra desde as eras de ouro do circo. O rosto da mulher estava fundo e ela estava magra. Os olhos opacos e a pele pálida. Ela se virou apenas com o rosto para as visitantes e nada falou ou fez, mas quando viu Marina, seus olhos foram tomados por um ódio fulminante que fez aquele corpo fragilizado lançar-se contra as garotas. Foi impedida por uma coleira que ligava seu pescoço à parede, que a enforcou, fazendo cair sentada e tossir violentamente. Ilys ficou agonizada com a cena; apesar de saber de tudo o que Pietra fez, elas ainda se conheciam faz tempos.
– O que essa vagabunda está fazendo aqui?! – Ela rugiu. – Eu não posso sequer esperar minha morte em paz?!
Marina se encolheu atrás do corpo de Ilys , assustada com os olhos psicóticos da sua mãe. A albina se abaixou lentamente, ficando na mesma altura que a confinada e lambendo os lábios, começou a falar.
– Desde quando Abraham tem ligação com Golden Black?
– Eu não sei do que está falando. – Ela disse, entredentes. – Saiam daqui!
– Por favor, ajude-me a te ajudar. Posso te tirar daqui se me ajudar. – Estava blefando, Marina soube disso, mas Pietra pareceu relaxar. – Tente se lembrar. Ele é um gênio em robótica, mas as técnicas atuais dele não são humanas. Isso tem a ver com Golden Black. Me diga sobre isso.
– Eu não sei quem é essa. – Ela repetiu, parecendo mais sincera dessa vez. – Mas Abraham recebeu subsídios de uma organização oculta para desenvolver corpos ou reparar corpos a fim de aguentarem a magia Aurora.
– Transferência de alma...
– Ele faz isso desde que os Midnight era um grupo de 10 pessoas. – E ela sorriu maliciosamente. – Mas claro que você já sabe tudo a respeito disso.
Antes de Ilys responder algo, sua face se transformou em raiva e ela estremeceu a mão, quase socando Pietra e fazendo-a engolir suas palavras. Era obvio, estavam falando de Hakushiro.
– Mas o projeto Midnight foi fechado junto de Conchita. É virtualmente improvável que alguém do mundo real tenha conseguido reabrir...
– Annie e Lyrin achavam que poderiam consertar erros do passado fazendo isso. Então pegaram o projeto para ajudar Golden Black, mas Golden traiu o pacto com as Perpétuas.
– Você sabe muito para uma circense. – Ilys estreitou os olhos. – Sabe qual o pacto?
– Eu não. – Pietra sorriu, dando de ombros. – Eu não sou uma escolhida.
Aquela conversa não estava avançando muito, então Ilys apertou as perguntas. O que conseguiu basicamente o que já sabia: Abraham continuou a criar corpos mesmo após o fechamento de Midnight e precisava da legalização do projeto para vender o que construiu. Para isso, precisava de Rivel. E Rivel legalizou isso. Com a venda dos protótipos, ambos conseguiram subir igualmente na vida e o loiro passou a mexer com bancos e a movimentar muito dinheiro, auxiliando ainda mais seu parceiro Abraham, ate que o mesmo desfez a parceria entre eles por descobrir que parte do dinheiro que estava ganhando era de origem ilegal. Mesmo assim, o rapaz já havia conseguido uma vida boa para sua família, com seu salario farto.
Marina entendeu por que Luppi e agora Chica eram criaturas assustadoramente perfeitas. Eram criadas com a tecnologia mais avançada que poderiam encontrar por ali. Mas a voz ríspida de Pietra a fez sair da sala e ficar no corredor, ouvindo pela parede, esfregando os braços devido ao frio do ar-condicionado. Foi então que escutou uma explosão de ira por parte de sua mãe dentro da sala, que começou a falar com a voz aguda e desafinada, coisas que se referiam a própria garota e ela espiou pela porta:
– Eu não aguento mais! Vocês não tem mais nada para fazer além de cuidar de minha vida? O que isso tem a ver com vocês? Tudo o que eu desejo é ter uma vida tranquila aqui dentro. Mas você traz essa praga para me ver, quer o que? Esfregar na cara dela que eu estou deplorável?
– Por que tem tanto ódio contra Marina? Ela é sua filha. Deveria ter o mínimo de carinho por ela.
– Essa foi ótima. – Pietra disse, entredentes. – Essa menina desgraçou minha vida. Eu queria ter apenas um filho. E então tive que dividir minha atenção entre dois gêmeos. Acontece que essa criatura do demônio fazia a vida do irmão dela um inferno! O perseguia como sua sombra, tinham relação incestuosa com beijos e abraços românticos, não permitia que ele saísse de seu campo de visão ou que conversasse com alguém. Não permitia que ele tivesse uma amiga sequer, espancava todas, batia nele quando o mesmo fazia isso. Depois que ele morreu e foi enterrado, ela tentou o decapitar para manter sua cabeça junto de si. Isso por acaso parece coisa de criança?!
Ilys estava atônita enquanto ouvia aquelas afirmações com tanta convicção. Pietra abaixou a cabeça, sentindo os olhos molharem enquanto falava de seu amado filho de cabelos castanhos e olhos azuis. Ele era sua relíquia, e como ela explicara, Marina também seria, se não fosse tão hostil. A albina olhou para a menina e esperou alguma resposta, mas a loira estava estática, apenas olhando de volta com aqueles olhos negros, profundos e sem vida.
– Você era possessiva com ele mesmo?
– Eu prezo pelas coisas que são minhas...
– Estou falando sério. – Ilys estreitou os olhos. – Nada justifica os ataques de Pietra , mas você não pareceu ser uma boa garota também.
Marina deu uma tombada com a cabeça para o lado, como se perguntasse com os olhos: “Você está me contrariando?”, ela deu um meio sorriso, um sorriso malicioso, uma expressão cheia de veneno. Ilys estava com algo em sua bolsa, mas agora parecia em duvida se deveria utilizar ou não.
– Independente do que fiz, acha que o tratamento que recebi era justo? Ela tentou me matar...
– E você era totalmente inocente, não é?
– Ela amava Maxwillian! Ela não me tratava como filha... Somos dois filhos dela, ela já havia perdido ele, não deveria me amar?
– Entao fez tudo isso por que queria atenção dela, e não de seu irmão?
– Eu queria atenção de todos! – Ela gritou. – Eu queria ser amada, meu pai amava Max, ela amava Max, as amigas dele amavam ele, e eu não tinha amor de ninguém!
– Seu irmão te amava! – Pietra gritou, quase estourando as correntes que lhe prendiam na parede. – Ele viveu por você! Olha o que fala! Ao menos...
– Dane-se. – Ela respondeu, com a voz baixa. – Ele amava todo mundo... Eu quero alguém que ame apenas a mim!
Ilys continuava com a mesma expressão assustada e Pietra desabou com seu corpo no chão, ficando deitada e se girando para olhar o teto. Nenhuma das duas eram vitimas, ambas fizeram coisas erradas e essa seria a ultima vez que a albina tocaria na historia dos Engberg, família daquela guardiã. As palavras de Ilys fuzilaram o coraçãozinho bagunçado da loirinha:
– Parabéns por fazer jus ao seu atributo, como todas as outras antes de ti.
Ela abaixou a cabeça e disparou correndo pelos corredores. A Perpétua não foi atrás. Caminhou até Pietra e se abaixou perto dela, colocando os joelhos no chão logo ao lado de seu rosto. Os olhos negros da ex circense focaram na advogada e ela deu um meio sorriso, sabendo que a expressão séria de Ilys não era em vão.
– Está tudo bem. Eu já perdi meu marido, meu filho e minha filha. Não acho que minha meia irmã irá chorar por mim também.
– Maer está morta. – Pietra engoliu seco com a resposta e sentiu os olhos arderem e lacrimejarem. – Maer morreu defendendo a dignidade de David... Eu sinto muito.
– Aquela vadia idiota... – Ela disse, com a voz rouca, deixando as lágrimas escorrerem. — ...Ilys. Por favor, impeça Blood Mary de fazer alguma besteira. Ela está prestes a ruir. Eu sei que é muito estranho que a minha pessoa fale isso, mas antes de tudo, eu amei os gêmeos. – Ilys balançou a cabeça em afirmação. – Se a situação fosse oposta, eu atacaria Max e não ela. Mas... Eu não sabia como parar, meu ódio... Ele era tão forte... – Pietra finalmente começou a chorar abertamente, uma vez que lutava contra o nó na garganta. – Ela o machucou tanto... Ela... Ilys...
– Eu tive permissão de Abraham para comprar sua eutanásia.
– Eu imaginei que isso fosse acontecer logo. Ele é minha única família, não tenho mais meus pais para permitirem ou não isso, e você é da justiça, então... Não poderia esperar outra coisa.
– Sua loira boba. – Ilys estava chorando junto da outra, enquanto sacava a seringa embebida no liquido, para a dosagem letal. – Poderíamos ter sido amigas na infância, você sabe.
Pietra apenas fechou os olhos e depois de alguns momentos de silencio, o ardor acompanhado por uma gélida sensação preenchendo suas veias levou-a ao negro da morte.
A albina demorou alguns momentos para recuperar antes de arrumar sua bolsa e sair do quarto, caminhando pelos corredores e passando pela recepção. Olhou para a mulher logo ali e sorriu gentilmente, ainda com olhos vermelhos.
– Viu uma menina baixinha, loira e de cabelos curtos correndo por aqui?
– Ela seguiu para fora. – A mulher apontou para a porta com o polegar, sem tirar os olhos da revista que lia. – Estava com um saquinho na mão, eu não vi o que era.
– Eu receio que não tenha visto... – Ilys disse, em tom de ironia, levando em consideração o fato da pouca atenção que a mulher de seus quase 40 anos dava para ela enquanto passava a informação. – Tudo bem, obrigado.
Ilys, ao sair do local, teve a doce impressão de que estava indo pelo caminho errado. Ela estreitou os olhos e deu meia volta, passando pela recepção novamente, depois pelos corredores e alcançando o jardim interno do sanatório. Sorriu ao ver pegadas pequenas com uma depressão na parte traseira dessas em forma quadrada, feitas pelo saltinho da sapatilha da menina. Correu pelos caminhos do labirinto de plantas e encontrou uma loirinha sentada sobre uma pedra com bolinhas brancas em sua mão. Ilys correu até ela e agarrou seu pulso, impedindo os remédios de serem ingeridos.
– Você esta louca?!
– Me larga, o que você tem a ver com minha vida?
– Eu sou tua tutora agora, como líder dos escolhidos, você se comporte! – Mari puxou seu punho dos dedos de Ilys, rosnando. – Eu prefiro você depressiva a esta arrogante, sabia?
– Então me deixa aqui.
Ilys se sentou no chão, com as pernas cruzadas como um índio, colocando a bolsa no colo pra cobrir sua calcinha, uma vez que estava de saia e ficou ali, teimosa. A menina gritou de raiva quando a outra fez aquilo. Ela não podia correr, pois sabia que a albina era muito mais do que um corpo e rosto perfeitos e que a perseguiria com 90% de chances de pega-la.
– Larga o remédio.
– Sai daqui.
– Larga esse remédio, agora.
– Você não é minha mãe.
Ilys estreitou os olhos e no segundo depois, sua mão estava em um contato violento contra o rosto da menina, que quase caiu de cima da pequena pedra. Ela começou a chorar, enquanto massageava o local do tapa. A advogada ligou para Abraham, pedindo – implorando – para ele pegar um carro e buscá-las.
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