Terça – 18:20

Chica estava passando um pano no chão com um rodo enquanto ouvia música clássica no celular de Abraham, que estava no banho e havia deixado para ela se divertir. Marina estava no quarto, impedida de sair, de castigo. Depois de limpar todo o chão, ela se sentou no sofá e cruzou as pernas, sem absolutamente nada para fazer. O rapaz saiu do banho com uma toalha em seus longos cabelos castanhos e apenas de calça, olhando para ela e sorrindo. Falou um “oi” e ela retribuiu, doce.

– Marina não pode brincar comigo?

– Marina fez umas coisas horríveis e eu tive que punir.

– Mas eu não posso brincar com ela um pouquinho?

– Dentro do quarto, ok?

– Sim, senhor! – Ela saltou do sofá e reverenciou o rapaz. – Muito obrigada.

Ela foi saltitante até o quarto da amiga e bateu na porta três vezes com um meio sorriso. Chamou-a, mas não recebeu resposta, e suspirando, abriu a porta – trancada por fora – invadindo a privacidade da loira.

Entrando lá, ela viu a amiga deitada na cama, olhando para o teto, até o momento em que Chica deu uma risada animada e fez a outra girar na cama para ficar de costas para a robô. Chica caminhou até a outra e subiu sobre sua cama, engatinhando sobre a mesma e ficando com o corpo próximo das costas da loira, tocando-lhe os cabelos.

– Rose, está chorando? – Disse ao escutá-la soluçar. – O que aconteceu?

– Sai daqui.

– Deixa eu te ajudar... ~ — Disse, em tom animado. – Por favor.

– Não...

Apesar de falar isso, deixou ser virada pelas mãos frias da morena de belos e longos cabelos púrpuros e pele cor de neve. Seus olhos encontraram os da outra, rubros, belos e redondos, tão... Encantadores... Seus lábios tinham o formato de um sorriso felino, com um coração avermelhado pintado neles, que se alongavam quando sorria. Ela tinha um zunido estranho vindo do peito, mas que Marina não se incomodava mais.

– Está chorando sim...

Chica fechou os olhos e aproximou os lábios dos da outra, que para sua decepção inconsciente, não trouxe nenhum calor humano ou hálito ao respirar. Era quando a robô mostrava que não era uma irmãzinha adotada por Abraham para o divertimento da loira. Depois, Chica colocou sua língua de segmentos para fora, deslizou o metal igualmente frio pelas bochechas coradas de Marina e secou suas lágrimas. Os sensores de seu próprio rosto sentiu a respiração ofegante da jovenzinha e brincalhona, a robozinha se afastou e olhou para a outra, sorrindo.

– Vamos, não chore...

– Está perto demais.

– Desculpe! ~ — Chica se afastou, ficando sentada ao lado da amiga. – O que você tem?

– Minha mãe... Ela...

Chica mordeu os lábios de silicone com seus dentes afiados enquanto observava a outra que engolia o choro. Tombou a cabeça para o lado e, para tentar divertir Mari, levou uma de suas mãos frias até o rosto da mesma, deslizando os dedos até o pescoço, mas a loira teve um ataque violento e tentou soca-la, seu pulso sendo segurado pelas mãos ágeis do robô.

– Hey, o que está fazendo?

– Está apertando forte...! – Mari reclamou, com os olhos cheios de lágrimas.

As habilidades de Chica foram postas à prova. A guardiã da ilusão mostrou por que era digna de seu titulo: Atacou-a quando a mesma afrouxou a mão, mas a pálida garota conseguia parar os socos com movimentos ágeis e certeiros. Ela ria, não parecia fazer esforço nenhum para desviar ou travar os socos da Engberg. A loira se lançou contra o corpo da robô e ambas caíram no chão, Marina por cima de Chica, com seus dois punhos sendo segurados por aquelas mãos geladas. Ofegante, a garota nãos sabia o que falar e ambas só tiveram alguma reação quando a Pedra-Estrela começou a brilhar cada vez mais forte.

– Me larga!

– Oh... – Chica riu, com a voz manhosa e um suspiro falso, uma vez que não tinha pulmões para puxar o ar. – Não se mexa... Meu abdômen também possuem sensores.~

– Você nem tem cérebro para receber o estímulo dos sensores.

– Ah! Eu recebo! – Chica respondeu, um pouco ofendida. Como punição, puxou os braços de Mari para os lados, fazendo o corpo da amiga desequilibrar-se e quase cair totalmente sobre o corpo branco encoberto pelos pijamas antigos, os lábios quase se tocando e a Pedra-Estrela quase encostando na garganta da robô. – Ah... Não seja má comigo... Eu nunca te desejei mal algum...

A pedra continuava a brilhar. Tocou o corpo de metal e plástico de Chica e deu-lhe um choque que a fez gemer. Assustada, empurrou a outra – delicadamente – no chão e se arrastou de costas até a parede, encostando-se ali. Ela começou a sentir seus “nervos” energizados a ponto de algumas faíscas aparecerem através do plástico.

– Aconteceu de novo... – A garota disse, segurando a pedra. – Você é meu Poder, Chica...

– Hm? – Chica ainda estava olhando para seus braços. – Poder...?

– Isso explica sua agilidade e velocidade...

– Eu não quero ser um Poder.

A loira se levantou e balançou a cabeça negativamente, sentindo a pressão desregular. Caminhou até Chica e estendeu-lhe a mão, com a expressão séria. Disse que iriam treinar violentamente agora, para poderem derrotar Golden e acabar com seus laços com a albina. Chica, no entanto, quando segurou a mão da amiga, puxou-a para seu colo e abraçou-a carinhosamente, falando que não queria machucar a outra e que só desejava ser como sua irmã, nada além disso. Mas a outra quase não escutou, pois estava se movimentando violentamente nos braços da outra, estremecendo e sentindo arrepios percorrerem a coluna.

– GELADA! – Exclamou, com a voz chorosa.

Quarta – 15:50

No dia seguinte, na presença das perpétuas, todos os membros foram treinados violentamente. Ilys decidiu agilizar o processo, pois Golden aparentemente fez um movimento crucial e quase deu um cheque nos Conchitanos. Annie estava destruída na presença do grupo: Cabisbaixa, semblante triste, olhos opacos, ombros caídos. Sua barriga enorme de grávida estava do tamanho normal novamente. Duas horas antes havia saído do hospital após o corpo expulsar seu bebê de 7 meses. Vê-lo já com o semblante de uma criança formata acabou com seu ar intocável. Não falou nenhuma palavra desde que chegou naquela sala.

– Annie, por favor. Você sabia que isso ia acontecer. – Annie estreitou os olhos ao ouvir as palavras de Kikuri, a Perpétua do Delírio. – Tente, pelo menos. Só um pouco.

Após tantas horas de treino, uma vez que muito dos membros faltaram da escola para isso, a albina decidiu interromper a instrução e deixar seus companheiros no treino por si só. Todas as Perpétuas julgariam a evolução deles comparando com a primeira vez que lutaram na frente delas.

– Annie, podemos conversar? – Ilys disse, fazendo Annie olhar para ela, ainda desamparada. – Prometo ser breve.

Retiraram-se do salão e foram até o corredor, encostando-se na parede. A Perpétua do Tempo estava olhando para o chão e brincando com os dedos, mas tomou um ar mais surpreso e desesperado eu escutar o que a outra tinha a falar.

– Jeffrey tentou nos matar. Eu e Viktoria.

– Eu não moro mais com Jeff e Rivel. Eles estão em um apartamento no centro e eu morando com minha irmã.

– Indiferente disso, o fato ainda é um fato. – Ilys olhou com o canto dos olhos para a outra, estreitando os lábios. – O que sua família tem com o projeto Midnight?

– Nada. – Ela rosnou. – Você quer mesmo saber?

Ilys concordou. Annie então contou que estava desesperada para ter uma filha e honrar sua mãe. Mas havia perdido uma das trompas e a outra estava doente, então não podia ter filhos por meios normais e pediu ajuda para uma Siyah. Ilys engoliu seco: A história de David era muito parecida: Tushi era estéril e queria ter um filho, pediu para a Perpétua do Desejo, mas isso foi numa época em que os poderes delas eram iguais aos de deuses. Naquele mundo, estavam limitados e era justificado o fato dela não ter recorrido à Lyrin para ter um filho. Mas fazer contrato com uma Siyah?

– Siyahs são traiçoeiras, o que você tinha em sua cabeça?! É a mais inteligente de nós, a nossa estrategista!

– Eu não fiz nada! – Ela continuou a explicação. – Foi Rivel. Ele e Jeff pediram para Not Equal que trocasse meu útero e trompas. Então ela criou os órgãos ilusórios para mim.

– E funcionaram...?

– Eles... Desapareceram hoje cedo. – Ela lamentou. – Junto com Thereze.

– Possivelmente Golden interrompeu o contrato por que Jeff não conseguiu nos matar e deixou-a irritada.

Annie começou a chorar e desabou no chão. Era verdade. Onde é que sua inteligência estava em todo esse tempo? Ela sabia que o contrato era com um ser maligno, mas considerando o passado das Siyahs, pensou que eles poderiam ainda ter um traço de bondade.

– Onde está seu filho?

– Deve estar em casa ou no centro.

– Tem o número de telefone dele?

– Tenho.

– Eu vou rastreá-lo.

Quando conseguiu as informações todas, a albina desceu as escadas do fórum e encontrou Donatella e Jim jogando videogame na televisão da recepção. Se dirigiu à chinesa e tocou-lhe o ombro.

– Ei, hacker. – Jim sorriu. Teria uma nova missão? – Seja feliz, me ajude a rastrear um potencial assassino.

– Oh! Vamos lá!

Quarta – 17:10

O dedo pálido estava no gatilho da pistola. Um dos olhos agora vermelhos da albina estava fechado. A expressão séria não conseguia esconder totalmente o medo de matar alguém. Do outro lado, um rapaz de cabelos castanhos e olhos púrpuros estava sentado, tremulo, quase desabando da cadeira.

– Fala. – Ela disse. – Fala como vencer Golden.

– O que está falando?

– Eu sei que você fez um contrato com ela para manter a gravidez de sua mãe, e agora que falhou, eu preciso de você para vencê-la.

– Você vai fazer o que se eu não fizer isso? Me matar? – Ele sorriu sarcasticamente. – Pois Annie ficará pior ainda.

Ilys apertou ainda mais o gatilho, prestes a acioná-lo. Sussurrou alguma coisa raivosa e ele percebeu que ela não estava brincando. Calou seu sorriso e engoliu seco. Ilys era uma Perpétua. Perpétuos só morriam para outros deles. Mas Jeffrey era humano, não havia herdado nada de sua mãe.

– Eu tenho a chave que a desativa.

– Me dê a chave.

– Eu vou abrir para você.

A menina soltou um pouco o gatilho, dando uma chance ao rapaz, que parecia desesperado. Ela esfregou o rosto com o braço direito, limpando o suor frio que escorria em seu rosto branco.

– Você sabe comi isso é importante para os Conchitanos?

– Não estou fazendo isso por você. Estou fazendo pela minha mãe.

Ele entreabriu as pernas e apoiou os cotovelos nas coxas, suspirando e olhando para o chão. Retirou a chave dourada do pescoço após se acalmar, balançando-a na frente dos olhos da albina como um pendulo. Quando ela tentou pegar, ele recuou e passou a girá-la nos dedos pela corrente. Jeff contou para ela onde Golden estava, embora ela já soubesse (havia sido capturada uma vez), e depois ele falou um pouco sobre o contrato. Ilys suspirou ao ver quão simples e cruel era: A Siyah pedia obediência em troca de um desejo. O desejo de Jeff era nobre, queria que sua irmã nascesse bem, mas quando falhou na missão de executar Viktoria e a própria albina, Golden se sentiu traída e contornou a traição com mais traição. Havia também contrato feito inocentemente, quando a pessoa tocava no objeto por curiosidade ou era induzida a isso. Ilys automaticamente se lembrou de Donatella e Cora. Ele disse que só se encerra um contrato quando falha com ele, ou quando a fechadura da Siyah, o mesmo vale para o amuleto que sela a união, são danificados.

– Então se eu quiser me livrar de Not Equal, tenho que perfurar sua fechadura ou destruir o amuleto dela...

– Você deve destruir a fechadura com o amuleto.

– O seu amuleto é a chave dourada em sua mão.

– Exato.

– Então a gente acaba isso já e destrói a chave! – Ela sorriu esperançosa e se aproximou, mas Jeffrey recuou ainda mais a mão. – O que é?

– Golden é uma rainha. – Ele disse, estreitando os olhos. – E é uma Siyah primária, não funciona da mesma forma. Só funciona se a chave entrar na fechadura.

– Primária...? – Ilys já estava estressada, dava para ver no tom de voz. – O que é isso agora?

– Siyahs não morrem. Param dentro do amuleto. Só são mortas quando o amuleto é quebrado, mas ele só pode ser quebrado quando a Siyah já morreu alguma vez, se não, ele é apenas uma chave e não um amuleto.

– Espere, como é?

– Hell Stigma morreu quando o reator foi destruído por que ela já havia morrido. Golden nunca passou por isso.

– Hell Stigma...?

– É o nome inteiro dela. – Ele se levantou, amarrando a chave no pescoço novamente, pronto para por o plano em pratica. – Siyahs tem nomes compostos por duas palavras. Sua irmã, que você já conhece, se chama Holly Stigma, a Hikmet. – Ilys se arrepiou, olhando para ele confusa, um pouco irritada, um pouco admirada com todo o conhecimento dele. – Vamos por o plano em prática logo, não quero trabalhar contigo por tanto tempo.

– Mas nós temos um plano...? – Ela deu um sorriso torto.

Quarta – 20:10

Ilys, Christian, Jeffrey, Octavia e Luke se encontraram na catedral após o término da missa. Octavia estava muito nervosa, pois encararia seu pior pesadelo pela primeira vez e tentaria vencê-lo. Christian estava abraçado com sua namorada, que parecia meio tensa também. Jeff estava calmo, ele havia feito um contrato bem mais perigoso que Not Equal. E Luke só estava ansioso, veria Cora novamente, queria que ela estivesse bem. Quem havia atacado Not Equal com maestria foi Viktoria e ela não pôde participar, estava com uma crise profunda de surtos psicóticos só de pensar que Jeff estava por perto. Então teriam de pensar como fariam aquilo sem ela.

Passaram 10 minutos e nada da Siyah aparecer. Ilys começou a achar que ela não ficava ali de noite, apenas durante o dia. Mas a porta principal da catedral se abriu roucamente e Cora apareceu, vestindo um sobretudo castanho que lhe cobria todo o corpo. Nos cabelos curtíssimos, havia a coroa reluzente que Octavia conhecia muito bem. Seu coração apertou. A menina estava pálida e magra, com olhos opacos e com cabelo um pouco maior do que Luke se lembrava que era. Cora parou no meio do tapete vermelho e olhou fixamente para o grupo.

– Por favor, não a machuque. – Luke murmurou.

– Você quem vai falar com ela, nós estamos esperando Not Equal.

Luke engoliu seco e se aproximou lentamente da ex namorada, com os lábios trêmulos e olhos tristes. Quando chegou em certo ponto do caminho, ela saiu em desparada para cima dele.

Luke caiu contra o chão, com Cora sobre ele. A coroa brilhava forte e seus olhos continuavam opacos, as mãos indo em direção da garganta dele e, se não fossem seguradas, teriam força o suficiente para esgana-lo. Luke tremia para empurrar as mãos dela para cima e quando conseguiu, chutou-lhe o ventre e lançou-a para cima na distância exata para girá-la e segurar seus pulsos sobre a cabeça. As pernas foram presas com um dos joelhos do loiro e ele tentou falar com ela.

– Cora. Cora! Acorde. Sou eu, se lembra? – Ilys tinha armado a pistola para atacar a morena, lá longe. – Por favor, Cora, eles vão te machucar!

A coroa brilhou forte uma única vez e se apagou. Depois, Cora começou a responder aos apelos, assustada, pedindo perdão, mas Luke nada respondeu. Então Octavia lançou uma magia de ataque, que jogou o corpo de Luke no chão, longe de Cora. Ela gritou para Christian, pedindo para que o rapaz segurasse Cora e a imobilizasse: Ela havia descoberto o atributo de Not Equal.

Octavia invocou seu Poder. Começaram a conversar entre si telepaticamente, montando um esquema para pegar a Siyah durante a transferência de corpo. Ele atacou Luke com poderes psíquicos, que forçavam Not Equal sair, mas ela era forte. O rapaz, apesar de se mexer contra a vontade dele (e da Siyah), não ela liberado por ela. Luke ativou seus poderes de fogo e suas mãos tremiam com o esforço que ele fazia para levanta-las para frente e atacar Amethyst. O homem desviou do ataque, mas sua capa foi queimada, tendo que ser retirada. Então Octavia passou a forçar a mente de Luke para expulsar a invasora enquanto Amethyst retirava sua espada e avançava contra o garoto, com uma elegância invejável, cortando golpes sólidos, ate que acertou o ombro do loiro, o fazendo gritar. A dor ajudou Octavia a pressiona-lo ainda mais e não demorou para que a figura fantasmagórica de Not Equal escapasse de sua mente, tentando invadir a do Poder, que rejeitou por não ser um corpo comum, e sim uma criatura invocada.

Amethyst desapareceu como uma miragem quando Not Equal apareceu. Octavia queria enfrentar a mulher cara a cara. So de lembrar que seu braço foi objeto de acordo com aquela Siyah, seu coração apertou em ódio. Ela avançou contra a Siyah, sem estratégia. Christian e aproximou de Luke (que estava desmaiado) e pegou-o nos braços, ficando agora encarregado de prendê-los ali.

Ilys começou a atirar em Not Equal, mas os tiros a varavam. Ela se lembrou que não usava a mesma arma de Viktoria e se perguntou se havia alguma bala especial. A albina tomou a frente, ficando ao lado de Octavia e enquanto atirava, via Octavia ler seu livro de magias para invocar um poder de prisão. Ela estendeu a palma para frente, falou algumas palavras em latim e um símbolo arcano cresceu em frente a sua mão, disparando-se contra o corpo de Not Equal, que desviou como se aquilo estivesse em câmera lenta. Octavia repetiu o ataque, e repetiu novamente, saltou para trás quando Not Equal tentou invadir sua mente. A maga virou algumas folhas de seu livro, mudou o ataque para uma espécie de chuva de adagas escuras de aura roxa, que perfurou o corpo de fumaça da Siyah e depois repetiu o ataque anterior, finalmente a prendendo em uma espécie de gaiola da mesma cor que as adagas.

Então Not Equal se desfez como entidade e transformou-se na figura humana que Octavia conheceu quando menor. O rosto ainda era deformado como se lembrava e os olhos se ligavam a uma espécie de máscara com chifres que cobriam a testa com a parte mais larga. O corpo delgado era negro e pontilhado, lembrando constelações. A fechadura dela era uma espiral que girava, de centro negro e com as pontas acinzentadas, parecendo um buraco negro.

– B. Bang... Por que você matou minha mãe? – Ela disse, olhando nos olhos da mulher que um dia chamou e amiga. – Por que você foi para o lado de Golden?

A mulher não falou nada. Piscava algumas vezes, mas seu rosto sem boca não fazia som algum. Ela abaixou a cabeça e depois de algum tempo, resolveu comentar algumas coisas soltas e desconexas.

– Kafes Virüs é funcional com todos nós. Jeffrey tem a chave. Octavia pode matar B. Bang agora.

– Eu não quero te matar...

– Mate agora. – Ela repetiu. – Mate agora, Golden Black é inúmeras vezes pior.

– Você pode cuidar de mim novamente. – Ilys olhou para Octavia, chocada com aquelas palavras. – Você pode. Volte para nós.

E Octavia estendeu a mão para a Siyah, que pegou-a, muito tímida, muito nervosa, se aproximando da face da gaiola mais próxima da maga. As lágrimas de Octavia eram verdadeiras, ela sentia falta dos bons tempos. O momento doce foi quebrado quando Ilys arranhou a garganta e ambas olharam para trás. Christian era fiel a vontade de sua “rainha fêmea” e quando Ilys pediu que ele agarrasse Luke violentamente, pondo-o distante de Cora, o moreno simplesmente obedeceu.

– O-O que está fazendo...? – Octavia disse, oscilante.

Ilys estava com a arma apontada para a têmpora direita de Cora, que estava em pânico, sem poder se mover, pois a albina estava com o braço envolvendo a garganta da garota. Luke gritava loucamente, perguntando o que Ilys ia fazer, mas ela simplesmente o ignorava.

– Mate-a. – Ilys disse, num tom muito frio. – Agora.

– Ela é minha família... Por favor, não...

– Mate-a agora...! – Seus olhos brilharam em um fogo rubro. – Mate essa Siyah agora. É a última antes de Golden Black.

– Ela pode ser fiel a nós, Ilys! – Octavia soltou a mão de B. Bang e se aproximou de Ilys em passos lentos. – Escuta. Crystal é uma Siyah. Ela é fiel! Hikmet também é! Elas são capazes de...

– Mate-a! – Ilys não estava brincando. – Vidia foi a mulher mais forte que já tive em minhas mãos. Minha mãe carregou uma cruz que nem imagina após matar Mairim, sua avó, por achar que era traidora quando na verdade era tudo culpa dessa criatura! – Ela gritava em plenos pulmões. – Mate-a!

Octavia invocou seu poder, que se colocou entre as duas rapidamente. Ele estava pronto para atacar a albina caso ela fizesse alguma besteira. O livro estava nas mãos da maga, aberto, e Not Equal estava ao fundo, gritando para que parassem agora. Tomando totalmente a coloração rubra, Ilys não estava com saco para aguentar tanto barulho. Simplesmente puxou o gatilho e estilhaçou a coroa de Cora.

O tiro rasgou a tensão ali e todos olharam para ela incrédulos. Christian havia desmaiado Luke para ele não fazer tanto barulho, mas suas mãos estavam prestes a alcançar a menina. Ele precisava tirá-la dali. Da cidade. Do país. Do mundo. Até mesmo Amethyst estremeceu ao ver o corpo ensanguentado de Cora desmontado no chão. Not Equal havia se transformado em pó e escorreu pelos vãos da gaiola que se desfez em uma neblina roxa, não mais necessária para o momento.

A luta a seguir foi dela contra Amethyst. O rapaz não teve chances. Ágata sequer foi invocada e Ilys mostrou a todos ali sua forma híbrida. Chifres finos e longos de marfim cresceram nas têmporas, indo para trás. As asas brancas e brilhantes como se fossem de platina esvoaçaram agitadas atrás do corpo e a cauda delgada serpenteou no chão. Era dois contra um. A lança do destino em mãos rebatia os ataques certeiros da espada de esgrima do Poder, que acabou no chão após abrir uma fenda no rosto da albina, prestes a ser degolado. Octavia não conseguiu acertar nenhum ataque no corpo de Ilys, mas suas asas estavam furadas como uma peneira, sangrando pelos pequenos vasos rompidos. Ele estava coberto por uma fumaça branca, indicando sua lenta recuperação. Ilys rasgou o tórax do Poder, indicando sua superioridade, e ele se desfez, voltando à joia de Octavia. Depois, caminhou lentamente até a maga, apontando a ponta da lança para o rosto dela.

– Eu perdi minha mãe, meu pai e meu reino. Eu perdi minha infância, amigos e futuro. Meu destino está traçado e me levará ao abismo, e não tenho medo de levar ninguém comigo. Se você quiser se rebelar, vá em frente e enfrente a ira de alguém que sequer te deixa com condições de defesa. – A ponta bateu no livro de suas mãos, que desabou no chão pesadamente. – Você está sozinha ou está comigo?

Octavia demorou o que pareceu um século para responder. Mas depois, sua expressão de medo se converteu ao ódio profundo e seus olhos tomaram de uma coloração escura e opaca, cansados, desistentes da vida. Ela também estava sem ninguém; ambas compartilhavam da mesma dor.

– Estou sozinha. – Decidiu-se. — Hinc ibo. Sum Oblitus.

E seu corpo se desfez em um feixe branco, juntamente com o livro. As asas de Ilys se desfizeram, junto com a cauda e os chifres. A roupa rasgada mostrava parte do corpo branco e imaculado dela e Christian sentiu-se horrível por não conseguir deseja-la naquele momento. Caminhou até ela, parando atrás de seu corpo e sussurrou em seu ouvido “você perdeu mais um”. Ilys se virou para ele, com os olhos cheios de lágrimas e desabou em seus braços, em prantos.

– Eu sou horrível!! Horrível!! C-Christian!!

– Shh... – Ele tentou acalmá-la, acariciando seus cabelos. – Você é uma de nós. É uma rainha. Não se preocupe com isso...

– Leve Luke para a casa dele. Suma com o corpo. – Ele concordou, beijando-lhe a testa. – Não me deixe derramar mais sangue...

– Somos caçadores, Ilys. Temos nossos princípios, e ser um matador não é contra nenhum deles.