Alizée et Chermont
4 Qat
Notas iniciais
Ela só levantou as sobrancelhas bem desenhadas e aciformes. A boca presa em uma linha fina e rígida, a única coisa que traia seus pensamentos.
– Se quiser uma prova, é só olhar pelo seu corpo, não acho que você tenha escapado sem nenhuma marca, ou pode olhar no meu se quiser... – o olhar dela deixava claro que a última coisa que ela queria era olhar o meu corpo. Mas minhas costas bem que estavam doloridas das suas unhas, e também haviam chupões pela minha pele.
– E você sabe se nós ao menos usamos camisinha? — Sua boca perdeu toda a rigidez quando eu disse que encontrei a embalagem de uma perto do lixeiro. Então ela deitou no sentido contrário ao da cama, os pés encarando a cabeceira e os longos cabelos negros caindo pela borda.
E foi com ela naquela posição e eu na contrária, com meus pés tocando a borda da cama, e a cabeça apoiada em um travesseiro, que eu contei para ela como eu havia acordado essa manhã no chão do banheiro abraçado a ela e dado de cara com a feliz ideia de quase ser pai aos 23.
– Você sabe que eu não ia te deixar só nessa, não é? Eu quero dizer, se nós não tivéssemos usado camisinha – eu queria deixar aquilo claro, porque devia ser aterrorizante ter que se preocupar com esse tipo te coisa, porque querendo ou não, há essa hora nós poderíamos estar indo comprar um teste de gravidez de farmácia. Aliais, eu nem sei se eles funcionam assim depois de umas horas, provavelmente não.
– Agora eu sei, Chermont – ela disse suavemente. – E obrigada – e Alizée realmente parecia querer dizer isso, vinha de dentro dela.
Nós ficamos encarando o teto por algum tempo, sem ter ideia do que dizer em seguida. Alizée foi quem apareceu primeiro com alguma coisa:
– E foi bom pra você? – Ela disse fazendo troça, e eu joguei uma almofada na cara dela.
– Qual o seu problema com manter um silêncio confortável? – Eu suspirei. – E foi. Você não lembra mesmo?
Ela só negou com a cabeça, parecendo aborrecida. Eu não conseguia fazer entrar na minha cabeça que ela não lembrava, porque parecia simplesmente impossível. É claro, estávamos mais bêbados do que era humanamente possível, mas eu me lembrava de tudo tão bem, e mesmo depois de acordar naquele banheiro e encarar o fato de que havia transado com minha colega de apartamento e que aquilo poderia dar merda, eu não me arrependia nem um pouco. Talvez porque tivesse sido a melhor transa da minha vida.
– É um absurdo você se lembrar de mim pelada e eu não me lembrar de você, é injusto também, aliais, porque você pode sair por aí falando e eu não – Alizée parecia tentar tornar o clima mais leve, novamente acabando com meu silêncio confortável.
– Relaxa, Coração, seu segredo está bem guardado comigo e não vão faltar oportunidades futuras – eu sorri sacanamente, tentando inutilmente deixa-la nervosa. – Além disso, não são todas as mulheres do mundo que estão preparadas para Chermont Chevalier
– É – Alizée disse sarcástica –, algumas tem efeitos colaterais, tipo perda de memória – eu podia não conseguir ver seu rosto de onde eu estava, encarando o teto do outro lado da cama, mas eu sabia que ela estaria rolando os olhos.
Depois de alguns minutos encarando o teto, e sentindo as pontas dos dedos dos pés dela me cutucando de leve no ombro, e ela continuou fazendo aquilo por um bom tempo, até parar, eu achei que ela tivesse caído no sono, mas ela falou após alguns minutos naquela confortável posição,
– Mas e agora? Tem algo diferente pra você em relação a alguma coisa? – Ela perguntou, e eu compartilhava da pontada de medo na sua voz. Porque se fosse outra pessoa, uma das garotas com quem eu costumava ficar, nós já estaríamos nos pegando loucamente outra vez, porque eu nunca havia tido uma noite melhor do lado de ninguém mais. Mas era Alizée.
Alizée que sempre queimava as torradas, que sempre me mandava ir lamber sabão, que havia aberto minha testa quando eu tentei fazer cócegas nela, que toda vez que estava triste ia assistir Gossip Girl. Eu não queria estragar nada entre nós, e o fato de eu notar tudo isso a respeito dela e muitos outros pequenos detalhes me assustava, porque eu não sabia se isso era natural entre uma amizade entre um homem e uma mulher. E era verdade que a cada batida dos dedos do pé dela no meu ombro agora, me fazia querer puxa-la e beijar sua boca até ela se lembrar da noite anterior, e eu fiquei absurdamente assustado com aquilo.
– Eu não sei, Alizée – confessei. – O que você acha?
Levantei minha cabeça para observa-la e ela parecia se debater com palavras, olhando para o teto do quarto sem encontrar nenhuma forma de dizer o que tinha na mente.
– Eu não sei também.
Nós olhamos um para o outro com caras desconsoladas. Mas era tão simples! Para o inferno com isso!
Levantei meu tronco, decidido a ir beija-la, quando a droga da campainha toca. Ela saltou da cama, sem nem ter notado minha intenção anterior, e correu para a porta. Joguei minhas pernas pelo lado da cama, praguejando baixo, maldita hora pra alguém bater na sua porta!
Olhei pela janelas/portas abertas para a vida matinal da Bastilha, sentindo a corrente fria de ar arrepiar meus braços nus. Virei-me para a porta e caminhei pesadamente até a sala, vendo com desatenção Alizée falar com a vizinha mais reclamona que nós tínhamos. Fui para a varanda onde o café da manhã havia esfriado e retirei tudo para refazer, porque até as torradas Alizée havia conseguido estragar, as queimando o suficiente para se passar por asfalto. Eu não duvidava nada que ela conseguisse estragar tudo tentando preparar uma tigela de cereal.
Coloquei a água no fogão para um novo café, e mais pão na torradeira. Minha ressaca me impedia de ao menos pensar em ir comprar pão fresco ou algo legal para comer, mas tive a inspiração divina de fritar bacon.
Estava saindo da minha epifania suína e indo atrás do bacon no freezer, quando Alizée entrou pela porta da cozinha com um envelope branco em mãos e o rosto vincado, as sobrancelhas quase se tocando.
– A vizinha que mora no primeiro andar veio entregar isso – ela me passou o envelope. – Ela disse que estava no chão do lobby, jogado. Então veio encher nosso saco, disse que se nós continuássemos jogando lixo no chão, iria levar o assunto para a próxima reunião de condomínio, e que não te mandou um cartão de aniversário porque sabia que ia ter o mesmo fim que esse. Ela deve ter aberto. Por que jogou o cartão no chão, Chermont?
– Eu deixei cair, provavelmente – menti. Eu era um ótimo mentiroso, sempre fui, mas eu bem que poderia ter me entregado, estava suficientemente ansioso para se fazer notar. – Vou fazer bacon, quer?
– Não vai ler? – Ela me esfaqueou com seus olhos de punhal, atacando também minha mão que carregava o envelope para o bolso do pijama.
Encarei-a de volta, defendendo-me de seus olhos de punhal com meu escudo de mentiras. Eu não poderia ler aquilo outra vez, não na frente de ninguém, nem que por faz de conta. Não tem nada a ver com ela, de qualquer jeito.
Alizée não invadiria minha privacidade daquele jeito em nenhuma circunstância normal, eu sabia, mas ela farejava no ar o fedor das minhas mentiras, ela sabia que havia alguma coisa podre nas minhas palavras e eu senti todo o clima de alguns minutos atrás, na minha cama, se evaporando com um chiado.
– Quer saber? – Ela, retoricamente, perguntou – Não é da minha conta – e saiu da cozinha com as mãos no ar, porém bufando.
Desisti de cozinhar ao sentir o cheiro de pão queimado e me deparar com as torradas pretas como carvão.
Eu tinha aula pela tarde, então guiei minha bicicleta para a universidade com o pouco de sol que havia resolvido sair refletindo nos meus óculos escuros, a brisa fria mordiscando minha pele.
Nós havíamos passado a tarde trabalhando em desenhos com carvão, e eu não consegui me esquecer das torradas. Na pausa para um lanche entre uma aula e outra no meio da tarde, meu celular anunciou taciturnamente uma ligação, e quando I Will Kill You In Your Sleep começou a tocar, sabia que era minha avó.
– Eu não tenho tempo para falar agora – falei sem rodeios, nem teria atendido se não soubesse que isso sempre acarretava piores consequências.
– Mas irá ter que arranjar algum – Amelie disse polida, porém friamente. – Quero que venha hoje aqui as cinco, e não me faça esperar.
– Não posso, eu tenho que terminar alguns projetos para amanhã – e não era mentira, haveria todas as aulas no próximo dia, e tinha que terminar alguns desenhos e começar um seminário.
– Seu curso não poderá ser mais importante do que eu tenho para lhe dizer – ela empregou todo o escárnio que conseguiu para dizer a palavra curso, e não poderia ser mais clara para demonstrar o que achava da sua escolha universitária. – Esteja aqui cinco em ponto, e tenha certeza de estar apresentável, você não irá querer me envergonhar hoje, temos alguns pontos a tratar sobre a empresa.
A maldita empresa.
Chermont fechou a mão em punho e focou no horizonte, tentando se controlar para não lhe mostrar na voz o quão irritado estava, porque não queria dar esse sabor à Amelie.
– Estarei aí.
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