Alizée et Chermont
5 Cinq
Notas iniciais
Peguei no computador em cima da minha cama irritada, Chermont achava que me enganava com aquela cara deslavada dele, se ele não queria me mostrar o tal do cartão, não mostrava, mas não precisava mentir.
Resmunguei sozinha enquanto o notebook inicializava, matando o tempo com reclamações sobre Chermont para mim mesma. Quando me conectei a internet, vi que Jean estava online.
Eu sabia que Chermont odiava Jean, eu só nunca consegui entender por quê. Jean sempre fora um bom amigo, nós fizemos o último ano do ensino médio juntos, sua família havia acabado de se mudar para a cidade onde eu morava e nós havíamos nos tornados amigos na aula de fotografia da escola, em que frequentemente éramos parceiros.
– Acabei de me lembrar como você era terrível nas aulas de fotografia – sorri para Jean quando ele atendeu a chamada de vídeo. – Só não reprovou porque eu te ajudei no projeto final.
– Eu tinha mais matérias com que me preocupar, Alizée, fotografia não era importante – ele respondeu com os olhos vagueando pela tela, sem olhar na direção da câmera, provavelmente estava em outra aba.
Ignorei a grosseria dele, porque fotografia era muito importante para mim, eu até cursava na universidade. Ele podia pensar ser besteira, mas era minha vida, e eu amava a sensação de olhar o mundo através das lentes da câmera, capturando momentos e os congelando.
– Indo bem em Berlim? – Tentei recomeçar a conversa por um campo neutro. Deu certo e ele desatou a falar sobre a vida dele, acho que era por isso que nos dávamos tão bem: era fácil começar uma conversa com ele, desde que fosse sobre ele mesmo. Bem, isso pode até parecer bastante egocêntrico de Jean, mas eu gostava muito de conversar com ele, porque ele estudava partículas nucleares na Alemanha, e sempre me falava de suas pesquisas.
Depois de uma hora, nós já havíamos desligado. Eu não conseguia me prender na conversa, os acontecimentos de mais cedo (Chermont) impregnados na minha cabeça, me fazendo rebobinar aquilo sem necessidade nenhuma, já que estava tudo resolvido.
Mas por alguma razão, aquilo não me parecia nem um pouco resolvido, tudo pareciam fios soltos de algo que eu não queria desenrolar, porque eu sentia que o frio na minha barriga toda vez que pensava no assunto era só a previa de algo que eu não sabia definir.
Meu celular tocou e eu deixei de encarar o vidro das janelas para ir atender, era meu pai. Suspirei antes de atender, eu deveria ter ligado para ele na noite anterior, como era de costume.
– Oi, pai – sorri de leve, e vagueei pelo quarto com o telefone preso a orelha, esperando que ele me respondesse.
– Oi, minha menina – ele disse, sem sombra de irritação na voz rica e grossa. – Nós esperamos você ligar ontem à noite.
– Desculpa, eu não pude, nós tivemos uma festa pro meu colega aqui em casa, o que divide apartamento comigo – abri as janelas grande como portas e passei com cuidado para o telhado, me sentando ao sol. – Como estão as coisas aí? Alguma melhora?
Ele sabia a que eu me referia. Essa era a pergunta que eu mais fazia nos últimos tempos, mas a resposta era sempre a mesma, pelo menos da boca de papai.
– Ela está lutando, Liz – e por um segundo sua voz se mostrou tão cansada quando realmente estava.
– Talvez seja hora de eu voltar pra casa... Ao menos por uns tempos – murmurei acuada, mas tentando mostrar que também estava ali para ela, mesmo sendo uma covarde. Eu não queria voltar. Não porque eu não gostasse da casa dos meus pais, ou porque não estivesse com saudades, mas só porque eu sabia, e meu pai também, que eu só iria para o fim.
Eu amava minha mãe, mas não queria vê-la sofrer, podia ser egoísmo meu deixar meu pai cuidar dela só, priva-la de ter a filha por perto no que talvez fossem seus últimos momentos, só por medo da dor e da miséria do corpo, se escondendo atrás de desculpas que pareciam velhas e fracas até aos seus ouvidos desesperados por motivos para não ir.
– Não – ele usou de tempo entre uma fala e outra, e eu sabia que sua mão devia estar na testa, apertando a veia pulsante perto de seus cabelos brancos, acompanhando a dor de cabeça. Essa era a primeira vez que sugeria voltar. – Você não está pronta para vir, tome o seu tempo.
Ouvi só sua respiração por um tempo, o soluço preso na garganta e as lágrimas querendo escorrer pelos olhos. Paris resplandecia a luz da tarde, e eu podia ver a icônica Torre Eiffel lá longe, onde eu sabia que estaria. As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto pensando na minha mãe, eu estava desperdiçando meu tempo, sem coragem suficiente para ajuda-la, tentando primeiro me ajudar.
Eu não conseguia pensar que em breve talvez eu já não tivesse alguém que cozinhasse a melhor ceia de natal do mundo, ou que sempre fosse incrivelmente previsível nos presentes de aniversário (um vale livros da pequena livraria de Gordes, minha minúscula e incrível cidade natal), que sempre que me confortava afagando meus cabelos, que tivesse o seu cheiro caloroso como uma tarde fresca ao sol.
Chorei muito tempo, não sei dizer quanto, só ouvindo a respiração do meu pai do outro lado e o barulho das ruas de Bastille embaixo de mim. Quando eu consegui falar, eu só consegui concordar com meu pai:
– Obrigada por me entender, eu não sei o que aconteceria comigo sem o senhor – solucei uma última vez.
– Você iria se virar bem – eu ouvi-o sorrindo, e sabia que era um sorriso triste.
Nós nos despedimos com uma recomendação minha de dar um beijo à minha mãe, eu não me sentia bem o suficiente para falar com ela sem lhe suplicar perdão, e tinha medo que isso lhe agravasse o estado.
Enxuguei as lágrimas com as costas das mãos e voltei para dentro com cuidado, e depois de algumas horas olhando para o teto, procuri ao redor do meu quarto algo produtivo para me desanuviar a me mente, e eu me lembrei de alguns trabalhos pendentes que eu teria que fazer, algumas fotos de pessoas para um projeto e uma dissertação sobre cores.
Escolhi a lente e a coloquei na câmera, indo para o banheiro rapidamente escovar os cabelos e depois trocar de roupa, lavando os caminhos de lágrimas do meu rosto, desci as escadas do prédio aos solavancos, tentando suprimir a tristeza.
Peguei o metrô para o norte da cidade e desci perto do Mercado das Pulgas, um dos melhores lugares para fotografar pessoas. As calçadas apinhadas e as ruas estreitas eram o convidativamente confusas, perfeitas para passar uma feliz tarde perdida.
Andei pelas lojas e parei às vezes para tirar algumas fotos, incontáveis objetos de cobre pendendo do teto de uma barraca, iluminados por um raio de sol ocasional; uma pessoa de pele curtida pelo tempo, sentada enfrente à sua banca de relógios; uma menina brincando com um pendente e se equilibrando na ponta dos pés para alcança-lo.
Estava comento um crepe e andando a esmo entre as barracas, quando parei em um antiquário dedicado especificamente a joias, tudo era lindo e antigo, todo o esplendor e a sofisticação de joias de décadas atrás. Mas o que me chamou a atenção foi um colar de ouro velho, de corrente grossa e comprida, com um relicário mais ou menos do tamanho do meu dedo mindinho e oval.
Olhei para ele com admiração, encantada com o trabalho no ouro: havia uma fênix trabalhada no medalhão, e quando eu passei o dedo por cima, admirada com o trabalho primoroso, percebi a textura suave do metal, amaciado pelos anos.
Uma senhora se aproximou a passos abafados e perguntou educadamente:
– Posso lhe ajudar?
– Provavelmente não – sorri e levantei os olhos do relicário –, mas é uma peça linda – comentei, me maldizendo porque a palavra não mostrava o quão apaixonada eu estava pelo colar.
– É dos anos vinte... Foi da mulher de um comerciante muito rico – ela contou com sua voz aveludada –, a fênix é para representar o amor deles, que sempre vai renascer. A esposa mandou fazer depois da morte do marido, mas como ela não tinha herdeiros, depois da morte dela acabou vindo parar na minha mão.
A história era bem piegas, mas eu fiquei ainda mais encantada com aquele pedaço de metal, passei o dedo sobre a fênix e pensei na minha mãe e no meu pai. E por um segundo também em Chermont, porque eu sabia que seus pais haviam morrido quando ele era muito novo.
– Posso saber qual o preço? – Eu já estava quase convencida a comprar, desde que eu não tivesse que vender meu apartamento pra isso (até porque era alugado).
– Eu vou chamar meu neto, ele quem lida com esse tipo de coisa – ela disse com quase desdém. – Eu garimpo as peças, ele faz as vendas. Afinal de contas, quem melhor que uma velha para achar coisas velhas, não é mesmo, minha filha? – Sorri contagiada pela animação dela, eu adorava gente mais velha, eles sempre tem histórias tão incríveis pra contar.
Manuseei a peça em minhas mãos, virando de um lado para o outro, enquanto a senhora ia buscar o neto. E poucos segundos depois, uma voz agradável me tira o olhar da peça de ouro.
– Pois não? – O vendedor era de aparência esguia e mortal, como uma espada. Seus cabelos pretos e com mechas despontando para todos os lados de um jeito caótico, os olhos verdes e profundos. Tinha uma boca cheia e traços fortes, a pele bronzeada e talvez um pouco mais que um metro e setenta.
Olhei-o embasbacada por um ou dois segundos com como ele era belo, e depois sacudi o medalhão.
– Quanto custa? – Coloquei minha melhor cara desinteressada, passando os olhos pelas outras joias enquanto ele respondia, mas era injustiça, depois de ter ficado tão desorientada com a beleza dele, cheguei a puxar um anel de um nicho para avalia-lo melhor, mas só para não deixar que o estonteante vendedor notasse como eu estava interessada no cordão.
– Isso – ele disse de vagar – depende. Quanto pensa que vale? – Ele apoiou um dos braços na mesa que ficava na calçada com as peças e eu reparei rapidamente como estava vestido: jeans, suéter azul marinho e sapatos sociais, devia ter entre 25 e 30 anos.
– Por que não me diz você primeiro e eu decido se vale ou não? – Disse com meu melhor ar blasé, eu sabia que o primeiro a dar um valor sempre saia perdendo, e pechinchar era uma arte.
Ele apertou os olhos levemente e pegou o pendente que eu havia deixado no local gasto de veludo. Ele se aproximou até ficar ao meu lado, o braço encostado ao meu, e me mostrou o verso do relicário.
– Está vendo essa inscrição aqui? – Ele apontou para o que parecia ser uma daquelas assinaturas que artesões colocam em coisas – A ourivesaria em que foi produzido não era uma casa muito famosa, mas há passagens em vários jornais antigos de Paris sobre socialites usando joias do mesmo ourives. Naquele tempo devia valer... – ele ponderou um pouco, fechando os olhos e eu tive uns segundinhos para secar o cara livremente, mas ele rapidamente abriu os olhos com um “Hum” e continuou com a interessante explicação, curvado sobre o relicário de ouro assim como eu – alguma coisa em torno de 300 euros, mas hoje, junto com a história que trás, vale ao em torno de 700.
– Você só pode estar de brincadeira comigo – escarnei, ele estava maluco? 700 euros era um absurdo! Era provavelmente um mês de aluguel, só não deixei ver isso em meu rosto – Eu pago 300 – ofereci e puxei minha carteira de dentro da bolsa.
Ele me olhou com aqueles os olhos de precipício submerso e sorriu com escárnio também.
– 300 euros por esse colar? – Ele riu e rolou os olhos, como se eu tivesse dito a coisa mais engraçada do mundo. – Ele é de ouro puro e tem mais de 90 anos, mas vou te dar um desconto: 500.
– 400, meu último lance – cuidei da minha postura, para não denunciar que eu provavelmente regatearia mais uma vez.
– 450 – ele forçou mais cinquenta libras e eu sacudi a cabeça.
– 400 euros, nem mais, nem menos – esperei para ver se ele contestava, mas ele parecia me avaliar, e eu me perguntei se estava mesmo a ponto de gastar todo aquele dinheiro em um colar.
– O.K. – disse o cara depois de um tempo. – Nós aceitamos cartão e pagamento a vista.
Ele pegou o relicário em cima da mesa ao ar livre e entrou para a pequena loja, onde a avó estava. Do lado de dentro, uma infinidade de objetos antigos e valiosos estava em exposição, mas em uma profusão tão grande que chegava a ser confuso. Dois ou três abajures iluminavam todo o interior da pequena loja com suas cores quentes, vários colares pendurados juntos refletiam a luz de uma forma bonita e eu tirei a câmera para fotografar aquilo, enquanto o vendedor se dirigia a avó.
– É fotógrafa? – Ele perguntou, chegando perto sem que eu notasse, entretida com as joias reluzentes e antiguidades acobreadas. – Você vai pagar com cartão? – Ele perguntou mostrando a máquina em suas mãos.
– Sim. Parcela? – Perguntei com o nariz franzido, e o sim foi resposta para as duas perguntas.
Depois de terminar de pagar, a senhora me entregou um saco de veludo preto e eu espiei o colar lá dentro, enquanto ela me dizia para voltar sempre. Caminhei até a entrada da loja e o charmoso vendedor me escoltou.
– Você parece saber bastante sobre coisas antigas – comentei.
– Eu faço pós-graduação em história francesa – ele respondeu. – Só venho ajudar minha avó no Mercado das Pulgas de vez em quando, é interessante ver o que ela consegue.
– Ah, eu faço fotografia, como você reparou. – respondi debilmente, fiquei tentada a perguntar de onde ele era, porque mesmo sem sotaque, seus traços fortes e pele bronzeada não pareciam combinar com o biótipo local, mas fiquei com medo de ele interpretar mal ou me achar muito curiosa. – Você estuda aqui em Paris mesmo?
Ele se se encostou ao arco da única entrada da loja e eu de costas para a rua apertada, encarando-o.
– Sim – ele respondeu, e depois fez uma pausa calculada antes de continuar a falar. – Esse fim de semana vai haver um festival de música clássica no campus, você gosta? – Por que aquilo estava soando extremamente perto de um “Você quer sair comigo?”.
– Eu costumava tocar contrabaixo, mas eu parei quando vim para Paris – revelei, lembrando rapidamente das aulas que tive em Gordes com o padre da cidadezinha, e sorri com algum tipo de saudade.
– Então você não quer me acompanhar? – Ele perguntou, focando todo o poder dos seus olhos de precipício em mim. Mas os olhos de Chermont vieram automaticamente em minha mente, daquele jeito em que ficavam ao sol, verde esmeralda e como tinha a mesma cor que seu cabelo em dias escuros, as nuances acompanhadas de um estranho convite a perdição. Nós não estávamos tendo alguma coisa, estávamos?
– Claro, só me passa o seu número para nós combinarmos direito – sorri, mas me sentia meio pesada por dentro, porque mesmo que não tivesse realmente nada com Chermont, nossa relação estava meio complicada nos últimos dias.
Só me toquei de que não sabia o nome do vendedor de olhos de abismo, quando tive que salvar o número.
– E qual o nome do cavalheiro? – Disse com um tom bem humorado.
– Vougan Savalas.
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