Alison's Body
4 All History
A van já dirigia silenciosa por bosques escuros há quase uma hora. Alison permanecia calada, as mãos trêmulas e os olhos marejados lhe diziam que sua amada estava certa. Ela deveria ter escutado Emily e ido embora daquele lugar antes mesmo do show começar. Lembrou-se que sua amiga Aria costumava dizer que, às vezes, sinais acontecem para que erros futuros sejam evitados. Talvez aquele incêndio houvesse sido um desses sinais. Um sinal para que ela fosse embora, e desistisse de toda aquela idiotice. Agora conseguia ver claramente o que Emily quis dizer com “esses caras te olham como se fossem comer você viva, e não é com a boca.”
A voz dela ecoava perfeitamente no fundo de sua cabeça. Os homens a encaravam de modo suspeito e amedrontador, fazendo-a encolher os ombros.
— Pra onde estão indo? — Ousou falar, surpreendendo os homens a sua volta.
— Não tem que falar se não quiser. — Disse o vocalista, fazendo o sinal de silêncio com o dedo indicador sobre a boca.
Alison soluçou e enxugou rapidamente uma lágrima quente que correu por seu rosto, guardando as pernas entre os braços e dando uma olhada ao seu redor. Crânios, velas, livros de ocultismo e de bruxaria espalhados no chão sujo do automóvel. Engoliu seco e odiou-se ao sentir outra lágrima lhe escorrendo o rosto, olhando ao seu redor como um animal cercado e indefeso.
— São estupradores?
O cantor revirou os olhos e encarou um dos seus companheiros, que olhou com desconfiança.
— Tem certeza que ela é virgem? — O comparsa perguntou.
— Ela me disse que não... Mas uma gostosa amiga dela me disse o contrário.
— E vai confiar nisso?
— Eu sou! Eu sou virgem! — Alison interrompeu os dois, agitada. — Eu juro que sou. Então, porque vocês não procuram alguém mais experiente?! Eu não sei como é que se faz isso! Eu não vou saber fazer nada. Então é melhor me deixarem ir! — Gritou entre arfados, sendo respondida com umas risadinhas nojentas ao seu redor.
O veículo finalmente parou, e a loira esticou-se para tentar observar pela janela. Uma cachoeira ensurdecia a área, ao mesmo tempo em que silenciava qualquer barulho que passasse por ali. Os dois primeiros que estavam nos bancos da frente desceram, logo depois o que estava ao seu lado, e aquilo lhe pressionava para que pensasse em algo como defesa. Esperou que ele abrisse a porta e o chutou, fazendo-o cair para frente enquanto aquilo lhe dava chances de correr. Por pouco tempo. O cantor agarrou-a pelos cabelos, segurando seu pescoço com força enquanto a arrastava, e ela logo sentiu mãos prenderem seus pés enquanto gritava por socorro a planos pulmões. Inútil. Agora ela entendia o porquê de escolherem a cachoeira. Ninguém a ouviria com tanto barulho.
— Emily!
— Ops, onde é que você vai? — Ironizou o vocalista, segurando o corpo de Alison que se debatia como um peixe fora da água. — Hoje é lua crescente... Como pede o ritual.
— Não, por favor! Emily, por favor!
— “Emily, por favor!” — Ele imitou sua voz enquanto a arrastava pela grama áspera do bosque. — A Emily não vai escutar você.
— Emily, por favor! — Ela gritava e chorava em vão, tentando fincar os sapatos no solo enquanto os arranhava e mordia, apenas recebendo agressões em seu corpo como resposta pelo seu comportamento. — Não!
— Argh, vocês trouxeram algo pra calar a boca dessa desgraçada?! Puta merda... — Disse, apertando os nós nos tornozelos da loira, de modo que quase os fez sangrar.
O grito agudo pela dor e desespero dela ecoou pela mata, divertindo-os.
— Assim está ótimo... — Observou o líder, amarrando-a junto a uma rocha. — Apertem com força. Essa vadia já me arranhou demais.
Alison tentava livrar o pulso das amarras, contorcendo-se sem gritos desta vez. Sua boca estava tampada por um pano sujo e velho que cheirava a óleo de carro. O cantor tirou um isqueiro de seu bolso, acendendo uma tocha antiga e colocando-a ao lado da garota.
— Acho melhor pararmos com isso e deixarmos a garota em paz. — Sussurrou um dos integrantes, enfiando as mãos no bolso e encarando Alison com agonia.
O cantor respirou fundo e virou-se para seu amigo, colocando a mão em seu ombro.
— Ah... Toby. Você quer passar o resto da sua vida tocando em bares vagabundos como aquele, ou... Quer ser uma banda maneira, como os caras do Maroon 5?
— Eu prefiro deixar a garota em paz. — Ele respondeu de forma convicta.
— Vai se voltar contra mim agora? — Sorriu, empurrando forte o peito do companheiro. — Vai lá pegar as nossas coisas. — Revirou os olhos e deu de ombros, mas foi surpreendido por um forte soco que levou de Toby.
— É melhor deixá-la em paz. — Toby gritou, mas logo foi agarrado pelos outros companheiros de banda.
— Mate ele. — disse o vocalista e os dois rapazes levaram Toby de volta para dentro da van, onde se escutaram seus gritos implorando pela vida. O vocalista riu tirando uma folha de dentro do bolso e limpando sua garganta. — Atenção... Estamos aqui reunidos hoje para sacrificar o corpo de... — Grunhiu e abaixou-se até a loira, tirando o pano de sua boca. — Qual o seu nome mesmo, Alice?
Alison tossiu e apertou os olhos alagados por seu choro descontrolado, girando os pulsos cortados pela corda.
— Meu nome é Alison... — Soluçou, estendendo a última sílaba de seu nome com um choro angustiante.
— Legal... Estamos aqui essa noite para sacrificar o corpo de Alison...
— Por favor! Por favor, não façam isso! Eu faço tudo que vocês quiserem, eu prometo! Eu não vou contar nada a ninguém, não vou contar nada a polícia! Por favor! — Implorou, provocando uma repulsa no homem.
— Ali... — Abaixou-se, acariciando seu cabelo. — É difícil uma banda de rock fazer sucesso, sabia disso? São todos tão bonitos e talentosos... Somos só mais alguns na multidão, sacou? Satã é a nossa única esperança, bonitinha. Queremos mesmo causar uma ótima impressão pra ele... E pra isso, vamos ter que derramar todo o seu sangue. Combinado?
— Não... — Debatia-se, desesperada e trêmula. — Por favor!
— Ah, não é tão ruim, vai... De repente, podemos fazer uma canção sobre você! O que acha? — Perguntou-lhe e assim que ele sacou uma faca reluzente, Alison congelou. Ela cravou os pés na areia, recuando e sacudindo seu rosto, voltando a gritar o mais alto que conseguia. — Shiu... Nós vamos continuar, ok? Então... É com a mais pura maldade que nós entregamos essa bela virgem a ti! Atenção! Será memorável! — Berrou, dando uma gargalhada animada em seguida.
— Não! — Gritou ao ver a faca em sua mão se abaixando de encontro a seu pescoço, mas ele parou, desviando a faca de seu caminho.
— Espera aí... Eu tive uma ideia, Ali... Ali... Ali, você me deu uma inspiração. — E limpou a garganta outra vez, cantarolando.
“Ali, você é a garota pra mim, você não me conhece, mas me faz muito feliz, tentei te ligar antes, mas perdi a coragem... Usei a imaginação, mas eu estava perturbado! Oh, Ali, consegui seu número! Preciso que seja minha! Não mude o seu telefone, Ali!”
E com força, perfurou sua barriga com a faca pela primeira vez enquanto repetia toda a música, acompanhado pelo restante da banda, menos o guitarrista, Toby, que havia sido morto minutos atrás. Os gritos de Alison davam ritmo à melodia macabra deles, assim como o som daquela lâmina afiada entrando e saindo diversas vezes do corpo da garota até que nenhum grito fosse ouvido. Nunca mais.
O homem respirava com dificuldade, cansado pela força que usou para tirar o fôlego de dentro de seu corpo. Com a tranquilidade de quem matou uma mosca, limpou o sangue de Alison em sua camisa, dando um sorriso de satisfação em seguida.
— Aconteceu, rapazes. E tudo graças a nossa maravilhosa Ali!
Os olhos vermelhos e molhados de Emily a encaravam com pavor, enquanto ela enrolava um cacho de seu cabelo no dedo indicador. Os ombros de Emily tremiam, assim como todo o resto de seu corpo.
— Eles te mataram? — Soluçou, olhando-a com depressão.
— Eu ainda estou aqui, não é? Ele me matou, e eu devia ter morrido... Mas eu não morri. — Sorriu, jogando para fora de sua unha uma sujeira que parecia lhe incomodar.
— Talvez tenha morrido. — O peito de Emily subia e descia pelo choro descontrolado e o medo que sentia pela naturalidade com que Alison a relatava tudo.
— Eu pareço morta para você? — Perguntou sorrindo. — Só lembro que acordei e fui até o seu quarto. Eu não podia machucar você. Mas eu estava com tanta fome! E quando eu estou cheia como eu estou agora, eu não mato ninguém.
— Cheia?
— Sim... Eu meio que descobri o que eu tinha que fazer pra continuar forte. Agora entende porque eu estava péssima? Eu só estava fraca...
— O que fez pra ficar forte, Ali? — Perguntou, mesmo sabendo a resposta. — O professor...
— Sim, o professor Fitz! Ele queria foder com a minha vida, e você sabe.
— Você o matou?!
— Shhh... Não. Eu precisei da alma dele e meio que a suguei pra mim, sabe? Ele ficou murcho e roxo, horrível! Consegui deixar ele oco. Nenhum sopro de vida.
Emily continuava paralisada até que se levantou, estendendo o braço para a porta.
— Me deixa só.
— Ah, me deixa passar a noite! A gente pode brincar de médico de novo. Eu posso examinar você, e posso te dar prêmios se for uma paciente boazinha... — Pediu, encarando-a, mas os olhos de Emily fugiam dos dela, ignorando suas palavras. Alison respirou e levantou-se caminhando até a janela e chamando imediatamente a atenção dela.
— O que está fazendo?
— Ué, você não me mandou sair? — Deu de ombros e abriu o vidro, encarando Emily por cima do ombro. — Te vejo pela manhã.
E saltou, fazendo Emily correr até o parapeito para encontrar apenas o vazio. Alison havia desaparecido ao pular de um prédio de quase seis andares.
Mas ela não a veria pela manhã. Não a veria no almoço. O grande novo foco da sua vida era descobrir o que a havia feito sobreviver e estava disposta a descobrir, a qualquer custo.
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