Alisha

1 Capítulo 1


Finalmente chegara o dia primeiro. Não aguentava mais minha rotina de trabalho. Seis dias por semana, nove horas por dia. Escola, trabalho, casa. Escola, trabalho, casa.

Acordei na metade da manhã e resolvi sair. Nem família, nem amigos, nem o clima absurdamente quente lá fora me impediria. Abri o chuveiro, prendi o cabelo e deixei que água me lavasse. Escovei meus dentes enquanto analisava meu rosto: estranho demais, oval demais, olhos escuros demais, nenhum ponto forte o bastante para ser admirado. Enxuguei-me e vesti a primeira roupa que vi: um shorts surrado e um blusão que em outro alguém, considerado normal nesse mundo, daria um enorme vestido. Sim, ainda tinha que contar com esse defeito: eu era alta demais.

Pus meu fone de ouvido, liguei o mp3 e sai rua a fora. Hoje seria diferente, precisava ser, eu necessitava que fosse. A cada dia que passava eu tinha a impressão que estava ficando maluca, toda a rotina do lugar onde moro parece mais um relógio que não pode conter nenhum defeito ou a ordem mundial poderia ser perdida.

Moro na parte mais tranquila da província, no extremo sul de Kota, um dos seis “pedaços” de Tálikns, um reino que mais parece seis ilhas. Cada província tem características próprias, e quando eu digo que eles não possuem quase nenhuma semelhança, acredite, pois parecem terem sido projetados por alguém irreal e incrível. Deixe-me explicar: Enquanto Kota tem um clima totalmente tropical, quente, puro, incrível; Tshed, a província vizinha á direita, é fria, úmida e pelo o que dizem parece um lugar desumano em que as pessoas se dividem por sua posição social, seja lá o que isso signifique.

Se eu já fui a Tshed? Não, não. Da margem de uma ilha á outra são aproximadamente 5 horas de viagem de barco, mas ir de uma província á outra requer um amontoado de protocolos que levam um bom tempo para ser providenciado, fora a enorme quantidade de civis que ficam nas margens das praias impedindo invasões forasteiras e revistando aqueles que entram e saem, e o fato de que quem vai á uma outra província não deve deixa-la em menos de trinta dias. Por quê? Também gostaria de saber, ás vezes imagino que seja para motivar o turismo ou economia local, mas sinceramente não vejo sentido nisso. Os únicos que sabem o real motivo são os soldados e a os da realeza, e infelizmente esse segredo nunca foi revelado. Espero que para nossa segurança. Espero.

Tálikns tem sua cartografia parecida mais com aquelas flores que costumamos desenhar, no centro está situado o palácio real, e as cinco pétalas seriam Tshed, Álie, Lafred, Izz e Kota, nesta ordem da esquerda para a direita.

Mas enfim, cheguei á parte mais ao sul de Kota, meu refugio predileto, onde palmeiras balançavam com a brisa que trazia consigo o aroma da maresia. Felizmente poucas pessoas tiveram a mesma ideia que eu. Descalcei os pés, sentei ás margens da praia e deixei que a água chegasse até meus tornozelos. Olhando o horizonte assim parecia que ele falava comigo, parecia que eu o pertencia e ele á mim, eu sentia como se a natureza estivesse me mostrando que eu ainda tenho uma chance de ser feliz, e que eu nasci pra isso. Que eu deveria parar de fingir gostar da minha vida para agradar a todos e começar a agradar ao meu interior. Ela parecia agora estar gritando comigo para que fosse eu mesma, por que nada disso valeria a pena num futuro infeliz. Parecia me mostrar que eu era capaz de desapegar dessa vida, que á mim foi destinada, e virá-la do avesso. Do meu jeito.

Não sei quanto tempo fiquei sentada, mas pareceu pouquíssimo quando a areia começou a esquentar demais impossibilitando que eu permanecesse o resto do dia ali. Levantei e olhei para o resto da construção que um dia fora o projeto de um muro. Não consigo entender como alguém foi capaz de planejar fazer uma cerca em volta de Kota e tirarem de nós essa vista perfeita substituindo-a a meros tijolos sem graça. Felizmente o projeto deu errado e apenas o que restou foi meio metro de um muro não concluído, e pra mim o único objetivo daquilo era lembrar-me da desgraça que poderia ter sido feita ali.

Subi nos tijolos que se situavam abaixo de uma palmeira, e me permiti sentir aquele aroma natural, ele me envolvia como braços aconchegantes e me faziam sentir como se fosse parte daquilo tudo. O vento plácido em meu cabelo faziam seus fios balançar aleatoriamente pendendo para o meu ombro e braço, direito chegando a fazer cócegas onde a pele se encontrava nua.

Fechei os olhos e segui me equilibrando no que á alguns anos atrás eu fingira ser a ponte no meio de um abismo o qual necessitava atravessar, hoje é apenas mais um lembrança da minha infância, mesmo que talvez ainda possua o mesmo significado, enquanto antes desequilibrar significada cair num abismo fatal, hoje abrir os olhos representa voltar á realidade desse mundo infeliz, o que seria, sem duvidas, mais trágico ainda.

Aumentei o volume no máximo possível quando minha música preferida começou. Sempre amei a sensação que é ter meus ouvidos concentrados em cada batida e o meu coração á acompanha-las, meus pensamentos viajavam á meus segredos mais profundos e eu podia sentir, mesmo por alguns segundos, a liberdade dentro de mim.


*****

Replay.

“Quando todos os seus sonhos falham

E aqueles que saudamos

São os piores de todos (...) ”

E a música parou. Abri meus olhos e me vi no chão. Meu joelho direito estava entre um par de pernas, e minhas duas mãos segurando meu corpo paralelo ao chão. Levantei-me apressadamente quando percebi que não só eu se machucara, e ao direcionar o olhar para entender como eu havia chegado àquele estado fitei olhos tão escuros quantos os meus, porém mais brilhantes. Ele estava sentado no chão e assim como eu retirava o fone do ouvido.

– Perdão. – falamos simultaneamente.

Fitei o rapaz por um segundo, tentando imaginar como eu teria cometido tamanha confusão. Ao analisá-lo percebi que estava bem vestido e retirava do rosto seu óculos de sol. “Estou ferrada”, pensei. “Ele deve ser um daqueles metidos filhos da Elite de Kota que se acham donos de todo o reino, ele vai me denunciar, inventar alguma mentira por ter o perturbado, perdi meu emprego, serei presa, não seja um deles, por favor, não seja um deles, droga, droga, droga”.

– Perdão, eu viajei, não vi você. – ele explicou-se.

– Não, eu que me descuidei mania minha não olhar por onde ando. Desculpa mesmo, te machuquei? – pode ter sido impressão minha, mas achei ter visto um sorriso no canto de sua boca.

– Você que se machucou, cuidado moça, eu podia ser um daqueles idiotas e você estaria acabada, literalmente.

– Eu sei – suspirei enquanto limpava a areia da minha roupa.

– Eu estava de boa, com os olhos fechados, relaxando, quando resolvi me espreguiçar você aparece hein? Que boa hora pra passar aqui moça.

– Alisha.

– O quê?

– Meu nome é Alisha, e não “moça”.

– Perdão, Alisha. Prazer meu nome é Joseph.

– Humm, Joseph. Você deveria olhar onde resolve se “espreguiçar”.

– Ah, agora a culpa foi minha é? E o que uma moça está fazendo se equilibrando num muro velho?

– Não interessa.

– Você é sempre rude assim, ou apenas quando leva um queda?

Ouvi ele bufar. E me dei conta que estava zangada não por ter caído, mas por ele estar ali e atrapalhar o meu momento. Balancei a cabeça.

– Não, só estou... tensa.

– Ah, entendo.

Um silêncio maldito tomou de conta de nós por alguns segundos. Senti meu joelho arder e fui verificar o machucado. Caminhei ate a água e lavei a ferida.

– Você está bem?

– Sim.

– Hum, você não é muito de conversar, é?

– Não com garotos. Na verdade, com ninguém. — admiti

– Ah. Eu não mordo.

Sorri.

– Mas podia.

Ele pareceu confuso, mas logo também sorriu.

– Você é daqui?

– Não, sou de Izz. É minha ultima semana aqui.

– Ah.

Silêncio.

– Não vai perguntar se estou gostando daqui?

– Deveria?

– Acho que sim.

– Hum. Qual a diferença?

– O quê?

– De Kota e Izz, digo.

– Ah, Izz é bem movimentado, mansões, prédios, fábricas, muita poluição, e o clima nem é quente nem é frio. Gostei daqui. É silencioso e aconchegante.

Por mais que quisesse sei que não devo perguntar o porquê dele ter enfrentado toda a burocracia de atravessar a barreira e ter vindo para cá. Mas resisti á curiosidade. Sempre temos que resistir. Talvez seja por isso que não consigo me socializar, tenho duvidas demais e não saciá-las me deixa intrigada.

– Ah.

– Nunca foi em Izz ?

– Não, nunca sai daqui.

– Ah.

Bastou ver a expressão dele para saber que não tínhamos nada em comum. Levantei e me despedi, chega de micos por hoje Alisha. Ele insistiu que eu ficasse mais um pouco, mas inventei que minha mãe me esperava em casa.

Ao me afastar virei a tempo de ver um homem alto se aproximando dele. O homem olhou para os lados como que para ter certeza que ninguém mais estava perto o suficiente. Abaixou-se em frente ao garoto e parecia ter uma conversa séria. O garoto parecia confuso e encarava o homem como se ele estivesse prestes á fazer algo de ruim. Talvez eu estivesse errada e devesse voltar e perguntar se ele também estava bem. Mas ele me lembrava muito a Elite daqui, e pensar nisso me dava arrepios. Vi ele voltar o olhar pra mim. Mas eu não voltaria atrás, liguei a música novamente e sai.

Notas finais
E aí o que acham? Clichê, legal, o quê? Adoraria saber a opinião de vocês!