Alisha
2 Capítulo 2
Domingo.
Eu ODEIO trabalhar no domingo. Ver todos de folga, esbanjando sorrisos pelas ruas, curtindo, descansando, e eu no balcão de uma lanchonete. Mas para meu azar esta não é uma lanchonete qualquer. Os clientes daqui são os mais chatos, arrogantes e idiotas moradores de Kota. Apesar de todo o comércio ter um só dono, os administradores são diferentes, e a gerente do Collins é a madame Lia, esposa do 1º ministro, o mais rico e mais insensível de Kota, o que atrai pra aqui a Elite principal. Terei um ótimo dia.
Normalmente, eu não opto por trabalhar no dia extra (já que essa é uma das poucas escolhas que posso fazer aqui), mas como anteontem foi feriado, e minha mãe ainda sonha em conhecer a província vizinha, resolvi ajudá-la com um cachê extra.
Conversei com a madame e ela autorizou que me contratassem um domingo, é claro. O aumento era pouquíssimo, mas ajudava de qualquer jeito, já que após o sumiço do meu pai, quando resolveu se alistar á marinha, as coisas ficaram precárias lá em casa. Meu irmão mais velho, Arthur, trabalha em Tshed, e tem um emprego bom demais para voltar para casa. Ótimo, não?
Respirei fundo e pus o avental. Fui abrir o caixa quando a patroa me chamou.
– Alice?
– É Alisha.
– O que disse?
– Nada não, está com problemas senhora?
– Hoje você fica servindo. Duas funcionárias foram demitidas mais cedo.
– E eu vou ter de dar conta do trabalho das duas?!
– Está reclamando?
Senti um aperto no coração, eu precisava daquele dinheiro, além disso minha mãe pôs um sorriso de orelha á orelha quando falei que iria trabalhar extra hoje. Não podia falhar, não com ela.
– Não senhora.
– Hum, pagarei dobrado, não se preocupe.
Ufa.
Fui trocar o uniforme. Mais um dia cheio. Mais cheio do que imaginei. Sem duvidas ela não deixaria meu “quase insulto” barato, e se você está pensando que meu alívio foi pelo aumento, está errado. Perder o emprego dessa forma significa que suas chances de conseguir outro aqui são bem mínimas. O máximo que se pode ser é transferido, mas mudar de profissão por conta própria é impossível.
Marie, uma colega de classe que jura ser minha amiga o conseguiu pra mim, e advinha de quem ela é filha? Como se já não bastasse as vergonhas que passo na vida tenho de conviver com a mãe da Marie no meu pé do ouvido diariamente que, aliás, é minha patroa. A Marie é legal, mas a mãe dela acaba com toda a admiração que tenho pela mesma. Bem, talvez falemos delas mais tarde.
O primeiro chamado apareceu assim que cheguei á seção dos pedidos, olhei o monitor.
Mesa 07.
Certo. Fácil. Só vai lá e faz o que você aprendeu todos esses dias, Alisha. Você sempre soube que nunca seria promovida. Por que nunca se passou pela sua cabeça que poderia descer no cargo? Alias, essa é a tendência da sua vida. Cair e cair. Idiota. Idiota. Idiota. Peguei o caderninho e me direcionei para a mesa.
*****
Já se passava das 17 horas da tarde, e como eu tinha pego o turno manhã/tarde estaria livre ás 18:00. Mais um cliente chamando. Mesa 18. Havia ficado apenas um dia para lá e para cá servindo e recolhendo, servindo e recolhendo e já estava bastante entediada com aquelas ações tão repetitivas. Pelo menos as gorjetas foram razoáveis. Mas estas não iriam pra minha mãe. Precisava comprar livros novos, e de acordo com meus cálculos daria tempo de chegar á livraria mais próxima assim que saísse daqui. Eles são um refugio pra mim, virei madrugadas lendo, e diversas vezes cheguei á escola parecendo um zumbi ambulante mas, pra mim, valia a pena.
Dirigi-me á mesa que ficava do lado externo do local. Antes de chegar até o homem alto que me esperava com o cardápio a cobrir seu rosto, percebi que usava roupas finas e seu corpo parecia tenso enquanto tentava se decidir o que pedir, e pelo amor de Deus não acredito que ainda não havia decidido. Isso me estressava muito. Anotar pedidos e ter de rasura-los, anotar novamente e rasurar. O que merda esse tipo de gente tem na cabeça? Mesmo assim fui á mesa, anotei o pedido e logo fui busca-lo.
Ao voltar olhei para um monitor que ficava na parede esquerda ao lado para tentar entender a notícia que passava. Dois adolescentes foram sequestrados e estavam sendo procurados desesperadamente. Ao ler a legenda vi que Kota não era a única que estava sendo vítima de bandidos. Izz e Lafred já haviam tido, cada uma, outros 3 casos idênticos, e isso me assustava. Não mais que o que veio a seguir: a foto dos dois adolescentes foi estampada na tela e fiquei sem fôlego ao reconhecer um deles: Joseph.
*****
– Já foi liberada, filha? Me surpreendo daquela cobra ter te liberado mais cedo hoje. – disse minha mãe assim que cheguei em casa.
– Filha? – repetiu ao ver que minha resposta não foi dada.
Respirei fundo e expliquei pra ela que acabei quase entrando em pânico ao ver que um conhecido – nem tão conhecido assim — havia sido sequestrado e sabe-se lá se ainda possuía vida. Falei também que acabei deixando a bandeja que eu estava segurando cair e tudo se esparramou no chão, o que causou certo alvoroço na lanchonete. A madame me demitiu e fui caçoada até sair de lá.
– Foi horrível mãe!
Ela me acalmou e me fez um suco enquanto repetia que tudo ia ficar bem, que eu iria conseguir um emprego melhor, o que eu sabia que não era verdade, mas não pude fazer outra coisa a não ser agradecer e dizer que tentaria dormir.
Me joguei na cama e refleti sobre meu dia, como que podia alguém ser tão azarada como eu ?
Liguei a TV, e fui mudando de canal, a cada cinco canais acho que uns três passava a mesma música como que em homenagem, um deles dizia que o garoto havia vindo até Kota para tentar fazer parcerias para sua banda. Eu estava tão fora de mim que demorei a relacionar a homenagem, com quem aparecia na tela. Então era por isso que ele parecia tanto um deles, ele era um deles. Joseph era o cantor mais famoso de Izz, e eu idiota só me dei conta isso agora.
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