Alice na toca do coelho

1 O começo já conhecido


Era uma manhã de sol comum daqueles longos dias de verão. O sol brilhava teimosamente no céu azul sem nuvens e seu brilho era refletido nas águas paradas em que a irmã vez ou outra atacava com as mãos gorduchas e curiosas. A mãe lia um de seus livros encostada a uma arvore de tronco grosso, a mesma arvore que ela, Alice, tentava escalar. As pernas lhe pareciam estranhas e curtas enquanto lutava para encaixá-las no tronco, esticou os braços e agarrou o galho mais próximo e o usou para facilitar a escalada.

A mãe lhe ordenou várias vezes que parecesse de fazer "seja lá o que você pensa estar fazendo" mas ela ignorou-a e prometeu que quando sentasse no galho, ouviria a história do livro e se manteria em silêncio e a mulher parecia fatigada demais para levantar objeções e deixou que a menina se esticasse até o galho e se sentasse nele e foi assim que a mãe começou a história.

A irmãzinha correu ao encontro da mãe e sentou-se ao lado dela, deitou a cabeça e observou as figuras e ouviu a história até adormecer, a mãe acabou por adormecer também e até Alice poderia ter caído no sono não fosse por um elegante coelho que por ali passava. O animal pomposo de pelos brancos usava um colete de veludo vermelho e um relógio de bolso, o pequeno chapéu na cabeça parecia prestes a cair, os olhos dele se abriram bruscamente quando encarou o relógio e saiu ao saltos dizendo estar muito atrasado.

Alice espreguiçou-se e pensou em como o coelho era engraçado.

— Onde já se viu? Um dia belo como este em um jardim como este e sair correndo assim. Coelho bobo

Não demorou mais do que três segundos para que a pequena Alice percebesse o obvio. Coelhos não falavam,usavam coletes ou olhavam as horas em relógios de bolso. E foi assim que ela saltou da arvore caindo ruidosamente no chão e sujando todo o vestido azul de grama, correu com os pequenos sapatinhos o mais rápido que pode e ao longe vislumbrou o pequeno rabo peludo.

— Senhor coelho! — Ela gritou — Por favor, espere por mim

Mas ele não esperou, limitou-se a olhar para trás e voltar a saltitar sempre a diante. Alice correu o mais rápido que suas curtas pernas permitiam e deu por si em frente a uma gigantesca arvore, seu tronco era ainda mais grosso do que o da arvore em que a mãe agora dormia e perto de suas raízes havia um buraco, grande demais para uma toca de coelho mas o animal parecia ter se enfiado ali.

Então com todo o juízo de uma menina de dez anos de idade,jogou-se pelo buraco curiosa sobre o que perturbava tanto o pequeno coelho elegante.