Alice
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu tenho cabelos pretos, olhos cinzentos e a pele pálida, curso engenharia civil (nas horas vagas tenho outras ocupações) e faço parte da classe al-ta do Rio de Janeiro.
Meu pai é técnico de futebol e minha mãe é for-mada em psicologia, mas não exerce a profissão.
Eu era normal até descobrir que mortos podem estar bem vivos e que mães têm mais segredos que o normal.
Você acha que seria legal ler um livro onde al-guém conta sobre como sua vida é confusa? Sim? Então boa sorte, vai precisar.
Vamos do começo para ver se você consegue entender.
Eu estava decidida a não chorar. Enquanto olhava pela janela do carro pensando no que dizer para tirar da cabeça das meninas a morte inesperada do irmão das trigêmeas.
Já tinham se passado semanas desde a morte dele, e não havia um dia em que eu não tivesse ido até a casa das irmãs Paula, Lívia e Thaila ou tirado este assunto da minha cabeça. Todas eram altas e magras, tinham cabelos ruivos curtos e olhos verdes brilhantes. Não eram parecidas fora esses detalhes, e para evitar confusões sempre usavam roupas diferentes.
Senhor Tomas o pai das garotas tinha o estereótipo de um surfista loiro e alto com olhos castanhos de terno apesar de ser um advogado, dono de uma das maiores fortunas do Rio de Janeiro.E Sra. Susana, que era uma mulher muito comunicativa, com suas roupas extravagantes, seus cabelos ruivos longos e olhos verdes questionadores.
Da última vez que eu tinha ido visitar eles eu avisei as trigêmeas que eu não gostaria de chegar lá e vê-las paradas vendo velhos álbuns de fotos e lendo as cartas antigas de natal que eles sempre trocavam, porém foi exatamente isso que eu vi, e fiquei um tanto braba com elas.
Quando eu entrei na mansão de três andares deles, no centro da cidade, nenhuma delas pareceu notar que eu estava ali, então limpei a garganta e disse:
- Oi eu estou bem aqui, será que alguém poderia levantar porque a minha boca não vai sair voando para beijar a bochecha de vocês.
Elas me olharam um tanto espantadas, nas últimas semanas as pessoas foram condescendentes com elas embora não aprovassem seus comportamentos.
O Senhor Tomas deveria estar no escritório de advocacia e a Sra. Susana pelo que eu ouvi deveria estar dando uma caminhada na praia. Desde a morte de seu filho ela só usava preto e não abria a boca para dizer algo, mas executava as tarefas necessárias sem ninguém ter de pedir-lhe.
- Oi Alice – disse Paula, a que se recuperou mais rápido do choque.
Depois as outras duas também me cumprimentaram e começamos a conversar, até a conversa chegar no ponto que eu queria.
- Meninas podem me dizer se vocês estão disponíveis para fazer uma viagem? – eu disse.
- O que? – disse Lívia.
- Eu ganhei três passagens para ir para Londres para um intercâmbio, e eu ainda não estou de totalmente firme no inglês, mas vocês estão.
- Você acha mesmo que nós vamos largar nossa família aqui para ir para Londres? – disse Thaila em tom sarcástico.
- Acho que vocês não deveriam parar de viver a vida de vocês porque perderam alguém que amam – eu disse.
Houve silêncio e então um momento depois, Paula falou:
- Você pode ter razão, mas e nossos pais?
- Eles vão ficar bem, meus pais vão cuidar de mantê-los ocupados, assim como hoje a noite que haverá um jantar na minha casa onde eles são convidados e eles já são bem grandinhos.
- Tudo bem, — disse Lívia com m suspiro- mas o que acontece nessa viagem?
Sorrindo eu comecei a explicar onde elas ficariam hospedadas e ficariam um mês lá, com tudo pago.
- A viagem vai acontecer daqui cinco dias, vocês tem que estar prontas e levar documentos, por serem maiores de idade, acho que não haverá problemas. – eu disse
Como eu queria e imaginava elas começaram a discutir sobre o que levar e como seria emocionante, mas teriam uma conversa com os pais delas antes.
Eu sai e fui até o escritório do Sr. Thomas para convidá-lo para o jantar em minha casa hoje que meus pais estão oferecendo.
Ao chegar lá vi um homem enfiado com a cara nos papeis lendo atentamente cada linha, tive medo de interromper tal concentração, mas eu fiz mesmo assim.
- Olá. – eu disse alegremente.
- Alice, que bom ver você. – disse ele colocando os papeis em cima da mesa e levantando para me abraçar.
- É bom ver o senhor também, mas eu gostaria, em nome dos meus pais, de convidar você e sua esposa para um jantar em minha casa esta noite.
- Claro, porque não? Mas, quem mais vai?
- Será só você, sua esposa e meus pais, e será servido um belo cardápio diversificado.
- Tudo bem, nós vamos.
Conversamos mais um pouco sobre como iam os negócios, falei que ele não deveria trabalhar tanto em pleno sábado e em fim fui embora.
Eu sai feliz em ver que tudo estava dando certo e que eles poderiam parar de pensar um pouco em coisas ruins.
Voltei para casa, notifiquei aos meus pais que o Senhor e Senhora Matos aceitaram o convite e eles foram falar com a cozinheira, o mordomo e os outros empregados. Fui para o meu quarto me arrumar, porque havia combinado com Caio de sair com ele.
Para variar demorei um pouco mais do que imaginava e acabei saindo mais tarde do que o planejado, no meio do jantar dos adultos.
Eu estava usando uma calça jeans rasgada, uma regata branca, uma sapatilha eu uma tiara nos cabelos
Eu estava pondo no pé na escada quando ouvi uma coisa que me parou, imediatamente eu voltei meu pé para seu local inicial e me espichei melhor na escada para ouvir melhor.
- Sei que é difícil pra vocês lembrar-se de antigamente, mas vocês têm que contar para as meninas, ou eu mesma conto tudo se vocês não são capazes.
Era a voz da minha mãe.
- Você não tem esse direito. – disse o Sr Tomas.
Eu estava me esticando mais um pouco quando a campainha tocou e eu levei um susto e acabei quase caindo, mas consegui me segurar no corrimão e ficar só com as pernas suspensas no ar. Com um impulso eu coloquei as pernas em voltar do corrimão e consegui colocar os pés nas escadas, arrumei o cabelo e continuei descendo as escadas como se nada tivesse acontecido.
Quando cheguei lá em baixo vi que Caio – meu namorado- já estava me esperando, tínhamos combinados de deixar os adultos sozinhos.
Caio era o loiro alto dos olhos azuis (acredito que sonho de consumo de muitas mulheres). Os pais de Caio moravam no exterior exatamente onde eu não sei, mas era nos exterior e juntando dois mais dois você pode perceber que eles tem dinheiro.
- Senhor e Senhora Matos, boa noite, bom ver vocês. – eu lancei um sorriso na direção deles — Bom, já vou indo, até mais.
Eu sai sentindo os olhares dirigidas a mim, mas não dei bola.
Só quando nós estávamos sentados na pizzaria Caio falou:
- Só eu achei que quando entrei interrompi alguma coisa?
- Não, pelo menos você quase não caiu da escada ou teve que se agarrar num corrimão.
Ele começou a rir, mas ele viu minha expressão séria e parou. Eu lhe contei o que tinha ouvido e ele ficou em silêncio.
- Então, o que você acha? Alguém adotada, ou talvez pais que vão se separar? – eu perguntei.
Caio era loiro, com os olhos castanhos e estava na mesma faculdade que eu só que ele fazia advocacia.
- Não, acho que não, é alguma coisa mais complicada pelo que você disse – ele estava pensativo e eu não pude deixar de notar que ele estava preocupado.
Nesse momento veio à pizza de strogonoff – minha preferida- nos calamos e começamos a comer.
Depois de uma boa — e engordativa — refeição nós fomos caminhar no centro da cidade e depois de um debate sobre o que poderia ser essa coisa nós decidimos que o mais certo a fazer era descobrir por conta própria.
- Vamos ter que pesquisar bastante pelo visto. – eu disse.
- Concordo. – disse Caio.
- Ainda não está tão tarde e amanhã não temos que ir à faculdade, o que você acha de darmos uma pesquisada lá em casa? – eu perguntei.
- Claro. – disse ele.
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