Alice

2 Capítulo 2


Passamos boa parte do tempo pesquisando em sites que nem eu sei ao certo o que inventavam e o que era verdade sobre a vida do Senhor Tomas e da Senhora Susana.

Descobrimos que Susana Matos não foi a primeira mulher de Tomas e que ele tinha sido casado com uma mulher chamada Laura Albert e tinha um filho chamado Vitor Albert.

– Caio, aqui diz que Luca morreu depois de cair das escadas em sua propriedade!

Eu arregalei os olhos. Quase comecei a rir.

– Mas a casa dele é térrea!

Meu cérebro estava tentando assimilar tudo isso, mas eu não entendia nada.

– Alice calma, nós só sabemos que o Senhor Tomas teve outra esposa e que ele teve um filho. E a morte de Luca foi inexplicavelmente misteriosa.

– Me parece bem óbvio — eu disse — que está tudo errado.

Depois de Caio ir embora, eu fiquei pesquisando mais um pouco e me lembrei que na outra semana haveria reunião das turmas da faculdade e que eu tinha que ir. Então parei de fazer as pesquisas e quebrar a cabeça e fui dormir.

Eu e Caio nos conhecemos em uma dessas reuniões, com Caio falando sobre o que a faculdade precisava urgentemente e eu sendo empurrada pra frente do palco, eu até posso ser boa com números e cálculos quilométricos, mas com palavras sou um desastre. Ele percebeu meu desconforto e minha inabilidade e rapidamente falou de um modo que todos prestassem a máxima atenção nele se esquecendo de mim. No final eu agradeci a ele e nós passamos dois meses se conhecendo até que um dia resolvemos ver se era apenas amizade.

Pensando nisso adormeci rapidamente. Não houve sonhos ou pesadelos, apenas rostos turvos e disformes que proferiam palavras inaudíveis. Acordei com uma carinha peluda em cima da minha. Era Alexia minha gatinha branca e felpuda.

Acomodei-me na cama de modo que pudesse colocá-la em meu colo e acariciá-la, olhei para meu relógio de parede em forma de panda e vi que eram 10 horas de uma ensolarada manhã de domingo.

Coloquei Alexia em sua cama, arrumei minha cama e sentei em meu sofá para ler um livro que estava lendo sobre antigas construções romanas e egípcias.

Depois de um tempo vesti uma roupa e fui escovar os dentes para descer para o almoço.

Mamãe e papai como sempre estavam sentados no sofá discutindo sobre onde nossas férias de fim de ano deveriam ser passadas, eu beijei a bochecha dos dois e desejei bom dia, como recompensa me disseram que eu deveria acordar Théo.

Théo era parecido comigo, cabelo escuro, olhos cinzentos, bom em matemática e horrível com palavras. Ah, e também era meu irmão mais novo.

Após dez tentativas de tirá-lo da cama eu disse que havia sorvete no freezer e então ele abriu os olhos e começou a se arrumar, arrumar a cama e desceu correndo para procurar o sorvete.

Quando desci as escadas mamãe falou:

– Eu queria saber como você faz para tirá-lo da cama – brincou mamãe.

Então sentamos a mesa e começamos a almoçar como uma família normal, ou quase.

Depois do almoço me lembrei de que hoje Caio ia passar o domingo na fazenda de seus pais e lá não havia sinal de celular. Então eu sabia que ia passar o dia inteiro em casa, fui assistir um filme estava passando e depois ler meu livro, jantei, fui ao banheiro, coloquei meu pijama e fui dormir.

Acordei cedo para ir para faculdade, me arrumei, arrumei minhas coisas, comi dois biscoitos de chocolate, peguei meu carro e dirigi até a faculdade. Corri pra minha primeira aula e em minha mesa encontrei um bilhete:

“Pare de procurar respostas”.

Quem tinha deixado aquele bilhete ali? E o que ele significava? Até que eu percebi que era sobre procurar respostas sobre o segredo e então notei que Caio estava vindo na minha direção.

Ele olhou o bilhete e olhou para mim, fez uma cara de sério e falou como se estivesse na frente de um juiz.

– Nós não vamos parar – disse ele com firmeza- e vamos descobrir quem colocou isso ai.

Perguntamos a todos na sala, mas ninguém havia visto nada, então fingi que não havia acontecido nada. Foi então que o sinal tocou e até o fim de todas as aulas eu praticamente nem me mexi do meu lugar, só pensando em colocou aquele bilhete ali e porque queriam que não soubéssemos de nada.

Quando voltei para casa havia um irmãozinho menor a minha espera.

– O que foi Théo?

– Alice, eu ouvi hoje uma conversa da mamãe com o papai que o pai de Luca ter que falsificar alguns documentos, o que isso quer dizer?

– Quer dizer que ele vai inventar papeis que nunca existiam.

– E isso é bom?

– Acho que não. Mas vamos entrar Anie já deve ter feito Waffles.

Anie era a nossa cozinheira, ela adorava Théo, acho que até considerava ele como seu filho, já que não poderia ter um, pois tinha uma doença que a inabilitava de ter filhos. Ela era loira dos olhos castanhos e muito magra, às vezes eu queria ser ela para poder ver as coisas sempre de um jeito positivo e ter sua extrema paciência.

Entramos e havia mesmo Waffles nos esperando. Comemos e fui brincar com Théo de Banco Imobiliário (o jogo mais novo do mundo, só que não).

Depois liguei para Caio e contei sobre os documentos.

– Documentos falsificados? – ele repetiu.

Parecia que estava encaixando um quebra-cabeça mentalmente.

– Alice, você pode vir aqui, tipo agora, acho que já descobri tudo.

– Como assim? Estou indo agora ai.

Em seguida desligamos. Eu estava com tanta curiosidade que nem prestei atenção em nada mais, nem em esquecer o celular em casa. Peguei as chaves do carro, falei para Théo não se preocupar e disse para ele avisar para mamãe e papai que já voltava, peguei o carro e dirigi direto até a casa de Caio.

Ao chegar lá toquei a campainha incessantemente por ao que parecera para mim uma eternidade. Era para alguém ter vindo me atender, me lembrei que nas segundas-feiras à tarde os empregados não trabalham na casa de Caio (ou dos pais dele), então tentei chamar por Caio, mas eu só estava fazendo todos que estavam nas ruas olharem para mim, então fingi que sai dali e depois de alguns minutos voltei.

Eu tinha que entrar naquela casa de qualquer jeito, se não posso entrar pela frente então que seja por trás, pulei o muro baixo da parte de trás da casa dele (uma dica pra você, mulher, que vai pular um muro, não o pule usando saltos, você pode acabar quase quebrando o pé, como eu quase quebrei o meu).

Então com a cópia da chave que ele me deu da casa dele, eu entrei pela sala e chamei por ele, ouvi gemidos vindos do quarto dele, subi as escadas correndo e quando entrei em seu quarto, me deparei com um homem em posição fetal no quarto de Caio, todo machucado e sangrando. Mas espera, aquele era Caio só que meio espancado e cheio de sangue.

Eu não suportei a visão e quase desmaiei, mas eu me recostei na parede e então acho que ele viu que eu estava ali e seus olhos se fixaram nos meus e ele sussurrou:

– A...Aliii...Alice...me ajuda.

E então tossiu e gemeu e acho que desmaiou. Procurei meu celular mas (como o gênio que sou) havia esquecido ele em casa. Procurei o primeiro telefone que vi, era o celular de Caio.

Liguei para a polícia aos berros e com lágrimas escorrendo e quando eles chegaram, a ambulância já havia chegado e estava levando Caio para o hospital. Para ajudar, quando a ambulância estava partindo não me deixaram subir. Fui barrada pela polícia e submetida a um interrogatório.

– Porque você estava lá? – perguntou a delegada.

– Porque eu tinha ligado pra ele para, hum, conversar sobre o nosso namoro e então ele pediu que eu viesse aqui.

Por algum motivo eu achei que não devia ficar falando por ai sobre as minhas, hum, pesquisas sobre a vida de outras pessoas.

Após a quinta pergunta a delegada viu que eu não tinha condições de conversar sobre isso e desistiu de me fazer perguntas.

Pedi um celular emprestado e liguei para meus pais e avisei que estava indo para o hospital e pedi que eles me encontrassem lá. Depois liguei para os PIS de Caio que ficaram apavorados e disseram que amanhã mesmo estariam aqui. Entreguei o celular pra primeira pessoa que vi e pedi um táxi.

Quando cheguei ao hospital tive de ficar na sala de espera. Cada minuto parecia um século, depois que cem séculos maus pais chegaram e mais pessoas foram chegando, de repente a tão espaçosa sala de espera parecia ter encolhido potencialmente. Mas o pior de tudo era que as pessoas tentavam falar comigo, mas eu estava apenas agarrada em um copo de água que alguém me deu olhando fixamente para a água que tremia junto com o copo e minha mão.

Finalmente um médico apareceu e falou que ele tinha sido espancado e estava se recuperando bem, mas não estava tão bem assim para receber visitas. Aos poucos depois do que o médico disse as pessoas foram indo embora, menos eu e meus pais, que tiraram o copo de água de minha mão e olhei para eles fazendo careta.

– Alice? – mamãe perguntou.

Eu não conseguia falar, sério, por mais que eu tentasse a única coisa que eu consiguia fazer era mexer a mandíbula.

– Alice se você estiver nos escutando pisque uma vez – disse papai.

Eu pisquei.

Eles suspiraram aliviados.

– Alice, não há nada para fazer aqui vamos para casa, você precisa descansar, já é tarde, amanhã se você quiser não precisar ir para faculdade, mas agora você tem que ir pra casa.

Eu assenti o que mais eu poderia fazer?

Saímos do hospital onde o motorista de papai já estava esperando. Entramos no carro e fomos para casa, naquela noite eu não falei com ninguém, tranquei a porta do meu quarto, deitei em minha cama me agarrei à um travesseiro e fiquei chorando silenciosamente, pensando em como a vida é complicada.

Ainda sem dormir levantei 5 da manhã, tomei banho e me arrumei, comi alguma coisa, fiz meus temas e arrumei minhas coisas. Falei com meus pais sobre minha decisão.

– Tem certeza? – perguntou mamãe.

– Sim, eu pensei sobre isso a noite toda, se ele melhorar não vai ser por minha causa e além do mais os médicos já estão cuidando dele.

– Você sabe o que está fazendo? Sabe o que vai ter que encarar? – perguntou mamãe olhando para papai em busca de apoio, mas falhando porque ele olhava para mim com uma expressão de não acreditar no que ouvia.

– Sim e não, mas mãe você sabe que eu posso muito bem dar conto disso. Pai, o senhor poderia me emprestar seu motorista hoje? Não tenho certeza de minha habilidades no volante hoje.

– Claro, mas eu gostaria de eu mesmo levar você em seu carro, se você quiser.

– Porque não?

Então me despedi de mamãe e pedi pra que ela desse um beijo em Théo por mim.

Papai parou uma quadra antes da faculdade e falou:

– Você é forte e corajosa, sabe o que faz, mas Alice existem limites e você está usufruindo demais dos quais você tem.

– O que você quis dizer com isso?

– Você deveria ter ficado em casa hoje, está com uma cara péssima e pensa que e não ouvi seus soluços ontem?

– Primeiro sou forte e depois soluço?

– Alice – disse papai com a voz cansada – você está exigindo demais de você. Descanse hoje, por mim.

– Papai, seu eu ficar em casa vai ser pior, aqui eu não tenho tempo de pensar em coisas como, “eu poderia ter evitado” ou o clássico “é tudo culpa minha”.

– Desisto, mesmo sem saber como isso é culpa sua, te amo e se cuide.

– Tudo bem.

Sai do carro e parei na frente da faculdade, eu diria que joguei mês cabelos para trás, ergui a cabeça e segui em frente, mas não dava por motivos óbvios, primeiro eu estava de rabo, segundo o prédio de engenharia civil era pra esquerda.

Onde eu passava as pessoas apontavam e cochichavam, e sinceramente eu não me importo.

As trigêmeas estavam me esperando na porta minha sala e quando me viram vieram me abraçar (o que achei desnecessário).

– Nós ficamos sabendo que ele piorou – disse Paula ainda me abraçando.

Eu gelei.

– Como assim piorou? – perguntei.

Lívia cutucou Paula.

– Não era pra contar pra ela – disse Lívia – mas agora ela vai nos incomodar até contarmos, é que essa noite ficamos sabendo que Caio teve que ser transferido para uma UTI em coma, e não é um coma induzido.

Eu simplesmente olhei para elas e suspirei, como eu disse, não posso fazer nada. Pedi para mudarmos de assunto e o sinal tocou e elas saíram correndo para a aula delas e eu entrei na minha.

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Todos os dias depois da aula eu ia ver como Caio estava e nada mudava, questão de tempo os médicos diziam.

Meses depois a polícia considerou como um espancamento por “engano.” Eu sabia que não era, mas não contaria para ninguém.

Então eu resolvi encarar os fatos, Caio não se recuperaria tão cedo e eu tinha que seguir em frente sem tentar me enganar, as trigêmeas estavam me dando apoio e eu decidi continuar a investigar os fatos.

Apesar de tudo minha vida estava pacífica.

Até o dia em que fui até o fórum com o objetivo de fazer ma pesquisa para faculdade e pedi para ver certidões, de nascimento e óbito, o que era mentira.

Encontrei as certidões de nascimento de muita gente conhecida, mas o que mais me chamou atenção foi de um menino chamado Vitor o mesmo sobrenome que o meu por parte de mãe e o mesmo sobrenome de Luca por parte de pai, decidi guardar comigo aquilo. Achei também uma de Luca, mas não achei nenhuma de óbito. O que era estranho já que Luca tinha morrido havia quase cinco meses.

Fiz cópias das certidões e fui até a biblioteca fazer mais pesquisas.

A biblioteca é enorme, reúne muitas pessoas, mas estava quase vazia, a não ser por mim, a moça que cuida das baixas dos livros e no máximo dez pessoas.

Quando eu estava saindo ouvi um barulho alto e ensurdecedor e quando vi fui arremessada contra a parede, uma bomba explodiu.

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Ao acordar no quarto de um hospital sozinha, comecei a me lembrar de algumas coisas, tipo Théo me dando um beijo na bochecha enquanto me empurravam numa maca e médicos pediam licença para pessoas (a maioria deviam ser curiosos), minha mãe colocando um rosário na minha mão e o rosto de Luca sibilando alguma coisa que eu não entendia. Eu estava imaginando coisas com certeza, pelo menos a ultima parte, eu acho. E desmaiei de novo.

Acordei num quarto pintado nas paredes de azul, e me lembrando de todas essas coisas e decidi que a última parte era mesmo mentira então me virei e percebi vasos de flores perto de mim e uma garrafa de água que eu resolvi beber porque alguma coisa tinha ressecado minha boca.

Então eu vi. Não estava sozinha. Minha expressão passou de alívio para medo.

– Luca?

– Um ponto para Alice. – um sorriso irônico cruzava seus lábios.

– Você não estava...

– Morto?

– É.

– No entanto eu estou são e vivo aqui e você está ai toda quebrada em um hospital. Que coisa né? O mundo está meio irônico hoje em dia, acho que as preocupações não deveriam estar sobre mim.

Eu tentei formar uma frase descente, no entanto eu só conseguia balbuciar coisas sem sentidos.

– Calma aí, eu posso ex... – ele tentou falar entre meus balbucios, mas eu me recuperei rápido.

– Como você entrou aqui?

– A pancada foi tão forte que você ficou um pouco cega?

Ah tá. Ele se vestiu de médico, muito inteligente já que ele cursava medicina.

– Não doutor... Dalton. – eu disse olhando o uniforme roubado dele.

– Ei, foi o melhor que eu consegui.

Pois é, eu quase me esqueci do idiota que convivia comigo há anos, quase.

– Porque está aqui?

– Porque fiquei preocupado. Espera, agora é minha vez. O que aconteceu?

Minha cabeça estava latejando, mas eu consegui me lembrar. Me sentei melhor na cama tomei um gole da água e então falei:

– Fui à biblioteca, daí quando eu estava saindo uma bomba estourou atrás de mim.

– Eu disse que todos aqueles livros um dia iam acabar te matando – disse ele rindo sozinho — mas como assim bomba?

– Bomba tipo bomba. Bum – eu disse enfatizando com as mãos.

– Disseram que foi um curto nos fios que começou o incêndio. Mas nós sabemos que não devemos confiar em algumas notícias, só que eu estou cansado de ver os outros se machucarem por minha causa. Caio agora você.

– Isso tem alguma coisa relacionada com Laura?

Seu olhar surpreso como sempre me deixou em transe. Luca estava mais alto e musculoso e aqueles olhos verdes cintilantes e os cabelos pretos desalinhados me deixaram paralisada.

– Pelo visto, sua inteligência cresceu mais um pouco. O que você sabe sobre Laura?

– Quase nada.

– Ótimo isso ajuda muito – disse ele sorrindo, mas não era um sorriso irônico.

Eu não entendi o que ele quis dizer com isso.

– Alice, eu posso te pedir uma coisa meio louca?

– Claro, eu acho.

– Você tem que sair imediatamente desse hospital. Você vem comigo?

– Sair? Por quê?

– Aqui você está em perigo. Pessoas demais sabem sua localização. Eu até peguei “emprestado” esse uniforme de enfermeira. – disse ele mostrando uma camiseta de manga longa branca com bolsos nas laterais e uma calça branca sem bolsos.

– Tudo bem, mas pra onde nós vamos.

– Para o Alasca.

– Alasca? Por quê?

– Porque ninguém suspeitaria.

– Eu estou fugindo de quem? – eu indaguei – Diabos, eu poderia ir para qualquer lugar que ninguém suspeitaria, eu podia estar morta, ninguém espera que eu saia por aí.

– Da sua mãe.

– O que? Por quê?

– Porque ela é Laura. – disse ele em tom sério.

– Não, espera minha mãe não é nenhuma mentirosa ou malvada.

– Ela sequestrou nosso irmão Alice, e machucou Caio, só porque queria dar um “aviso”.

Ele tinha pirado? É sério eu quase explodi meus miolos e ele que fica maluco? Mas eu não sei o porquê, mas uma parte minha acreditava nele e era muito bom ver Luca de novo.

– Então se vire não vou trocar de roupa com você me olhando.

Ele assentiu e acabou saindo do quarto.

Quando eu terminei de vestir o uniforme, eu tremia de frio, ele era muito fino Luca teve que me emprestar uma jaqueta para eu colocar por baixo. Quem diria que em baixo de todos aqueles cobertores eu estava tão fraca e para ajudar, eu estava morrendo de fome.

Nós saímos do hospital com máscaras – máscaras que os doutores usam para não se contagiar ou contagiar o paciente — para não sermos reconhecidos. Tudo estava dando certo, pegamos um táxi com duas malas que até então eu não tinha percebido que estão ali e fomos até um campo aberto. Um avião estava nos esperando (ser rico tem suas vantagens), sem piloto eu tive um arrepio que me percorreu a espinha até eu perceber quem seriam o piloto e o co-piloto, Luca e eu.

Nós tínhamos feito no máximo cinco aulas de pilotagem de aviões, eu não estava nem um pouco segura ou feliz com essa ideia. No começo foi um pouco difícil, passamos por algumas turbulências, mas depois tudo se resolveu. Luca parecia ter praticado, bom, era pra ele estar morto, não era para se surpreender com mais nada, mas...

Ao longo do caminho, tive que pegar alguns cobertores que achei, estava cada vez mais frio.

Imagine o Alasca como uma bola de neve, não está muito longe da verdade. Para variar Luca já tinha deixado tudo pronto, inclusive uma casa para nós ficarmos, a qual parecia mais uma cabana. Ela era relativamente pequena, tinha dois quartos, um banheiro e a sala e a cozinha dividiam o mesmo espaço. Havia televisão, DVD e até um rádio que não funcionava. Eu e Luca ficamos muitos surpresos pelo estado de ordem da casa.

Ele saiu para comprar algo para o jantar e eu fui direto para o banho. A água quente era como se fosse à coisa mais maravilhosa que já me aconteceu. Depois eu coloquei a roupa mais quente e confortável que eu achei e fui desarrumar nossas malas, Luca tinha comprado roupas para nós dois antes de me ver no hospital.

Não demorou muito e Luca estava de volta com muitos suprimentos deliciosos, nos quais meu estômago me questionava porque eu ainda não tinha atacado aquela pilha de delícias e porcarias.

– Parece que brincar de pinguim não vai ser tão ruim. – eu disse.

Nós rimos um pouco, mas como era ele que tinha os dotes culinários e não eu ele assumiu o fogão.

Enquanto ele cozinhava atentamente um delicioso Strogonoff eu estava observando-o atentamente. Luca é o tipo de companhia que você gostaria de ter todas as horas do seu lado, com seu humor maldoso e esquisito e medo de escuro. Ele sorri de um jeito que faz você sorrir também, há um brilho em seu olhar que consegue tornar tudo mais bonito. Ele fingia dias de tristeza profunda onde fazia frases poéticas inconscientemente – fazia você achar que estava na presença de um filósofo. Ele com certeza é o tipo de cara que eu gosto de ter como melhor amigo.

Depois de arrumar as coisas em pratos, tivemos de sentar do sofá, pois não havia cadeiras na mesa.

Ligamos a televisão – que tinha parabólica- no noticiário das sete do Rio. Eu deixei meu prato cair no chão quando vi minha foto de desaparecida, eu não tinha calculado bem o que aconteceria se eu fugisse, e isso não estava nos meus planos.

Eu estava paralisada de mais para me mexer então Luca começou a limpar minha sujeira enquanto eu aumentava o volume da televisão cegamente.

“E Alice Santos continua desaparecida. Filha do técnico de futebol Roberto Santos. Foi vista pela última vez saindo do hospital. Oferece-se uma recompensa por notícias da garota.”

Meu Deus. O que eu fui fazer?

Enterrei meu rosto em minhas mãos. Meus pais. Eles deviam estar desesperados, apesar de eu não acreditar em uma palavra de Luca sobre Laura, eu fugi sem pensar como minha família ficaria. Como será que eles estão? Em pânico? Com medo? As possibilidades eram infinitas, o que só servia pra me fazer tremer mais.

Eu levantei do sofá e Luca já tinha acabado de arrumar as coisas que eu baguncei, avisei-o de que iria para meu quarto, ele fez que sim com a cabeça.

Eu não tinha ideia de como estava vulnerável até eu abrir a porta e por fazer tanto esforço. Acabar desmaiando. A única coisa que eu me lembro e ser agarrada por um par de braços antes de quase cair no chão gelado da casa.

Na manhã seguinte – eu acho que na manhã seguinte- eu acordei na minha cama com mais se oito cobertores em cima de mim e vi Luca na cadeira de balanço tirando uma soneca. Pelo jeito alguém vai ter torcicolo hoje.

Eu agarrei um travesseiro e atirei nele.

– Ei Matos, acorda.

– Hã? O que foi? – ele me fuzilou com o olhar e atirou o travesseiro de volta em retaliação, mas eu desviei.

– Será que um dia você vai parar de me xingar e encher o saco Santos? – disse ele.

– Idiota, eu nem te xingo ou encho o saco o tempo todo, – eu fiz uma pausa – encho?

Ele começou a rir sozinho enquanto eu pensava seriamente em tudo que eu já disse e fiz para ele. Ele tinha razão eu não passaria dois minutos sem querer torcer o pescoço dele até fazer Crek.

– Acho melhor você ir deitar, senão vai passar o dia de mau humor garoto, e eu não te suportaria.

– Eu sei, mas ontem o que aconteceu com você, eu fiquei preocupado.

Lembrei-me do que havia acontecido ontem, eu ando meio esquecida ultimamente.

– Eu queria voltar, eu imaginei minha família desesperada por minha causa, eu não sei direito. Mas obrigado por ontem, por me trazer aqui e tudo mais.

– É tem razão eu preciso dormir, acho que eu ouvi um obrigado da pessoa que só sabe brigar comigo.

Ele foi para o quarto dele e eu fui para cozinha comer. Não era tão boa quanto ele, mas me virava bravamente com a frigideira.

Quando terminei de comer arrumei as sobras e lavei os pratos, indo direto para o sofá assistir o filme que estava passando. Mas tinha sido interrompido por um noticiário. Era sobre mim novamente. Eu estava mais famosa do que o normal.

“Alice Santos, foi encontrada morta hoje em meio a um terreno abandonado. Tudo indica que ela se suicidou por causa da morte de seu antigo namorado Caio.”

– Luca vem aqui rápido. Agora!

Eu estava gritando, eu imaginei como deveria ser acordar com os gritos de uma garota histérica. Não deveria ser nada legal, mas eu não estava me importando.

Ele meio cambaleante apareceu do meu lado.

– O que foi agora Alice? – ele meio falou meio rosnou meu nome.

– Eu estou morta!

– Que?

– Eu fui dada como morta. No noticiário. Eu me suicidei.

– Não é por nada não, mas se você fosse mais clara no que está dizendo, não iria machucar ninguém.

Eu contei a ele sobre o que e vi e ouvi, ele não parecia surpreso, com tudo eu estava com lágrimas por pensar no sofrimentos dos meus pais e amigos, se bem que eu não tinha tantos assim... mas assim mesmo, eles não mereciam.

–Alice, vai ser melhor assim, vamos poder agir sem ninguém desconfiar de nada, nós dois estamos mortos mesmo – ele disse exultante o que me fez amarrar a cara e depois olhá-lo com descrença.

– Você está louco?

–Não. Nós temos de fazer tudo nas escondidas, porque se alguém suspeitar prepare-se para morrer de verdade.

Nós ajeitamos minha bagunça e saímos.