Alice
6 Capítulo 6
A vida às vezes é complicada, principalmente para mim, porque em todo o mundo com trilhões de pessoas, eu tinha que ganhar o presente de ter a mãe mais maluca do mundo?
Esse é o pensamento que me passou durante todo o tempo que tomei banho e colocava meu pijama.
Depois de horas fazendo aquelas coisas que chamam de trabalhos, buscar Théo e pensar em como atingir minha mãe novamente cansei e fui para o banho.
Uma vez pronta para dormir me atirei na cama, mas como a minha sorte é tão grande quanto uma ervilha Théo bateu na porta do meu quarto e perguntou:
– Ali, você tá dormindo?- com uma voz de criancinha inocente.
– Estou por quê?
– Porque você me deixa dormir com você? Sabe, é que a mamãe sempre me colocava para dormir e ela não tem estado muito aqui e a Anie foi embora e você é, bom, a única garota nessa casa, então eu pensei que você podia me colocar pra dormir, com o papai não é a mesma coisa.
De repente eu abri os olhos em pânico, será que mamãe nunca parou pra pensar em Théo? E na falta que ela faz pra ele como figura maternal mesmo que seja uma figura maternal maluca?
– Théo, eu tenho outra ideia, é que eu estou nessa grande cama de casal sozinha, será que você não quer vir aqui?
Ele pulou (juro), pulou na cama e se aninhou nos meus braços.
Senti como se nada de ruim estivesse acontecendo, juro que ali, com meu irmão em meus braços me senti segura.
Mas como tudo que é bom dura pouco (pelo menos para mim), já era de manhã cedo quando eu acordei e estava quase atrasada, então corri para vestir alguma coisa e enquanto me vestia fiquei pensando porque eu não tinha colocado o despertador. Daí eu lembrei, hoje é sábado. É eu sei sou um gênio, só tinha que ir pela tarde na faculdade pra pegar os novos livros que preciso na biblioteca.
Théo se remexeu na minha cama quando eu voltei pra lá lembrando do tamanho da minha estupidez e depois voltei a dormir.Quando acordei, Théo já estava de pé mexendo no meu laptop jogando alguma coisa com carros e armas.
– Não acredito que você acorda em pleno sábado pra jogar garoto – brinquei com ele.
Muito concentrado ele apenas me ignorou.
Decidi que hoje eu teria de ir ao hospital ver Caio.
Quando sai da faculdade fui direto para o hospital onde pedi para ver Caio, ele tinha saído da UTI, agora estava em um quarto. Quando entrei e vi ele repousando ai, com seus olhos estavam fechados e não havia expressão em seu rosto. Sentei ao lado dele na cama e peguei sua mão.
Comecei a dizer que eu estava ali e como eu pedia desculpas por ter sumido daquele jeito, aos poucos fui contando tudo para ele, desde o início e como eu estava confusa em relação ao meu atual relacionamento com Luca, porque de repente de amigos podemos ter ido para inimigos, ou algo assim.
Quando eu terminei eu estava aos prantos e não tinha percebido que alguém estava tentando erguer a mão para limpar minhas lágrimas, quando eu percebi deu um salto para trás, a quanto tempo essa pessoa estava escutando o que eu dizia?
Caio estava tentando limpar minhas lágrimas com suas mãos, eu dei um salto para longe fazendo a mão dele se perder no ar e depois pousar levemente ao lado de seu corpo.
– Caio, você está me ouvindo? – eu perguntei – Se está levante a mão?
Mão direita levantada, confere.
Eu sai pelo corredor gritando pelo primeiro médico que eu vi, então arrastei o primeiro que encontrei que por acaso estava atendendo à um menino que era a cara de Luca, mas Luca nunca viria até esse hospital de novo depois da última vez como doutor Dalton.
O médico ficou protestando o trajeto inteiro até o quarto de Caio coisas do tipo: “você não pode fazer isso”, “eu estava atendendo” e mais coisas que eu nem prestei atenção.
Quando entrei no quarto de novo disse para o doutor ver uma coisa e então ele cruzou os braços e se escorou na parede.
Eu respirei fundo e falei:
– Caio, se você está me ouvindo levante qualquer mão.
Então ele levantou as duas mãos.
Os braços do doutor se descruzaram e ele abriu a boca incrédulo balbuciando:
– Mas... isso é impossível...como?
O doutor olhou para mim em busca de explicações eu simplesmente ergui os ombros.
– A...ce...li...Alice – Caio falava.
Eu comecei a sorrir e agarrei as mãos dele e comecei a rir.
Daí eu acordei. Sonho, nada além de um sonho.
Théo ainda estava dormindo do meu lado e eu ainda teria de ir à faculdade, mas me lembrei de meu sonho e decidi ir até o hospital.
Arrumei-me e fui. Sem dar explicações para ninguém e ignorando qualquer pessoa que se dirigisse a mim. Em silêncio fui até meu carro e dirigi até o hospital. Onde encontrei Caio do mesmo jeito que ele estava em meu sonho e resolvi repetir tudo que em meu sonho havia acontecido, de novo estava chorando, mas ninguém tentou limpar minhas lágrimas ou dizer meu nome.
Quando eu estava saindo vi os pais de Caio saindo e eles olharam para mim como se tivessem visto um fantasma coisa que eu não duvidava que eu fosse, pois, minha aparência parecia um fantasma mesmo, com as rodas de olheiras em volta de meus olhos e a pele pálida e lábios rachados com olhos vermelhos de tanto chorar.
Eu olhei para eles e cumprimentado uns aos outros saí para meu carro dando uma desculpa sobre a faculdade.
Entrei no carro e me olhei no espelho. Eu estava um trapo, parecia que uma carga de tijolos tinha me acertado.
Sem choro Alice.
Caio não irá se recuperar logo, minha mãe é uma lunática vingativa, meu melhor amigo acha que eu sou uma lunática vingativa, meu irmão mais velho é uma sombra, meu irmão mais novo é uma preocupação imediata e meu pai está à beira da solidão.
Minha vida estava em três linhas e eu tinha um objetivo novo.
Hoje à noite, os Matos receberiam uma visita. Uma bela e objetiva visita. Eu.
Fama sempre foi como uma palavra que me causava náuseas. A fama de meu pai fez com que toda a família perdesse muito de sua vida privada e a fama nos fez ter diferentes personalidades, como uma pessoa bipolar, para algumas pessoas somos a família perfeita, para outros, os Addams não reclamados. Nunca chamei muito a atenção para mim e nem queria, até hoje.
Eu disse que jogaria o jogo e eu jogaria com tudo que eu podia.
Recriminei-me mentalmente por esse pensamento, a vida de pessoas estavam em minhas mãos e eu estava tratando isso como um jogo, não podia ter o direito de pensar assim.
Liguei para Sra Susana para perguntar se seria uma boa hora para uma janta entre famílias e ela falou alegremente – o que me surpreendeu – que adoraria e ofereceu a própria casa, o que não me surpreendeu.
Liguei para papai e ele não atendeu então mandei uma mensagem.
Pai, Sra Susana ofereceu uma janta na casa dela, vamos? Estou arrumando as roupas para nós. Com amor, Alice.
Théo estava jogando vídeo game com alguns fios de cabelo caindo nos olhos.
– Ei, pequeno Santos, o que acha de cortar esse cabelo, huh?
– Não – ele respondeu sem desviar os olhos, o que eu entendi como um desafio, meus olhos faiscaram.
– Theodor Santos você vai subir agora e tomar um banho e se arrumar para ir cortar o cabelo, eu vou levar você.
– Não.
– O que disse?
– Não, eu não quero sair de casa, mamãe sempre me levou cortar os cabelos.
Eu engoli um suspiro e sentei ao lado dele desligando a tela da TV e fazendo ele olhar furioso para mim.
– Théo, mamãe não pode estar aqui agora, eu estou tomando conta de você e na condição de mais velha, eu mando em você. Mas esse não é o caso, Théo, por favor seja compreensivo – ele me olhou desconfiado – um milk shake por um corte?
– Dois.
– Um e compro um game novo, por minha conta.
– Eu escolho o game.
– Tudo bem.
Ele subiu as escadas correndo e eu gritei um “Mais rápido” e ele quase tropeçou, eu ri e liguei para um cabeleireiro que eu sei que sempre nos encaixaria. Fama ajuda, às vezes.
Ele atendeu no terceiro toque e nos encaixo para às 15:00 horas. Olhei no relógio eram 14:17 eu concordei e desliguei.
Anie apareceu e sorriu.
– Srta Alice, vai sair com Théo?
– Sem essa de Srta, sim vou levar ele cortar o cabelo e eu também.
– A Srta está com o papel de mãe no momento.
Era uma retórica, mas mesmo assim respondi:
– Parece que sim e quer saber? Não quero ser mãe tão cedo.
Ela riu e dez minutos depois Théo desceu usando m calção cáqui e uma camiseta branca de manga curta e chinelos. Nos despedimos de Anie que prometeu deixar um prato de Strogonoff para mim na geladeira e Waffles para Théo. Fomos até a garagem, entramos no carro e Théo amarrou a cara quando disse que ainda não tinha idade para ir na frente.
– É tão chato ser novo.
– Não é dessas palavras que eu me lembro baixinho. Como foi que você me disse uma vez quando tinha quatro? Ah sim, “é muito bom ser o mais novo, eu não levo a culpa por nada”.
– Só que agora eu já tenho oito, posso muito bem ser considerado um adulto!
– Claro que pode você e o Bob Esponja.
Ele amarrou a cara ainda mais e eu engoli uma gargalhada. Depois de um milk shake e um game fomos até Joan o cabeleireiro, o salão gigantesco como sempre estava cheio e uma atendente veio imediatamente até nós e nos dirigiu até outra que esperava para lavar nossos cabelos, depois uma terceira cortou nossos cabelos e secou. Paguei e sorri para meu reflexo no espelho gigante.
Uma franja estava cobrindo parcialmente meu olho esquerdo e meu cabelo estava na altura um pouco abaixo dos ombros. Théo apenas tinha tirado os fios que estavam lhe cobrindo os olhos.
Saímos e ao entrar no carro meu celular vibrou. Papai tinha me respondido.
Alice, adoraria ir jantar hoje. Arrume roupas bonitas querida.
Olhei para o banco traseiro.
– Quero ir à praia – Théo disse.
– Podemos fazer um combinado? Eu tenho que ir até a faculdade e tenho muitas coisas para fazer e matéria para recuperar, quando tudo estiver plenamente bem eu te levo à praia.
– Tá – ele disse zangado.
Dirigi até a faculdade e levei um Théo relutante comigo até a biblioteca. Pegando os livros e fazendo as baixas necessárias voltamos para o carro e fomos para casa.
Arrumei roupas para mim, papai e Théo.
Anie serviu um lanche para nós e saiu para seu domingo de folga. Comemos em silêncio. Théo comeu rapidamente e voltou para seu novo jogo e mordisquei com a cabeça longe.
Eu iria fazer a planta da casa do Sr Tomas hoje à noite, teria que tomar cuidado.
Comi o resto e lavei a louça deixando-a no escorredor.
Papai chegou mais cedo que o costume e nos cumprimentou afetuosamente e elogiou nossos cabelos. Subimos os três para tomar banho e nos arrumar. Deixei os cabelos em um coque com a franja de fora e coloquei um short azul escuro jeans com uma blusa voal preta e uma sandália sem salto. Théo ficou com jeans, all star e uma camiseta social. Papai com jeans, sapato social e uma blusa pólo.
Os dois me esperavam no fim das escadas e assim seguimos para o carro.
Chegar na mansão era como dançar em brasas recém apagadas. Eu estava muito desconfortável com o motivo para o qual eu visitava a mansão, eu estava desconfortável em não poder contar sobre Luca e eu estava desconfortável porque não conseguia encarar o Sr Tomas por mais de dois minutos e sorrir.
Fomos recebidos com beijos e abraços. Seguimos para sala e eu pensava em correr porta à fora e desaparecer para sempre da vista de todos, mas daí eu lembrei que eu havia ido para o Alasca e minha mãe havia me encontrado lá também, desisti imediatamente.
As trigêmeas estavam em intercâmbios fora do país cursando suas faculdades em outro país que eu não me dei o trabalho de descobrir o nome ou mentalizá-lo. Sr Tomas estava diferente aos meus olhos, eu não via um homem respeitável, eu via uma máscara usada por um bom ator. E Sra Susana parecia assim como eu encarava meu pai, uma vítima do passado, mas pensando bem, naquela sala, quem não era vítima do passado?
Chutei qualquer pensamento que atrapalhasse meu objetivo, com confiança questionável olhei com grandes olhos cheios de inocência para Sra Susana e proferi a frase:
– Sra Susana... eu.... eu... – hesitando propositalmente continuei – posso ver o quarto de Luca?
Ela me olhou miseravelmente e eu senti o peso da consciência me acertando.
– Claro Alice, mas por favor, não peça para ir junto.
– Eu nunca pediria isso, desculpe, eu só quero... – sacudi a cabeça – com licença.
Saí com um meio sorriso, nunca quis companhia, meu plano era ir sozinha desde, bom, sempre. O quarto de Luca era no fim do corredor, então eu conseguiria passar por todos os cômodos e fazer a planta.
Planta da casa, aí vamos nós.
O primeiro cômodo era o quarto de visitas. Retirei a fita métrica da bolsa o papel e a caneta e fiz as medições. Segundo cômodo, quarto do casal. Terceiro, quarto e quinto, os quartos das trigêmeas. E por último o quarto de Luca. O segundo andar havia sido todo medido, com isso era só calcular aproximadamente a parte de cima e presumir que eram quase as mesmas medidas do primeiro andar.
Entrei no quarto de Luca e fechei a porta atrás de mim silenciosamente.
– Você é uma ótima atriz – disse uma voz atrás de mim.
No começo achei que fosse eu me recriminando, mas depois encarei o escuro e vi a janela aberta à minha direita e a forma à minha frente.
– Sabe, você sempre foi inteligente, amável e bondosa, mas fria, egoísta e calculista não entravam na sua descrição, até agora.
– Pessoas mudam e você Luca, nunca soube o que é isso. Eu mudei para melhor.
Eu tremi ao pensar na reação que ele teria às minhas palavras, mas não arriscaria nada que eu já tinha conseguido. A verdade era que Flávia havia me dito que na casa inteira dos Matos haviam câmeras escondidas que operavam a mando de minha mãe.
– Mentirosa, outro item na lista da nova Alice.
– Você tem uma lista? Então adicione furiosa e vingativa.
– O que você é agora?
– Uma garota com muita raiva e frustração que vai ir até o fim com essa história.
– Você se deixou influenciar por sua mãe? O que foi que ela fez com você? – ele estava transtornado, mas mantinha o tom baixo. – Alice, lembre-se do que é a verdade, lembra do que eu contei? Sua mãe tem problemas.
– Olha Luca, foi lindo o conto de fadas que você me contou. Realmente você me impressionou, mas na vida real eu lembro de uma história em que eu fui deixada sozinha com “minha mãe problemática” enquanto meu parceiro de batalhas fugia.
– Eu estava indo buscar ajuda, você não entende? – ele me olhava com descrença.
– Você não entende, escute essa: eu fiquei sozinha e o que eu fiz? Eu fiz o que era preciso.
– O que eu fui fazer? – ele se perguntou balançando a cabeça e suspirou – Alice – ele disse calmamente – por favor, vamos comigo, eu vim aqui para pensar e quando eu vi você entrando eu tive esperanças de que fosse me explicar o que aconteceu com você e então poderíamos agir racionalmente.
– Quer agir racionalmente? – meditei sarcasticamente – Então aja racionalmente não cruzando mais o meu caminho ou se metendo nos meus assuntos. Não me convide mais para fazer parte desse seu planinho, se é que você tem um, e sinceramente não me subestime, eu sei o que estou fazendo e você não é mais uma criança que não tem discernimento.
Ele parecia miserável como se eu tivesse dado tapas e socos nele enquanto ele não podia se mexer, mas ao mesmo tempo, miserável, era substituído por “cão raivoso”. Doeu em mim, mas não havia volta e eu precisava de Luca fora, ele não fazia parte das variáveis nessa equação. Mas quando olhei de novo para ele eu estava com meu estômago despencando nos meus pés então fiz algo idiota. Peguei papel e caneta e anotei um endereço e uma data.
– Se um dia você estiver disposto a ser racional, vá até esse endereço e junte-se a minha mãe e a mim. Ficarei feliz em saber que você encontrou seu cérebro de novo, ou quase isso.
– Você é uma idiota Alice, uma idiota e mentirosa. Como pode se olhar no espelho? Ou conviver consigo mesma? Você é uma grande decepção, nunca mereceu minha amizade – ele cuspia veneno em cada palavra e eu mentalmente me encolhi.
– Já terminou? – perguntei impaciente.
– Acho que sim.
– Então pule pela janela e suma antes que eu mude de ideia. Você sabe que eu mudo de ideia muito rápido.
– Já demonstrou isso o bastante – ele disse amargamente e foi.
Eu havia virado de costas, podia ouvir alguns galhos de quebrando e folhas chacoalhando,mas atrás de mim só proviam sombras. Recriminei-me mentalmente por perder tanto tempo e terminei as medidas do quarto. Deixei-me analisar por um instante os carros de brinquedo, a cama bem-arrumada, a mesa com computador...
Computador?
Onde ele estava? Não havia sinal dele... Espere, havia sim, Luca estava com ele. Pensar ele havia dito, parece que agora ele era um garoto que entendia de mensagens subentendidas.
Voltei para companhia dos Matos e o jantar se mostrou muito mais agradável do que qualquer outra coisa nos últimos tempos. Esquecer que Luca tinha estado ali era muito mais fácil do que eu esperava, tão fácil como esquecer do que tinha acontecido com Caio.
–--------------------------------------------------*---------------------------------------------------------------
Sorri ao acordar na minha cama e pensei nos meus próximos passos. Primeiro tinha que arrumar a planta da casa. Tranquei-me no meu quarto com o clássico “não perturbe!” na porta e passei o dia inteiro trabalhando naquelas folhas de rascunho enquanto olhava uma foto da mansão pelo tablet. Quando a noite chegou, eu estava extenuada e com dor de cabeça. Finalmente tomei banho e fui comer alguma coisa. Descendo as escadas eu tive um ataque de pânico.
– Como é bom estar em casa!
– Oi mãe – eu disse para a figura que se desenrolava à minha frente.
– Mããããe – um vulto passou por mim as pressas e se atirou em mamãe.
Papai chegou em seguida do escritório particular dele e eu parei de escutar o que eles estavam falando. Perdi toda fome, corri até a porta e disse:
– Até mais.
– Aonde pensa que vai? – papai rugiu.
– Caio – gritei em resposta e corri até os portões.
Admito que foi um golpe de sorte estar de tênis e leg. Correr alguns metros chegando a ser um quilômetro, estava bem longe dos meus planos, mas como vovó diria: é a vida, fazer o que?
Parei quando tinha certeza que não tinha mais condições de continuar. Cheguei ao hospital mais tarde do que o horário de visitas, mas não tarde o suficiente para não encontrar os pais de Caio.
– Alice – eles estavam surpresos, é claro que uma figura despenteada e suada no meio de um hospital era uma coisa normal, mas uma famosa assim... Era caso de internação.
– Sr e Sra Armstrong, eu cheguei atrasada?
– Sim Alice, sinto muito. Você parece mal, o que houve?
– Sedentarismo – respondi -, parecem não querer me contar alguma coisa.
Ambos hesitaram e vi que meu tiro no escuro tinha acertado o alvo.
– Caio não está tendo melhoras – o homem falou – vamos levá-lo para fora do país, precisamos tentar o que for possível.
Eu senti que uma drenagem de força das pernas, me fazia ficar imóvel só olhando para o casal. Alguns segundos – talvez minutos – se passaram e eu abobadamente falei a primeira coisa que me veio à mente.
– Compreendo... compreendo sim. Eu...
– Alice, por favor, não é que queremos que você não veja mais ele, não é isso, é que...
– Tentar – eu disse — entendi. Eu... Se ele melhorar, por favor me liguem.
– Alice, nós precisamos que você entenda duas coisas. Primeira é que não se tem idaia de quando ele vai sair dessa e segunda, não sabemos como ele vai sair depois dessa, quais seqüelas, quais... problemas.
A mãe de Caio chorava desesperadamente ao meu lado e eu abracei-a.
– Desculpe, está sugerindo algo?
– Alice, ele pode nunca mais voltar – disse o pai solenemente – e se voltar, não poderá ter a vida que levava antes, terá restrições e outros. Então garota, faça um favor a todos nós, inclusive você, e esqueça ele. Não ligue, não pergunte ou especule. Você é jovem, famosa e bonita, merece ter uma vida com alguém que possa acompanhar seu pique, ele não poderá fazer isso.
– Pensa que me importo se ele poderá me acompanhar? Eu me importo de eu não poder acompanhar ele.
– Não seja burra, ele pode não ser mais o velho Caio.
Indignação cruzou da ponta dos meus pés até os cabelos que estavam grudados na minha testa.
– Não decida o meu futuro por mim – eu disse indignada.
– Não estou, estou fazendo o melhor para ambos.
– O que quer dizer com isso? – agarrei mais a Sra Armstrong que agora chorava compulsoriamente – Não me peça isso, ele precisa de mim, eu preciso dele!
Uma enfermeira me mandoueu parar de gritar e eu pedi desculpas.
– Não precisa, e o tempo vai afirmar isso. Estamos levando ele para fora do país e separando vocês, para sempre.
– Mas eu nem posso me despedir agora – choraminguei.
– Mandaremos lembranças à ele por você – ele tomou Sra Armstrong de mim e saiu -, passar bem Alice. Bom futuro pra você.
Agarrei um enfermeiro que passava e perguntei se ele não podia me deixar entrar na UTI, jurei que pagaria quanto ele quisesse. Ele sorriu educadamente e disse que a saída era para o outro lado. Olhei para ele com uma cara zangada e fiz a volta parando na frente da UTI. Todos negaram meu pedido para vê-lo e quando tentei entrar escondido, um guarda me arrastou para o corredor.
–Eu sei andar – resmunguei e saí de seu aperto. Com isso só me restava sair e foi o que eu fiz.
Chegando em casa comprometi o estoque de batatas fritas, pizzas e chocolates da casa.
– Você parece estar na fossa – mamãe disse sentando ao meu lado.
– Antes fosse – bufei.
– Eu posso dar um conselho de mãe? – eu olhei acusadoramente para ela – Apesar do que pensa, eu quero o melhor pra vocês. Meu conselho é: pare de comer isso, vai engordar.
– Bom conselho.
– Eu sei sobre Caio.
– Foi você, não é? – eu perguntei sem demonstrar interesse – Você fez a cabeça dos Armstrong para levarem ele.
– Ele era uma distração e estava te fazendo ficar vulnerável.
Sorri amargamente.
– Obrigada – disse.
– Sabe o que me faz feliz? Você Alice, você deduz muito bem quais ações eu pratiquei. Fico orgulhosa.
Revirei os olhos.
– Eu conheço a mãe que eu tenho em casa.
– Muito bom. Querida, agora me fale sobre a planta. Eu procurei no seu quarto e não encontrei. Onde está?
Eu fiz biquinho.
– Você realmente acha que eu vou simplesmente dar a você aquela planta sem pedir nada? Ainda sou sua filha mamãe, você me ensinou o preço das coisas, de cada uma delas e eu aprendi direitinho – pisquei maliciosamente.
– Percebi.
– Mas eu não vou pedir nada de mais. Só a sua ilustre presença.
– Minha presença? Quer que eu acredite nisso?
– Quer a planta? Então sugiro que me dê o prazer de desfrutar de um momento de mãe e filha.
– Onde e quando?
– Quarta às 22h no porão da mansão.
– No porão? Quanta falta de criatividade.
– Olha que eu ainda posso surpreender. Como eu sei que você vai infestar aquele lugar de câmeras e gravadores, tomei o cuidado de não deixar aquele lugar aberto a visitantes.
– O que quer dizer com isso? – ele me olhou furiosa.
– Suponho que eu tenho amigos, que tem amigos e mais amigos...
– Está falando de Luca? Aqu...
– Não estou falando dele. Estou falando de outros amigos.
– Você não tem amigos.
– Quanta crueldade mãe – coloquei a mão no peito fingindo estar ofendida – não tenho culpa que herdei isso da minha parte maternal da genética.
– Suba.
– Claro. Segura pra mim? Obrigada – entreguei o pote de sorvete – quarta mãe, não esqueça. E vá cuidar de Théo um pouco.
Adormeci instantaneamente e só acordei com meu celular vibrando. Quando lembrei do que se tratava sorri.
Eu pedi para uma amiga pra falar com alguns amigos dela que lidavam com sensores e lasers, então eu pedi para eles fazerem lasers no porão desde a entrada até a parede em que terminava o porão e a cada sinal de movimento, através dos sensores, meu celular vibrava e aparecia a filmagem do que estava acontecendo. O único jeito de desativar os lasers era chegar ao meio do porão e digitar a senha, por felicidade do destino meu quarto tinha uma escada que desembocava no meio do porão e a escada estava trancada com uma porta com senha atrás da minha estante de trabalhos e a senha era adoravelmente simples.
Mamãe olhava para o porão com uma equipe atrás dela e resmungava, eu rolava de rir na minha cama, por fim ela desistiu e eu parei de sorrir. Pensei em uma possibilidade: e se acabasse a luz? Tudo lá embaixo era movido através de energia, pois eu não sabia quantos dias teria que deixar as coisas funcionando e então não sabia quantas baterias seriam usadas, por isso desistimos delas. Saí da cama e fui até o chaveiro e levei ele escondido até o porão e ele instalou cadeados nas portas e reforçou as dobradiças. Não precisei suborná-lo, eu sabia que ele não diria uma palavra. Então chamei os garotos de novo, mas dessa vez usamos baterias que deveriam ser trocadas a cada 5 dias. E eu sabia que eles também não diriam nada, na verdade eu podia jurar que eles estavam se divertindo.
Fale com o autor