Alice

7 Capítulo 7


A beleza dos feriados é a calma com que você consegue administrar seus afazeres e revisá-los. Meus afazeres eram simples.

Minha lista era:

* Assegurar que ninguém entre no porão;

* Assegurar que eu possa entrar no porão;

* Assegurar que ninguém estrague meu plano;

* Assegurar que tudo seja assegurado;

Era simples, o porão estava bem trancado e seguro, apesar da minhas dúvidas, eu podia transitar livremente sem interrupções pelo porão, até esse momento estava tudo conforme o plano.

Só faltavam alguns retoques, hoje eu anunciaria para imprensa que minha família e a família Matos sairíamos para uma viagem, mas que as trigêmeas e Théo não poderiam ir e se me perguntassem sobre a faculdade, eu desviaria o assunto para outra coisa.

Papai tinha jogo hoje e como sempre fui convidada a dar uma entrevista para um canal.

– Então Srta Alice, sabe qual a técnica do seu pai para o jogo de hoje?

– Meu pai tem a habilidade de sempre desviar a resposta dessa pergunta para mim – risos – mas acredito que vou sentir falta disso por um tempo enquanto estivermos viajando...

– Vocês irão viajar? E o time?

– Bom, esse é o último campeonato da temporada e meus pais e eu iremos viajar com o Sr e Sra Matos. Oh, desculpe tenho que ir, vai começar.

E saí deixando o repórter falando algo para câmera. Fiquei até o começo do segundo tempo, então com o pretexto de uma mensagem de que minha gata não estava bem saí do estádio e dirigi até em casa.

Sr e Sra Matos já estavam na sala da nossa casa conversando com minha mãe quando Anie saiu com Théo que iria posar na casa de um amigo. Depois de algumas horas papai chegou em casa e eu pedi que esperassem um segundo até eu voltar do meu quarto e que fossem até a entrada do porão com a desculpa que eu tinha feito um projeto sobre ele e tinha reformado.

Fui até o quarto e tranquei-o com a chave e os trincos, digitei a senha da porta que dava para minha estante e digitei a senha que desativava os lasers, então destranquei as portas e os casais entraram no porão fazendo caretas, menos mamãe que estava mais confusa que o resto. Então eu tranquei o porão por dentro e pedi para que eles sentassem nas cadeiras que estavam dispostas em círculo, totalmente confusos fizeram o que eu pedia apesar de minha mãe apresentar um pouco de resistência.

Então aos poucos todos adormeceram. E eu destranquei o porão deixei ele passar e tranquei de novo. Coloquei as chaves na parte do teto que era onde guardavam antigas ferramentas.

Eu e Luca amarramos os dois casais nas cadeiras e ficamos no meio de costas um para o outro respirando com dificuldade e conversamos.

– O que você colocou no vinho? – eu perguntei.

– Hum, não sei bem ao certo o nome, eles me entregaram isso e eu coloquei, eles só têm no máximo mais uma hora de sono, a imunidade deles está baixa e eles vão se sentir cansados demais para tentar revidar.

– É um pouco irônico, não é? Os filhos que tem que amarrar os pais e todas essas coisas.

– Eu nunca teria imaginado essa situação.

– Você acha que eu teria?

– Não. Brigar com você foi divertido.

– Eu tive vontade de rir quando você falou da “lista da nova Alice” era ridículo. Mas brigar com você foi divertido.

– A melhor parte é que foi mentira. Então eu suponho que ambos estejamos certos quando nos chamamos um ao outro de mentirosos.

– Minha mãe que sempre achou que estava um passo à frente, mas fez exatamente o que eu queria que ela fizesse sem que ela percebesse como ela fez comigo tantas vezes. Isso me torna como ela?

– Ali, claro que não. Você não teve escolha, você podia fazer o que era certo e ter que assumir outra personalidade temporariamente e fazer o errado e assumir outra personalidade para sempre. Eu tive que fazer isso também, todos nós tivemos. Você não é como ela. Mas fico feliz que ela afastou todos da mansão essa noite. O que foi que você disse para ela?

– Disse que iria dar a planta da casa dos seus pais para ela.

– Garota esperta. O que você fez com a planta?

– Você acha que eu vou falar aqui? Eles podem estar fingindo dormir e estão ouvindo a conversa. Olha, parecem que estão acordando.

Ainda de costas e de braços cruzados encarei minha mãe e meu pai e Luca seus pais.

– Bom dia dorminhocos – disse Luca em tom gozador. Eu dei um meio sorriso para meus pais.

– O que vocês fizeram? – Sr Tomas murmurou fracamente.

– Pare de falar desse jeito pai, sei que você está fingindo fraqueza – disse Luca.

Sr Tomas soltou alguns palavrões e encarou Luca com cara de deboche.

– O que vocês pensam que estão fazendo? – perguntou meu pai.

– Estamos pulando quadrilha, não está vendo? – eu perguntei – Quietos, as respostas vão vir de vocês hoje.

– Vocês realmente acham que vamos responder vocês? – perguntou Tomas – Acham que somos idiotas, isso pode estar sendo gravado. Porque falaríamos a verdade pra vocês?

– Porque ou vocês contam a verdade pra nós ou a ICE vai invadir isso aqui e vai fazer as perguntas eles mesmos. – vendo a cara de terror de Tomas, Luca continuou — Quer fazer as honras Ali?

– Não, pode tê-las Luca.

– Muito bem. Então, mãe, é verdade que já foi casada com Roberto?

– Sim. Nós...

– Poupe nosso tempo, vocês já foram casados? – falou Luca.

– Se sabe a resposta porque pergunta?

– Apenas responda – ele disse.

– Não. Nunca casamos.

– Ok. Alice sua vez – disse Luca.

– Victor existe, mãe? – perguntei.

– Sim – disse ela.

– Fale sobre ele.

– Ele é como eu descrevi para você, é meu filho com Tomas, ele é um acidente, ele não deveria ter nascido, deveríamos ter tomado mais cuidado. Ele vive na Suíça desde um ano de vida, porque ele atrapalhava o que tinha que ser feito.

– E o que, tinha que ser feito? – perguntou Luca.

– Os golpes – respondeu meu pai impaciente -, olha pra mim chega. Nós nos conhecemos desde o colégio, os mais ambiciosos e inteligentes, começamos com pequenos golpes em joalherias, depois que nos formamos fizemos faculdades, Tomas advocacia, Susana administração, Amanda psicologia e eu educação física, que me levou aos times de futebol. Éramos perfeitos e implacáveis, começamos a roubar bancos, logo em seguida, políticos e empresários multimilionários. Tomas cuidava para ninguém desconfiar de nós na parte jurídica, Susana administrava-nos, Amanda cuidava para não demonstrarmos um comportamento diferente do esperado e eu ficava com a parte atlética, como grandes fugas. Uma criança nos atrapalhava em tudo, sem um de nós presente no planejamento dos golpes, era perda de tempo tentar alguma coisa.

– Victor foi enviado para Suíça – continuou Susana – e nós percebemos que estávamos ficando velhos e já tínhamos formado uma fortuna maior que a da própria rainha. Sua mãe pensou que era uma má ideia ir buscar Victor depois de três anos de abandono – minha mãe pigarreou mas Susana parecia não se importar -, sua mãe se chamava Laura Albert e era casada com Tomas, mas quando terminamos nossos assuntos e ela se casou com Roberto, assumiu o nome de Amanda Santos. Eu me casei com Tomas e depois de um ano Luca veio ao mundo, depois de mais um ano veio você e depois as trigêmeas, Théo veio doze anos depois. Assim, Luca tem vinte e dois, você vinte e um, as meninas com vinte e Théo com oito.

– Nós começamos a desconfiar que Luca tinha descoberto alguma coisa quando ele começou a fazer perguntas estranhas – falou Tomas – e nós sabíamos que ele faria alguma coisa a respeito, mas nunca pensamos que forjaria a própria morte, pensamos que estava morto, mas no momento em que você fugiu do hospital soubemos que ele estava vivo e sabíamos que ele visitava a antiga casa de vez em quando. Se ele queria bancar o fantasma – ele deu de ombros -, não fazia diferença para nós, ele nunca descobriria nada sozinho. Não sabíamos sobre o envolvimento da ICE.

ICE, eu sorri com o pensamento, Instituto Contra Eles, um instituto de detetives e policiais especializados em criminosos aposentados que nunca pagaram pelos crimes. Depois que saímos da casa de Flávia no Alasca, Luca disse que tínhamos que falar com algumas pessoas. E assim fomos numa filial do instituto, eles estavam monitorando Flávia e quando souberam que eu estava disposta a colocar minha mãe e meu pai na cadeia, não hesitaram em pedir que eu os ajudasse, desde então eu vinha fazendo o possível e o impossível para parecer extremamente normal e parecia que havia funcionado. Luca forjou a própria morte a pedido deles. Quem havia instalado tudo aqui embaixo eram pessoas da ICE.

– E sobre o espancamento de Caio? – eu falei entre dentes.

– Ele sabia de tudo, ele tinha descoberto tudo – disse Roberto – pedimos para um amigo dar um jeito nele, mas parece que ele não conseguiu terminar o serviço, por sua causa Alice Santos, maldita seja você.

– Obrigada, e o que vocês estavam falando na noite do jantar sobre “ter de contar as trigêmeas”? E os documentos falsificados de Luca? – eu perguntei.

– Íamos contar as trigêmeas sobre como elas não deveriam dar ouvidos a nada que você dissesse sobre nós, sabíamos que Luca viria atrás de você e então ele te contaria tudo e você deixaria algo escapar para elas. E os documentos falsificados da morte de Luca eram sobre ter de falsificar o motivo, suicídio parecia a melhor hipótese para todos – disse Tomas.

– Amanda querida – disse Luca –, talvez queira compartilhar algo conosco?

– Eu não sei o que vocês planejam. Vocês nos drogam e amarram nessas cadeiras e fazem-nos confessar essas coisas, o que vocês pretendem? Denunciar-nos? Eu acho que não vai funcionar, você já viu algum rico pagar pelos crimes que cometeu nesse país? Todos nós vãos sair impunes e livres e se algo nos acontecer, nós iremos atrás de vocês e daremos um fim em tudo. Luca já está morto, a morte dele não vai fazer diferença pra ninguém. Gostamos de vocês, de verdade, mas gostamos mais do nosso dinheiro.

Ela disse aquilo com tanta naturalidade que eu fiquei me perguntando como ela podia ser minha mãe, a mãe que eu amei por vinte e um anos e que cuidou de mim e de meu irmão.

– Sabe qual o problema – disse Luca vendo meu ódio me consumir – vocês não têm confiança nos filhos que têm, sendo assim, saiam das sombras, vamos pessoal todos à vista – ele bateu palmas.

E assim, fomos rodeados pelos agentes da ICE com armas, gravadores e filmadoras, as portas foram abaixo e mais agentes saíram e apontaram armas junto com um helicóptero que circulava acima da casa.

Raiva, nojo, rancor, tristeza, ódio, fúria eram só alguns sentimentos que o rosto dos casais, que estavam sendo algemados e levantados das cadeiras seguindo para o camburão escoltados com homens fortemente armados, demonstravam.

– Espero que estejam se divertindo, aproveitem por enquanto e fujam quando nós voltarmos prometo que será em breve – disse Amanda.

Roberto e Amanda não eram mais meus pais, apenas havia um laço sanguíneo entre nós. E eu sabia que Luca via Susana e Roberto da mesma maneira.

– Ei – Luca me virou para encará-lo -, tudo bem?

– Não. Théo, o que será dele? E nós? E as trigêmeas? Nós não temos mais dinheiro, nem casas, nós estamos pobres e somos sem-teto, ah, e você tecnicamente está morto.

– Eu sei, eu não vou me mostrar de novo, vou continuar morto. Sobre as casas, eu falei com o pessoal da ICE e eles cederam duas casas de proteção à testemunha e bom, vocês vão ter que trabalhar, todo dinheiro será devolvido às pessoas que foram roubadas e o resto será doado pra projetos beneficentes. Eles juraram que eles serão levados a julgamento e presos e não será anunciado em lugar nenhum. Você sabe que a ICE não deve ser descoberta. É o fim deles.

– Luca – eu disse – não é o fim deles, eles não iriam acabar assim depois de todo esse tempo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.