​A tarde estava ensolarada, o tipo de dia que convidava a corte para o terraço de mármore voltado para os jardins reais. O serviço de chá era impecável, com James e Eloise discutindo assuntos de estado em voz baixa, enquanto Alexander se distraía observando o reflexo das nuvens em sua xícara.

​A paz, como de costume, durou pouco.

​— Pega, Lady Cesca! — Melinda gritou, sua risada infantil ecoando pelos jardins enquanto ela corria com as saias do vestidinho levantadas.

​Francesca vinha logo atrás, os cabelos já soltando-se do coque, o rosto corado pelo esforço.

— Princesa Melinda! Por favor, o lago não é lugar de...

​Antes que Francesca terminasse a frase, a pequena princesa deu um salto entusiasta, caindo na parte rasa do lago ornamental. A água espirrou para todos os lados enquanto Melinda começava a rodopiar e pular, rindo da desgraça da sua dama de companhia que agora tentava, com cuidado, entrar na água para resgatá-la sem destruir totalmente o próprio vestido.

​James, o rei de punho de ferro, não conseguiu conter uma gargalhada genuína ao ver a cena. Eloise, por outro lado, respirou fundo, massageando as têmporas.

— Ela tem a energia de dez exércitos, James. Coitada da Francesca.

​Alexander, no entanto, não ria. Ele observava Francesca com um olhar profundo e sério. O contraste entre a elegância da jovem e a história que ela lhe contara na noite anterior queimava em sua mente. Ele viu a dignidade com que ela lidava com a situação, mesmo sendo, tecnicamente, uma igual aos que estavam sentados àquela mesa.

​— Ela não deveria estar correndo atrás de uma criança — murmurou Alexander, sua voz carregada de uma gravidade que fez James parar de rir e olhá-lo com estranheza.

​— É o trabalho dela, Alex. Ela é a dama de companhia — respondeu o Rei.

​— Não — Alexander levantou-se, encarando o irmão e a cunhada. — Ela está cuidando de uma princesa, quando na verdade deveria ser parte da alta nobreza sentada aqui conosco.

​O silêncio caiu sobre a varanda. James arqueou uma sobrancelha, o instinto de soberano em alerta.

— O que você quer dizer com isso?

​Alexander, ignorando o pacto de silêncio, contou tudo. Falou sobre a traição na Irlanda, sobre o Condado de Kildare roubado por um traidor, e sobre como os pais de Francesca transformaram a dor em trabalho duro, tornando-se o pilar de Suffolk através da carpintaria e da alta costura, escondendo sua linhagem para sobreviver.

​James ficou em choque, as mãos paralisadas sobre a mesa. Eloise levou a mão à boca, abismada.

— Uma Condessa... — sussurrou a Rainha. — Eu sabia que os modos dela eram refinados demais para uma simples filha de burgueses, mas isso...

​O Rei James levantou-se, o semblante tornando-se rígido, mas não de raiva, e sim de uma determinação real. Ele olhou para o lago, onde Francesca finalmente conseguira capturar Melinda e agora a trazia nos braços, ambas encharcadas e ofegantes.

​— Se o que você diz é verdade, Alexander — declarou James com sua voz mais autoritária —, uma injustiça foi cometida sob a sombra da minha coroa. Eu não permitirei que uma linhagem de honra permaneça no esquecimento.

​James chamou seu secretário particular imediatamente.

— Mande mensageiros à Irlanda agora. Quero os registros de Kildare e o nome do impostor. No banquete desta noite, faremos justiça.

​Alexander sorriu de lado. Ele sabia que James, apesar de temperamental, era um homem que não suportava a desonra.

​À noite, o Grande Salão estava iluminado por mil velas. Francesca entrou usando um vestido simples, sem saber o que a esperava, sentindo-se pequena diante da magnitude do banquete.

​No auge do jantar, James levantou-se e pediu silêncio.

​— Hoje, descobrimos que entre nós vive uma família que transformou a perda em virtude — o Rei começou, seu olhar fixo em Francesca. — A justiça tarda, mas não falha enquanto eu ocupar este trono. Diante de Deus e deste parlamento, declaro restaurados todos os títulos, terras e honrarias da família Puerto.

​Francesca sentiu o mundo girar.

​— A partir deste momento — James continuou, sua voz ecoando com poder —, você não é mais uma dama de companhia. Você é Lady Francesca de Kildare, filha do Conde de Kildare. E o traidor que lhes roubou o nome já está sendo caçado para pagar por seus crimes.

​O salão explodiu em murmúrios. Francesca, com os olhos transbordando lágrimas, olhou para Alexander. Ele ergueu sua taça em um brinde silencioso, um brilho de orgulho e algo mais profundo nos olhos.

​— Parece que a "fuga" acabou, Condessa — sussurrou Alex ao se aproximar dela no meio do alvoroço. — Agora você é uma igual. E isso torna as coisas... muito mais interessantes.